A Fábrica dos Eleitos
Atualizado: 13 de set.

As redes sociais não democratizaram o meio artístico. Essa é uma ilusão criada pelos detentores da tecnologia, com a qual artistas e, às vezes, até mesmo produtores querem sonhar. "O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer", diz o artista à plataforma ou ao streaming.
Nas décadas de 80 e 90, as grandes gravadoras apostavam suas fichas na palavra "jabá", que tinha vários significados e margens de erro baixíssimas. Hoje, os streamings concentram o poder de decisão sobre quem vai tocar nas suas playlists, e a quantidade de músicas compostas (ou geradas) por minuto é estarrecedora.
Some-se isso à falta de discernimento de um público consumidor ignorante, que não lê um parágrafo até o fim e não tem paciência para escutar uma introdução de 10 segundos... e você tem um oceano de anônimos on-line pagando anúncios e sonhando em tocar numa rádio, ou numa casa de shows, ou em fazer um programa ao vivo em uma emissora-âncora qualquer.
Os pouquíssimos selecionados terão que desembolsar muita coisa para isso... E assim, a banca nunca quebra. Aliás, nunca quebrou.
Ora, o que paga um investimento como esse? Royalties de streamings? É pouco, pouquíssimo... A receita que verdadeiramente compensa o desembolso é o velho cachê das gigs. Às vezes, ele não vem da bilheteria, mas do patrocínio de quem viabiliza o show, seja pela via particular, seja pela via pública das leis de "incentivo" à cultura.
Nada de novo no front... Alguns novos players, só isso. Alguém sempre vai decidir que outro alguém vai fazer sucesso, e o primeiro alguém não é o público instruído, muito menos a massa ignara.
Essa última contribui com audiência, execuções e, principalmente, novos candidatos ao sucesso, perene ou temporário.
É muito interessante o efeito que o "sucesso" de "novos famosos" tem nos anônimos que o consomem: a esperança das multidões de excluídos, meros espectadores, se renova a cada dia com o sonho do protagonismo.
Afinal, o que os "eleitos" fazem, a grande maioria também consegue fazer! Como no futebol: com esse plantel de "profissionais" que atua e enriquece hoje nos clubes, os "peladeiros" mantêm a esperança de um dia serem contemplados na peneira também! Qual é a diferença técnica entre os dois? Mínima...
Eu não chamaria essa estrutura milionária do esporte, nem essa revolução tecnológica nas artes, necessariamente de "oportunidade"...
Acho que, por exemplo, festivais e outras competições periódicas feitas com seriedade, aliadas a canais independentes sérios e âncoras já famosas de comunicação e divulgação, fariam este papel.
"Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome", mas, para isso, essa "gente" tem que ser descoberta. E depois, divulgada para o público correto.
Manter-se estudando, evoluindo e, principalmente, fazendo com que o público também tenha que estudar e evoluir para acompanhar.
Ih... agora ficou mais difícil...
Quem topa o desafio de formar pessoas que formem a cultura, artista e público, para depois formar a "alta cultura", a elite verdadeiramente pensante, com valores, para aí, sim, sonharmos em ter um país?
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