Tacy em dissonância: entrevista exclusiva
- Max Clark

- há 7 horas
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23/08/2026

Dissonância: Você publicou recentemente uma "carta de demissão" do cargo de "Cássia Eller oficial do imaginário popular". Como tem sido o processo de desconstruir essa "simbiose" para que o público finalmente enxergue a Tacy de forma inteira e independente?

Tacy: Vamos lá, sobre esse processo de desconstrução dessa simbiose que o público acabou enxergando entre mim e Cássia. É um processo que foram 10 anos interpretando o Cássia no teatro. E há dois anos eu startei o processo de, digamos assim, separação dessas figuras. Então tem dois anos que eu parei com os shows, de Cássia, cumpri ainda um finalzinho de agenda no início de 2025, de coisas que estavam agendadas, mas foi um projeto que eu definitivamente encerrei. Então não faço mais shows cantando Cássia, já tem quase dois anos. E o espetáculo Cássia, o Musical também é encerrou. Depois de 10 anos, entre muitas temporadas e muitas turnês Rio-São Paulo, nós fizemos as 27 capitais brasileiras. Nos apresentamos com esse projeto em todas as capitais, em grandes teatros do norte, nordeste, centro-oeste, sul. Então, foi um projeto de muito sucesso, que se espalhou muito rapidamente. Popularizou muito rapidamente, porque o nome da Cássia é um nome muito popular. E acho que a simbiose, ela aconteceu pelo fato de que quando eu cheguei no Rio de Janeiro, as pessoas não conheciam a Tacy. Eu cheguei no Rio de Janeiro para fazer esse trabalho. Então, mesmo eu, nunca tendo parado a minha carreira. Eu comecei a fazer a produção do meu primeiro álbum já em 2015. Em 2016 eu lancei o meu primeiro single e em 2017 eu lancei o meu primeiro álbum, O “Manifesto da Canção”. Então eu nunca parei com a minha carreira. Mas quando você tá fazendo um trabalho com um nome como o da Cássia, que tem uma popularidade espontânea muito grande, é inevitável. Acaba que o holofote sobre esse trabalho, que é popular, é muito maior do que o trabalho que você nunca deixou de fazer, que é o que é o meu trabalho. Então, como as pessoas não me conheceram antes, não foi uma coisa do tipo primeiro o meu trabalho, depois o espetáculo, foi uma coisa de chegar, me conhecer através do espetáculo, então as pessoas já me conheceram pelo filtro da Cássia, me comparando com ela, ou falando o quão ela era parecida. Aquela Tacy que chegou em 2014 no Rio de Janeiro, de fato era muito parecida com a Cássia, porque é isso, eu tinha 23 pra 24 anos. Eu já trabalhava com música lá em Curitiba, já tinha uma banda, já tocava minhas músicas, já atuava na cena independente de Curitiba, mas eu estava também conquistando lá a cena aos poucos, fazendo o meu networking, fazendo o meu corre. Não era já uma artista consagrada em Curitiba, eu estava nesse processo lá. E aí, essa catapulta para o Rio, meio que pausou o que eu estava construindo em Curitiba, aí eu transfiro ela para o Rio de Janeiro, mas com uma concorrência desleal, vamos dizer assim, né? Muito embora eu sempre tenha tentado roubar um pouquinho dessa luz do espetáculo e tentar jogar um pouco, porque sempre foi importante, para mim, deixar claro que eu nunca fui e nem tive a pretensão de me passar por Cássia para além dos palcos do teatro, isso sempre foi muito claro para mim, mas eu percebi o quanto não era claro para as pessoas. Então, eu tô explicando toda essa construção porque 10 anos, de você executando um trabalho como esse e mesmo com essa consciência, a simbiose tornou-se inevitável. Então, eu tive que, quando foi uma decisão muito natural, quando o musical anunciou a última turnê, a última temporada, eu em momento algum me coloquei indisposta em relação a isso. Eu acho que já tava no momento mesmo de encerrar. Os projetos, eles precisam ter começo, meio e fim. Eu sou avessa a essa coisa de coisas infinitas que duram para sempre. Eu acho isso é um pouco doente por parte da sociedade, sabe? Acho que as pessoas têm que aprender a lidar com os seus lutos e encarar as mortes das coisas. Pessoas morrem, trabalhos acabam, fases acabam e o a lei da vida é impermanência. O ser humano é que é muito apegado e não sabe lidar com os fins. Então, para mim foi um fim muito natural que eu já queria concluir. Foi um trabalho que me trouxe muitas alegrias, muitas felicidades, muitas conquistas profissionais, mas estava no momento de eu, sabe, já tinha outros projetos aquecidos que estavam começando a sair do papel, então eu precisava desse espaço e dessa concentração. E mais do que tudo, da energia, porque quando você tá no teatro, fazendo um personagem biográfico, você precisa demandar energia. E em 10 anos eu mudei demais, e eu tava mais do que nunca com vontade de vivenciar a minha pele, a pele de Tacy. E é isso que eu venho tentando mostrar para as pessoas, desde que eu encerrei essa fase da minha vida, eu venho trabalhando com afinco, em novos projetos e entendendo que eu sou uma artista com posicionamento social, que faz questão de trazer o seu posicionamento social para a sua arte. Eu não sou uma artista de mero entretenimento, chegar lá e faz uma coisa para entreter e vai embora, sabe? Não. Eu tenho mais prazer se eu incomodo, entendeu? Eu vou botar o dedo na ferida mesmo, eu vou militar sim em prol das causas que eu acredito, das coisas que eu acredito. E eu sei das consequências disso. Existem os pró, existem os contras, mas eu tava muito insatisfeita em ser só um arroz de festa, eu estava bem incomodada com esse posicionamento, porque eu sentia que ele não era pleno. A Tássia de verdade não queria ser isso. A Tacy de verdade fala pra caramba, pensa a respeito. Eu tenho, porra, muitas ideias, não só criativas, mas sobre discussões, questões sociais, posicionamentos, e eu fiz questão de trazer isso à baila, e eu acho que nesse processo de desconstrução, eu venho tentando trazer esse olhar para o meu para o meu trabalho, para a minha obra e tentando fazer com que as pessoas, aos poucos, elas possam enxergar a Tacy. Eu aposto na diferença, eu aposto, claro que eu não pauto a minha carreira, assim, pelo tipo, ‘ah, isso parece ou não com a Cássia’, eu não posso fazer isso, porque isso seria uma sacanagem comigo mesma. E se as pessoas encontrarem pontos em comum e insistirem nessa simbiose, aí não cabe mais a mim. Cada um faz o que quiser com o seu olhar. Mas os rumos do meu trabalho hoje, tem como foco os rumos da Tacy, sobretudo, antes de qualquer coisa.
Dissonância: Você afirma que "criar também é partir". Como o seu “novo” nome artístico, agora apenas Tacy, reflete essa sua busca por simplicidade e verdade consigo mesma?

Tacy: Exatamente isso, acho que a simplicidade, verdade, acho que sempre houve, mas simplicidade, porque veja, não tenho nada contra meu nome, acho que eu já até falei isso em podcasts e isso já rodou no Instagram e tudo, imagina, não é uma questão de "ah, não gosto do meu nome". Não tem a ver com isso. Foi uma escolha, na realidade, pensando em simplificar mesmo, né? Porque não tem nem a ver com essa coisa da simbiose da Cássia, nada disso. Foi uma coisa que me recomendaram na época, a produção que eu tava trabalhando na época, falou assim, pô, quantas Tacys você conhece? Você tem a Tássia, você tem similares, Tatis, muitos nomes parecidos, mas Tacy, quantas Tacy você conhece, artisticamente falando? Nenhuma. E assim, se a Anita pode ser Anita, eu ousei resolver que eu queria ser quatro letras artisticamente, eu acho que resolve melhor. E comecei esse processo já tem um bom tempo. Eu fiz troca artística. As pessoas acham que é agora, mas eu fiz a minha troca artística em 2022. Então, já tem uns quatro anos que eu fiz essa troca do nome. E interessante como você precisa avisar as pessoas e avisar as pessoas e avisar as pessoas e como o nome é uma coisa que fixa, que pega. Colegas na hora de anunciar em participações no palco, às vezes mandavam, Tacy de Campos, aí eu, "pô, agora é só Tacy". E não mudou nada. Não não é uma mudança, ó meu Deus, mas a gente tá muito acostumado, a ter nome e sobrenome. São sempre dois nomes, né? Como se o nome, um único nome, soasse quase arrogante, quase prepotente. "Como assim? Então você acha que só um nome te identifica melhor do que dois nomes?". Mas, como te falei, eu ousei arrojar, porque é isso, eu sou Tacy desde antes de eu nascer. A minha avó já me chamava assim, a minha mãe me chamava assim. Eu gosto de ser chamada assim, eu achava o "de Campos" às vezes um pouco pomposo demais. É uma pompa que não faz parte nem da minha personalidade e nem da natureza do meu trabalho, sabe? Então, acaba que esse nome de certa forma, com esse momento dos últimos dois anos, ele entrou em plena consonância, porque acho que ele reflete ainda mais esse viés orgânico. Eu sou uma pessoa, uma pessoa artística principalmente orgânica. Eu gosto daquilo que é verdadeiro, daquilo que é quase artesanal. Mas que é honesto. Eu não não curto muito respostas plastificadas, eu não curto muito propostas que têm que maquiar demais para convencer, já me dá preguiça. Eu falo, "porra, não vou conseguir comprar essa aposta porque se eu tiver que maquiar demais, eu não vou imprimir a verdade que aquela que aquilo ali precisa". E e não se trata de atuação. Eu acho que até mesmo uma atuação bem-sucedida, ela precisa acontecer. Você precisa ter uma notas de verdade naquilo. Você tem que encontrar uma verdade nem que seja dentro de você, dentro da criação da persona. E é isso, eu sempre opto pelas escolhas mais orgânicas e mais verdadeiras possíveis, mesmo que a verdade doa, e aí muitas das vezes afasta pessoas, mas eu sempre acho que dos pecados é o menos execrável.
Dissonância: Você costuma dizer que o amor é como uma árvore, com raízes profundas e detalhes no dia a dia. Como essa metáfora se traduz na sua forma de compor e de se conectar com seus ouvintes?

Tacy: Pois é, a música “O Nosso Amor Vai Virar Uma Árvore”, eu acho que foi uma, uma canção que quando eu fiz, eu não tinha dimensão do significado que ela alcançaria através do tempo. E não seria a primeira vez que eu me surpreendo com uma canção. Às vezes quando eu faço a música, ela tem um primeiro sentido, uma primeira camada, mas ela vai ganhando camadas ao longo do tempo. E essa foi uma feliz canção, porque quando eu fiz a música, ela tinha um sentido, ela tinha um objetivo. Depois, conforme eu fui tocando em vários shows, uma música que as pessoas gostam, né? Uma música, ela tem uma alegria, ela tem uma energia, muito embora ela não necessariamente seja um refrão chiclete, mas ela tem uma frase chiclete, que eu acho que é uma excelente tradução para as apostas, pra nossa fé na vida, pra nossa fé nas coisas que a gente acredita. O amor, ele é uma coisa que demanda dia a dia, que demanda cuidado, que demanda regar plantinha, revolver a terra. Tudo que aquilo que a gente quer fazer crescer, que a gente quer investir precisa de tempo e, para isso, você precisa dessa demanda diária, dessa demanda a quase artesanal. E eu acho que é uma metáfora, eu acho que essa metáfora fala exatamente sobre isso, sobre tudo aquilo que a gente acredita, que aquilo que a gente aposta, que a gente deposita fé. Fé muito antes de crença. Eu sou uma pessoa totalmente anticrença. Eu não tenho fé, aliás, não tenho crença, mas tenho muita fé. Eu tenho muita fé nas relações que eu procuro ter com as pessoas, eu não sou do tipo de pessoa oportunista ou que cria relações só pra, sei lá, alpinismo, sabe? Alpinismo social, alpinismo profissional. Eu não consigo acreditar nisso. Sabe? Eu não vou fazer amizade com uma pessoa famosa ou com mais nome, mais projeção que eu, porque eu quero pegar uma carona. E essa conexão ela só vai acontecer se ela for de fato real, se houver realmente uma conexão real entre eu e aquela pessoa, e se as coisas caminharem para isso. Então, eu não sei se existe, obviamente, a gente sabe que existem outros caminhos, e deve existir pessoas que têm um olhar mais estratégico em relação a isso, mas eu não. Eu não me pauto por esse crivo. A minha pauta é realmente a conexão verdadeira, a conexão real. E o “Nosso Amor Vai Virar Uma Árvore” é uma canção que traduz exatamente esse lugar da conexão verdadeira. Eu acho que as pessoas que me ouvem, que ouvem as minhas músicas, que estão sempre dando feedback, “ó, pô, você tá na minha playlist”, pô, esse mês, feedback do mês do Spotify, sabe? Sempre tem uma galera que vai lá, posta, marca, e eu vejo que essa música, ela já foi muitas vezes postada, repostada, a galera gosta de ouvir. Já vi pessoas cantando no show, fico sempre radiante quando eu vejo a galera cantando junto. Para mim foi uma alegria muito grande ano passado, em 2025, quando a banda autoral, independente de indie rock, Flores de Plástico, gravou essa música, fez uma versão de “O Nosso Amor Vai Virar Uma Árvore”, e eu participei, ficou muito bacana e desde então, nós temos feito várias dobradinhas, participações. Dessa gravação renderam, assim, muitos encontros, inclusive o show “Encontros”, meu show autoral, atual, ele nasceu quase que ao mesmo tempo. Foi no mesmo ano, numa época muito próxima dessa de quando eles lançaram essa versão; e eu fiquei muito feliz, porque de alguma forma, eu penso assim, se a minha música alcançou o ouvido deles, eu já tô feliz. Mas se, mais que alcançar os ouvidos, bateu fundo, fez algum sentido, e justificou falar, cara, é mais do que ouvir, gostar, regravar. Também eu quero cantar esses versos, também eles fazem sentido para mim. Então, eu alcancei os céus, porque é sobre isso. É sobre isso, sabe? Quando aquilo que você jogou no universo em termos de energia, de linguagem, de mensagem, se aquilo fez sentido para o outro e o outro também vai levar aquilo adiante, é como se a minha missão enquanto compositora tivesse sido cumprida nessa terra. O meu desejo maior é que as pessoas ouçam as minhas músicas e gravem as minhas músicas e façam versões novas e levem adiante. Eu não tenho esse preciosismo de arranjo. Eu sou arranjadora, adoro fazer arranjo, gasto um tempo fazendo isso, é um dos meus maiores deleites, meus maiores prazeres. Eu adoro tempo de estúdio criando arranjo, gravando, eu gosto muito, tanto quanto a experiência ao vivo. Acho que são duas experiências totalmente diferentes, mas existe um prazer no estúdio de criação que é muito prazeroso para mim. Então, exatamente por eu valorizar isso, quando eu vejo alguém regravando uma música minha e essa pessoa também traz uma proposta, eu vejo, pô, essa pessoa se debruçou, pensou em algo, sabe? Teve o afinco, teve um trabalho ali, sabe? De decodificar aquela mensagem e trazer ela para uma nova linguagem musical, respeitando, as bases, as estruturas que a música tem, mas, sabe, com a identidade daquele que agora vai ser um novo porta-voz. Mais uma pessoa cantando por aí que o nosso amor vai virar uma árvore. Para mim foi, para mim é, essa é a função de um compositor. É assim que a gente fica eterno, quando a nossa palavra ganha vários ouvidos, ganha várias bocas e passa a ser passada adiante por outros sons, por outras pessoas. Acho que isso é a verdadeira eternidade.
Dissonância: No show "Tacy canta Todas as Mulheres do Mundo", você assina a direção musical e os arranjos para homenagear ícones do rock feminino. Como foi o desafio de traçar essa linha cronológica dos anos 50 até hoje sob um olhar puramente feminino?

Tacy: Caramba! Criar o show Todas as Mulheres do Mundo foi um baita de um desafio. Era um desejo meu antigo. Posso dizer que a primeira vez que eu falei, “cara, eu quero montar um show 100% executado por mulheres e com repertório 100% originário feminino”, lá por 2017. Já tem uns 10 anos, mas na época eu não tinha expertise, eu não tinha as pessoas que eu precisava pra poder elaborar isso. Só tinha a vontade. E aí ficava fazendo uns rascunhos, pensava, “ah, uma hora eu vou conseguir executar essa ideia”. Corta. Estamos em 2022 e aí eu tava já com parceiro de inscrição de edital e tal, surgiu alguns formatos de edital e aí veio a ideia, eu falei, “cara, aquela ideia”. Me falaram assim, “você não tem nenhum projeto novo, mais ousado?”. Aí, pá, veio a ideia de fazer o projeto “Todas as Mulheres do Mundo”. E aí a gente vai burilando. A gente vai rascunhando, criando as primeiras bases. E aí quando, de fato, você tem o projeto aprovado, que você fala, pô, agora vai, né? Agora vai rolar, tem a verba, tem o dinheiro. Aí você tem que correr atrás de fazer a coisa acontecer, porque ela definitivamente vai ter que sair da ideia e se materializar. E nesse processo foi um desafio muito grande, porque foi quando eu me dei conta de que o meu trabalho artístico, e acho que de muitas mulheres como eu, acho que já passaram por isso, de você olhar ao redor e perceber que o seu meio de trabalho profissional é praticamente todo masculino. O meio profissional do business, a proporção ainda é muito desigual entre homens e mulheres. Você sacode uma árvore e caem 10 bateristas. Se sacodir muito de com força, cai talvez três bateristas mulheres. E sem contar que existem lacunas dentro dessas camadas profissionais. Você tem musicistas que agora estão com nome, que estão no business tocando e acompanhando grandes artistas, fazendo suas carreiras solo, fazendo turnê internacional, mas, veja, elas não vão ter agenda para um projeto que tá saindo do papel agora. Elas não vão ter essa disponibilidade. Então, você precisa de musicistas mais imediatas, com mais disponibilidade, mais tangíveis. E aí onde é que você encontra? E aí eu comecei a ir atrás, isso me forçou a ter que ir além dos meus horizontes, sabe? Buscar novos nichos, novas pessoas, novas conexões. E eu tive a felicidade de encontrar meninas maravilhosas, que hoje são uma rede que deu muito certo, elas em si formaram uma rede também. E esse foi um dos desafios. O outro foi, pô, tenho um projeto, quero contar a história das mulheres no rock, porque o rock é um gênero extremamente machista, sempre vendido e perpetuado pela ótica masculina, tem um qualquer coisa de virilidade ali, né? O rock, ele carrega consigo essa energia extremamente masculina, como se a energia masculina não pudesse ser apropriada pela mulher, como se a mulher fosse sempre 100% energia feminina. Como se o rock não pudesse também ser permeado por uma energia feminina, como se ele tivesse sempre que ser rude e muito animalesco. Sendo que o rock, ele tem a sua trajetória através das décadas e passou por inúmeras transformações. Quando eu comecei a fazer essa pesquisa, eu li vários livros, de cronológicos. Então eu tive assim que ir atrás de livros que faziam cronologias da história da música e aí eu você ir pinçar, “ah, o que é que aconteceu aqui na década de 60? Quem fez o quê? E dentro de quem fez o quê”, você ir pesquisando, é pesquisa artesanal mesmo, não é dar um Google rápido, não é ir no GPT e pedir para ele fazer pesquisa por mim. É aquela pesquisa mesmo que você tem que ir atrás das fontes e ir pinçando mesmo, sabe? O que é que faz sentido? Você tem um norte na sua pesquisa e você vai pinçando o que faz sentido. E foram muitas leituras assim, foram documentários, foram horas de YouTube, caçando uma sorte de músicas e de álbuns e fazendo listas e mais listas e mais listas de artistas. Eu poderia ter feito um baile de “Todas as Mulheres do Mundo”, mas eu sempre tive em mente que eu queria, sobretudo, um show palatável, popular. Então, eu tinha que focar nas músicas mais conhecidas, porque era um projeto que eu queria que desse muito certo, tanto quanto o projeto que eu estava me desligando, que era o show de homenagem à Cássia. E eu queria também desmistificar essa ideia de que o rock and roll no Brasil nas mulheres aconteceu e se resumiu apenas a Rita Lee, Cássia Eller e Pitty, como se só elas fossem roqueiras. Talvez elas tenham sido as únicas que tenham colado nos peitos o adesivo, sou roqueira mesmo, é isso aí. Mas Gal Costa cantou rock and roll por anos. Elis Regina cantou rock and roll por anos. Você tem a mãe do ieieie, que é a Celly Campelo, sacou? Aí eu voltei lá na década de 60 e aí você tem Nora Ney, por exemplo, que é reconhecida como uma cantora de samba, mas que começou cantando roquinhos, começou cantando “Rock Around the Clock”. Aí você tem a Leninha Silveira, contemporânea dela, que gravou uma versão em português de “Rock Around the Clock”. E eu abro o show “Todas as Mulheres do Mundo” com essa música. Eu tento criar o show, eu tento construir a narrativa do show partindo sempre de uma premissa cronológica, porque eu acho que esse show ele é para contar a história da mulher dentro do recorte do rock nacional. Então eu faço um recorte nacional e da perspectiva feminina. E eu descobri que essa pesquisa ela não estava pronta, saca? Por isso que eu tive que ir catar na mão. E isso foi uma coisa que me surpreendeu, porque a gente acha que alguém já pensou pela gente nisso, mas cara, não. E aí eu me dei conta de que não tem ninguém olhando para isso. Não tem ninguém. E aí se você não tem ninguém olhando para isso, é como se isso não existisse, mas existe. Existe. Aí você pensa, ah, então cantoras como Ana Ana Carolina, Zélia Duncan são do rock? Não. Isso também é outro mito. Elas no máximo têm uma música mais pop aqui, outra mais pop ali, mas elas não fizeram rock and roll. O rock and roll, ele foi muito auge na década de 70, depois ele vai adquirindo contornos mais pop, mais synth, nos anos 80, nos anos 90, parte dele vai para o grunge, outra parte vai para o punk, e nos anos 2000 mesmo, é que eu tenho uma dificuldade um pouco maior, porque até então as pesquisas, elas levavam para nomes certos. Dos anos 2000 em diante, você tem o reflexo da internet, né? E é inevitável. Que pulveriza. E aí você tem muitos nichos com recortes de mulheres em nichos, mas você não tem mais um recorte de massa, você não tem mais popularidade. Então, o show, ele vai contando cronologicamente essas histórias, mas quando ele chega nessa fase, eu observo, e aí a observação de já ter feito alguns desses shows em diferentes locais, com diferentes públicos, eu percebo que há uma certa desconexão do público da década de 70 quando chega na fase dos anos 2000. E eu também fico ali numa de fazer vários testes, sabe? Curadora, assim, tipo, “hum, aqui vai caber botar uma música da banda Luxúria”, que bombou muito no período da MTV, que não era uma banda 100% feminina, mas é uma cantora que compunha, que é a Megh Stock. E foi aquela fase da banda Luxúria. Depois ela saiu, a banda continuou, hoje em dia, já tem muitos anos, segue com o vocalista masculino, mas é um recorte que eu fiz da época. E, pô, e aí você pensa que é um trabalho simples, que é um trabalho fácil, ou que é um trabalho que alguém já fez mas não fez, e é sobretudo um trabalho contínuo, porque é uma pesquisa, de um olhar muito particular, do que que a gente consegue encaixar dentro da narrativa do rock e expandindo também o rock para além do que de propriamente você pode entender como um gênero musical. O rock, ele também é uma atitude. Quando eu expandi esse conceito, eu facilitei também o meu trabalho, porque por exemplo, eu pude contemplar no repertório do meu show uma artista como a Liniker, que fez um feat com o Johnny Hooker e cantou Flutua, que é uma música, que é um blues lindo, saca, com uma pegada de rock and roll, com uma atitude de rock and roll, com artistas que têm esse olhar transgressor, esse olhar contracultura, esse olhar progressista. E eu queria trazer esse olhar, porque ele não só dialoga com a proposta do projeto, mas dialoga com a minha. E eu queria trazer isso porque eu sei o quanto essa música, além de ser uma delícia, o quanto as pessoas amam, né? As pessoas amam quando eu faço essa música no show, e aí você vai tendo recortes do quanto esses artistas também são amados pelo público, e você vai tendo outros tipos de termômetro e tendo ainda outros feedbacks. Eu sou muito feliz com esse projeto, eu quero que ele não pare tão cedo. Eu quero muito rodar com esse projeto. Uma banda grande e sempre tem convidados especiais. Eu procuro sempre chamar mulheres, convidados especiais. Sempre conto com a artista Miriam Ruperte, que é uma cantora e compositora que eu conheço de muitos anos, e que tem uma energia incrível no palco, temos canções juntas. E é uma parceira, uma amiga, muito generosa no palco. Já chamei a Sonja, maravilhosa, que é um vozeirão. E ela não só veio cantar uma das mulheres homenageadas, como cantou sua própria música. Eu sempre tento fazer essa conexão e trazer a música autoral, porque é isso, a gente não sabe, o autoral, tudo é autoral, tudo tem autoria. E o que difere é a popularidade. Um dia a música dela vai ser popular, um dia a minha música vai ser popular. Quando que a gente vai descobrir isso? Quando a gente cansar o ouvido das pessoas de tanto elas ouvirem. Então a gente não pode nunca se escusar de botar uma música nova no show, porque você não sabe o que é que vai pegar o ouvido da pessoa e você tem que continuar, sem pedir licença. Então eu acredito nisso. E aí é esse casamento de mulheres da nova geração, de outras gerações, juntas em prol de contar a história das mulheres, desse recorte tão particular das mulheres no rock produzido no Brasil.
Dissonância: O projeto "Beatles Fora da Caixa" traz versões exclusivas que misturam latinidades, jazz e reggae. Por que era importante para você que essa banda fosse formada exclusivamente por mulheres?

Tacy: Beatles Fora da Caixa é um projeto dissidente do projeto Mulheres cantam Beatles, que é um projeto que passou mais de uma década fazendo sucesso, porque nasceu entre Rio e Niterói. E inicialmente, eu não fazia parte dessa época, nem morava aqui no Rio, mas é um projeto que era encabeçado por outras pessoas, por outras mulheres, só que era num formato diferente. Não era versão, era cover, era uma banda masculina e sete cantoras, fazendo arranjos vocais muito elaborados. Aí você teve muitas fases. Então teve da Ira, a cantora da Ira, teve uma época que, quem cantava no Mulheres Cantam Beatles era Samantha Schimidt. Uma época, o projeto foi áureo, tava rodando o Brasil, fez muita turnê, fez turnê na Inglaterra. Tanto é que tem até vídeo desse pessoal lá Jô. O projeto Mulheres Cantam Beatles foi parar no Jô. Então, foi um projeto de muito sucesso, que rodou muito o Brasil, deu o que falar, teve personalidades da música. E só que depois, ele meio que deu uma parada. Então, quando eu cheguei em Niterói e conheci a Mari Dantas, que era uma remanescente desse projeto, e eu fiquei sabendo, eu fiquei doida, eu falei, “caraca, como é que pode? Esse projeto tem que voltar pra gente poder movimentar”. E aí, só que já era um outro momento, já tinha saído muita gente, o projeto realmente tinha parado e ela se separou dos integrantes. E aí, pra poder seguir com esse projeto, ela tava bastante reticente, aí eu botei uma pilha, falei, “vamos tentar então montar uma coisa 100% feminina, uma banda de mulheres?”. Falei, aí ela cedeu, a gente montou, e aí foi quando eu chamei a Helena, que hoje faz parte da Beatles Fora da Caixa. Na época a gente estava com a irmã da Daira, a Dacha, e aí, e chamei a Alcione pra tocar na bateria, Alcione Zakowski, que hoje também tá na Beatles Fora da Caixa. E com essa primeira formação, nós montamos a volta do Mulheres cantam Beatles, só que fizemos um ou dois shows apenas e aí, enfim, a Mari realmente tava com outros planos. E aí nesse ponto, eu entendi assim que, o que é que aconteceu? Eu já trazia ideias novas, né? Essa coisa de fazer arranjos diferentes veio de mim, porque eu tenho essa inquietude criativa. Eu gosto de criar, eu sou uma artesã da palavra e da canção, eu me considero. Então, eu não tenho muita paciência para cover, para ficar reproduzindo o que os outros já fizeram. Eu acho, na verdade, uma enorme perda de tempo. Assim, a não ser que você vá promover uma homenagem aqui ou ali, mas gratuitamente, uma banda como Beales, por exemplo, quantos e quantos e quantas pessoas já reproduziram o que eles fizeram e vão fazer muito melhor que eu. Eu sei que eu vou fazer melhor se eu puder criar em cima. E aí foi um ponto, foi o ponto onde a gente fez a dissidência, porque com a saída da Mari, que era remanescente direta do Mulheres cantam Beatles, a gente entendeu que para seguir com aquela proposta de Beatles e dentro dessa proposta de fazer diferente, a gente teria que assumir um novo nome e assumir essa identidade nova mesmo. E foi o que nós fizemos. E aí, de 2025 em diante, nós fizemos, tivemos várias formações, entraram meninas, saíram meninas. E por que mulheres? Porque é parte da minha verdade. Eu me coloquei e me coloco hoje no meu trabalho artístico, com para além da missão de compor e de levar as mensagens, as coisas que eu canto para as pessoas, eu encontrei em mim uma missão, e a minha missão é lutar pelo lugar da mulher, o espaço da mulher na música, e sobretudo o espaço que ela quiser, não esses espaços pré-prontos, sabe? Ah, claro, vamos botar o lugar da mulher na música. Lógico, pega lá, cinco cantoras, como se a mulher só cantasse. Pra quê? Pra ter uma banda 100% masculina, que detém os arranjos, os conhecimentos, e ela fica refém e não consegue negociar, porque a gente sabe como é que funciona. Não vou dizer que são todas, mas várias vezes, as mulheres, por não possuírem o conhecimento harmônico, por não conhecerem o conhecimento de arranjo, elas ficam rendidas, ficam na mão de caras que, por vezes, olham para as mulheres e falam, ela não tem capacidade de opinar no arranjo ou dizer o que deve ser feito. E eu encontrei uma missão aí, eu falei, eu vou, se eu puder, eu vou só botar só mulher. E assim, foi um tempo muito curto, desde que eu encerrei as atividades de caçadora musical, de que encerrei os shows de caça, em 2 anos, todos os meus projetos praticamente se tornaram 100% femininos. Então, eu fiz uma revolução na minha vida, e tentando fazer pequenas revoluções onde eu consigo tocar a minha mão, e eu acho que isso é o que vai fazer a grande revolução. Se eu puder tocar outra pessoa que vai, que também vai entender isso como uma missão e levar isso adiante, se eu puder tocar você com essa ideia, pronto, a gente fez uma corrente do bem. E eu vejo que não tem muita gente fazendo isso e que os grupos em que você tem mulheres fazendo isso, são pequenos grupos e eles estão sempre muito espalhados, né? E é um plano do patriarcado, na realidade. O plano do patriarcado é manter as mulheres incomunicáveis, as mulheres têm que ser rivais umas pelas outras, porque o foco delas sempre tem que ser um macho. Só que isso não faz o menor sentido para mim. O meu foco nunca foi e jamais será um macho, sabe? Tipo, e eu não tô falando a nível pessoal, eu tô falando a nível profissional também, sabe? os meus ideais, os minhas referências são mulheres, eu não fico batendo palma para homem, alguns, os que realmente considero muito bons. Mas mesmo assim, sabe? Então, assim, minhas referências, meu foco, minhas refs são todas mulheres. Então, eu quero cada vez mais mulheres no palco tocando muito, estudando muito e ganhando palco, em vez de, e falo isso nos shows, inclusive. Vocês que são pais, vocês que são mães, em vez de vocês pegarem, virarem para o seu filho, darem uma guitarra para o seu filho e uma panela ou uma boneca para sua filha, não há nada, nenhum problema com a boneca, mas experimenta fazer a inversão, dá uma boneca para o seu filho, porque o seu filho brincar de boneca não vai abalar a sexualidade dele, você não tem nada a ver com isso também, né? Isso é uma escolha dele, não passa por pai e mãe. E dá uma guitarra para sua filha, dá um par de baquetas para sua filha, dá um baixo elétrico de brinquedo para sua filha, sabe? Porque você pode mudar a vida dela, você pode dar uma perspectiva totalmente nova para ela, você pode salvar ela de uma depressão. A conexão com a música, a conexão com a arte, ela salva pessoas. E por que que na hora de você escolher quem você salva, você salva mais homens que mulheres? Então, isso é parte do processo do machismo, do patriarcado social. E quando eu entendi isso na raiz, eu falei, cara, eu quero ser um agente de mudança aqui. Então, como é que eu posso fazer isso? Vou mudar o meu círculo de trabalho, o que eu faço com as relações que eu tenho com as pessoas. Então é por isso que a Beatles Fora da Caixa, ela é feminina, por essência, e eu acho que esse é o grande barato, porque, homens cantando homens, isso aí não constitui novidade nunca. Desculpa, eu sou mulher. Eu tenho, eu vou cantar uma outra mulher, e isso também vai ser maneiro. Tá aí o Todas As Mulheres do Mundo, mas quão ousado é uma mulher ousar cantar um homem à sua maneira? Não à maneira dos homens. Então, esse é o meu propósito. Então, sou eu quem trago os arranjos, as ideias de fazer, o show da Beatles Fora da Caixa hoje, é um show onde a gente faz um apanhado de músicas dos Beatles, não necessariamente só as mais famosas, também tem, mas existem outras mais intermediárias. E a gente arroja mesmo. Então, a gente se inspira em versões de Sarah Vaughan, Steve Wonder, e faz versões originais também, em jazz, em samba, em blues, em salsa. Nós temos a versão de Help em salsa. E aí, faz, e a gente faz umas interseções com músicas da música popular brasileira. Por exemplo, “We Can Work It Out” no meio dela, faz uma incidental em palco do Gilberto Gil. Taxman, começa com Batmacumba. Você tem The Fool on the Hill, inspirado na versão da Sarah Vaughan e que no final faz uma interseção com Tim Maia. E a ideia é essa, essa brincadeira, é abrasileirar os Beatles, contemporaneizar os Beatles e, sobretudo, dá perspectiva de mulheres, né? Eu trago as ideias, eu jogo as propostas, fazemos os arranjos de uma forma coletiva e vamos adaptando, vamos construindo a música, tal qual o teatro, ela não é engessada. Então, e a gente agora vai começar a gravar algumas coisas também, para ter isso registrado. Mas é isso. Acho que eu respondi a pergunta.
Dissonância: Na sua visão, qual a importância de coletivos como o "Mana na Música" para fortalecer a cena de mulheres artistas, especialmente em polos fora da capital, como Niterói?

Tacy: O Mana na Música foi um projeto precioso. Eu fiquei muito feliz de fazer parte. Eu tinha chegado há pouquíssimo tempo em Niterói e tava procurando, foi em 2020, foi bem no início da pandemia, eu lembro que eu tava em casa pensando, “gente, cadê as outras mulheres”, né? E isso ainda não tinha rolado a possibilidade de fazer o Todas as Mulheres do Mundo, mas já tinha essa inquietude. E aí, quando eu vi o anúncio desse projeto, me inscrevi, enfim, rolou. Fiquei muito feliz de fazer parte, foi para mim uma experiência de networking fantástica, porque eu conheci várias mulheres e depois pude indicar essas mulheres para vários projetos que eu conhecia. E foi ali que eu comecei a semente. O Mana na Música, eu posso dizer seguramente, que foi a primeira semente de uma rede de mulheres que hoje eu tenho muito mais fortalecida, no campo da música, tanto de musicistas quanto da área técnica, que também tem mulheres. Eu conheci, pô, Danela Pastori, através do Mana na Música, que é foda, uma referência aí na parte de áudio; e que vem fazendo a diferença no mercado profissional do business, e a gente sabe que o mercado do áudio, da engenharia, dos técnicos de som, que trabalham em operações também é majoritariamente masculino. Então, eu tive contato com esse primeiro universo que me atentou também para esse olhar, pensar, caramba, de fato, o lugar da mulher é onde ela quiser, né? Eu lembro que a gente, eu até respondi uma pergunta dessa numa gravação lá do processo do Mana na Música, mas enfim, eu acho que é um projeto necessário, um projeto que fortalece muito a cena, que tem uma proposta de rede de mulheres. Eu até hoje, sabe, quando encontro as meninas que gravaram, que fizeram parte do projeto, é sempre uma alegria se reencontrar, sabe? Você tem interesse em saber o que que a outra tá fazendo, né? Quer fazer outras coisas, quer compor junto, quer chamar para gravar, para tocar, e isso é maravilhoso. Eu acho um projeto muito potente, acho que é um projeto que tem que ter muitas edições, não só de gravações, de novos trabalhos, como tem que ter esse projeto atuante fazendo shows. Sempre que eu encontro a Flavinha Sales, falo: "E aí, quando é que tem show? Porque eu fiz parte da primeira edição desse projeto, e como era pandemia, virou tipo uma espécie de sound camping. E nós gravamos, tínhamos um dia no estúdio para gravar tudo o que a gente bolou online, e nunca tínhamos a oportunidade de subir no palco juntas para executar ao vivo aquilo que a gente passou meses planejando e que se concretizou em um único encontro, todo mundo mascarada, né? Mas depois houve outras edições e aí eu também conheci as outras manas das outras edições. Como foi precioso esse projeto. Então, assim, acho um projeto fantástico.
Dissonância: Sua história com a música começou aos quatro anos, quando você fugiu de casa atrás de um caminhão de música. Olhando para os seus mais de 15 anos de estrada, você sente que ainda mantém aquele mesmo instinto de "mergulho" profundo na arte?

Tacy: Com certeza, com certeza ainda tem esse desejo de mergulhar e de aprofundar. Se eu pudesse escolher a rotina da minha vida, seria passar o dia inteiro tocando, criando, compondo. Assim, se fosse possível, né, se a vida prática não exigisse tanto que a gente se desdobrasse em tantas funções, e eu jogo, não jogo nem nas 11, eu jogo nas 13. Mas, se eu pudesse escolher, eu viveria para música, 100% o dia todo, da hora que eu acordo a hora que eu vou dormir, porque eu tô sempre pensando em ideias, criações. A música sempre foi uma coisa muito pulsante para mim, muito. Minha cabeça é uma vitrola quebrada, tá sempre tocando alguma música. E eu tenho já, ao longo da vida, sempre tive essa conexão muito forte com a palavra, um som e com a palavra. Então, eu tô sempre anotando alguma ideia, às vezes vem uma poesia, num momento assim, bem pitoresco. E fez muito sentido para mim quando eu entendi essa conexão simbiótica que acontece no meu trabalho entre a palavra e o som. E eu acho que uma das coisas que me ajudou a compreensão disso foi a própria literatura, que eu tenho uma conexão, que vem da infância. Eu comecei leitora ávida desde muito pequena, já tinha esse hábito em casa. Eu via a minha mãe ler, minha tia ler, meu avô ler, vem de uma família de uma galera assim muito, que dava muito valor ao estudo, à leitura, à erudição. E eu levei isso comigo. Então, minha mãe acordava, me botava no berço, eu tenho essa memória, me botava no berço. E eu ouvia uma sombra vindo da sala, ela me botava para dormir e ia ler com a minha tia. E aí, depois no dia seguinte, elas ficavam falando das histórias do livro, e eu ficava assim: “do que que vocês estão falando? Eu não vivi isso”. Aí aos pouquinhos eu fui entendendo que eram as histórias que elas viviam dentro dos livros, elas liam o mesmo livro para depois comentar. Então, essa vivência foi despertando em mim esse amor pela literatura, esse amor pela palavra, e foi lendo uma vez Bukowski, não, não me lembro exatamente o o título, não me lembro se foi Factotum, não me lembro exatamente qual foi a obra, mas o personagem do Bukowski, dizem que é um personagem autobiográfico, né? Na realidade, ele é, poderia ser chamado como uma espécie de autoficção, que é aquele personagem que, digamos que fala muito do autor, mas não leva o nome dele. Então, é uma, tanto quanto livre essa interpretação. Embora exista, eu tenho até uma pesquisa, minha monografia da faculdade foi sobre isso, inclusive. Mas, o Bukowski, o personagem dele, o Chinaski, é um escritor, que trabalha nos correios; e que trabalhou muitos anos nos correios, a vida toda como funcionário público e no final da vida, ele fez muito sucesso e viajava, recitando os poemas, ele tinha uma forma muito particular de recitar esses poemas. E ele fazia sucesso com isso e a editora pagava ele para ele viajar. Só que o cara era um fanfarrão, um cara que hoje em dia estaria completamente cancelado, machista, escroto, babaca, tóxico, péssimo, péssimo. Mas teve uma coisa que foi dita nesse livro, que eu achei muito interessante na fala do personagem, que a mulher vira para o Chinaski e fala assim: "Você é escritor? Mas eu nunca te vejo sentado na frente dessa máquina de escrever, escrevendo". E aí ele vira para ela e fala: "Eu escrevo. Mas para ter o que escrever, eu preciso viver". E aí é sobre isso, sabe? Eh, um escritor tem que, sobretudo, estar vivendo para se ter o que escrever. E até mesmo quem compõe, quem toca, quem produz música, quem cria, precisa vivenciar as experiências para ter da onde tirar combustível para criação. A gente não consegue criar trancada em 24 paredes. Até dá, você pode criar um conceito a partir disso, mas é bem mais fácil quando você vive num mundo que tem estímulos, a gente vai respondendo e vai, enfim, vai vivenciando as coisas. Por isso que eu acho tão difícil de você dissociar a obra do artista. Não tem como na minha visão. Posso tá errada, podem existir outras visões e não acredito que exista uma visão unificada sobre isso. Mas eu acho que uma coisa tá intrinsecamente conectada à outra. Então, eu acho que o o o desejo de mergulhar, de estar junto, da música e e escrever e compor, ele se mantém, ele é perene e vai continuar sendo.
Dissonância: Além de musicista, você é formada em Letras e em 2026 lançará seu primeiro livro, "Híbrida". De que maneira a sua faceta de escritora de poesias e crônicas se entrelaça com o seu processo de composição musical?

Tacy: Então, são muitos processos para criação, para composição. Como eu expliquei no áudio da pergunta anterior, eu tenho essa conexão muito forte com a leitura, com a literatura e inevitavelmente com a palavra. Então, o caminho para criação foi natural. Eu comecei lendo muito, depois veio uma vontade de também escrever. Então, com 12, 13 anos, eu estava tentando escrever um livro. Aí, fui me dando conta de que os escritores que eu admirava faziam suas primeiras publicações adultos, muito adultos, sabe? Com mais, às vezes, de 60 anos, mais de 50 anos. E eu fiquei pensando, “pô, então talvez eu não esteja apta ainda a realizar essa função. Então preciso viver, né? Não vou conseguir escrever um livro agora”. E aí, resolvi ir pelo caminho das paródias. Uma época que eu ainda não dominava o violão, eu fazia muita paródia. Quando eu ganhei meu primeiro violão, aí que eu fiz a liga, digamos assim que o violão foi a conexão entre o desejo de escrever e o desejo de criar, porque aí eu cheguei na composição, eu tinha autonomia para criar o que eu quisesse. E a minha mente já era musical, eu já pensava em métricas, em ritmos e respirações dentro da palavra; e a música é completamente isso, né? Eh, você tá ali o tempo inteiro, eh, fazendo entremeio de frases. Um cara que eu acho genial fazendo isso, por exemplo, é o Gilberto Gil. Existem canções que o Gilberto Gil compôs, que eu queria ter com feito, que eu admiro muito, o processo criativo da escolha assertiva das palavras. Ele faz escolhas muito felizes na hora de fazer essa conexão entre o texto e um texto coeso com uma mensagem foda. E ao mesmo tempo, a conexão com a melodia, com a rítmica. Eu acho muito feliz boa parte da obra do Gilberto Gil, é inspirador. E eu acho que eu, inevitavelmente, em algum momento, eu ia querer retomar esse desejo de escrever. Mesmo eu compondo e fazendo canções. Eu gosto muito da escrita, do processo de escrever. São processos diferentes, mas igualmente prazerosos. E agora eu vou lançar, vou fazer o lançamento do meu primeiro livro, “Híbrida”. Inclusive, o pré-lançamento vai ser agora na Flynn, que é o festival literário que tem aqui em Niterói todo ano. E tô bem feliz, porque primeira publicação, né? A gente fica toda boba e, ao mesmo tempo, muito insegura, porque marinheira de primeira viagem, total, nesse processo. É engraçado como a gente lê, lê, lê, lê, lê, mas na hora de publicar, caramba, e aí? Quando é comigo? Como é que funciona? Mas eu tô adorando. Foi um convite da Vira-Tempo, que é uma editora aqui de Niterói, também liderada por uma mulher, a Amanda Almeida. Eu já tinha feito publicações em coletâneas de mulheres, coletâneas de escritoras, e já tinha umas cinco ou seis coletâneas que eu tinha publicado alguns poemas meus ou algumas crônicas. Eu já escrevia para o jornal também, jornal “A Cena”, tenho uma coluna de opinião no jornal A Cena, uma coluna de opiniões acerca, geralmente de teatro, na parte de cultura. Então, eu assisto os espetáculos e faço sínteses do espetáculo, sempre fazendo alguma conexão com algum tema correlato ao espetáculo. E a ideia de lançar o livro, surge muito porque eu tinha muito material e queria muito publicar esse material, reunir isso. Mas ao mesmo tempo, eu tenho calhamaços e calhamaços de poesia. Então, foi uma triagem que eu fiz dos últimos 10 anos. Eu escrevo poesia há muito antes disso, mas eu quis fazer uma triagem um pouco mais dos últimos 10 anos, que eu acho que já é um material mais maduro, um material com um pouco mais de embasamento, de argumento, de lastro. E aí, a Vira-Tempo caiu como uma luva, porque eu já tinha um desejo de publicar o meu primeiro livro e eu tava pensando como é que eu ia realizar isso e aí veio a Vira-Tempo com um convite. Fiquei mega feliz e aí agora a gente vai fazer o pré-lançamento na Flynn na quinta-feira, dia 13 de agosto. E não vai dar tempo para a publicação da revista, dessa entrevista, mas em breve, eu vou poder divulgar a data de lançamento mesmo. Quero fazer um lançamento, naturalmente não vai ter só um lançamento em Niterói, embora a editora seja daqui, mas o plano é fazer um lançamento com pocket show em Niterói, Rio e São Paulo, e a ideia é estender isso para o ano que vem também. Então, eu tô muito feliz, muito feliz com essa perspectiva de ter um livro em mãos e poder, sobretudo, compartilhar, assim, coisas ainda mais íntimas, que eu acho que, quando a gente compõe, a gente tá dividindo o que vai no nosso coração, mas você tá fazendo uma música, então você sabe que o que você tá escrevendo ali, você vai ter que dividir com as pessoas mesmo, então você filtra, lapida, coloca, escolhe uma palavra melhor aqui, outra ali. O objetivo é comunicar, que chegue no ouvido do outro de uma forma que ele também se identifique. Mas tem tanto trabalho nesse processo, pelo menos no meu, atualmente, nem sempre foi assim, mas hoje eu tenho esse cuidado, que você vai deixando mais, tem vários processos na composição da canção, para mim, hoje. Ela é menos naquele processo de pega, senta, escreve e vai do jeito que que vai. Mas no livro, mesmo eu fazendo as revisões, escolhendo a dedo cada poesia, eu me sinto, assim, cara, é isso mesmo, eu vou dividir esse poema que eu escrevi quando eu tava, sei lá, sentada num meio-fio, depois de perder um ônibus de viagem, depois de uma briga, depois de ouvir um, sei lá, uma coisa absurda. Se você lembra da situação que você escreveu aquilo, é como se você tivesse dividindo a intimidade máxima com as pessoas. Então, para mim tem um esse lugar um pouco de insegura, é uma insegurança, acho que é natural, mas também uma felicidade, porque é isso. É sobre um pouco também, a felicidade da coragem. Que bom que eu tive coragem suficiente de mostrar, porque se a pessoa não gostar, tá tudo bem, eu sei lidar com críticas, ainda mais se elas são construtivas. É, as destrutivas eu tento fazer o ouvido de mercador, e se não tiver jeito, eu retruco. Mas eu aprecio críticas, não sou aquela pessoa que não sabe receber crítica, mas, sobretudo, a liberdade do outro poder tirar a conclusão que ele quiser a partir do meu verso, que eu já vi isso acontecer na canção, só que a canção tem sempre o som como um ponto conector, que às vezes aliviava o verso. O verso não. A música do verso tá na minha mente. A música do verso que vai tá na cabeça da pessoa que abriu o livro pela primeira vez e olhar o texto, vai ser outra, e eu tô assim muito ansiosa para saber como é que vai ser isso, como é que vai ser esse processo. Eu quero muito ter essa troca pós, acho que vai ser muito legal. Eu tô muito feliz, muito animada com esse lançamento desse livro. Se chama Híbrida, porque não teria como ter outro nome, é como eu me sinto, é como eu sou, é a natureza do livro. É um livro híbrido. Ele, ele é parte poesia, parte crônica e ele é ousado, ele tem um formato ampulheta, ou seja, ele é infinito, ele não tem fim, eles são duas capas. E você começa a leitura, no meio tem uma instrução para você virar ele de ponta-cabeça e recomeçar a leitura e aí você recomeça, vira 180° o livro, recomeça e aí você tá lendo outro gênero, você sai da poesia e vai pra crônica, ou sai da crônica e vai pra poesia, você escolhe. Então, eu acho muito democrático. E ainda tive a felicidade de duas pessoas que fizeram parte desse processo do livro, que foi um amigo, um dos meus amigos mais antigos, mais uma amizade de um, sei lá, mais de 20 anos de amizade, que é o Gil Cordeiro, que é um artista de mão cheia, a gente é quase irmão, nos conhecemos na escola com 17 anos e eu sabia que quando eu tivesse meu primeiro livro, eu queria muito que ele fosse o ilustrador e ele topou fazer as capas. Foi um trabalho cuidadoso, amoroso, de quem é praticamente família, sabe? Um cara que eu posso confiar de olhos fechados, um irmão mesmo. Então, eu também tô mostrando a arte dele. E eu queria muito que fosse esse casamento democrático, de um fortalecer o outro. E fora esse presente, ainda tive um outro presente, que é o prefácio da Mariana Filgueiras, que é uma super jornalista, escritora, biógrafa. Eu toquei e toco ainda há muitos anos com o irmão dela, Daniel Filgueiras, foi através dele que eu a conheci e comecei a ficar fã do trabalho dela, porque ela é uma mulher superconsciente, escreve muito bem, tem excelentes insights, uma escrita espirituosa, foi roteirista do Greg News. Trabalha com uma galera de peso. E, cara, e além de ser uma pessoa muito maneira. Eu convivi muito com a família deles, convivo até hoje, é uma galera muito legal e por essa admiração por ganhar esse prefácio, fiquei honradíssima com as coisas que ela falou sobre o livro, sobre sabe, ter esse feedback, foi muito legal. Então, eu tô muito feliz. Vou ficar aqui mais 10 minutos só falando que eu tô muito feliz. Desculpa o áudio longo, mas eu me excedi.
Dissonância: Hora do spoiler. Você tem projeto em andamento e planos em fase de concretização. Mas o que os fãs podem aguardar para o futuro da Tacy?

Tacy: Sim, muitos, muitos planos. Eu tô sempre querendo criar uma coisa nova, eu tento até que me policiar, porque se deixar, vira, Tacy dos meus projetos, e quem tem 1.000 projetos, não tem nenhum, né? Mas, sim, a ideia era lançar um single, ainda esse ano. Eu ando mais econômica, desde o ano passado, porque eu tô focada em realizar os projetos de show. Isso tem demandado muita energia. E eu dei uma afastada um pouquinho do estúdio, mas a ideia era tentar lançar, pelo menos, um singlezinho já para dar um spoiler do próximo trabalho, que esse show “Encontros” que eu venho fazendo desde o ano passado. Fiz uma edição em Niterói e já tô indo para o terceiro ou quarta edição desse show, no Rio. Dessa vez eu vou estar dia 14 de agosto, semana que vem, no Gamboa in Blues, apresentando o show Encontros, que é uma proposta arrojada. Eu levo um show 80% autoral, eu trago cinco ou seis convidados no show, porque a proposta do show é encontro, né? Então, não é um show da Tacy, exclusivamente. O show começa com uma abertura de três músicas, é um formato bem enxuto. Eu tô cantando e tô no contrabaixo elétrico, sempre acompanhada de um guitarrista ou uma guitarrista, ou um baterista ou uma baterista, e eu faço essa conexão no palco com os artistas, então, o artista que eu convido, geralmente é alguém com quem eu tenho alguma conexão, e aí eu convido ele para fazer uma música dele, onde a gente possa cantar juntos a música dele, e ele cante uma música minha, juntas também. E aí, é bom que a gente conhece as músicas do outro, a gente estuda a música do outro, a gente conhece a música do outro, e aí, o outro artista vem, traz o público dele, e aí você tem um networking fantástico, por isso que o nome do show Encontros, ele é um encontro no palco, mas é um encontro potencial para além do palco, né? Já surgiram composições depois do show de Encontros, onde originalmente o artista foi para cantar a música dele, eu cantei, cantei com ele a música dele, ele cantou comigo a minha música, ou seja, nós nos conhecemos, vivenciamos aquela canção, aquele momento, aquele dueto, aquela experiência única, e percebemos assim, caramba, tem potencial aqui pra gente fazer mais música, pra gente compor. E eu acho fantástico essa natureza desse encontro, porque é o encontro não premeditado no estúdio, é o encontro ali, no show. E depois do encontro no show, que acontece de uma forma, acho que bastante orgânica, é que a gente vai começar a trabalhar um encontro mais planejado. Mas aí a gente já teve aquele primeiro, aquela primeira experiência de palco, aquela vivência de como é que funcionamos ao vivo, um dividindo o outro, e você descobre tanta generosidade, você descobre tantos artistas fantásticos. É um cenário que acaba que é chamado de independente, porque faz muito corre por conta própria, mas eu acho, eu tenho uma séria crítica a esse termo independente, porque eu acho que o artista independente mesmo, é o artista que tem uma gravadora, porque ele já tá independente em muitas camadas de vários partes do processo de quem tá nessa camada mais emergente, sabe? Quando você não é um artista muito conhecido, você acaba ficando muito refém de bilheterias, de espaços que aceitem que você leve um trabalho autoral, são poucos as casas, os espaços. Aí você tem que encontrar esse nicho dos espaços alternativos, encontrar vaga na agenda, as agendas desses espaços não são 100% autorais, então você tem que dividir, com outros artistas e outras atrações que não fazem autoral, que fazem tributos e, enfim, covers e aí acaba que a disputa é um pouco desleal, porque você tem, às vezes, um curador que vai ganhar dinheiro com o show que faz entretenimento, para poder fazer manutenção daquilo que ele considera resistência, por uma consciência dele, de manter o autoral vivo. E isso fica parecendo quase que é uma migalha, sabe? Mas existe uma cena muito forte, existem potências nesse setor, e eu acho uma gafe terrível, que você não tenha hoje, uma indústria olhando para isso e realmente apostando dinheiro nisso, porque não adianta chegar lá e fazer mais do mesmo, em termos de “ah, vamos lá, vamos dar uma ajuda, vamos ceder um espaço”, e o cara continua se fodendo, tendo que locar todo o equipamento de som que a empresa que vai locar, vai cobrar preço de mercado, ninguém vai fazer preço camarada pela causa, entendeu? É muito difícil você, numa escala tão grande, todo mundo sendo camarada, sabe? O negócio é, tem que ter quem invista, tem que ter investimento, tem que ter dinheiro sendo injetado para a gente começar a ver resultado, porque pode existir um cenário de música independente forte, e a gente realmente criar esse cenário independente. Hoje, eu acho que ele é um cenário dependente, porque ele é capenga, é mentiroso esse discurso. Eu acho que é uma forma bonita de fazer a manutenção de uma galera que vai ficar a vida inteira presa num determinado nicho e não vai conseguir nunca transpor, porque só transpõe os escolhidos. No final das contas, é o que dizem, o setor artístico continua sendo sempre pequeno, do mainstream, pelo menos. Mas enfim, falei pra caramba, caí em digressões aqui, apenas queria trazer que as novidades são, um Encontros será gravado. A ideia é pro ano que vem, pro ano de 2027, lançar um álbum, não sei ainda se totalmente de estúdio, ou se totalmente ao vivo, ou se híbrido, mas a ideia é pro ano que vem lançar o álbum. E provavelmente ainda esse ano, lançar algum single, até para acompanhar o lançamento também, e trazer essas parcerias maravilhosas, de músicas inéditas com artistas, que fazem parte da cena carioca, da cena fluminense. E eu tenho o desejo de expandir isso, levar isso adiante, levar para São Paulo, levar para Belo Horizonte, levar para Curitiba. Existem muitas cenas, existem muitos artistas, e essa também é uma, sinto, assim, que isso é uma verve que faz meu sangue pulsar, sabe? Que é a vontade de ocupar o espaço com a cena independente também. Então, as pessoas podem esperar muita militância por parte da Tacy e muitas novidades nessa área. É isso. Muito obrigada.


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