Chuengue e o "Névoa-Nada": Newton curtiu esse disco

Chuengue soltou "Névoa-Nada" em 16 de agosto de 2024: cinco faixas, dezesseis minutos e dezesseis segundos (não inventei a simetria, ela tá lá) e o talento de fazer muito com pouco. A duração é de EP, a densidade é de tese de mestrado.

Pra quem chegou agora: Chuengue vem da cena carioca, passou uma década na edição audiovisual, tocou na Cafefrio e neste EP de estreia assina todas as composições, entra com voz e flauta transversa e se cerca de bons músicos, com produção de Hugo Noguchi. A raiz é MPB com uns tremores psicodélicos, o que já explica a mania saudável do disco de não parar no lugar esperado.
Sendo direto sobre a minha impressão: "Névoa-Nada" é denso, cheio de camadas. Não posso carimbá-lo como jazz (os puristas viriam me caçar de contrabaixo em punho e palavrões chiques), mas chega tão perto, mas tão perto, que a banda subiria num festival jazzístico tranquilamente, ninguém pediria o RG na porta. "O Nascimento do Universo" um tanto cósmico, "Frames" e "A Torre Mais Alta" dão uma textura empilhada, e "Eu Tenho Que Voar" fecha devagar e sem pressa.

O melhor exemplo é "Acerca da Maçã". Chuengue fala de amor usando gravidade, aceleração e Movimento Retilíneo Uniforme, como engenheiro de profissão, me senti representado. É paixão explicada por Newton, uma queda (dessas com física envolvida) sobre um violão que beira o samba, na levada que ele apelidou de "bossa que é quase um bolero". Se essa maçã cair na sua cabeça, o refrão vai ficar latejando igual um galo.
E é por isso que estou de olho no passo seguinte. A turma registrou uma Live Session que funciona como ponte: revisita três faixas do EP e ainda emenda uma inédita do próximo disco, "Carta Ambiente". Enquanto escrevo esse texto, os vídeos ainda não estão liberados ao público, mas garanto que são sensacionais (sim, eu já vi. Morram de inveja).

O que começou como projeto de estúdio com convidados ganhou formação fixa. Chuengue agora encara o palco de guitarra na mão, ao lado de Hugo Noguchi (que subiu de produtor a diretor musical), Robson Riva na bateria e Dony Von na guitarra, sob direção de imagem de Pedro Knoll e Lucas Rangel.

E dá pra ouvir o crescimento. As mesmas canções que no EP eram experiências delicadas de laboratório ganham músculo ao vivo, com aquela margem de risco que só um grupo confiante topa correr. Se no disco a maçã caía em câmera lenta, na Live Session ela já está no chão, madura, pronta pra virar outra coisa. E olha que nem cheguei em "Carta Ambiente", que fica pra próxima matéria (spoiler: vou querer escrever).
Já voltei umas quantas vezes a "Névoa-Nada", e ele segue me entregando detalhe novo a cada rodada. Vindo de alguém que passou dez anos editando imagem, faz sentido: o cara sabe o que cortar. Bota no fone, sobe o volume e deixa a maçã cair. A física do resto fica por conta dos seus ouvidos.
Assista ao videoclipe de Frames.
Chuengue project/música frames
Samuel Chuengue - voz/guitarra
Hugo Noguchi - baixo
Robson Riva - bateria
Dony Von - guitarra
Frames song by samuel chuengue
Direção geral/direção de fotografia
Lucas Rangel
Pedro Knoll
Direção musical/mixagem/masterização
Hugo Noguchi
Fotografia still/making of/captação de vídeo/cam adicional
Julia Bimi
Montagem e concepção
Samuel Chuengue
Ai editor
Pedro Knoll
Samuel Chuengue
Coord. De produção/assist. de áudio
Paulo Delorenci
Iluminação
Kadu moura
Assistente de palco
Rafael da paz
Realização
Firjan




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