top of page

André Sansi em dissonância: entrevista exclusiva

23/08/2026


andré sansi

André Sansi faz música desde 2012 e no ano que vem completa duas décadas vivendo disso, sem gravadora, sem atalho e com uma clareza sobre o próprio ofício que costuma faltar a artista com dez vezes o seu público. Foi o cara que vendeu mais de 2.000 CDs na mão pelos bares de São Paulo, virou o "André do barzinho" de voz e violão, e agora se reapresenta com "Vou Cantar (Studio Session)", disco gravado no Estúdio Jacarandá que marca a virada de estética e de ambição da carreira. Radicado na Espanha há dez anos, banca o próprio autoral com o dinheiro do trabalho e, nesta entrevista fala de gestão financeira, de emoção e como as as duas coisas convivem. Nos revela os espaços que faltam ao independente, a tal briga interna entre o artista e o "escritório", e por que a arte, no caso dele, nunca foi bem uma escolha.


Dissonância: André, você é frequentemente citado como um exemplo de resiliência na música independente, tendo vendido manualmente mais de 2 mil cópias do álbum “Eu Sou Assim”. O que você traz hoje dessa experiência? Faria de novo?


Audio cover
A ResiliênciaAndré Sansi

André Sansi: Gostei do “frequentemente citado como exemplo de resiliência”. Obrigado por isso. Sobre essa experiência dos dois, mais de 2.000 discos que eu vendi, é assim, o primeiro disco que eu lancei, o “Eu Sou Assim”, foi em 2012 que eu produzi, ficando pronto 2013. E aí eu fazia os barzinhos por São Paulo. Então, eu fui vendendo nesse boca a boca, ali nos barzinhos, nas mesas, que eu tocava, eu toquei, por muitos anos eu toquei na rede do Bar Brahma em São Paulo. Então, é uma rede que próprio pessoal que já acostuma aí, né? Dos clientes do bar mesmo, da rede inteira, eles tinham muito essa questão de “ah, meu, puta, a gente gosta muito do seu som, você não tem um CD e tal”. Na época, parece antigo falando, mas é verdade que na época valia muito a pena, na verdade. Porque a gente  fez umas tiragens e aí viu que se fizesse tiragem maior, daria um espaço de lucro maior também. Então, acabei fazendo primeiro 1.000 e vendendo e tal, R$ 10,00 que não era um preço incrível, que era um preço bem justo, na verdade, para a época. E nos bares, e, pô, se você pensar, vendi mais de 2.000 a R$ 10,00, o dinheiro que isso me trouxe de volta, tirando despesas e tal, me ajudou muito a continuar, sabe? Então era realmente, falando da parte financeira, do trabalho, porque existe essa gestão financeira, a gente precisa deixar cada vez mais clara que ela existe, a gente precisa falar disso, porque, claro, a parte musical, a parte da arte é muito bonita, muito legal da gente ficar citando e tal. Só que para que ela aconteça de uma maneira leve, para que ela tenha espaço para acontecer, essa outra gestão, que eu chamo de “escritório”, precisa estar acontecendo. E, enfim, no nosso patamar como artista independente, quem tá começando, a gente que faz tudo, né? Então a gente precisa aprender também a fazer um pouco disso. E me ajudou muito, voltando a parte dos CDs, me ajudou muito nessa parte, sabe? Realmente, ajudou, se eu faria de novo? Se tivesse espaço eu faria. Faria porque a gente hoje tem bastante investimento para deixar pronto, que seja um single, vamos falar do plano mais básico, pra chegar numa audiência que é o single, que é apenas uma música ali, o investimento não é baixo e pra ter qualidade. E aí depois tem a divulgação e tudo. Então, pra ele chegar, até chegar nesse ouvinte, o investimento não é baixo e o retorno é muito baixo. A gente tem as plataformas de streaming que são nosso maior caminho hoje, pagando aí muito pouco. Ou seja, para eu recuperar o que eu gastei em uma faixa, demora, demora muito. Então é muito complicado. Sendo que a gente na verdade só quer um espaço onde seja valorizado. Onde vale a pena, onde, no fim das contas, eu falo, “não, tá tudo bem! Eu não, eu não empatei ainda, né?”; que é muita pretensão a gente achar que vai empatar nos valores logo no começo do trabalho, como investimento de uma empresa, como qualquer investimento de um trabalho outro, né? A gente vai ter o caminho reverso do dinheiro, ou seja, vai voltar com o tempo que ele tiver que voltar, mas a gente vê as plataformas de streaming se aproveitando muito, e aí a gente acaba ficando de total mãos atadas, porque hoje em dia não existe um outro paralelo para você chegar no ouvinte, entende? Não existe o CD, não existe a fita, não existe o disco, quer dizer, existe, mas, por exemplo, disco que tá voltando, se tornou souvenir de alta qualidade, sabe? É uma parada muito para os artistas que estão lá consagrados, os caras lançam um disco e fica: "Nossa, eu tenho o disco do Djavan, eu tenho o disco da Isa", sabe? Eu tenho o disco da Liniker agora. Que é incrível, né? E tomara que isso ganhe força realmente. Mas é complicado você depender apenas disso. E aí você tem outra maneira que seria as rádios, que também é bastante complicado a gente entrar como artista independente. A gente tá falando de investimento também, enfim. E aí, é são mais valores que se vão para poucos valores que voltam. Porque o da rádio a gente também não recebe muito. Claro que o foco final da rádio é o show, que aí que é onde eu acho que o artista quer e merece ter o a verba de volta.

 

Dissonância: Como artista independente, você assume múltiplos papéis, da composição à divulgação. Qual é o maior desafio e a maior liberdade de construir uma jornada sem o suporte de grandes gravadoras?


Audio cover
Os DesafiosAndré Sansi

André Sansi: Até falei um pouquinho na pergunta 1 aí, né? Sobre essa questão que eu chamo de “escritório”, que é essa parte do financeiro, quanto a gente vai ter, o que que a gente pode fazer, o quanto a gente aguenta fazer, por quanto tempo essa gestão de estratégias, financeira. No lançamento do Studio Session, eu tive ajuda de um escritório que me ajudou muito, na verdade, nesse planejamento do lançamento, de como a gente foi fazendo, de como a gente foi ganhando público antes de mostrar o lançamento, aquecendo o público da internet, focando muito no Instagram, que é, até agora foi o meu maior foco. Pretendo agora começar a fazer mais pelo YouTube também, usando essas duas frentes. Mas falando sobre essas gestões, é isso, acho que essa parte do escritório a gente precisa estar alinhada. Vou falar de mim. Para mim ela precisa estar alinhada porque senão eu fico muito preocupado se a parte da arte vai ter o espaço que eu quero que ela tenha. É como se uma parte minha de administrador quisesse deixar tudo pronto pra parte do artista, falar assim: "Ó mano, vai lá. Você tem passe livre. Você tem o espaço, a gente vai conseguir o espaço. Então, fica à vontade, sabe? Cria que vai ter um lugar pra você mostrar isso”. Acho que eu fico muito preocupado com essa, com essa questão, sabe? Sobre um caminho, como que eu vou chegar nas pessoas que eu quero chegar. Entende? Então existe um lado muito bom que é você simplesmente fazer a música do jeito que você quer fazer ali, com as pessoas que você trouxe para completar o time, como o produtor e tal. Trabalhei no meu EP, trabalhei com o Fábio, que foi incrível, o Fábio Cadore, também um artista de São Paulo e também produtor. E no Studio Session, trabalhei com os diretores musicais, que foi o Marcelo Pisotte e o Jonas Lemos, que é o tecladista e o baixista. E o Caio, que fez toda a direção do projeto geral, do som, cenas, enfim, toda a outra parte das direções, estúdio e tal. Então a gente acaba abrindo, claro, e aproveitando da experiência deles. Então, essa troca para mim é muito boa, porque não é uma troca onde a gente tá à mercê, simplesmente, 100% do outro lado. Eu não sei como seria com uma gravadora, porque eu nunca trabalhei com isso, mas a visão que eu tenho é que elas, nosso poder de fala, ele diminui muito com a gravadora, talvez por pensar que são eles que, basicamente, vão pôr o investimento maior, financeiro, eu tô falando. Então, acaba eles tendo uma voz mais forte. Talvez o fato do independente, a gente concentrar tudo na gente, nos dê essa liberdade. O que falta, por outro lado, esse impulsionamento financeiro que talvez as gravadoras vão dar, e não só de investimento financeiro, mas de contatos, que também é muito, né? A gente não tá falando de dinheiro investido, mas a gente tá falando de portas abertas, né? Que isso é bastante.

 

Dissonância: O DVD Vou Cantar – Studio Session, dirigido por Cayo Felipe, inaugura um novo formato de show para sua carreira. O que o público pode esperar dessa nova estética que mistura MPB, pop e folk?


Audio cover
O Novo André SansiAndré Sansi

André Sansi: O Studio Session, ele veio exatamente para marcar essa mudança na minha carreira, no sentido de como as pessoas vão me ver daqui para frente. O que eu quero dizer com isso é, durante muito tempo, quem esteve ao meu redor, e me acompanhou até aqui – o ano que vem eu completo 20 anos me dedicando à música, fazendo disso minha profissão, minha vida e tal – quem esteve comigo nesse processo inteiro, viu por muitos anos o “André do barzinho”. Então era o voz e violão. Então tudo que tinha meu na internet era muito dos bares, ou do voz e violão cantado em casa, né? Com alguns quadros que eu ia fazendo no Instagram, no YouTube. Então o Studio Session foi exatamente para mostrar que eu quero mais, que eu tenho mais, e que eu sou mais do que aquilo. E eu quero ocupar outros lugares. O Studio Session veio exatamente para fazer esse marco. O que já deu, já abriu as portas para o segundo trabalho audiovisual que vem, que é um show ao vivo gravado agora em fevereiro de 2026, que a gente vai lançar ainda esse ano. Um show que leva parte das músicas do Studio Session com algumas músicas covers que fazem parte dessa trajetória toda da minha vida, que são muito importantes para mim, músicas que eu sempre quis cantar assim com banda e tal. Traçando um momento de criar o meu show, sabe? Que foi um passo muito incrível. Foi um processo muito incrível, esse passo a passo criando o show desde o começo. Já, essa experiência também uma experiência que eu quero ganhar com o tempo, porque já fiz bastante shows com outras bandas, mas nunca foi o meu show. E dessa vez era o meu show. Então, foi muito legal, foi muito diferente criar isso desde o começo, aprendi umas coisas, errei em outras coisas e a gente vai melhorando passo a passo. E esse segundo passo aí logo após o Studio Session que vem esse ano, que é o, o DVD ao vivo de São Paulo, show ao vivo. Cara, o show tá incrível, já tenho recebido aqui os materiais da edição, e tá incrível, tô muito feliz e já começo a ficar ansioso para esse lançamento também.

 

Dissonância: Você gravou esse projeto no Estúdio Jacarandá, em São Paulo, buscando um registro "sem filtros". Como foi essa sensação de registrar canções de forma tão próxima ao microfone e ao coração?


Audio cover
Sem FiltroAndré Sansi

André Sansi: Pô, Studio Session foi, nem sei explicar, foi um momento incrível, eu lembro que a cada música que a gente fazia, em algum momento eu me emocionava. Eu me emociono muito fácil mesmo. E a gente tinha que parar, e voltava a cena, sabe? Porque eu não conseguia cantar ou porque, enfim, não queria demonstrar aquilo naquele momento, nas gravações, eu digo. Então, eu sentia o que eu tinha que sentir, depois a gente refazia, tá tudo bem. Mas foi incrível, cara, foi de verdade. A dedicação da banda, como eu falei, o Marcelo Pisote, o Jonas Lemos, que foram os diretores musicais, eles que criaram os arranjos, me ajudaram em toda essa parte. São pessoas que me conhecem há muito tempo, já. E, mais de 10 anos, a gente já trabalha junto, trabalhou junto e tal. Além de amigos, e retrataram perfeito ali tudo que eu queria colocar naquele trabalho, somaram muito com as experiências que eles têm. Já tocaram com muita gente famosa, já tocaram pelo mundo inteiro trabalhando tanto em terra nos países, quanto trabalho de navio de cruzeiro. Então eles têm muita experiência musical de vários estilos. Foi muito legal e o Studio Session foi um passo que foi me dando certezas, sabe? Foi um passo que foi me dando certeza de que é isso que eu quero fazer pra mim, cada vez mais. Quando as coisas acontecem, quando o próximo passo chega, eu tenho essa sensação de que, cara, é isso que eu quero, é aqui mesmo o meu lugar, é isso que eu quero, é isso que eu amo fazer, eu me emociono mesmo pra caramba. E, da mesma maneira que aconteceu isso lá no Studio Session, a gente teve um dia de ensaio com a banda e o outro dia a gente já foi gravar. E o dia inteiro ali vivendo aquilo foi incrível. E da mesma maneira que eu me emocionei ali, eu me emocionei muito no show de fevereiro desse ano, ali, gravando esse ao vivo de São Paulo. Eu me emocionei demais, e em vários momentos eu tinha essa certeza de que aquele é o meu lugar, é ali que eu quero estar, é ali que eu quero viver a minha vida, é disso que eu quero viver, sabe? São essas sensações que eu quero passar e receber, sabe? Ver as pessoas ali se emocionando na plateia com as músicas, putz, foi incrível, foi incrível.

 

Dissonância: A mídia já citou teu trabalho como estando no grupo de "vozes que o silêncio não cala". Como você recebe os relatos de fãs que encontram em suas letras um suporte emocional para momentos difíceis?


Audio cover
Os FãsAndré Sansi

André Sansi: Ah, cara, essa é, talvez, a melhor parte do trabalho, saca? Talvez. Existe uma parte que é a que acontece dentro da gente, assim, com o que a gente faz o trampo. A música sai, ela passa por mim, a letra, a melodia, a música vem, ela passa por mim, se torna ouvida. Aí a gente passa pro processo de produzir a música de alguma forma – já passei por diferentes formas –, e aí, depois, a gente lança a música e ela chega nas pessoas. Eu acho que quando ela tá pronta, ou nas primeiras vezes que eu escuto a música, as versões dos produtores, é quando eu tenho a essa sensação de... cara, não sei explicar, mas é o tocar o céu, sabe? Assim, o bagulho de “que incrível”, sabe? E eu me emociono mesmo. Em quase todas as músicas que eu já lancei, quando eu ouço pela primeira, ouvi pela primeira vez, eu me emocionei. Já pronta ali com a produção. E quando vem esse feedback do ouvinte, do quanto aquilo foi importante para ele, o quanto mudou para ele.  Acho que é a segunda vez, sabe, que acontece esse “tocar o céu de novo”, é uma parada que você entende propósitos, eu acho. Acho que aí fala de propósito. Acho que aí fala sobre você tá no lugar certo que tem que estar mesmo, na hora certa, sobre você estar ocupando um lugar e procurando um caminho que realmente é o seu. Eu me preocupo muito com isso. Eu e a Ju, a Ju, minha esposa, que também é cantora. A gente conversa muito sobre. Isso é uma preocupação, e quando vem o feedback, é a certeza. É a certeza de que a gente tá fazendo o caminho certo. O que eu falo é, assim, eu torço muito para eu não ser, não atrapalhar nada. Só penso nisso. Eu falo, “cara, não quero atrapalhar nada do que seja feito através de mim”. Olhando pro lado espiritual mesmo. Eu acredito que a gente venha com propósitos e eu só não quero atrapalhar, sabe? Quero ficar aqui realmente cada vez mais aberto pra que esse caminho que eu tenha que viver, ou que eu sirva para viver, eu faça com tudo o que eu que eu tiver, com toda a força que eu tiver, com todo o alcance que eu puder dar. Eu lembro de alguns relatos assim, principalmente na pandemia, quando eu lancei um single lá que era, “Não É À Toa”, que era uma música mais divertida, num momento tava muito difícil, o mundo inteiro. E não sei por que, mas eu tive vontade de fazer aquela música, e quando lancei, tive vários relatos de que aquela música realmente ajudou naquele momento tão difícil para todo mundo. Estava todo mundo muito pesado, o momento era muito pesado. Estava todo mundo sentindo esse momento pesado, eu acho. Então a música, recebi relatos de alívio, de pessoas que estavam pensando em coisas piores e a música segurou a cabeça deles. Sentiu um pouco de vida através da música ali. Então foi muito legal. E, além disso, até hoje, relatos que eu tenho, que eu vejo, que dão muita força, porque nesse processo todo do independente, tem muitos altos e baixos. E quando tem esse processo de, nesse momento que a gente tá baixo astral assim, que tá pensativo, eu prefiro me recolher e tentar entender o que que tá acontecendo, e aí, é quase que uma lei assim da vida de que nesses momentos é quando eu mais recebo alguma mensagem de carinho com as minhas músicas, de atenção com as minhas músicas. E aí dá muita força. Dá muita força, dá mais vontade de falar assim: “tá vendo? É isso, cara, vai lá, volta, saca? Vai lá, que o seu caminho tá ali”. É muito legal isso.

 

Dissonância: Nas redes sociais sua presença é reconhecida por uma voz suave e intimista. Para você, as plataformas digitais na constroem "conexões reais" ou podem escravizar o artista em busca de cada vez mais engajamento?


Audio cover
Conexões ReaisAndré Sansi

André Sansi: Ah, eu fico muito feliz com essa leitura das pessoas, da minha voz, do que eu passo para elas. Eu realmente gosto muito de falar sobre sentimentos, principalmente levando sempre as pessoas para esses sentimentos mais leves. Sempre foi um tema da minha vida, não é a questão da música, mas sim que é uma questão da minha vida mesmo, é a maneira com que eu gosto de direcionar a minha vida. Então acho que a música é só mais um, mais um lugar que isso acontece. E é muito legal ter essa percepção das pessoas, saber dessa percepção das pessoas dessa forma, quando me escutam. As redes sociais, é muito complicado com essa questão de conexões reais. Acho que real é uma porcentagem muito pequena, se a gente for falar sobre proximidade real. Agora, tudo que passa por nós é real. Então a música que eu lanço, que as pessoas escutam, ela tá ali de maneira honesta e real para aquelas pessoas. Então, depende de como a gente olha para isso, existe realidade na situação. Agora, essa procura por proximidade artista-público, eu acho que é sempre muito delicado, na verdade. Eu acho que é sempre muito, muito delicado, porque, principalmente no Brasil, a gente tem uma característica de idolatria muito forte. E não digo que é um problema pela parte em si, da idolatria, mas é um problema porque dá permissão para muitas coisas. Então, muitas vezes, o artista, ele pode tudo, e isso é muito complicado. Ao mesmo tempo que eu acho que os artistas também, os que são realmente, que dão validade para isso, tem que ser muito responsável com esses lugares onde eles são colocados. Isso é uma preocupação minha muito grande de estar sempre me responsabilizando pelo lugar que eu alcance. Esse lugar hoje que acontece, das pessoas me ouvirem, gostarem do que escutam e fazer bem a elas, pô, cara, isso é incrível. Tomara que isso aconteça e aconteça cada vez mais, tomara que isso se siga cada vez mais. Mas existe uma responsabilidade, dos assédios, existe uma responsabilidade sobre assuntos que podem vir a acontecer em alguma entrevista, por exemplo, e você saber se portar nesse mundo onde qualquer vírgula mal colocada vira um desastre, um julgamento perverso, enfim, que é muito complicado isso. Então, as redes sociais, eu acho que existe um lado muito bom, que é você ter tudo ao seu alcance, você tem todos os assuntos ali para você, você tem conexões, aproximações com pessoas, proximidades com artistas, que você não teria em outros tempos, mas que as pessoas têm que entender que a vida ainda é fora do celular. Eu acho que a vida é fora dessas redes sociais, a vida, ela é muito, muito bonita, ela é muito grande para ser vivida só ali dentro, assim. Eu acho que você ter aquilo como portas, janelas do mundo, isso é incrível. Para ter contato com temas diferente, assuntos diferentes, o mundo vai ficando cada vez menor com isso, mas que a gente tem que só usar isso, acho que a nosso favor. Tem que aprender a usar isso a nosso favor, de saber quando isso não tá fazendo bem pra gente, por comparações, porque é muito fácil a gente se comparar às vidas perfeitas que a gente vê às vezes na internet, que nenhuma vida é perfeita, sabe? A gente entender que a vida que a gente tem aqui é o melhor que tá acontecendo, e se eu quero mais, eu vou lá e melhoro. Enfim, acho que é mais por aí.

 

Dissonância: Existe alguma coisa no mercado musical que te causa perturbações? O que você incentivaria os artistas a fazerem diferente?


Audio cover
O Mercado MusicalAndré Sansi

André Sansi: Eu acho que o que me causa mais perturbação são os espaços mesmo, que nem eu falei em perguntas anteriores sobre as plataformas de streaming que, para esse setor do independente, acaba sendo o principal caminho pra gente chegar no ouvinte. Por exemplo, eu vou falar, o próprio Spotify, que é talvez o principal, ou um dos principais, mas o principal veículo de escuta, de streaming, se eu não me engano, é um dos que menos paga por streaming, e quando ele tem algumas vantagens, as vantagens dele, por exemplo, do counting para o lançamento sempre exige uma quantidade já grande de ouvinte ou de trabalho ou de lançamento. Ou seja, nunca é para quem tá realmente começando. Então, esse começo mesmo, ele é muito cansativo, porque parece que ninguém quer te ajudar a começar, e quando você já tiver no meio do caminho, todo mundo vai estar ali para, entre aspas, “se aproveitar” de alguma maneira de você. Então, esse, eu acho, que é uma das partes mais difíceis, perturbadoras desse trabalho, esses espaços. Depois você vai para rádio, onde, também, as grandes rádios, como que eu chego numa grande rádio? Numa Nova Brasil? E tenho realmente um espaço que eu possa mostrar a minha música para alguém, para que esse alguém possa, no mínimo, me dar um espaço ali em algum programa? Se tiver de acordo nos padrões deles, né, claro. Então é complicado. Isso é muito complicado. A outra parte do trabalho não me perturba em nada, porque eu acho que a gente tem que trabalhar mesmo. Talvez canse, que é uma outra questão. Talvez sim. Eu quisesse menos do trabalho do escritório para eu poder ter mais do artista. Para eu liberar mais o artista. Muitas vezes eu fico muito preso no escritório e o artista vai sendo encarcerado. Ele vai ficando podado. E aí, eu pouco a pouco vou buscando e soltando, entendendo, aliviando a cabeça. Eu fico muito preso nessa questão do escritório. Então, acho que, não digo que é uma perturbação, mas existe um cansaço, existem momentos que realmente eu não queria cuidar disso, ter que cuidar disso e ter pessoas ao meu lado que simplesmente trouxessem caminhos e soluções e a gente sentasse e conversasse e saísse dali já com o caminho tomado e que essa pessoa cuide dessa parte para eu poder me dedicar à outra. Acho que seria mais legal. Uma perturbação também, que é basicamente o mesmo tema de espaços, é o “são os espaços mesmos que são para as pessoas independentes”, para os artistas independentes. É muito complicado, tanto que eu tenho cada vez mais pensado em criar os meus próprios espaços. O que eu quero dizer com isso é que, por exemplo, nesse show de fevereiro, eu fiz um autopatrocínio mesmo. Juntei a grana em 2025, fui buscar um teatro em São Paulo, o qual pudesse pagar. Fizemos um acordo de porcentagem de bilheteria, banquei cachê da banda, banquei som e luz, a gravação do áudio, as câmeras para gravar o DVD. Então, da mesma forma que foi o Studio Session, também foi um autopatrocínio, e eu acho que a gente tem que cada vez mais criar isso. Entendo que é muito complicado, que você acaba falando de potência financeira e não é todo mundo que tem, conheço artistas que têm muito mais do que eu, mas eu acho que é sobre você fazer o que tá ao seu alcance e sempre, sempre há. Eu já fiz show em teatro quando eu não tinha nada, quando eu não tinha grana perto do que eu tenho hoje, com frutos do meu trabalho mesmo. E aí eu volto na parte do escritório, que isso é gestão financeira. É entender quanto eu ganho, quanto eu quero separar daquele salário por mês para eu juntar e, no fim do ano, eu ter essa grana para falar para um teatro: "Meu, quero esse espaço, vamos fazer um acordo aqui?". Então, acho que sempre dá. Eu não coloco isso como desculpa. Eu acho que não tem espaço mais pra gente, pra gente ter isso como desculpa. A arte no Brasil, ela é difícil. E se isso já não é uma escolha, porque a arte não é uma coisa que eu tô escolhendo, é uma coisa que eu sou. Então, eu não tenho tempo, não tenho espaço pra ficar me desculpando. Não tenho esse espaço, não tenho esse tempo. Então é entender que o jogo é difícil. Muitas vezes, quando bate, a gente tem que tem que sentar mesmo e dar um tempo, sentir. Não tem problema nenhum nisso, mas voltar, voltar entendendo como corrigir os percursos. E aonde eu posso ir agora? Acho que sempre dá para dar um passinho a mais, sempre dá para dar meio passo a mais. Isso é sempre possível. E é só isso que eu vou fazer. Eu vou sempre estar buscando esse meio passo, esse um passo a mais em cada momento da carreira, por mim. Principalmente por mim. E aí acredito que com isso, eu posso levar a minha arte para mais pessoas, chegando a mais pessoas, cuidando, por assim dizer, de mais pessoas através da minha música.

 

 

Dissonância: Hora do spoiler. O que os fãs podem esperar para o futuro de André Sansi?


Audio cover
O FuturoAndré Sansi

André Sansi: Ah, que demais essa pergunta, obrigado. Bom, ainda esse ano devo lançar o audiovisual do show ao vivo, esse de São Paulo, de fevereiro. Foi muito bom. O material tá lindo, já tenho recebido aqui todo o material, o áudio e o vídeo. E a gente tá fazendo as melhores escolhas e tal, tá editando, fazendo os detalhes. E tá muito bonito, de verdade, tá muito bonito, já estou bastante ansioso, na verdade. Pro ano que vem tem um EP, um pequeno EP de quatro faixas, inéditas também. E falando do começo do ano, que é o período que eu saio aqui da Espanha e vou para o Brasil. A ideia já é fazer uma, pelo menos uma mini tourzinha, uma mini tour, já com alguns shows. E eu estou já me movendo, nesse sentido, e tentando, principalmente Rio-São Paulo. Vamos ver as oportunidades que vão aparecer. Se Deus quiser, vai dar bastante certo e a gente vai poder se encontrar ao vivo aí.

 

Dissonância: Hoje você reside na Espanha. Qual a principal diferença para um artista independente entre o Brasil e a Europa? E quando teremos novos shows de André Sansi no Brasil?


Audio cover
A EuropaAndré Sansi

André Sansi: Sim, eu moro na Espanha já 10 anos. Esse ano, inclusive, a gente completou 10 anos aqui. Aqui nós temos um grupo musical, um outro projeto, que sou eu, a Ju, minha esposa, que também é cantora, e o irmão dela que é baterista. A gente tem um trio, que a gente toca bastante em barzinhos, pubs por aqui e tal, casamentos, festas também. Mas o repertório é outro repertório, música internacional, música para dançar mesmo, como se fosse banda baile aí de São Paulo, do Rio, que tem muito. No Brasil tem muito. Então, o projeto, na verdade, tá nesse setor, o que viabiliza a parte financeira – voltando a toda a falar do escritório –, viabiliza a parte financeira para eu poder investir e fazer os meus planejamentos aí, mesmo que numa velocidade, não é a velocidade, que eu gostaria, dos investimentos e as conquistas do André Sansi, como artista. Ainda não acontece na velocidade, talvez que eu quisesse, mas já é possível, sabe? Então, eu sou muito agradecido a poder estar aqui, essa oportunidade de ter vindo para Espanha, morar aqui, ter uma vida bastante decente e, principalmente, poder viabilizar o sonho de verdade, viabilizar o sonho de ter minha carreira, de ter minhas músicas, de pouco a pouco, passo a passo e crescendo e encontrando o meu público. Então, é muito bom tá aqui. E, se Deus quiser, o planejamento, na verdade, é que a cada começo do ano, pelo menos, eu faça uma viagem, todo início de ano, eu vou pro Brasil e vou fazer shows. E, no decorrer do ano, aí já são outros projetos que eu tô tentando com Lei Rouanet, com leis de incentivo, e acontecendo, eu não tenho problema nenhum, eu vou amar sair daqui e também fazer um algumas viagens durante o ano para o Brasil para a gente se encontrar por aí.


andré sansi


andré sansi

Comentários


bottom of page