Professor Doidão e os Aloprados
Um manual de sobrevivência para doido certo

A Dissonância está sempre procurando artistas cuja mensagem seja inspiradora e cuja voz mereça ser amplificada. E eu, como musicista, recebo essa missão e acrescento a ela alguns elementos musicais que me são afetos, como um contrabaixo, por exemplo. Por isso, estou sempre buscando bandas em que o baixo esteja nas mãos de quem também assina as mensagens, eu presto atenção redobrada (deformação profissional, me perdoem). Foi aí que me deparei com a banda Professor Doidão e os Aloprados que possui como baixista a Juliana Rosa e ela foi muito certeira ao definir o porquê da banda:
"a gente tem essa coisa de sempre brincar, falar de coisas sérias com tom de alegria"
Guardem essa frase. É uma das definições mais precisas sobre o que essa banda baiana anda fazendo desde a faculdade de Psicologia. Ela explica quase tudo. E começando do começo, a história oficial vem lá por 2007, quando um grupo de estudantes de Psicologia resolveu que tinha "umas letras" demais para deixar na gaveta.
Essa é uma das fotos mais antigas que consegui encontrar vasculhando os históricos da banda.

Isaac Fiterman virou Professor Doidão, Juliana entrou e ficou, e em 2013 chegaram Lucas Kelsch (guitarra) e Cícero Dias (bateria) para profissionalizar a doideira. O estilo eles batizaram de "hippie rock", que é a maneira educada de dizer que passeiam por rock, blues, MPB e ska.

O lema da casa, "seja um doido certo e não um certo doido", parece piada de adesivo de para-choque até o Isaac abrir o manual de instruções. Doido certo, segundo ele:
"é não parar na vaga de idoso, é parar numa faixa de pedestre, é ajudar uma pessoa a atravessar uma rua, é não receber um troco errado e não devolvê-lo".

O certo doido é o outro, aquele que "acumula, acumula, acumula e, quando surta, ele realmente faz uma grande bobagem". Traduzindo para os leigos: melhor surtar um pouquinho todo dia do que economizar surto para o grande espetáculo. Como terapia em grupo, sai mais barato que plano de saúde.

(Reparem que já estou há quatro parágrafos e ainda não falei de um certo disco voador. Calma, chega lá.)
Porque tem disco voador, sim. A mitologia da banda inclui uma abdução no Vale do Capão, e Cícero conta o episódio (se você ouvir o áudio da entrevista vai sentir o tom sério e solene dessa abdução):
"Certa vez, há um tempo atrás, estávamos nós no Vale do Capão, quando de repente, no momento de êxtase musical, de alegria, de positividade, surgiu uma luz que vinha do céu. E essa luz que veio do céu nos trouxe a possibilidade de falar o que a gente sentia e queria para o mundo. Então começamos a falar com essa inspiração naquele momento, o que a gente queria da banda"
Eu, que já vi banda inventar mito de origem com muito menos material, aplaudo o compromisso com a narrativa. Não se pode falar da Professor Doidão sem se lembrar da famosa Kombiruta, o quinto elemento da banda, o veículo palco que virou uma espécie de marca do grupo. Ao ser questionado se viria uma versão renovada da coleguinha motorizada, Lucas Kelsch responde:
"Com certeza existe, até porque é uma ideia nossa do que a gente não chegou a conseguir fazer como queria com a Kombiruta, ainda que a Kombiruta foi um elemento super importante de transporte, mas é uma ideia da gente ter esse veículo que possa também se tornar um palco"

E torço pelo renascimento da Kombiruta, rodou a Bahia, virou saudade, e sempre terá aquela folguinha no volante, insubstituível, por isso que espero que venha outra Kombi.

Agora, uma pausa no riso, porque a banda também pausa. "Morte" é canção que celebra a finitude, e Juliana explica que ela e Isaac perderam as mães nos últimos meses. "A cada dia que passa a gente tá morrendo", ela diz, e transforma o clichê da única certeza em ferramenta para decidir como viver o resto:
"Pergunta profunda, principalmente nesse momento falando de mim, de Juliana e de Isaac. Tivemos perdas importantes, perdemos nossas mães nos últimos meses. E, ironicamente, essa música tá aqui para nos lembrar de celebrar a finitude, porque aquela máxima, o clichê: “a única certeza que a gente tem é da morte”. Então, a cada dia a gente tá morrendo. A gente tá vivendo? Não. A cada dia que passa a gente tá morrendo"
O próximo capítulo se chama "Circo Brasil", e Cícero adianta a intenção de "utilizar a inteligência e a sagacidade do humor para trazer questões relevantes" num ano político. Circo como conceito, num país que às vezes dispensa a metáfora. Não vou fingir que a associação é sutil, mas confesso curiosidade sobre como a picadeira vai soar no estúdio. Nas palavras de Cícero Dias, o disco promete ser bem intenso:
"Em meio a um cenário político, um ano político nesse país, nós decidimos entrar no universo da alegria, do humor, do sarcasmo, da ironia, e trabalhar em cima disso, através desse disco “Circo Brasil”, onde a gente vai utilizar a inteligência e a sagacidade do humor para trazer questões relevantes e que nos fazem pensar"

Apesar de ser um banda, um quarteto para ser mais exato, o personagem que mais chama atenção é o próprio Professor Doidão, cuja pele cobre por inteiro o Isaac Fiterman. É sempre uma questão a ser levantada até onde vai o personagem e até onde fica o Isacc. As duas personalidades estão lá, no mesmo corpo, tomando a mesma água, comendo o mesmo pão, mas só uma delas recebe os aplausos do público. Ao ser questionado sobre o diálogo que acho que existe entre essas duas entidades, o Isaac responde:
"Elas conversam o tempo todo. Agora, elas sabem muito bem o até onde uma vai, até onde a outra exerce a função dela. Essa separação se dá principalmente quando eu subo ao palco. O subir ao palco transforma realmente o Isaac Fitterman no Professor Doidão."
Não que ele não tenha um pouco de Professor Doidão e o professor não tenha um pouco de Isaac. É uma simbiose interessante.

A banda vem cruzando a estrada da arte por longos anos. A formação já se alterou, antigos membros viraram amigos, os novos se tornaram irmãos. Mas será que o grupo ainda tem fôlego para quilômetros, quem sabe a bordo de uma nova kombiruta? A julgar pelo vigor do Isaac, acreditamos que sim. Eles tem aquele temperinho baiano que todo brasileiro conhece e gosta. São resilientes, são audaciosos e, sobretudo, são focados na própria missão. E ao serem questionados sobre o aprendizado que levam dessa jornada, Lucas Kelsch, nos diz:
"É importante que a gente continue a nossa trajetória, importante que nosso som continue chegando a todos os estados, a todas as pessoas, porque o nosso objetivo é continuar pela estrada, tocando e esperando a resposta do público, que tá sendo muito bacana e que a gente quer que continue sendo mais."
Traduzindo, eles não vão parar tão cedo e ainda tem muito chão a percorrer. Espero poder ver a Professor Doidão em muitos palcos por esse brasilzão.
Discografia: dois EPs, "Quero Reunir os Meus Mundos" (2014, gravado ao vivo no estúdio Caverna do Som) e "A Vida é uma Doideira" (2018, estúdio Plutão); os singles "Eu e Você no Vale do Capão" (2019), "Toca Raul" (2023), "Vamos pra Arembepe" (2024) e "Eletrocutaram Meu Gato". No forno, o terceiro EP "Sujeito na Contramão" e o álbum conceitual "Circo Brasil".
Assista ao clipe de Sujeito na Contramão
Direção e Montagem: Dan Borges
Banda:
Isaac Fiterman (vocal)
Lucas Kelsch (guitarras)
Juliana Rosa (contra baixo)
Cícero Dias (bateria)


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