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Gabriel Sater em dissonância: entrevista exclusiva

gabriel sater

Para a edição de aniversário da Dissonância, fomos buscar um convidado que também está em clima de comemoração. Gabriel Sater completa 25 anos de carreira em 2026, com sete álbuns lançados, duas indicações consecutivas ao Grammy Latino, o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Intérprete de Canção Popular e uma agenda que vai do Pantanal ao Carnegie Hall. Cantor, compositor, violonista, violeiro e ator, Gabriel construiu esse currículo do jeito mais demorado que existe: estudando música a sério, produzindo os próprios discos e gastando mais de mil horas de estúdio em cada um. Na entrevista a seguir, ele nos contou como saiu da sombra de um sobrenome ilustre, por que demorou tanto para encostar numa viola e o que um domingo triste tem a ver com tudo isso. (Sirvam-se, a conversa está boa).


Dissonância: Ao celebrar 25 anos de carreira, você lançou o álbum comemorativo 25 Anos de Música. Ao olhar para o seu primeiro disco instrumental de 2006, qual você considera ter sido a sua maior evolução como intérprete e compositor?


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A EvoluçãoGabriel Sater

Gabriel Sater: Acredito que seja a ampliação de novos horizontes estéticos nas minhas composições, nos meus arranjos e produções musicais. Comecei com um álbum totalmente instrumental, tocando apenas violão de nylon, compunha, arranjava de verdade todos os temas que eu gravei naquele álbum com algumas colaborações de parceiros, é claro, produtores. Mas desde lá sempre gostei de colocar a mão na massa e fazer meus próprios arranjos. Eu acho que após a gravação desse álbum, eu senti necessidade de retomar minha vertente como cantor e compositor de canções. Isso aconteceu, eu lembro que claramente num domingo, assim, que eu tava meio triste, e depois que comecei a cantar e tocar naquele domingo, aquilo me trouxe uma alegria, uma certeza que eu tinha que enveredar por esse caminho. Então, já ali, né, em 2007, ali de 2006 para 2007, já tive essa necessidade na minha alma de voltar a cantar e compor canções. E dito tudo isso, eu tive experiências na dramaturgia que me trouxeram alguns instrumentos, o caso da viola, que meu pai é um grande mestre, né, viola de 10 cordas, a viola caipira. Por conta do meu pai, eu não sei dizer por que eu não toquei viola antes. Talvez por querer fugir um pouco daquele som muito característico do meu pai e querer a minha própria identidade, pelo menos naquele início de carreira, que é tão complicado você sair um pouco da sombra do pai, que já é uma lenda consagrada. Mas o curioso é que a viola apareceu num caminho para mim, porque eu precisei participar de uma novela. Precisei, é bom, né, porque eu sonhei e consegui realizar o sonho de fazer uma novela de Benedito Ruy Barbosa, a convite do genial diretor Luiz Fernando Carvalho, que me pediu para tocar viola. Então, ali aprendi a tocar viola e já incorporei a viola no álbum que eu estava gravando na época, que era meu álbum solo “Indomável”. Então, eu sinto que essas experiências da vida vão trazendo instrumentos, situações, experiências que vão te mostrando novos sabores, novas cores que você consegue utilizar nos meus álbuns mesmo. Porque acho que no final de tudo, para mim, que eu mais gosto de fazer, uma das coisas que eu mais gosto de gravar, são os meus álbuns. Então, acho que tudo o que eu vivencio, tudo o que eu tenho de experiência acaba, no final, resultando na gravação desses sonhos musicais, que levam, literalmente, anos para serem feitos. Então, acho que essas experiências realmente contribuíram muito para eu conseguir ampliar, de um primeiro álbum totalmente instrumental, com violão de nylon, para o meu mais recente álbum lançado, que mostra bem do que eu estou falando, traz um pouquinho de tudo o que eu vivenciei ao longo de 25 anos de caminhada musical profissional. Vale ainda ressaltar, a oportunidade que eu tive de compor com grandes mestres e referências musicais, que eu cresci assistindo e me inspirando, como Luiz Carlos Sá, da dupla Sá e Guarabyra, Renato Teixeira, Paulo Simões, que são herança do meu pai, são parceiros do meu pai, que tive a honra depois de me tornar parceiro deles, aprender, entender como é que eles trabalham, meu próprio pai também, uma grande referência; e inúmeros parceiros que tanto me ensinaram e me motivaram a fazer música através da minha essência mais genuína possível.

 

 

Dissonância: Você recebeu duas indicações consecutivas ao Grammy Latino (em 2023 com Erva Doce e em 2024 com Faróis do Sertão). Você costuma descrever o seu processo de produção como "artesanal". O que esse reconhecimento internacional representa para o esse processo de produção tão particular?

 

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Um Processo ArtesanalGabriel Sater

Gabriel Sater: Sim, meus processos são bem artesanais, levam muito tempo e eles iniciam-se assim de uma forma muito individual, muito solitária, porque eu preciso ter uma certa certeza do que eu quero, para eu apresentar para minha equipe, levar essas ideias pro João Gaspar, que é um grande colaborador e produtor musical, arranjador comigo dos últimos álbuns: “Erva Doce”, “Faróis do Sertão”, “25 Anos de Música”. Até antes disso, o Gaspar já tava comigo me ajudando, como produtor musical e grande colaborador, esse irmão que a arte me presenteou. Mas antes de chegar no Gaspar e na equipe, eu preciso ter muito tempo de introspecção, perceber quais músicas se conversam, conversam entre si. Um fato curioso, só abrindo um parênteses, é que eu tenho, por hobby mesmo, em momentos assim de descanso nessa correria boa que a gente vive de artista independente, que é amar fazer repertório dos álbuns que virão a seguir. Eu amo fazer repertório. Pode perguntar para qualquer um da minha equipe, isso é um fato mesmo. E eu brinco com isso porque eu penso muito antes de chegar na minha equipe com um projeto. “Erva Doce”, por exemplo, eu estava me preparando para gravar a novela Pantanal. Então, na preparação da novela, eu quis gravar esse álbum, porque a gente vinha de um período de pandemia em 2020, 2021, e queria muito gravar um álbum mais intimista, mais voz e violão, que tivesse essa atmosfera mais pantaneira. Claro que algumas músicas têm uma questão de banda para dar um ritmo, em algumas músicas que precisavam disso, como “Tigre do Rio”, “Turuniño”, nas instrumentais que precisavam de uma pressão um pouco maior. Mas “Erva Doce”, faixa que dá nome ao álbum, me traz justamente essa paz, essa calma, que o aroma da “Erva Doce” me traz, essa melodia também que tem uma letra brilhante do Luiz Carlos Sá, que realmente me completa, uma homenagem às mulheres incríveis desse nosso planeta que fazem a diferença todos os dias na minha vida, mulheres incríveis que me inspiram, são, assim, todas elas, né, um ponto de referência. Poderia ficar horas falando delas aqui, mas deixaríamos para uma próxima entrevista, mas elas sabem muito bem o quanto eu amo todas elas. Dito isso, e voltando à pergunta, à segunda pergunta, puxa a vida, a indicação do Grammy para o álbum “Erva Doce”, em seguida a “Faróis do Sertão”, foi realmente uma realização de um sonho de longa data mesmo. Porque “Erva Doce” é meu quinto álbum solo de carreira; e foi o primeiro álbum que a gente inscreveu no Grammy. Devo muito a isso ao selo apoiador, na gravadora Valete Records, e Emio Shayeb, que me apoia e que teve essa conversa comigo, quando a gente estava gravando o álbum e resolvi distribuir pela Valete naquele momento, porque a Indomável Produções Artísticas, minha empresa, e eu, que realmente fazemos todo o investimento para gravar o álbum. E após a gravação do álbum, lógico, o Emio, nesse álbum “Erva Doce”, ajudou como produtor também, mas a parte de gravadora mesmo assim, de distribuidora, a Valete que faz para mim, de distribuidora, propriamente dito, né? E apoia assim como selo apoiador esse projeto. Estou dizendo esses detalhes técnicos, porque é uma informação que muitas vezes não fica muito clara para as pessoas, porque tem muitos colaboradores; e é muito importante a gente dar luz aí, dar o valor às devidas parcerias, ainda mais quando a gente faz tudo no início de forma independente. Então foi um reconhecimento que foi uma realização de um sonho mesmo, como eu te disse, o primeiro álbum, que eu inscrevi, ter sido indicado, e vocês não sabem uma informação muito feliz pra família Sater, foi que naquele mesmo ano, meu pai também foi indicado na mesma categoria. Então, a gente concorreu um contra o outro. Isso foi muito, muito emocionante. Meu pai é minha referência primária, meu grande ídolo musical, e eu posso até arriscar dizer que, sem ele em casa, não teria um farol ali, uma referência para seguir no caminho das artes. Talvez nem teria seguido esse caminho se não fosse meu pai em casa me dando essa oportunidade de seguir esse caminho, graças a um pai já consagrado na música e que já tem esse entendimento de tudo em relação ao que é essa profissão; e, no caso da gente, esse propósito, essa vocação exige. Mas foi muito curioso esse momento em casa, porque a gente ficava brincando muito um com o outro, porque cada um merecia ganhar, tudo. No final, ninguém ganhou, mas isso aí já foi um prêmio, além dos meus maiores sonhos; concorrer contra o meu pai foi realmente muito gratificante. Até você vê que eu não paro de falar sobre esse assunto, poderia falar aqui vários minutos sobre isso. E imagina só, aí as pessoas comentaram: "Ah, quando você foi indicado de novo, com o “Faróis do Sertão”, você não, de repente, não sentiu a mesma emoção". Acho que foi tão grande quanto a primeira indicação. Sabe? Porque você faz um álbum com tanto carinho. Eu comentei só por cima do processo com vocês, porque de fato o processo é muito intenso, porque para compor uma música você leva anos, para arranjar ela leva mais alguns meses aí. A gente vai gravando peça por peça, produz cada peça de cada músico, pensa cada arranjo de cada instrumento que vai entrar, qual instrumento que vai entrar, grava, não gosta, regravara, melhora, evolui, pensa em participações especiais, pensa em cada instrumento que vai ser colocado em cada música, grava, não tá feliz, regravara, sabe? Não poupa takes, não poupa horas, sabe? Acho que mais de 1.000 horas num álbum daqui a pouco, se for realmente contabilizar assim no pé da letra. Então são processos artesanais e quando a gente recebe uma indicação como essa, de um Grammy, do Latin Grammy, é maior que qualquer sonho de vida, sabe? Posso também só reforçar aqui, a minha gratidão imensa, a um dos maiores prêmios que eu ganhei na minha carreira, que foi o “Prêmio da Música” em 2024, realmente, e com o repertório do “Faróis do Sertão”. Então, acho que quando você consegue receber prêmios dessa grandeza, isso te ajuda muito a te mostrar que o caminho que você faz, que muitas vezes é talvez na contramão de muitos cursos que a gente vê hoje em dia de gestão de carreira, eu tô fazendo tudo errado, talvez, de uma maneira, quando você vê um curso X, quando você recebe uma premiação como essa ou uma indicação, como no caso do Grammy, que é um sonho também, um dia, quem sabe ganhar. Esses prêmios motivam muito a gente. Dão uma força emocional gigantesca para continuar produzindo, e tenho vários álbuns já engatilhados para os próximos anos. Agora é ir com calma, respirando e curtindo cada processo. 

 

 

Dissonância: Na canção “Me Ajuda”, você gravou com o mestre Ivan Lins. Como foi a experiência de colaborar com um de seus ídolos e como surgiu a ideia de convidá-lo para participar tanto do áudio quanto do videoclipe?


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Gravando com o ÍdoloGabriel Sater

Gabriel Sater: Realmente, gravar com o Ivan Lins, esse mestre incrível sagrado, os maiores ícones, e lendas vivas da nossa boa música brasileira, foi realizar um sonho. Nessa entrevista, você vai ouvir eu falar várias vezes uma frase como essa, porque quando eu toco grandes ídolos e posso gravar com eles, compor com eles, isso vai além de qualquer sonho de um jovem que vem do interior do país pudesse pensar que um dia iria realizar. Dito isso, eu venho desde 2016 gravando clipes com os meus ídolos musicais. Primeiro foi Luiz Carlos Sá, que se tornou parceiro. O Sá da dupla Sá e Guarabyra. A gente tá com mais de 30 músicas juntos, já até começamos um álbum que será lançado pro futuro. E, de lá para cá, gravei com Renato Teixeira, com Sá. Meu próprio pai, demorou 22 anos, mas a gente gravou um clipe juntos. E para o Ivan Lins, a gente foi para o Rio de Janeiro gravar apenas o áudio. E o clipe aconteceu graças à generosidade do Ivan Lins. E preciso aqui dizer, muito obrigado não só ao Ivan, mas como o João Lins, seu filho e manager, que foi de um fino trato comigo absurdo. Desde o início, que uma amiga em comum fez essa ponte entre nós. Eu queria muito gravar com o Ivan essa música inédita do álbum “25 Anos de Música”. O meu mais recente álbum lançado, “25 Anos de Música”, traz músicas inéditas, traz regravações de algumas músicas do passado que eu já tinha gravado, com novos arranjos e novas cores, e músicas que no passado também eu não gravei. E uma das inéditas que a gente queria muito gravar, e que eu tava sonhando faz tempo em gravar e tinha algumas pessoas me pedindo, era “Minha Ajuda”, parceria com o Sá e com o João Gaspar. Quando eu cheguei pro Gaspar e falei: "Gaspar, imagina o Ivan Lins nessa música", ele quase desmaiou. Eu vi no olho dele, a emoção. Falei: "Vou lutar por esse sonho". Então, responder essa pergunta para você aqui agora, é um coração imenso de gratidão, de sonho realizado mesmo, sabe? Acho que eu vivo para isso, para momentos como esse. E, como eu disse, a gente foi para fazer uma gravação que já era, para mim, mais do que a realização de um sonho, e poder ter conseguido gravar o clipe, registrar isso em imagem, foi além de qualquer expectativa e sonho. Obrigado, Ivan, por ser esse mestre incrível sagrado e essa referência não só musical, mas que me mostrou que é um mestre generoso. E seguirei me inspirando nele como artista e como pessoa. Viva o mestre Ivan Lins. E no clipe, com o Ivan Lins de “Minha Ajuda”, quero agradecer muito ao meu amigo de infância e amigo, músico, amigo de composição, que é o diretor Daniel Cavalcante, que foi comigo para o estúdio para gravar as imagens de bastidores com o Ivan. O Ivan topou fazer o clipe, ele tava lá, fez o clipe acontecer, editou, fez pós-produção. Então, muito obrigado ao Daniel Cavalcante, esse irmão de longa data, que arrasou na direção e finalização do clipe de Minha Ajuda.

 

 

Dissonância: Você define seu estilo como uma mistura de Folk, Rock Rural e "latinidades" da fronteira. Como o bioma do Pantanal e a cultura sul-mato-grossense continuam sendo sua principal fonte de inspiração para novas melodias?


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O PantanalGabriel Sater

Gabriel Sater: Sim, o Pantanal e o Mato Grosso do Sul formaram uma base eterna no meu coração, nas minhas melodias, na minha mente musical, nas minhas memórias afetivas. E sempre que posso, tô por lá. Queria poder ir muito mais pantanal, às vezes a correria não deixa, mas é um lugar que você vive um mundo diferente. Meu pai não à toa compôs melodias incríveis por ser quem ele é e por estar em ambientes de muita inspiração, de muita mágica, de magia no ar, no pôr do sol do Pantanal. Então, é um lugar assim que propicia você produzir lindamente músicas de muita qualidade, de muita poesia, e de muita “profundidade” a palavra também, sabe? Eu acredito também que essa base me ajude a voar por onde quer que eu queira, guardadas as devidas limitações do meu próprio ser. Mas o acho que a posso dizer que a emoção é a principal fonte de inspiração, pensando aqui de verdade, porque eu sigo através da emoção para fazer tudo na minha vida. Claro que muita razão, na questão de trabalhos na empresa e trabalhos mais sérios, por assim dizer, mas a emoção dita o meu caminho de composição, mais do que tudo. Tanto que a parte teórica de anos de estudo, fica de lado nesse momento. O momento de busca, e como eu te disse anteriormente, de caçador de melodias. E estar num dia feliz, num lugar com calma, sem celular; eu costumo dizer agora que o meu momento de maior felicidade é o momento offline às vezes, porque quando você consegue conectar com o seu eu, você conversar com você mesmo, sem nenhuma distração, sem nenhum momento fora do teu momento concentrado ali, de meditação, de composição embaixo duma árvore, numa natureza que ninguém te acessa. Hoje em dia é fácil você acessar qualquer pessoa. Minha equipe tem contato comigo 24 horas por dia. Isso é maravilhoso. Quero estar sempre disponível para eles. Mas a gente conversou e a gente entendeu que é muito importante eu ter momentos de respiro e de paz de espírito para poder fazer o que só eu posso fazer na minha equipe, que é realmente buscar novidades musicais.


Dissonância: Interpretar o violeiro Xeréu Trindade no remake de Pantanal foi a realização de um sonho de infância. Como foi o desafio físico e psicológico de se preparar para esse papel, incluindo a perda de 14kg e o estudo de temas sobrenaturais?


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O AtorGabriel Sater

Gabriel Sater: A preparação para viver o violeiro Xeréu Trindade e Cramulhão, foi uma das mais difíceis, enriquecedoras e foi uma bênção mesmo na minha carreira, porque era o personagem que eu mais queria fazer. O que eu mais quis na minha vida, passar um teste, foi para fazer essa novela. Por inúmeros motivos, pela ligação que eu tenho com o Pantanal, por causa do meu pai, por ter estado lá criancinha na gravação da novela original, por amar a novela como uma das maiores obras de arte em dramaturgia, teledramaturgia da história. Pra mim, Pantanal e Renascer são as novelas que eu mais amo. E, quando fiz o teste, todos os dias eu acordava pensando e me preparando pra novela, independente de ter passado no teste, falei, “vou começar a me preparar, porque eu quero esse papel”, e quando eu conseguir, não é “se”, é “quando” eu consegui, eu vou estar um pouco mais preparado. E começou mesmo a parte física, começou com a parte de estudo de viola, porque até aquele momento do teste, eu ainda não sabia que tinha o duelo, entre eu e o meu pai, nossos personagens teriam um duelo de viola icônico, maravilhoso e dificílimo, porque, sou violonista, tem uma base mais no violão do que na viola. Então, eu tive que estudar como se não houvesse amanhã a viola de dez cordas pra poder, primeiramente, viver um personagem que era um virtuoso do instrumento e, segundo, pra esse duelo tão esperado. Então a minha rotina era só de estudo. Abandonei o máximo que eu consegui, todas as atividades extras. E só estudei. Viola, canto, atuação, parte física, parte sobrenatural, como você bem colocou na sua pergunta, em termos de pesquisa e referências, de entidades, filmes do gênero. Contratei dois profissionais que me ajudaram na pré-produção, na minha preparação no caso. Foi o João Gaspar, meu produtor dos meus últimos álbuns, me ajudou muito na preparação musical, que claro, volta e meia estava batendo texto comigo, e Érica Altimaia, que é minha professora, colega de atuação e professora de atuação, que antes da novela também fez uma preparação incrível comigo, achou caminhos lindíssimos. Sempre que eu tenho um trabalho novo na dramaturgia, eu consulto ela. Outro anjo nessa produção também, além de toda a equipe, diretores fantásticos. Tive a honra de trabalhar com o Rogério Gomes, que era um, um sonho de longa data, porque meu tio tinha trabalhado com ele na novela Paraíso, no passado. Falado muito bem dele, e outros amigos também comentavam da dinâmica dele de direção. E quando trabalhei com ele, foi assim, realmente tudo que me falaram e muito mais. Aprendi muito, como ser, tentar ser um líder, porque ele já tem uma vivência incrível de muitos anos. Quis sair pra falar, simplesmente aprendi muito com esse mestre, que é Rogério Gomes e inúmeros diretores incríveis que trabalham com ele. Dito isso, eu tive a oportunidade de trabalhar com a Andréa Cavalcante, que é uma diretora de elenco, uma pessoa artista fantástica, que, por sinal, fez a novela Ana Raio e Zé Trovão com o meu pai. Ela fazia parte do elenco, teve essa curiosidade, que a gente comentou muito sobre isso. E ela tem um trabalho magnífico. Me apaixonei pelo trabalho da Andreia, pela pessoa dela, e, com certeza, próximos trabalhos farei tanto com a Érica, a preparação, depois vou para a Andreia aprender e evoluir com ela, porque as duas são fantásticas e quando você se respalda num time, um coletivo criativo, artístico, que te inspira, que te desafia, é nesse desconforto que você evolui. Eu tava o tempo inteiro desconfortável, porque eram muitas ações que eu tinha que estudar. Então, a pré-produção foi muito difícil. Foi mesmo assim, dos trabalhos mais, como eu disse, enriquecedores, mas desafiadores ao mesmo tempo. Uma observação curiosa desse processo foi que eu reparei que a melhor escolha que eu fiz foi me desligar da vida digital. Isso, meu tempo parece que duplicou, e quando eu tava no Pantanal, já in loco, eu cheguei 52 dias antes de começar a gravar, foi um período muito especial, porque eu convivi com o meu pai todos os dias, a gente tocava viola, a gente compôs o duelo juntos, a gente vivenciou aquela atmosfera pantaneira, de acordar 4:30 da manhã. Já fazia a meus exercícios do sol pantaneiro, aquele clima, você vai se ambientando, ia pro trabalho de gado com os peões, ficava no galpão, ficava tocando lá com eles, tomando tereré. Então, essa vivência, que eu já tive de infância, mas ali muito mais focada nesse destino final, nesse objetivo final, que era fazer um trabalho não só bom, sonhava em fazer um trabalho excepcional. Esse era o sonho, então tive que me dedicar de uma forma excepcional pra tentar, de alguma maneira, porque a gente nunca tem, nunca sabe como é que vai ser o futuro. Eu falar agora é muito mais fácil do que como eu estava quando eu estava vivendo intensamente cada dia, cada desafio de cada cena, cenas dificílimas, e tendo que parece que estrear todo dia, porque todo dia é uma cena nova, uma intenção, uma música nova, também teve essa parte musical que demandou muito. Eram muitas músicas. Tive a felicidade de colocar algumas músicas próprias, tanto instrumentais que eu compus com o João Gaspar na preparação, tanto outras canções de outros artistas da minha terra lá de do Mato Grosso do Sul, que tinham muito a ver com essa novela. Então homenageamos grandes compositores do Mato Grosso do Sul, Paulo Simões, Geraldo Spíndola, até Helena Meirelles, fizemos um solinho da Helena Meirelles, para homenageá-la. Foi um projeto assim inesquecível, que mudou minha carreira, mudou minha vida e, como artista, não tem nada melhor do que um desafio gigante como esse. Poderia ficar aqui uma hora falando dos detalhes que a gente vivenciou lá in loco, com a família que foi criada com aquele elenco único, projeto, sabe, lindíssimo, exuberante, e que eu tenho muito orgulho de ter feito. Olha, um sonho realizado mesmo, viu? E vale reforçar a alegria e sonho realizado de trabalhar em uma obra de Benedito Ruy Barbosa, que foi adaptada pelo seu neto talentosíssimo, Bruno Luperi. Que privilégio trabalhar com uma obra original do mestre e com esse jovem mestre que é Bruno Luperi, de um talento também imenso. Vale ressaltar que Bruno Luperi que escreveu o fatídico, o inesquecível duelo entre Xeréu Trindade e Eugênio. Então, devo muito ao Bruno Luperi por essa oportunidade, por ter trabalhado com ele e com toda a direção do Rogério Gomes que eu já comentei, diretores fantásticos que aprendi muito com sua equipe, eternamente grato, sabe, e eternamente em meus corações.


Dissonância: Seu pai, Almir Sater, sempre o apoiou para que você "voasse de forma independente". Como foi o processo de construir uma identidade própria na música instrumental e no folk sem se apoiar apenas no sobrenome Sater?


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As ReferênciasGabriel Sater

Gabriel Sater: O processo de construir uma identidade própria na música, e sem apoiar no nome do meu pai, foi um processo extremamente longo, em ritmo de carro de boi, como meu pai diria. Baseado muito no trabalho. Quem me conhece sabe, essa frase é muito perigosa hoje em dia, mas quem me conhece sabe, o quanto eu me dedico, o quanto eu me dediquei desde o primeiro minuto que eu resolvi ingressar 100% na caminhada, na jornada profissional artística e musical. Não haveria outra maneira, ao meu pensar, a meu ver. Eu sei que tem uma série de exemplos fantásticos, de pais lendários na música, já ícones da nossa música, que tem filhos ultra consagrados já, e que tiveram esse respaldo de carreira, de escritório, de estrutura, né? Meu pai, lógico, sempre me aconselhou, sempre me deu lições impagáveis. Essa é uma sorte que eu tenho, por ter uma referência em casa, que sem ele em casa, preciso dizer, talvez nem seria músico. Então, ter uma figura tão importante, esse farol dentro de casa foi imprescindível para eu seguir o caminho das artes. Se não fosse meu pai, talvez eu teria seguido outro caminho e teria sido muito mais infeliz, viu? Porque quando eu resolvi seguir o caminho musical, a felicidade, pelo menos, me acompanha de lado a lado. Porque quando você faz algo que você ama, por mais difícil que aquilo seja, você sente que seu tempo tá sendo bem investido. E não tem outra maneira, a não ser muito trabalho, muito estudo, ser procurar se conhecer. Faça terapia, aprenda sobre você para você poder tomar suas escolhas. Porque ao longo da minha carreira foi isso, os erros que eu cometi, hoje em dia, vendo como engenheiro de obra pronta, foram erros que eu fui mais ao conselho de outros do que do meu. Mas no começo você ainda tá formando sua identidade, suas escolhas, formando o que é que você realmente quer. Muitas vezes, você não sabe. Você tem um produtor te ajuda, amigos que te ajudam, familiares, no caso do meu pai, e você vai aprendendo o que é bom para você e o que não é. Essa pergunta é maravilhosa porque a gente pode passar horas debatendo, vários pontos a respeito disso, e sem que eu me alongue aqui. Para mim, o trabalho e a vontade de fazer algo novo foi o que ditou as rédeas da minha vida. Você tem que saber muito bem o que você quer, por mais que você não saiba, você tem que procurar saber. Você tem que fazer essa autorreflexão diária, entender por que você tá nesse mundo, o que que você pode fazer de diferente, o que que você, seu ikigai, como eu li esses dias num livro. Qual é o seu propósito? O que que você acha que realmente você pode fazer de diferente? O que que você é bom? O que que você acha que o que você é bom, você pode trabalhar com isso? E dentro da sua área, como é que você pode ser diferente? Sempre busquei estudar muito para na hora de compor através da minha da minha emoção, como eu disse anteriormente até na entrevista, seguir minha emoção, mas também consegui trazer algo novo, ritmicamente diferente. A gente pulsa diferente lá no Pantanal, então poder observar influências distintas e trazer um resultado homogêneo no final, que não fique forçado de nenhuma maneira. São tantas boas histórias nessa pergunta; eu acho que analisando hoje em dia, como foram importantes todos os erros que eu tive para chegar nesse momento agora de um pouco mais maduro musicalmente, artisticamente. Quando a gente fala de sobrenome já consagrado, como no caso do meu pai, a responsabilidade aumenta de uma forma imensurável. Mas a pressão nesse sentido, sempre foi muito mais o meu perfeccionismo pessoal, a minha mão ser a mais pesada em relação a críticas e autoavaliação de tudo o que eu faço, mais do que qualquer outra pessoa. Então, cada um tem que se permitir respeitar seu próprio limite, respeitar sua própria essência e saber que, mesmo tendo um pai maravilhoso como o que eu tenho, eu vou chegar aonde eu trabalhar para conseguir chegar. Tenho que ter essa consciência. Você vai colher o que você plantou. É muito simples isso, você vai estudar. Ah, muitas vezes você vai plantar e não vai colher. Sim, mas lá na frente, se você perseverar, continuar, uma hora esse retorno pode vir. De formas distintas, diferentes, de repente não da maneira que você pensou. Mas eu acredito muito nisso. Quando você trabalha o que você quer, você sonha, você projeta, você visualiza, isso tem uma força grande de acontecer. Mas o ingrediente de tudo isso aí é trabalho. Não é talento, ele ajuda, mas ele, o talento, sempre vai me encontrar estudando, trabalhando, pesquisando, assistindo referências, e sempre focado na evolução pessoal, e depois artística. Penso muito nisso, o quanto é importante a evolução pessoal. Quero ser um ser humano melhor para todos e, claro, quero ser um artista, um músico melhor a cada dia. Mas a evolução pessoal tá muito, é uma das principais prioridades, vamos colocar assim, da minha vida. Sempre gostei de trabalhar de forma independente. Tanto que quando eu conheci Paula Cunha, minha sócia, diretora da Indomável Produções Artísticas, que é a nossa empresa, que foi criada para tomar conta da minha carreira, Paula, além de ser minha sócia, minha esposa, para quem não sabe, a luz da minha vida, ela, quando ela entrou na minha vida, tudo mudou. Minha avó Nair, mãe do meu pai, sempre falava: "Nossa, vocês têm uma ligação única, vocês têm uma luz dos dois assim que que parece que vocês foram feitos um pro outro”. E é muito curioso, porque a gente cresceu muito junto, eu e ela. Eu evoluo muito ouvindo os sábios conselhos que ela me dá. A gente aprende e erra muito junto. Tenho muita sorte nessa vida, nesse tempo, ter encontrado uma pessoa como ela, que me apoia de uma forma incondicional. Tanto que o meu sonho não é mais meu sonho, é nosso sonho. E isso se tornou, vai completar agora 20 anos de união. No final do ano, estou preparando uma surpresa para ela, audiovisual, para a comemoração dos 20 anos de união. E é uma pessoa que eu preciso muito sempre reforçar a importância que ela, a diferença que ela fez na minha vida, na minha carreira. E quando eu busco fazer algo mais artístico possível, é por conta desse incentivo que eu tenho, esse incentivo que eu tenho dela, e lá de casa. Viva Paula Cunha, que é a pessoa que faz a diferença na minha carreira e me apoiou desde o primeiro momento. Uma história que eu recordo com muita saudade, foi bem no comecinho da carreira, lá em 2002, eu já tinha concebido um repertório para um primeiro álbum instrumental. Só que ninguém sabia, nem meu pai. Meu padrasto, que sempre me ajudou muito, um pai para mim, Celso Martins, me ajudou a elaborar um projeto para uma lei de incentivo regional lá no Mato Grosso do Sul, o Fundo de Investimento de Cultura, que dava uma verba para você gravar um disco. É uma verbinha bem importante naquele momento. Mas uma verba não tão grande assim. E eu lembro que eu fiz o projeto com meu padrasto, a gente concebeu juntos, escrevemos juntos, e eu não passei naquele edital. Naquele momento falei: "Puxa, eu queria tanto gravar um álbum já, tenho tanta certeza desse álbum". E aquele sonho, de primeiro álbum mesmo, meu padrasto sentou comigo, Celso falou: "Olha, é só um pequeno atraso. Vamos fazer de novo o projeto, a gente melhora o projeto, vamos ver o que a gente errou, o que que não ficou tão bom, você melhora o álbum, porque quando eu vi o álbum, ele vai vir ainda melhor". Aquilo na hora, na hora, né? Nada como uma pessoa certa, na hora certa, falar algo que muda aquela chave em você. E aquilo me deu mais combustível para eu seguir estudando mais, melhorando o álbum que viria a ser gravado um dia e melhorando o projeto. No próximo ano, em 2003, o projeto foi aprovado. Tanto que, no ano seguinte, eu já mudei para São Paulo para começar a gravação desse álbum, ainda sem ter produtor. Então, por conta disso, gravei algum pedaço do disco assim, algumas gravações eu já fiz em Campo Grande, com Sandro Moreno, nos estúdios lá em Campo Grande. Sandro Moreno gravou bateria. Vlá Jones, também um grande nome da bateria de lá, gravou também. Marcelo Ribeiro, baixista, participou, Alex Mesquita, uma turma que sempre eu tive rodeado, que era uma turma superexperiente da música do Mato Grosso do Sul. E naquela época, eu tocava numa banda chamada GR Espíndola e Croa. GR Espíndola é um baita artista da família Espíndola, que é uma das maiores famílias musicais e artísticas do nosso país. Um tesouro sagrado também. E o Croa era um trio instrumental muito, mas muito de altíssimo nível, muito experiente, ia falar. E eles me acolheram, aquele jovem começando carreira, precisando colher informações, aprender de tudo e com todos, de uma maneira muito carinhosa, muito, muito amiga. Levo eternamente no meu coração esse carinho que eles tiveram comigo, de início de carreira. Tanto que Adriano Magoo, grande pianista do Croa e do GR Espíndola e Croa, Adriano Magoo tinha um tango chamado Tangateiro, cedeu para eu gravar no meu disco, participou comigo. Então, são amizades que a gente leva pra vida. Tô dizendo tudo isso porque, naquele momento de incerteza, tive um apoio do meu padrasto ali, que me motivou. E eu lembro quando eu cheguei pro meu pai, falei: "Pai, tô preparando pra gravar um disco". Ele falou: "Ah, mas será? Já tá na hora?", "Quero ouvir". E ele não tinha ouvido nada ainda. E eu tinha feito já a gravação da música Envido do meu tio Rodrigo Sater, que eu amava. Comecei antes de ser músico, vi ele tocar, ficava fascinado com aquela composição tão diferente, tão moderna, tão progressiva em termos de som. E fiz essa gravação, fiz um novo arranjo, obviamente. Fiz um violão de nylon, meu tio tinha gravado ela no violão de aço, no passado, no seu disco solo. E quando ele, meu pai, ouviu, eu lembro claramente como se fosse ontem, hoje, perdão. Ele ficou muito impressionado com o som, falou: "Nossa, mas tá bonito, hein?", "Aí que mais" E ele ficou interessado no repertório. "Que mais você vai gravar?" E ele me sugeriu até gravar as peças de Agostinho Barrios, que na época eu não tinha ainda pensado em gravar. Ele queria gravar, queria gravar mais um álbum autoral, instrumental. Mas meu pai, naquele momento, falou: "Não, grava essas peças do Barrios, são lindas, você toca tão de uma maneira sua, né?". Tanto que acabaram adentrando essas músicas no repertório, graças ao meu pai. E feliz, porque naquele momento ele ainda não tinha conhecido, não tinha ouvido. Quando ele ouviu, ele gostou. E meu pai é super, não é rígido, mas é, tem um, como ele fala? Ele é difícil de gostar das coisas. São muito, são muito exigentes. Não só ele como o meu tio Rodrigo, minha tia Gisele Sater. Então, foi um momento muito feliz e de resiliência, porque, às vezes, você não passa no edital naquele momento, vale você perseverar. Alguma hora você vai passar. Acho que desistir é o fracasso. Não pode nunca desistir, né? A vida é movimento.


gabriel sater

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