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Professor Doidão e os Aloprados em dissonância - entrevista exclusiva

23/08/2026

Professor Doidão e os Aloprados

Nascida em 2007 nos corredores da faculdade de Psicologia da UFBA e profissionalizada em 2013, a Professor Doidão e os Aloprados fez do "hippie rock" uma carteira de identidade. Isaac Fiterman (voz), Juliana Rosa (baixo), Lucas Kelsch (guitarra) e Cícero Dias (bateria) passeiam por rock, blues, MPB e ska para falar de coisas sérias com tom de alegria, saúde mental, finitude, o Brasil, tudo temperado com aquele sarcasmo que só um doido certo que estuda a cabeça humana consegue dosar. A banda baiana sentou com a Dissonância para explicar por que surtar um pouquinho todo dia é, no fim das contas, uma boa política de saúde pública.


Dissonância: A banda nasceu no ambiente acadêmico da Faculdade de Psicologia. Como a formação em Psicologia de Isaac e Juliana influencia não apenas as letras, mas a forma como vocês lidam com a "loucura" no palco e na vida?


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A PsicologiaJuliana Rosa

Juliana Rosa: Na realidade, a Professor Doidão, a gente tem essa coisa de sempre brincar, falar de coisas sérias com tom de alegria. E a gente costuma dizer que, na Professor Doidão, as nossas letras, as nossas mensagens também pautam muito a questão da saúde mental. Então, se você prestar atenção no que a gente tá dizendo, às vezes pode parecer uma coisa besta ou irrisória, mas na realidade, a gente tá justamente lidando, muitas vezes, com nossas questões, com nossas dores, ou com nossas reflexões, ou a gente tá propondo para que as pessoas que nos escutam, esse tipo de situação. Então, a gente acredita que a faculdade de psicologia, ela nos auxiliou a ter esse olhar para o mundo, para as nossas questões internas, e a partir dessa sensibilidade, conseguir demonstrar, através do nosso som, da nossa performance, aquilo que a gente costuma dizer, de ser um doido certo e não um certo doido.

 

Dissonância: O lema de vocês é "Seja um doido certo e não um certo doido". Para a Dissonância, poderiam explicar a profundidade filosófica por trás dessa frase e como ela combate a submissão cega aos padrões sociais?


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Doido CertoIsaac Fiterman

Isaac Fiterman: Já pegando o gancho do que Juju respondeu na pergunta um, seja um doido certo e não um certo doido, eu vou explicar de uma forma bem ilustrativa. Ser um “doido certo”, é, de repente, não parar na vaga de idoso, é parar numa faixa de pedestre, é ajudar uma pessoa a atravessar uma rua, é não receber um troco errado e não devolvê-lo. Ou seja, são essas pequenas coisas do dia a dia. Ou seja, é você ser correto, ser “doido certo”, é ser correto. E não certo doido, o certo doido é aquele que, de repente, anda no dia a dia fingindo que não é, frequentando a igreja e praticando mal, é aquele que surta e sai matando gente, aquele que briga no trânsito. Então, a diferença muito grandiosa e, ao mesmo tempo, sutil. É uma questão filosófica mesmo. O doido certo é aquele cara que todo dia ele surta até um pouquinho, ele respira, diferente do outro que acumula, acumula, acumula e, quando surta, ele realmente faz uma grande bobagem.

 

Dissonância: A abdução no Vale do Capão é um marco narrativo da banda. Poderiam detalhar para os leitores como essa experiência se transformou em missão artística de "levar alegria ao povão"?


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A AbduçãoCícero Dias

Cícero Dias: Certa vez, há um tempo atrás, estávamos nós no Vale do Capão, quando de repente, no momento de êxtase musical, de alegria, de positividade, surgiu uma luz que vinha do céu. E essa luz que veio do céu nos trouxe a possibilidade de falar o que a gente sentia e queria para o mundo. Então começamos a falar com essa inspiração naquele momento, o que a gente queria da banda, né? O que a gente queria fazer, aonde a gente queria chegar. E a gente decidiu, naquele momento ali, claro que um pouco de fantasia aqui na cena desse conto, mas naquele momento a gente decidiu que a gente queria levar alegria, levar nosso propósito, levar quem somos, o que acreditamos para o mundo. Foi aí que surgiu essa ideia no Vale do Capão.

 

 Dissonância: A banda tem circulado por festivais fora da Bahia, como em Minas Gerais e São Paulo. Qual o maior aprendizado de levar o "tempero baiano" do rock para públicos de outras regiões do Brasil?


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O AprendizadoLucas Kelsch

Lucas Kelsch: Eu acho que mais importante falar de tempero baiano, o tempero, com todo o respeito aos baianos, é o tempero da Professor Doidão, né? Porque todo mundo que escuta a gente, sempre fala da diferença do nosso som. Tem aquela massa que fala, “pô, nunca tinha ouvido nada parecido”. Então acho que isso é bacana demais, é importante que a gente continue a nossa trajetória, importante que nosso som continue chegando a todos os estados, a todas as pessoas, porque o nosso objetivo é continuar pela estrada, tocando e esperando a resposta do público, que tá sendo muito bacana e que a gente quer que continue sendo mais.


Dissonância: O que podemos esperar do álbum "Circo Brasil" e como ele pretende quebrar ainda mais os estereótipos do rock and roll tradicional?


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O Circo BrasilCícero Dias

Cícero Dias: Em meio a um cenário político, um ano político nesse país, nós decidimos entrar no universo da alegria, do humor, do sarcasmo, da ironia, e trabalhar em cima disso, através desse disco “Circo Brasil”, onde a gente vai utilizar a inteligência e a sagacidade do humor para trazer questões relevantes e que nos fazem pensar, além de nos deixar alegres para seguir em frente, pois nós vamos tratar também de saúde mental nesse meio, em meio a isso tudo. Esse disco, além disso tudo, é um disco completamente artístico, conceitual, onde vamos trazer inspirações circenses de outros artistas que trouxeram também essas inspirações e transformar isso num produto, numa obra de arte, que irá levar muita coisa para sentir por aí.

 

Dissonância: Isaac, você mencionou que hoje consegue separar o Isaac Fiterman do personagem Professor Doidão. Como é o diálogo entre essas duas entidades e em que momento um cede lugar ao outro?


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O PersonagemIsaac Fiterman

Isaac Fiterman: Elas conversam o tempo todo. Agora, elas sabem muito bem o até onde uma vai, até onde a outra exerce a função dela. Essa separação se dá principalmente quando eu subo ao palco. O subir ao palco transforma realmente o Isaac Fitterman no Professor Doidão. Não que eu não tenha um pouco do Professor Doidão todos os dias e não que o Professor Doidão não tenha o Isaac Fitterman todos os dias, mas essa separação mesmo, pontual, se dá no palco. No palco é que realmente o Isaac Fitterman se transforma no Professor Doidão.


Dissonância: A Kombiruta foi o "quinto elemento" da banda por muito tempo. Existe algum plano para um novo veículo psicodélico que leve o palco móvel dos Aloprados para além das fronteiras da Bahia?


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A KombirutaLucas Kelsch

Lucas Kelsch: Com certeza existe, até porque é uma ideia nossa do que a gente não chegou a conseguir fazer como queria com a Kombiruta, ainda que a Kombiruta foi um elemento super importante de transporte, mas é uma ideia da gente ter esse veículo que possa também se tornar um palco [Juliana Rosa complementa: – um triângulo nadador, já que era um disco voador. Lucas responde: – É  verdade. É, o seria perfeito, né?] Então acho que é um desejo nosso, que a gente consiga ter esse veículo que tem a cara da banda, assim como era com a Kombi, que seja todo estiloso, que leve toda a alegria para o público e que a gente possa também transformar ele num palco e continuar levando nosso som por aí.

 

Dissonância: Canções como "Morte" abordam a finitude com uma alegria contagiante. Por que vocês acreditam que a nossa cultura ainda tem tanta dificuldade em celebrar a vida através da aceitação da morte?


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Celebrar a VidaJuliana Rosa

Juliana Rosa: Pergunta profunda, principalmente nesse momento falando de mim, de Juliana e de Isaac. Tivemos perdas importantes, perdemos nossas mães nos últimos meses. E, ironicamente, essa música tá aqui para nos lembrar de celebrar a finitude, porque aquela máxima, o clichê: “a única certeza que a gente tem é da morte”. Então, a cada dia a gente tá morrendo. A gente tá vivendo? Não. A cada dia que passa a gente tá morrendo. Então, saber morrer, eu acho que faz diferença da forma como a gente vive, significando dessa forma, ou buscando o significado da maneira como a gente consegue, a gente, de repente, pode ter a vida que a gente gostaria de ter, ou pelo menos idealizaria.


professor doidão

 



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