Agro e Arte, o que eles têm em comum?
Do sitiante com quatro hectares à banda que ensaia na garagem do tio, quem produz pequeno no Brasil enfrenta o mesmo banco, o mesmo formulário e a mesma fila.

Vou começar pelos números, porque eles costumam ser mais francos que as pessoas. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, 3% a mais que os US$ 164,3 bilhões do ano anterior. Isso equivale a 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu para fora, num total de US$ 348,7 bilhões, com um saldo comercial de US$ 149,07 bilhões, o maior da série. Na lavoura, a safra 2024/25 fechou em 350,2 milhões de toneladas de grãos, recorde histórico, com a soja respondendo sozinha por 171,5 milhões de toneladas. No pasto, o país seguiu como maior exportador de carne bovina e passou a ser também o maior produtor do mundo, e ainda virou o terceiro maior exportador de carne suína. Se o agro brasileiro fosse uma banda, estaria naquela fase em que a turnê de despedida ganha uma segunda perna na Ásia.
E tem a parte verde da história, que costuma ficar fora do refrão. O Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) existe desde 2010 e, segundo o Ministério da Agricultura, em dez anos suas tecnologias chegaram a 52 milhões de hectares: plantio direto, recuperação de pastagem degradada, integração lavoura-pecuária-floresta, tratamento de dejetos. A versão atualizada, o ABC+, vale até 2030. Tudo muito bonito no palco. Nos bastidores, um levantamento da Política por Inteiro mostrou que, dos mais de R$ 600 bilhões do Plano Safra 2025/2026, apenas 1,6% foi para o baixo carbono. A sustentabilidade, por enquanto, toca no palco secundário, às quatro da tarde, debaixo de sol.
Agora, desça da colheitadeira
O retrato do campo muda bastante quando a gente sai da planilha de exportação e entra na estrada de chão. O Censo Agropecuário de 2017 (o mais recente completo do IBGE) mostrou que 77% dos estabelecimentos rurais são de agricultura familiar, ocupando 23% da área, empregando mais de 10 milhões de pessoas (67% de quem trabalha no campo) e gerando 23% do valor da produção. Onze anos antes, em 2006, eles eram 84,4% dos estabelecimentos, e no intervalo a agricultura familiar perdeu 2,166 milhões de pessoas ocupadas. Muita gente saiu da roça, e nem todos foram embora por vontade própria.
Quem ficou aprendeu cedo uma lição de sobrevivência: sozinho, o pequeno não tem armazém, não tem escala, não tem poder de barganha com quem compra. Junto, tem. Daí as cooperativas familiares, que fazem o serviço que nenhum gabinete faz direito: compram insumo em volume, guardam a safra, negociam preço, ensinam a preencher papel. Uma cooperativa bem administrada é a coisa mais próxima de um sindicato que funciona (e eu juro que essa frase tem menos ironia do que parece).
O dinheiro existe. O caminho até a porteira tem pedágio
O Plano Safra 2025/26 reservou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 78,2 bilhões para a agricultura familiar, via Pronaf. Dentro da fatia empresarial, R$ 447 bilhões foram para grandes produtores e cooperativas. A conta da desproporção, cada um faz em casa.
Para ser justo com os fatos, o subsídio propriamente dito, aquele em que o Tesouro paga a diferença dos juros, pende para o lado da família: segundo o Climate Policy Initiative da PUC-Rio, 62% dos R$ 8,5 bilhões em subsídio do Plano Safra 2023/2024 foram destinados à agricultura familiar. O problema aparece quando a gente pergunta quem, dentro da família, consegue pegar o dinheiro. O mesmo estudo mostra que só 15% dos agricultores familiares obtêm crédito rural; o Pronaf responde por 70% a 75% dos contratos e por apenas 14% a 15% do volume; no Sul, 29% dos produtores acessam crédito, no Norte, 9%; e entre quem tem até 4 hectares, o índice cai para 10%. Outro trabalho, da UFMS, mostrou que o Sul financiou mais de R$ 19 bilhões pelo Pronaf, quatro vezes o volume do Nordeste.
Traduzindo: o recurso desce do Planalto com nome de pequeno produtor no envelope, mas ele para no balcão do banco, que pede garantia, projeto técnico, matrícula do imóvel regularizada e um cadastro em dia. Quem tem tudo isso geralmente é quem menos precisaria do socorro. O sitiante do Pará com quatro hectares e uma escritura de posse que o avô assinou à caneta continua esperando ser atendido.
Intervenção com frete marítimo
Em maio de 2024, depois das enchentes no Rio Grande do Sul, o governo editou uma medida provisória autorizando a Conab a importar até um milhão de toneladas de arroz para recompor estoques públicos. O único leilão realizado, de 263,37 mil toneladas, acabou anulado por irregularidades no certame e pela alegada fragilidade financeira das empresas vencedoras. O governo dizia querer segurar o preço para o consumidor; associações de produtores chamaram a medida de intervencionista e disseram que ela desestimulava o plantio nacional. O arrozeiro gaúcho, que tinha acabado de ver a lavoura debaixo d’água, descobriu que a ajuda vinha de navio, beneficiada e empacotada na Ásia.
E tem o capítulo tributário, que no Brasil nunca termina, apenas troca de temporada. Desde 1º de janeiro de 2026, toda nota fiscal emitida por produtor rural precisa trazer os campos do IBS e da CBS, e quem fatura R$ 3,6 milhões por ano ou mais passa a ser contribuinte obrigatório. Abaixo disso, o produtor é tratado como não contribuinte dos novos tributos, o que alivia. Mas o pequeno ainda precisa adaptar sistema, nota e rotina enquanto os impostos velhos e os novos convivem por anos, como um disco remasterizado tocando por cima do original. Não por acaso, as cooperativas ganham peso nesse cenário, orientando e capacitando o produtor no meio da confusão regulatória.
E o que a banda da garagem tem com isso?
Quase tudo. Troque “safra” por “álbum” e o resto do texto continua de pé.
O grande produtor tem crédito, assessoria, logística e alguém na Esplanada que atende o telefone. O artista de gravadora tem orçamento de marketing, distribuição, assessoria de imprensa e um cachê de festival patrocinado. O pequeno produtor e o artista independente têm uma enxada, um violão e muita fé no próximo edital.
Os mecanismos de fomento à cultura funcionam com a mesma lógica do crédito rural. A renúncia fiscal da Lei Rouanet existe para todos, mas quem decide onde o dinheiro vai é o departamento de marketing da empresa patrocinadora, que, como o gerente do banco, prefere quem já tem garantia (no caso, público e nome conhecido). Os editais públicos são o Pronaf da música: estão lá, abertos a qualquer um que apresente projeto, CNPJ, orçamento detalhado, contrapartida social e prestação de contas. O contador vira o quinto integrante da banda, e é o único com cachê garantido.
O atravessador também é o mesmo, só muda de roupa. O sojicultor pequeno vende pelo preço que a trading oferece, cotado em Chicago, sem nenhuma voz na negociação. O artista independente recebe da plataforma de streaming a fração de centavo que a plataforma decidiu pagar. Os dois são o que os economistas chamam de tomadores de preço, que é o jeito técnico de dizer “aceita ou fica com o produto encalhado”.
A saída que funciona no campo também funciona no palco. A cooperativa familiar tem um primo legítimo nos coletivos, nos selos independentes e nos festivais autogeridos, onde as bandas dividem van, sistema de som, assessoria e até a pizza depois do show. A feira livre, onde a margem fica com quem plantou, tem seu equivalente no show bem divulgado, na banquinha de merch e na venda direta em plataformas que pagam melhor. E a integração lavoura-pecuária-floresta, essa ideia de diversificar para não depender de uma cultura só, é exatamente o que o músico independente faz quando grava, toca, dá aula, produz o disco do amigo e ainda opera a mesa de som do bar às quintas.
Há ainda o clima, que no campo é literal e na cultura é político. A regra do Plano Safra muda todo ano; a regra do edital muda a cada governo. O produtor planta sem saber o preço da colheita, o artista grava sem saber se a lei de incentivo vai existir no ano seguinte do mesmo jeito.
Para encerrar
O agro grande merece o reconhecimento pelos números que entrega, e a música de grande público também. Ninguém aqui está pedindo para tirar o trator de ninguém. O ponto é outro: um país que se orgulha de alimentar parte do mundo e de ter uma das músicas mais ricas do planeta deveria saber cuidar melhor de quem planta pouco e de quem toca para pouca gente. É desse pessoal que sai o feijão da mesa e a banda que vai lotar estádio daqui a quinze anos.
Enquanto isso não acontece, meu conselho vale para os dois lados da cerca: juntem-se. Cooperativa funciona, coletivo funciona. E leiam o edital até a última página, inclusive as letras miúdas, que é onde costumam guardar os juros.




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