Desenraizamento: o verdadeiro tema por trás da “Depressão Pós-Disney”
- Rogério Espósito

- há 21 horas
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Por Rogério Espósito, 04/04/2026

Recentemente, vi um vídeo interpretado por profissionais como sendo a chamada "Depressão Pós Disney" (DPD). Uma turista brasileira adolescente chorando muito e dizendo que não quer voltar para, segundo ela mesma, "o buraco que é a cidade onde mora". Ela quer ficar em Orlando, morar no Castelo da Cinderela. Alguém analisou como um caso típico de DPD, "não me cabe julgar, só quem já passou sabe".
Muitos turistas passam pelo sentimento de nostalgia ou melancolia de fim de viagem, principalmente quando ela rendeu momentos bons e memoráveis. Hora de voltar para a rotina, o trânsito, o stress, que chato. Sim, é uma sensação meio incômoda, mas não chega a deprimir na maioria dos casos. Porque, na maioria dos casos, quem volta de viagem, volta revigorado para retornar às atividades profissionais das quais gosta e se orgulha de exercer, pois o salário que lhe permite realizar uma viagem desse nível provavelmente não vem de um sub-emprego de subsistência. Para estes turistas, o melhor destas viagens é voltar para casa com a bagagem cheia de memórias, conquistas e novidades. A tal "melancolia" ou "nostalgia" se dilui na volta pro aconchego do quarto, da cama, do sofá, da geladeira cheia do que a gente gosta de comprar no mercado ali perto...
Ora, se a tal melancolia de fim-de-viagem ganha proporções de depressão, é porque provavelmente o turista já rompeu relações com o ambiente onde mora há muito tempo. Essa moça vive provavelmente um caso de "desenraizamento". Não se sente pertencente à cultura, aos costumes, aos valores do seu meio social. Dependendo da idade, nem sabemos realmente a que conjunto de costumes e valores gostaríamos de pertencer. Isso agrava a situação, pois soma à insatisfação do não-pertencimento a insegurança de não se saber o que se quer. Sabe-se apenas o que NÃO se quer: voltar para aquele ambiente. Aí, o Castelo da Cinderela passa a ser um Paraíso, "quero ficar aqui pra sempre".
Mas como ficar ali para sempre de uma maneira sustentável ? A vida de imigrantes que vão trabalhar na Disney não é nenhum paraíso, todos sabemos disso. Na maioria dos casos, trabalhar lá é apenas um degrau para o que efetivamente se busca. Não quero e não tenho o direito de julgar a moça do vídeo. Mas de sensação de não-pertencimento eu entendo um pouco. Ela precisa se planejar. E pode começar negociando com a família a possibilidade desta lhe ajudar com um aluguel em um bairro ou município mais atraente, inclusive do ponto de vista logístico para o cenário profissional que a moça também já tem que ter traçado. Escute "Palavras Cegas", moça.
Se tudo lhe parece impossível hoje, aproveite o isolamento inevitável para estabelecer metas razoáveis de curto e médio prazo. Já está na faculdade ? O curso é promissor ? Precisa mudar ? Tem apoio familiar ? Precisa trabalhar enquanto estuda ? Faça. Viva seus dias trabalhando pelo dia derradeiro no qual você se mudará daí. Até lá, evite eventos locais de baixo retorno cultural ou de alta relação custo/benefício. Recolha-se para ler, estudar, aprender sobre Inteligência Artificial aplicada à sua área, por exemplo.

Estou procurando um livro chamado "O Enraizamento", de uma filósofa chamada Simone Weil. Ela atribui à falta de identidade do homem com suas raízes o status de maior ameaça à Civilização Ocidental ! Veja a ampliação de escala em relação à sua DPD ! Leia esse livro e me conte se vale a pena. Rompa com o que tiver que romper, mas faça outros laços com aquilo que realmente representa os seus valores. Para isso, você deve desenvolvê-los. Saber o que quer, formar opinião. Só o fato de ter consciência de estar se movendo, tomando providências, vai fazê-la sentir-se melhor, mesmo que você tenha que "sacrificar" o seu tempo presente ralando para construir um futuro.
Rezar pra Santa Rita somente não vai adiantar. Eu, Rogério Espósito, te entendo e desejo que você encontre o seu caminho, seja ele uma estrada para Orlando, uma Stairway to Heaven ou uma rotina prazerosa junto aos seus em um lugar que te faça bem. Boa sorte!

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