Gabriel Sater: o caçador de melodias
- Tião Folk
- há 10 horas
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Aos 25 anos de carreira, com duas indicações ao Grammy Latino e um álbum comemorativo recém-saído do forno, Gabriel Sater recebeu a Dissonância para uma conversa longa. E nos convenceu de uma coisa: o sobrenome é o capítulo menos interessante dessa história.

Vamos combinar uma coisa logo de início: ser filho de Almir Sater deve ser ótimo nos almoços de domingo e péssimo nas coletivas de imprensa. Sempre haverá um repórter apressado (não este que vos escreve, evidentemente) querendo saber como é "viver à sombra de um dos violeiros mais reverenciados do Brasil". Esteja avisado, caro leitor, que essa história de viver à sombra de pai passa longe deste artista, isso é assunto já superado há tempos. Estamos falando de um dos maiores nomes da música brasileira moderna, uma referência para as novas gerações. Dito isso, Gabriel Sater completou 25 anos de estrada e lançou em maio o álbum "25 Anos de Música", e resolveu a questão do jeito mais trabalhoso possível: estudou feito um monge e construiu uma discografia que fica de pé sozinha, sem aquela escada que poderia ser facilmente emprestada do pai.

A conversa que ele teve conosco confirma o que as datas já contavam. Quando decidiu ser músico profissional, por volta do ano 2000, Gabriel teve uma conversa olho no olho com Almir. O conselho paterno foi o de qualquer bom professor: não perca tempo, estude intensamente e busque sua verdade artística, independentemente das pressões do mercado que um dia viriam. O rapaz levou a sério. Foi estudar violão de nylon com o virtuose Cristiano Kotlinski, músico de formação clássica e popular, e estreou em disco, em 2006, com um álbum totalmente instrumental.

Repito para os desatentos: o filho do violeiro estreou tocando violão de nylon, compondo e arranjando os próprios temas, sem viola caipira em faixa alguma. Funcionou como uma declaração de independência com firma reconhecida em cartório.
"Comecei com um álbum totalmente instrumental, tocando apenas violão de nylon, compunha, arranjava de verdade todos os temas que eu gravei naquele álbum ... Mas desde lá sempre gostei de colocar a mão na massa e fazer meus próprios arranjos."
Ele nos contou na entrevista que a volta ao canto veio logo depois, e de um jeito que nenhum plano de carreira poderia prever antecipadamente:
"Após a gravação desse álbum, eu senti necessidade de retomar minha vertente como cantor e compositor de canções. Aconteceu claramente num domingo, eu tava meio triste, e depois que comecei a cantar e tocar naquele domingo, aquilo me trouxe uma alegria, uma certeza de que eu tinha que enveredar por esse caminho."
Podemos dizer que a partir desse momento surgiu o próximo álbum, "A Essência do Amanhecer", lançado em 2009, e dessa vez soltando a voz ao longo de doze músicas.

É óbvio que, se você ouvir o Gabriel de hoje, vai notar um cantor muito mais fluido e com uma linha vocal diferente daquela encontrada nas primeiras experiências como cantor. Hoje os 25 anos de música pesam a favor e entregam aos fãs um vocal suave, que flui pelas melodias tal qual o Rio Correntes passeia por entre o Mato Grosso do Sul.

E a viola, perguntam vocês? Pois a viola de dez cordas, símbolo máximo da casa, só entrou na vida dele em 2013, quando o músico estava prestes a completar 32 anos. E entrou pela porta da dramaturgia: o diretor Luiz Fernando Carvalho o convidou para viver o personagem Viramundo em "Meu Pedacinho de Chão", novela de Benedito Ruy Barbosa, e pediu que ele tocasse viola em cena. Gabriel aprendeu o instrumento para o papel e o incorporou ao álbum que gravava na época, o "Indomável" (2014).

Sobre a demora, ele foi de uma franqueza que a gente raramente ouve em entrevista:
"Eu não sei dizer por que eu não toquei viola antes. Talvez por querer fugir um pouco daquele som muito característico do meu pai e querer a minha própria identidade, pelo menos naquele início de carreira, que é tão complicado você sair um pouco da sombra do pai, que já é uma lenda consagrada."
Hoje, diz que seu único arrependimento nesses 25 anos foi ter começado tão tarde no instrumento. A vida, irônica como sempre, ainda o levaria a viver o violeiro Xeréu Trindade no remake de "Pantanal" (2022), papel que havia sido do próprio Almir na versão original, incluindo um duelo de violas em cena contra o pai, que agora interpretava o chalaneiro Eugênio. (O autor Bruno Luperi sabia exatamente o que estava escrevendo, e nós agradecemos).

O que separa Gabriel de tanto herdeiro musical por aí é o método. Ele descreve o próprio processo como artesanal, e a palavra, para variar, está bem empregada. As músicas levam anos para serem compostas, os arranjos levam meses, e cada peça de cada instrumento é pensada, gravada, rejeitada e regravada até o resultado convencer. "Não poupa takes, não poupa horas. Acho que mais de mil horas num álbum, se for realmente contabilizar no pé da letra", calculou ele. O repertório dos discos futuros, aliás, ele monta por hobby nos momentos de descanso e pode perguntar para qualquer um da equipe dele, garantiu.

O mercado, que costuma ser lento para reconhecer quem trabalha em silêncio, acabou notando. "Erva Doce", quinto álbum solo, gravado em clima intimista durante a preparação para "Pantanal", foi o primeiro que ele inscreveu no Grammy Latino.

Veio a indicação em 2023, na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. No ano seguinte, "Faróis do Sertão" repetiu a dose, e 2024 ainda rendeu o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Intérprete de Canção Popular. Mas o detalhe mais saboroso da primeira indicação é de ordem doméstica: naquele mesmo ano, Almir concorreu na mesma categoria. Pai e filho, frente a frente na disputa.

"A gente ficava brincando muito um com o outro, porque cada um merecia ganhar. No final, ninguém ganhou, mas isso aí já foi um prêmio. Concorrer contra o meu pai foi realmente muito gratificante"
Gabriel trata o pai Almir como referência primária e ídolo declarado. Perceberam a elegância da situação? A academia do Grammy resolveu o almoço de domingo da família Sater empatando tudo.
O álbum "25 Anos de Música", lançado em 10 de maio, é o sétimo da carreira e resume bem o personagem: oito canções e dois temas instrumentais, entre inéditas, regravações e dois clássicos alheios ("De Papo Pro Ar" e "La Cumparsita") cujos arranjos ele guardava há mais de uma década.

A produção, como nos últimos discos, divide com João Gaspar, parceiro que ele chama de irmão que a arte lhe presenteou. Nas participações, um pequeno atlas afetivo: Jackson Antunes, Eric Silver, Negão dos Santos, a Orquestra Sinfônica da UFMT, o irmão Ian Sater e, na faixa "Me Ajuda", ninguém menos que Ivan Lins.

A história dessa gravação merece registro. Quando Gabriel sugeriu o nome de Ivan ao produtor, "ele quase desmaiou, eu vi no olho dele a emoção". Uma amiga em comum fez a ponte, o mestre topou gravar a voz e, generoso, aceitou registrar o videoclipe em estúdio, dirigido por Daniel Cavalcanti, amigo de infância do cantor.

"O Sá da dupla Sá e Guarabyra. A gente tá com mais de 30 músicas juntos, já até começamos um álbum que será lançado pro futuro. E, de lá para cá, gravei com Renato Teixeira, com Sá. Meu próprio pai, demorou 22 anos, mas a gente gravou um clipe juntos. E para o Ivan Lins, a gente foi para o Rio de Janeiro gravar apenas o áudio. E o clipe aconteceu graças à generosidade do Ivan Lins."
Gabriel repete a palavra "sonho" tantas vezes ao falar do episódio que a gente até desconfia, mas aí lembra que ele vem gravando clipes com os ídolos desde 2016 (Ivan Lins, Luiz Carlos Sá, Renato Teixeira e o próprio pai, com quem levou 22 anos para dividir um vídeo) e entende: o homem coleciona mestres como outros colecionam vinis.
"Gravar com o Ivan Lins, esse mestre incrível sagrado, um dos maiores ícones, e lendas vivas da nossa boa música brasileira, foi realizar um sonho. Nessa entrevista, você vai ouvir eu falar várias vezes uma frase como essa, porque quando eu toco grandes ídolos e posso gravar com eles, compor com eles, isso vai além de qualquer sonho de um jovem que vem do interior do país pudesse pensar que um dia iria realizar."

A matéria-prima de tudo isso continua sendo a mesma: o Pantanal e o Mato Grosso do Sul, que ele define como base eterna de suas memórias afetivas, temperados com o folk, o rock rural e as latinidades de fronteira que formam seu estilo. Mas o combustível declarado é outro: "a emoção dita o meu caminho de composição, mais do que tudo. Tanto que a parte teórica de anos de estudo, fica de lado nesse momento. O momento de busca ... de caçador de melodias". Nosso caçador de melodias cultiva o hábito raro que, a propósito, deveria ser hábito comum de todo artista independente. Pega a visão:
"Eu costumo dizer agora que o meu momento de maior felicidade é o momento offline, às vezes, porque quando você consegue conectar com o seu eu, você conversar com você mesmo, sem nenhuma distração, sem nenhum momento fora do teu momento concentrado ali, de meditação, de composição embaixo duma árvore, numa natureza que ninguém te acessa."

E já que falamos em desaparecer: foi assim que ele se preparou para o papel da vida. Gabriel começou a estudar para viver Xeréu Trindade antes mesmo de saber o resultado do teste ("quando eu conseguir, não é 'se', é 'quando'", contou ele, e a autoconfiança rendeu). A rotina virou estudo em tempo integral: viola, canto, atuação, preparo físico e até pesquisa sobre entidades sobrenaturais, cortesia do Cramulhão que acompanhava o personagem. Contratou João Gaspar para a preparação musical e a professora Erika Altimeyer para a de atuação, desligou-se da vida digital (ele garante que o tempo pareceu dobrar; um dia testaremos a hipótese) e chegou ao Pantanal 52 dias antes do início das gravações. Ali acordava às 4h30, acompanhava o trabalho de gado com os peões, tomava tereré no galpão e convivia todos os dias com o pai, com quem compôs o próprio duelo de violas que Bruno Luperi escreveu para os dois personagens. De quebra, aproveitou a novela para homenagear compositores do Mato Grosso do Sul, caso de Paulo Simões, Geraldo Espíndola e Helena Meirelles, que ganhou até um solinho em cena.

A pergunta sobre construir identidade própria sem se apoiar no sobrenome, para o Gabriel foi um processo lento; nas palavras dele foi um processo "extremamente longo, em ritmo de carro de boi, como meu pai diria", e sustentado por uma palavra só, trabalho. A pressão do sobrenome pesa, é verdade, mas é possível ver que o próprio cantor busca um perfeccionismo e isso não tem nada a ver com o sobrenome famoso, é coisa de artista comprometido com seu resultado.
"Quando a gente fala de sobrenome já consagrado, como no caso do meu pai, a responsabilidade aumenta de uma forma imensurável. Mas a pressão nesse sentido, sempre foi muito mais o meu perfeccionismo pessoal, a minha mão ser a mais pesada em relação a críticas e autoavaliação de tudo o que eu faço, mais do que qualquer outra pessoa."
É fato que a família já carrega um dom no DNA, mas talento só te leva até certo ponto, isso todo mundo sabe, o resto precisa vir de esforço, do suor. E o Gabriel tem isso em mente de uma forma muito clara, ele cumpre aquela máxima de que o resultado é 10% inspiração e 90% transpiração: "O talento sempre vai me encontrar estudando, trabalhando, pesquisando". Nessa caminhada, faz questão de dividir os créditos com Paula Cunha, esposa e sócia na Indomável Produções, com quem completa 20 anos de união no fim do ano (e para ela, Gabriel prepara uma surpresa audiovisual, que a gente promete não estragar).
Há ainda uma história de 2002 que resume o personagem melhor que qualquer análise nossa. Com o repertório do primeiro álbum pronto em segredo (nem o pai sabia), Gabriel escreveu com o padrasto, Celso Martins, um projeto para um edital de incentivo à cultura do Mato Grosso do Sul. Foi reprovado. Refez o projeto, melhorou o disco e passou no ano seguinte, o que o levou a se mudar para São Paulo para concluir as gravações. Quando finalmente mostrou o material ao pai, ouviu de saudação um "Ah, mas será? Já tá na hora?". Almir escutou então a gravação de "Envido", composição do tio Rodrigo Sater, ficou impressionado com o som e ainda sugeriu incluir no repertório peças de Agustín Barrios. Vindo de um Sater que, segundo o filho, é "difícil de gostar das coisas", aquilo valeu por um edital inteiro.

O ciclo fecha como uma poesia. A turnê "Pai e Filho", nascida de um show de Dia dos Pais em 2024 que um produtor atento transformou em projeto de estrada, segue rodando o Brasil e tem parada marcada no Carnegie Hall, em Nova York, no dia 31 de outubro. No palco mais famoso do mundo, estarão o mestre consagrado e o filho que preferiu o caminho longo ao invés de atalhos rasos: o estudo, o violão de nylon, os arranjos próprios, as mil horas de estúdio por disco.

Hoje a dupla divide o palco como colegas de ofício, cada qual com obra própria debaixo do braço. Se alguém na plateia ainda insistir na história da sombra, sugiro conferir a ficha técnica dos álbuns antes de opinar. Sombra boa, ali, é a das árvores do Pantanal, onde o Sater filho continua caçando melodias.

Assista ao clipe oficial de "Me Ajuda" de Gabriel Sater e Ivan Lins.
“ME AJUDA”
Gabriel Sater - Feat: Ivan Lins
Me ajuda a escutar
Aquilo que você quer dizer
Ajuda o nosso lar
A ter a firmeza pra viver
Me ajuda a ver a luz
Na hora de se esconder do sol
Não deixa a dor bater
Me ensina a te conhecer melhor
Bem juntos pra enfrentar o mal
Bem perto um do outro pelo bem
Me ajuda a saber o que é viver em paz
É tudo que se precisa mais
Ficha Técnica Videoclipe:
Direção Artística e Realização: Indomável Produções Artísticas
Apoio: Groove Live BR e Valetes Records
Direção, Gravação, Edição, Fotos e Pós-Produção do Vídeo: Dani Cavalcanti
Assistente de Produção: João Gaspar
Imagens gravadas no estúdio “Companhia dos Técnicos” em Copacabana (Rio de Janeiro/RJ) em 31 de março de 2026.
Introdução exclusiva para o videoclipe apresentada por Ivan Lins ao piano
Ficha Técnica do Áudio:
Música que integra o álbum “25 ANOS DE MÚSICA” de Gabriel Sater (2026)
Composição: Gabriel Sater/João Gaspar/Luiz Carlos Sá (Marimbondo Promoções Artísticas)
Produção Musical e Arranjos: Gabriel Sater (Indomável Produções Artísticas) e João Gaspar (GasparMusic)
Voz e Violões Nylon: Gabriel Sater, gravado por João Gaspar no estúdio “Bavini Studio”, assessorado Marco Bavini
Violão Aço: João Gaspar, gravado por João Gaspar no estúdio “GasparMusic”
Percussões: Kabé Pinheiro, gravado por Kabé Pinheiro na Produtora “VMD”
Bateria: Paulinho Vicente, gravado por Thiago Baggio no estúdio “Everest”
Baixo: Alex Mesquita, gravado por Thiago Baggio no estúdio “Everest”
Assistentes de gravação no estúdio “Everest”: Paulinho Nunes
Participação Especial: Ivan Lins (Voz), gravado por William Luna no estúdio “Companhia dos Técnicos” e assessorado por Enzo Menegazzi
Mixagem: Luis Paulo Serafim no estúdio “Sala de Sons”
Masterização: Felipe Tichauer no “Red Traxx Mastering”
Selo: Indomável Music/Valetes Records/Groove Records
Distribuição Digital: Valetes Records
Arte da Capa: Paula Cunha (Indomável Produções Artísticas)
Assessoria de Imprensa: Lupa Comunicação
Assessoria Digital: Fixse
Data de Lançamento: 08 maio 2026
IRSC: BRGBQ2600005
Duração: 03:40
Agradecimento especial para Kelly Faé e João Lins.

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