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Joanna Krum: a casa é da mãe, e a mãe é quem manda

23/08/2026

Joanna Krum

Antes de falar da Joanna Krum, uma confissão: passei a vida usando a expressão "Casa da Mãe Joana" sem saber quem era a tal Joana. (Fui descobrir agora que a lenda aponta para uma rainha de Nápoles do século XIV, dona de uma biografia conturbada que o imaginário popular transformou em sinônimo de bagunça. A pobre virou meme séculos antes de existir meme.) Pois a drag de Limeira pegou essa expressão e decidiu levá-la a sério, nos dois sentidos ao mesmo tempo.


A Joanna me explicou, em entrevista exclusiva para a Dissonância, que o nome do álbum carrega uma trapaça semântica bem-vinda. De um lado, a casa que acolhe:

"Eu sou uma mãe para os meus amigos, para as pessoas que trabalham comigo."

De outro, a bagunça do dito popular. "Ao mesmo tempo que é uma casa que acolhe, ela acolhe tudo, inclusive a música", diz. E a música entra sem passar pela portaria: "Ali você vai encontrar hip-hop, você vai encontrar pop, você vai encontrar rock, você vai encontrar pop rock."


joanna krum

Por trás da diva existe o Jonathan Guilherme dos Santos, 34 anos, administrador, contador e psicólogo (sim, os três), com uma pilha de pós que dá inveja a qualquer mural de RH. "Por trás da Joanna Krum tem o Jonathan", ele resume. O talento não vem de hoje, na entrevista ele relata com orgulho que chegou a tirar nota mil na redação do Enem (eu fiquei com 800 e feliz da vida, imagina se eu tivesse tirado mil), um currículo que costuma terminar em sala de reunião discutindo meta trimestral, e não de peruca soltando reggaeton. A boa notícia é que ele escolheu o microfone.


joanna krum

A Joanna (a personagem) nasceu em 2017, num evento nos Estados Unidos, quando uma amiga a maquiou e o público reagiu bem demais. O primeiro show veio em 2022, na parada de Limeira, ainda no território dos covers (Katy Perry, Gaga, Glória Groove). De lá para cá, foi trocando o repertório emprestado pelo próprio, até chegar em "A Casa da Mãe Joanna", seu primeiro trabalho autoral.


joanna krum

E o disco tem roteiro de verdade. A abertura, "Mostra seu Talento", apresenta a personagem sem cerimônia: "essa Drag Queen iniciante vai roubar a cena com paixão." Meu momento favorito é quando os diplomas invadem a pista. Em "Ela é Braba", toda a formação vira deboche: "com três diplomas e mil certificados, quando eu passo, rimo deixo os boys obcecados." Poucas rappers transformam Lattes em arma de sedução, e fiquei com uma pontinha de inveja profissional.


Nem tudo é festa, e é aí que ela acerta a mão. "Meu Lugar" encara o mundo corporativo que a Joanna conhece por dentro, aquele que enche a parede de cartaz sobre diversidade e esquece de promover quem não é hétero. Sem anestesia: "existe diversidade, mas não existe inclusão." Doeu porque é verdade.


joanna krum

Ah, e o sobrenome. Krum saiu de uma fanfic mística (o bruxo Viktor Krum que me perdoe), com o detalhe de existir de verdade: "as pessoas da família Krum vieram me procurar" no LinkedIn, ela conta. Imagino o susto do clã ao encontrar uma diva pop reivindicando o brasão.


joanna krum

Teve deluxe em inglês, teve "Demons" sobre insônia e os leões que ela diz "matar" todo dia (diva também tem olheira), e já veio "Bellaka" em 2026. Fica a impressão de que a Joanna sacou algo simples: dá para acolher a cidade inteira e continuar não aceitando qualquer coisa. A casa é da mãe, e a mãe é quem manda. Eu já pedi para morar de aluguel.



Assista ao clipe de Demons:


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