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Clube do Balanço: a história viva do samba-rock brasileiro

23/08/2026

clube do balanço

Convidamos o Clube do Balanço para falar do último lançamento, e quem atendeu foi o contrabaixista da casa, que preferiu contar a história desde o começo (fez bem, porque a história é das boas). Cedo a palavra a ele e volto no fim para dar o meu pitaco.


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"Meu nome é Leonardo Russo 'Gringo Pirrongelli', sou uruguaio, contrabaixista, compositor, produtor e membro fundador da banda Clube do Balanço", ele se apresenta, antes de puxar o fio da meada lá atrás, nos salões paulistanos dos anos 1950. Para entender o Clube, é preciso entender o samba-rock. Gringo nos conta que os clubes sociais da cidade promoviam noites dançantes ao som de grandes orquestras, mas a segregação racial da época barrava a entrada de pessoas pretas e de baixa renda. A resposta nasceu dentro de casa: as famílias "faziam suas próprias reuniões e festas em casa com a família dançando ao som de discos de vinil nas vitrolas", recriando boogie e rockabilly com a ginga brasileira nos chamados bailes da arrastadinha, "fazendo referência ao fato de arrastarem os móveis para transformar a sala numa pista de baile". (Guardem essa imagem, porque ela é bonita: a sala de estar convertida em salão).

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Osvaldo Pereira (@osvaldopereiradj)

O pioneirismo, Gringo credita a um nome específico. Em 1958, o discotecário Oswaldo Pereira "apresentou o primeiro baile com música mecânica de São Paulo e possivelmente do mundo", num salão do Edifício Martinelli, com uma vitrola amplificada por equipamento que ele mesmo construiu. Daquela fagulha vieram as grandes equipes dos anos 1970 (Chic Show, Zimbabwe, Tranza Negra) e os bailes que resistiram até o século 21, como o Green Express, na Avenida Rio Branco. E foi ali que o Clube começou a existir.


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Marco Mattoli, Edu Peixe e Gringo Pirrongelli

"Foi justamente nesse baile que numa sexta-feira de 1997 Marco Mattoli nos apresentou a mim e a Edu Peixe do que se tratava o samba-rock em São Paulo", lembra Gringo, descrevendo "um público maravilhoso" que dançava ao som de uma discotecagem que ia "do balanço de Jorge Benjor, Bebeto, Copa Sete e Branca de Neve à elegância de Quincy Jones". Fascinados, os três resolveram entrar em campo.


A estreia, ele faz questão de frisar, veio sem pompa nenhuma: "A primeira apresentação foi despretensiosa, com a ideia de sentir o gostinho de tocar num baile de samba-rock interpretando clássicos do estilo que até então só os dj's tocavam." Aconteceu no salão da Cohab Artur Alvim, na zona leste, com Mattoli e ele mesmo carregando e montando os equipamentos (a glamorosa vida de músico). A resposta do público fez a brincadeira virar projeto sério.

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O marco oficial, porém, veio com o disco. Gravado a convite de Bernardo Vilhena pelo selo Regata, "Swing & Samba-Rock" (2001) reuniu Luís Vagner, Erasmo Carlos, Bebeto, Marku Ribas, Max de Castro, Wilson Simoninha, Ivo Meireles, Seu Jorge e Paula Lima. "Entramos em estúdio como um grupo tocando clássicos do samba-rock e saímos dele como banda consolidada", resume Gringo, já com a formação que conhecemos:



Tereza Gama no vocal, Reginaldo 16 no trompete, Maestro Tiquinho no trombone, Fred Prince na percussão, Edu Peixe Salmaso na bateria, Marcelo Maita no piano e Gringo no contrabaixo, tudo "sob a batuta do saudoso vocalista e guitarrista Marco Mattoli".


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Não demorou para surgirem outras bandas na mesma trilha, fortalecendo a proposta de revitalizar um movimento hoje reconhecido como patrimônio imaterial de São Paulo.


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E chegamos, enfim, ao motivo do convite. "Vício Perfeito" já tinha aparecido nos aplicativos em janeiro, e agora, em agosto, ganha corpo físico. Gringo explica a data e o gesto: "Neste mês de agosto, mês do samba-rock, faz quatro anos do inesperado falecimento de Marco Mattoli, presidente vitalício do Clube do Balanço, e a banda faz uma singela homenagem lançando um compacto disco de vinil" com duas das composições mais populares dele, "no lado A 'Vício Perfeito' e no lado B 'Saudades da Preta', ambas em versão instrumental".


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A escolha do formato diz muito. Um compacto de vinil, o mesmo objeto que rodava nas vitrolas das arrastadinhas, para homenagear o homem que dedicou a vida a ressuscitar aquele som. "Vício Perfeito" nasceu com letra, no álbum "Menina da Janela" (2014), aquela paixão pela "pretinha" que desconcertava o sujeito e ainda acabava com o medo dele. Aqui ela vem sem palavras: o trombone assume o que antes era voz, e a melodia romântica segue dançável do mesmo jeito, com o suingue quente de sempre.


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Do lado B, "Saudades da Preta", do álbum "Samba Incrementado" (2004), mantém o tom da conversa. O resultado já era mais do que esperado: a banda fazendo o que sabe fazer, homenageando um amigo está lá, nota por nota.


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Vinte e seis anos depois daquela sexta-feira no Green Express, o Clube do Balanço presta contas ao fundador da única maneira que um músico conhece de verdade, tocando. E se o compacto for parar numa vitrola, no meio de uma sala com os móveis arrastados para o canto, melhor ainda (arrisco dizer que o Mattoli aprovaria a cena).



Assista ao clipe de "Eu Só Posso Assim" do Clube do Balanço:


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