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O Diabo Veste Prada: O Filme Sobre Moda Que Nunca Foi Sobre Moda

Por Rogério Espósito

diabo veste prada

Superação profissional. Uma aula de coaching de recolocação, treinamento, capacitação, como você quiser chamar. O Diabo Veste Prada (DVP), tanto no pioneiro de 2006 quanto na sua continuação de vinte anos depois, entrega as entranhas da Organização Empresarial, com todas as suas mazelas, desafios, vitórias e derrotas, com um realismo impressionante. O exemplo escolhido foi a multibilionária indústria da moda (alguém da produção deve ter estudado muito a sua estrutura organizacional), mas poderia ser a multibilionária indústria do petróleo, das armas, do cigarro. Ou a franquia da lanchonete, a papelaria, a loja do shopping. Nigel, personagem de Stanley Tucci, competente, sobrevivente, sempre esperando uma oportunidade melhor, às vezes preterido, mas nunca eliminado, diz a Andrea no primeiro filme:


- Avise quando a sua vida pessoal estiver arruinada. Hora da promoção.


Na verdade, a máxima do DVP é muito simples: é melhor não ter uma vida pessoal por causa do trabalho do que não ter uma pela falta dele. É bom saber se o trabalho te consome pela exploração da sua expertise que você tanto ama ou pelo fardo da subutilização. Antes disso, é bom saber se o trabalho é realmente um trabalho ou um subemprego pela mera sobrevivência. Nova York, o centro do Universo, tem os dois para oferecer, sempre com vários degraus a galgar:


- To jobs that pay the rent! – Lembram?


Ora, se o (sub)emprego apenas paga o aluguel durante o período de espera de capacitação em busca da sonhada carreira certa, ninguém é de ferro para segurar esse rojão sem a “cachaça”, como diria a música do Chico. Neste ponto, entram duas qualidades inerentes ao ser humano e ao seu ambiente: a cultura adquirida para formar opinião, gerando/consumindo entretenimento de qualidade e a oferta deste último pela cidade onde você vive.


Tudo depende do desenvolvimento econômico do lugar, da sua estrutura familiar, da sua formação e do seu ímpeto de ir atrás de momentos. Lembram da pirâmide de Maslow ? Nova York é o lugar geométrico daqueles que têm cacife (não necessariamente muito dinheiro) para viver no topo dela, mas também daqueles que chafurdam na sua base. E, se você se contenta com o pagamento do aluguel e das contas mais básicas, lavando pratos sem planejar o caminho para onde quer chegar, ou mesmo sem saber se você quer chegar a algum lugar, sua Nova York será sempre subutilizada e tudo o que você perceberá nela será a dureza da realidade dos apartamentos minúsculos com aqueles tijolinhos aparentes e escadas de bombeiros, da violência, da fumaça dos sistemas de aquecimento, do mau cheiro do Hudson ou dos ratos do metrô.


O seriado “Sex and the City” passa a mesma idéia. A moda tem suas futilidades, mas só pode gerar emprego e renda onde existe sobrevivência garantida e recurso excedente para realização pessoal. É preciso visão e planejamento. E um talento para improvisar e mudar de direção quando o “bagulho fica doido”. Andrea Sachs tem isso de sobra. Miranda Priesley não tem o menor pudor em apelar para a ignorância, Nigel se contenta em ser sempre útil e Emily... bom, Emily é ambiciosa, tem uma empregabilidade notável pela paixão no que faz, mas, diferente da antiga chefe, nem sempre sabe o que fazer. É a que mais erra.


Mas reflita sobre esta observação óbvia: ninguém, absolutamente ninguém, sobrevive onde há somente o nada. Na hora da recessão, do corte, os sobreviventes também passam aperto e fazem concessões. Esse momento difícil pode virar um cenário constante se não há perspectivas de recuperação no longo prazo. Não se trata somente de ser “obrigada” a viajar de classe econômica. A coisa pode evoluir para não viajar. Não se trata apenas de ter que fazer a sua refeição na lanchonete do segundo andar porque o voucher do restaurante não está mais disponível. A coisa pode evoluir para o fechamento da própria lanchonete. A partir daí, o DVP te leva mesmo a uma reflexão político-ideológica sobre a evolução do embate capitalismo/socialismo. Não vem ao caso aqui.


Ninguém vai a Nova York à toa. Todo mundo espera alguma coisa de lá. Algum aprendizado, alguma experiência, alguma realização. Milão é sucesso, Paris é Paris, mas tudo nasce e retorna a Nova York. O happy hour depois de um dia profícuo que gerou renda... o teatro, o jazz, o vinho, o bagel, a pizza e o hamburger. De metrô ou de carrão, tudo transporta vida, sonho, esperança, sem tirar os pés da realidade, sem utopia. O Diabo Veste Prada é um convite a você pensar se está mesmo preparado para mergulhar na vida que desafia, mas pelo menos existe com perspectiva, sem o marasmo da derrota e estagnação eternas. Nós não moramos lá e lá também não é o paraíso. Mas é bem diferente de zero, pelo menos para quem tem alguma “garrafa vazia para vender”. Independente de onde você mora, tem um ditado que diz:


“Cada manhã na África, uma gazela se levanta. Sabe que terá que correr mais que o leão Ou será morta. Cada manhã na África, um leão se levanta. Sabe que terá que correr mais que a gazela Ou morrerá de fome. Leão ou gazela, pouco importa. É melhor começar a correr”

Ok, é profundo, tem significado. Mas o DVP sugere que há maneiras de usar a cabeça e o coração para correr menos e viver mais. Assista.


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