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CLIVA puxa o cabo da tomada em "Virtual Kadaver"

Atualizado: 25 de jul.

Por Max Clark

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Onze anos. Foi quanto a CLIVA levou entre a formação, em 2015, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e o lançamento do primeiro álbum completo da carreira. No caminho ficaram dois EPs, cinco videoclipes e mais uma troca de pele: o hardcore melódico dos primeiros trabalhos foi engrossando até virar o nu metal com metalcore que a banda pratica hoje. "Virtual Kadaver" chegou em 17 de junho de 2026, trazendo nove faixas e junto delas uma tese que me fez refletir: você provavelmente já morreu e está lendo isso pelo celular.


Eu gosto de escrever matérias biográficas, já fiz algumas aqui para esta ilustre revista. Mas quando me deparei com a banda Cliva, eu não quis saber muito da história de cada membro, porque o álbum me chamou tanta atenção que resolvi falar só sobre ele. Esse texto não vai ser um Raio-X do Álbum (coisa que a Dissonância faz muito bem, por sinal), vai ser minha percepção sobre a banda e como ela foi mudada depois que acabei de ouvir o disco de cabo a rabo.


Mas antes, permita-me a apresentar a banda:

Pablo França: Vocal

Ícaro Rocker: Guitarra

Alex Leal: Contrabaixo

Mateus Silvério: Bateria


Os membros que permaneceram desde a formação em 2015 foram o Pablo França no vocal e o batera, Mateus Silvério. Mas é importante registrar os membros da formação original, porque uma banda se faz no coletivo, e a Cliva chegou onde chegou com a ajuda de todos que passaram por ela.


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Da esquerda para direita: Richard Pessoa (baixo), Mateus Silvério (batera), Pablo França (vocal), Raphael Franco (guitarra) e Bruno Queiroz (guitarra)

Por essa foto dá pra ver o quanto os caras envelheceram, digo... evoluíram (eu sei, não posso zoar com nossos artistas, mas eu não resisto).


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Conversamos virtualmente (ou textualmente nesse caso) com a banda, e o vocalista Pablo França descreveu o disco desse jeito:

"O trabalho mergulha na virtualização da vida, no impacto da tecnologia sobre o comportamento humano e nos riscos de uma sociedade que se torna, a cada dia, menos humana"

Sobre o que esperar das letras: "Elas buscam provocar uma análise sobre os caminhos que estamos trilhando, como indivíduos e como coletivo". Alienação, desigualdade, desumanização, a dificuldade de conexão genuína num cotidiano cada vez mais artificial (assunto levinho para o churrasco de domingo, já vou botar a cerveja pra gelar).


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Contra-capa de Virtual Kadaver. Título das faixas

O disco abre com "Abominável", faixa instrumental que funciona como sala de espera do pesadelo. Pulsos eletrônicos e interferências digitais se misturam a respirações e ruídos orgânicos, até que um breakdown rasga tudo com guitarras afinadas no mais grave possível, antes que as cordas comecem a bambear e, lógico, notas soltinhas passeando pela pentatônica. A banda define a ambientação como "corredores estreitos de uma máquina viva, onde o orgânico e o artificial coexistem em permanente estado de conflito". Acho que eles estava procurando a palavra "claustrofóbico". E é elogio.


"Judas" atualiza o famoso poema atribuído ao pastor Martin Niemöller (aquele do "primeiro levaram os judeus, mas eu não era judeu") e mira o personagem mais confortável da história: o sujeito neutro, que assiste de camarote enquanto o vizinho arde. "O medo que silenciou você é que vai te enforcar no fim", avisa a letra. O abutre da primeira estrofe sobrevoa a guerra observando o caos. Você, leitor omisso, seu isentão, foi devidamente citado, fica de olho.


"Simulacro" começa com café e cigarros para dar aquela espertada, e o verso que resume a faixa (talvez o disco inteiro) é este: "Morri para o mundo pra viver conectado". A pergunta "qual pílula vai tomar?" entrega a referência. E aqui vale um comentário sincero: Matrix completou 27 anos e segue sendo a metáfora preferida de todo mundo que quer discutir realidade simulada, do professor de filosofia ao coach de finanças.


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A CLIVA sabe disso e escolhe citar tudo pelo nome, sem firula: a pílula, a porta, os cabos, o coelho branco (que ganha faixa própria mais adiante, com direito a caverna de Platão no mesmo pacote). A aposta vem bem a calhar porque a banda trata a referência como vocabulário, é diferente de você tentar fazer isso como se fosse uma sacada fodona, de um gênio de sei-lá-o-quê. Quando o vocal recita "eu só posso te mostrar os cabos, mas é você que vai puxar e se desplugar", em "Siga O Coelho Branco", parece que eu vi o vocalista dar aquela piscadinha marota, mas com cara de cobrança ao mesmo tempo.


A faixa 4 merece parágrafo próprio pela ousadia aritmética: "VOC3_3_SO_M4IS_UM_N4_V17RIN3_V1R7U4L" tem exatamente um verso. Um. "Você é só mais um na vitrine virtual". O título escrito em código de adolescente do MSN, a frase repetida como uma martelada num cano de metal. Confesso que ri, mas depois fiquei um tanto incomodado; acho que essa deve ser a ordem correta das reações.

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A faixa-título expande esse verso em cenário completo: rostos em telas vendendo sonhos, "a cópia da cópia da cópia da cópia", a humanidade seguindo firme "rumo ao seu futuro promissor e ideal, a cada dia menos humana, e mais artificial". O sarcasmo do "futuro promissor" está na própria letra, e agradeço à banda por poupar meu trabalho de analista de música, essa é autoexplicativa.


"Ovelha Negra" desloca a mira da tela para o púlpito e encara o fundamentalismo de frente: "Odiado pelos que pregam o amor, temido por ser simplesmente quem sou". O verso final dispensa muita trabalho de interpretação: "O seu fundamentalismo é hipócrita". Anotado. É que eu tô falando essa banda vem me surpreendendo a cada música. Esse álbum é todo cheio de pancada na moleira.

mateus silvério

"R.I.P Petter Pam" é o momento em que o disco para de apontar o dedo para fora e aponta para dentro (ou para aquele amigo que todos temos, o de 35 anos que ainda está "se encontrando" e que sempre diz: esse ano vou me organizar"). A consciência assume o vocal e enquadra o menino que não quis crescer: "Aqui não é a terra do nunca, bem-vindo à porra da vida adulta". Sim, é engraçado. Mas também é o tipo de bronca que, hoje em dia, a gente já não pode mais dar, apesar de muita gente precisar ouvir. Nota mental: preciso enviar esse música pros meus sobrinhos.


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O encerramento fica com "Sangue Por Sangue", e aqui o disco larga a mão e abandona qualquer ironia. São mais de 300 anos de opressão postos na mesa, corpos "comercializados como produtos", a memória da tortura nos navios negreiros. "Cada gota de sangue derramado por meus ancestrais hoje será cobrada", diz a letra, e depois vem o arremate: "Deixem queimar as senzalas!". Depois de oito faixas falando sobre a morte digital, a banda nos traz à memória que existe uma fatura anterior, vencida, bem física, e ainda em aberto. Acho que talvez seja a faixa mais pesada do álbum em todos os sentidos que a palavra permite.


Sobre o resultado geral: "Virtual Kadaver" confirma o que a cena carioca já tava desconfiando. A década de estrada deu à CLIVA o direito de fazer um disco de estreia que não tem cara de estreia. Os guturais convivem com refrões melódicos e recitações intimistas sem que nenhum dos três pareça convidado um convidado entrão atrapalhando o parabéns, e o repertório temático (tecnologia, fé, racismo, infância mal resolvida) é bem encorpado porque a banda escreve sobre o que vê da janela, na periferia carioca, e não sobre o que leu num fio de Twitter.


"Não há respostas, só perguntas, e a música", resume a banda. Justo. As perguntas estão todas lá, em volume considerável. Ouça no talo, de preferência longe do celular. Sei que é pedir muito.


Termino com uma confissão. Encontrei a CLIVA zapeando pelo Spotify, daquele jeito que a gente gosta ouvindo e apertando o botão de faixa seguinte, eu não estava procurando nada em especial e, de repente, topei com a música “Judas” e alguns segundos depois já tava seguindo a banda.


E foi uma daquelas gratas surpresas: a banda conseguiu me deixar ouvindo até o fim, coisa que não tem acontecido com muita frequência ultimamente, devo confessar.


Banda boa de verdade, chega até ser uma justificativa plausível para a rolagem infinita. Por isso a recomendação é sincera: dê uma surfada virtual pelo "Virtual Kadaver". Pode ir sem medo, o cadáver está vivíssimo.


cliva página bio-discográfica



Assista ao clipe de Ovelha Negra

Diretor: Xande Lima

Assistente de Camera: Priscila Souza

Edição e Finalização: Cal Rec Filmes

Música gravada, mixada e masterizada em: LF STUDIO (instagram.com/lf_studio_rj)


CLIVA: Pablo França, Mateus Silverio, Ícaro Abreu.

Baixo gravado por: Willer Arruda.

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