Tacy
Dez anos como Cássia Eller nos palcos, ela largou o papel para ser ouvida como autora

Artistas entram para a história quando fazem algo que nunca foi feito antes, algo diferente, inédito, inusitado. Se você der uma fuçada na internet vai encontrar alguns. Mas de todos os que fizeram história, podemos dizer que a Tacy reservou um nível só para ela. Nunca um artista havia pedido demissão de si mesmo. Tacy fez exatamente isso, e por escrito, no começo de 2026. Depois de dez anos emprestando voz e corpo a Cássia Eller num musical que rodou as 27 capitais brasileiras e passou por mais de 150 mil espectadores, ela publicou o que chamou de carta de demissão do "cargo vitalício de Cássia Eller oficial do imaginário popular".

No mesmo período correu o anúncio de que outra atriz interpretaria a cantora no cinema, seguido de uma enxurrada de mensagens dizendo "tinha que ser você". Eis aí a ironia do mundo artístico, e a Tacy sabe manejá-la muito bem, ela já não era mais a Cássia Eller, agora ela tinha uma pele própria a exibir; a bem da verdade, era uma skin que sempre esteve lá e nossa cantora teve a sobriedade de exibi-la em todas as suas cores, tons e suor.

Que fique aqui claro que poucos teriam a sobriedade de largar um papel garantido para recomeçar do zero, e menos ainda transformariam isso num manifesto sobre impermanência.
Entretanto, cabe à Revista Dissonância, como um dos principais veículos de mídia independente do país, registrar que ela nunca esteve parada. Enquanto o público a conhecia pelo filtro de Cássia, Tacy produzia seu próprio universo, suas músicas, sua história e, podemos incluir nessa conta um álbum maravilhoso, "O Manifesto da Canção", lançado em 2017. Nessa época ela assinava como Tacy de Campos, somente em 2024 houve a mudança artística para Tacy.

A simbiose, como ela define, foi inevitável: chegou ao Rio em 2014, aos 23 anos, selecionada entre mais de mil candidatas para o musical, e a cidade maravilhosa a conheceu já comparando. O trabalho autoral vinha antes, só que ninguém tinha visto.

"Em 2016 eu lancei o meu primeiro single e em 2017 eu lancei o meu primeiro álbum, O “Manifesto da Canção”. Então eu nunca parei com a minha carreira. Mas quando você tá fazendo um trabalho com um nome como o da Cássia, que tem uma popularidade espontânea muito grande, é inevitável. Acaba que o holofote sobre esse trabalho, que é popular, é muito maior do que o trabalho que você nunca deixou de fazer, que é o que é o meu trabalho"
Antes do Rio, houve Curitiba. No friozinho curitibano, a Tacy integrou banda, se apresentou em casas de show clássicas da cidade, tocou na noite, passou pelo Bardo Tatára, reduto underground de Curitiba, e estudou numa lista respeitável de conservatórios (Curitiba, Villa-Lobos, Souza Lima, CIGAM) antes de a catapulta carioca pausar o que ela vinha construindo por lá.

Tacy conta que aos quatro anos fugiu de casa atrás de um caminhão de som, o que talvez explique muita coisa. Cresceu numa família de leitores, virou leitora ávida, formou-se em Letras e trata a palavra com cuidado, o mesmo zelo que reserva ao arranjo.
O que fez com esse espaço recém-aberto é o que interessa. Radicada em Niterói desde 2018, Tacy converteu a própria carreira num projeto de ocupação feminina. Começou em 2020, na pandemia, com o coletivo Mana na Música, onde encontrou a primeira leva de instrumentistas e técnicas de som mulheres, gente que depois virou rede.
"O Mana na Música, eu posso dizer seguramente, que foi a primeira semente de uma rede de mulheres que hoje eu tenho muito mais fortalecida, no campo da música, tanto de musicistas quanto da área técnica, que também tem mulheres"
Dessa rede saíram os dois trabalhos que hoje a definem melhor que qualquer personagem, um show e um livro. O primeiro é "Tacy canta Todas as Mulheres do Mundo", show que ela assina na direção musical e nos arranjos, executado por banda inteiramente feminina e repertório de autoria também feminina. A ideia é de 2017, mas só saiu do papel em 2022, via edital. Para montá-lo, Tacy fez pesquisa de garimpeiro: livros de cronologia musical, documentários, horas de YouTube, listas e mais listas. Descobriu, no caminho, que a história da mulher no rock brasileiro não estava organizada em lugar nenhum (o que, dito por ela, soa menos como queixa e mais como serviço a executar).
"E nesse processo foi um desafio muito grande, porque foi quando eu me dei conta de que o meu trabalho artístico, e acho que de muitas mulheres como eu, acho que já passaram por isso, de você olhar ao redor e perceber que o seu meio de trabalho profissional é praticamente todo masculino. O meio profissional do business, a proporção ainda é muito desigual entre homens e mulheres. Você sacode uma árvore e caem 10 bateristas. Se sacodir muito de com força, cai talvez três bateristas mulheres"
O espetáculo parte dos anos 50, abre com uma versão de "Rock Around the Clock" gravada por Leninha Silveira, recupera Celly Campello e Nora Ney, passa por Elis, Rita Lee, Gal, Cássia, Pitty e chega a Liniker. No percurso, desmonta a lenda de que roqueira no Brasil se resume a três nomes.
O segundo é "Beatles Fora da Caixa", banda dissidente de um antigo projeto de covers que Tacy reformulou até torná-lo outra coisa. As canções dos Fab Four ganham salsa, samba, jazz e reggae, com "Help" virando salsa e "Taxman" começando em "Bat Macumba". A formação obviamente é feminina por convicção declarada. Tacy resume com clareza o argumento: homem cantando homem, ela diz, nunca constituiu novidade; o ousado é uma mulher cantar um homem à maneira dela, e não à dos homens.
"Eu sou mulher. Eu tenho que, eu vou, cantar uma outra mulher, e isso também vai ser maneiro. Tá aí o "Todas As Mulheres do Mundo", mas quão ousado é uma mulher ousar cantar um homem à sua maneira? Não à maneira dos homens. Esse é o meu propósito"

Há ainda o show "Encontros", 80% autoral, em que ela divide o palco com convidados e usa a apresentação como ponto de partida para parcerias. Foi o caso retratado na foto acima da parceria com a Luli Nepomuceno, vocalista da banda Flores de Plástico que regravou a música "Nosso Amor Vai Virar Árvore", um clássico da Tacy.

Não poderíamos deixar passar um dos momentos mais marcantes para a cantora, sua estreia como escritora: em 2026 Tacy lança "Híbrida", livro de poesia e crônica em formato ampulheta, com duas capas e sem fim definido, editado pela Vira-Tempo, uma casa niteroiense também tocada por mulher. A coerência, note-se, é quase irritante de tão consistente.

Em meio a tudo isso ainda sobre tempo para receber uma menção honrosa na Câmara de Vereadores de Niteroi. Tacy recebeu o Diploma Nicette Bruno de Cultura pelo show "Encontros". O diploma é uma homenagem a artistas, coletivos, instituições e empresas que contribuem de forma significativa para a vida cultural da cidade.

Chamá-la de case de sucesso pede uma ressalva que ela própria faria. Os números de streaming são modestos, e Tacy não finge negar o contrário. O êxito, aqui, mora em outro lugar: na disciplina de encerrar um ciclo lucrativo por decisão estética, e na teimosia de reorganizar todo o próprio ambiente de trabalho em torno de uma causa concreta. Em dois anos, quase todos os seus projetos passaram a ser executados por mulheres. Isso se faz contratando, ensaiando, indicando nomes, criando agenda, muito mais do que com discurso de palco (embora ela também tenha o discurso, e afiado, sobre dar baquetas à filha em vez de bonecas).
"Vocês que são pais, vocês que são mães, em vez de vocês pegarem, virarem para o seu filho, darem uma guitarra para o seu filho e uma panela ou uma boneca para sua filha, ... experimenta fazer a inversão, dá uma boneca para o seu filho, porque o seu filho brincar de boneca não vai abalar a sexualidade dele... E dá uma guitarra para sua filha, dá um par de baquetas para sua filha, dá um baixo elétrico de brinquedo para sua filha. Porque você pode mudar a vida dela"

Ela tampouco poupa a própria trincheira. Acha o termo "música independente" um eufemismo generoso para "cena dependente", capenga, sustentada por curadores que bancam o autoral com a bilheteria do entretenimento enquanto a indústria olha para o outro lado. É o tipo de opinião que fecharia portas para muitos artistas, mas estamos falando da Tacy, a opinião forte é seu maior patrimônio, nem que isso represente "afastar" pessoas.
"Você tem que encontrar uma verdade nem que seja dentro de você, dentro da criação da persona. E é isso, eu sempre opto pelas escolhas mais orgânicas e mais verdadeiras possíveis, mesmo que a verdade doa, e aí muitas das vezes afasta pessoas, mas eu sempre acho que dos pecados é o menos execrável"

A partir dessa leitura, você dificilmente vai voltar a tratá-la apenas como a intérprete que largou Cássia, e a Dissonância está aqui para garantir que você nunca mais cometa esse erro. Tacy é a artista que usou uma década de holofote alheio para financiar, no melhor sentido, a construção de algo próprio e de uso coletivo. O público que aplaudiu a personagem começou a ouvir a autora e encontrou uma compositora cuidadosa, uma pesquisadora obstinada e uma articuladora que entendeu, antes de muita gente, que ocupar espaço rende mais que pedir passagem. A carta de demissão, vista assim, era só o início do expediente. Seja bem-vinda Tacy!
Ouça "Nosso Amor Vai Virar Uma Árvore" no Encontro entre Tacy e Luli Nepomuceno.
Show ENCONTROS no Teatro da UFF em 10 de julho de 2025.
NOSSO AMOR VAI VIRAR UMA ÁRVORE
(Tacy)
O nosso amor vai virar uma árvore
Você vai ver
Daqui há 10 anos quando a gente olhar as fotos no Instagram
Quando o retrato na parede denunciar
O passado a duas
Quando eu me der conta de que todas as minhas coisas são suas
O nosso amor vai virar uma árvore
Você verá
Daqui a pouco quando o seu avião pousar
Quando eu fizer o almoço
Der banho no cachorro
Afagar os gatos, ajeitar o quarto, apagar a luz
Pro seu sono chegar
O nosso amor vai virar uma árvore
Eu sei
Daqui em diante quando a gente se isolar no quarto mundo
Você é a dona
O cérebro da historia, a boa de papo
Eu só finjo estar no comando enquanto você
É diretoria
FICHA TÉCNICA SHOW:
Produção artística: Tacy
Banda: Tacy , Victor Arcaya, Daniel Filgueiras
Produção, cenário e acessórios: Ingrid Vianna
Figurino: Cris Cordeiro
Hairstylist: Patrícia Amitrano
Fotografia: João Marcelo Resende
Mixagem: Augusto Feres
Equipe de filmagem e edição: "Coisa", Pedro Sol, Rafael Gussem, João Artur



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