Filzer e a metamorfose contínua

Sempre me chama atenção quando um artista assume suas influências sem deixar que elas escondam sua própria voz. Foi exatamente essa sensação que tive ao ouvir o novo álbum de Filzer. É impossível não perceber o diálogo com Raul Seixas. As referências aparecem nas letras, nas imagens, em "Raulzito", nos discos voadores e naquele espírito inquieto que sempre fez do rock brasileiro um convite à transformação. Mas, em nenhum momento, isso soa como nostalgia. Pelo contrário: Filzer utiliza esse universo como ponto de partida para construir sua própria identidade.

A faixa de abertura já deixa claro o caminho. É um grito de quem acredita que transformar a própria vida não é privilégio de poucos, mas uma possibilidade ao alcance de qualquer pessoa. Depois disso, o disco segue firme, impulsionado por riffs diretos, pelo rock de três acordes e por uma energia que acelera o coração sem perder espaço para a reflexão.

Ao longo das oito faixas, surgem temas como relações humanas, o medo da morte, o avanço das máquinas, o cotidiano e a estranha mania que temos de planejar o futuro enquanto deixamos o presente escapar. Há momentos em que elementos circenses aparecem naturalmente, enquanto guitarras carregadas de reverberação ampliam uma atmosfera sombria que conversa muito bem com as inquietações das letras.

Também gosto da forma como Filzer preserva seu sotaque e sua maneira de interpretar. Existe coragem em sua voz. É um artista disposto a encarar o existencialismo sem abandonar o humor, a ironia e o prazer de fazer rock. Saí com a impressão de que cada faixa é uma extensão da liberdade criativa que a música permite alcançar. Mais do que um bom disco, encontrei um artista que parece ter encontrado um caminho próprio para continuar expandindo a tradição do rock brasileiro. E confesso: é alguém que eu teria prazer em conhecer, dentro e fora do palco.
Ficha Técnica
Música de Filzer
BANDA
Filzer: Voz
Marcos Manfredini: Guitarra
Vinícius Oliveira: Baixo
Kleber Amorim: Bateria
VÍDEO
Imagens: Gustavo Barbosa e Felipe Rodrigues
Edição: Gustavo Barbosa
Áudio: Vinícius Oliveira
Apoio: Ânfora produções





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