top of page
dissonancia-logo-preto-vermelho(1080)_transparente_edited.png

Raio-X do Álbum Dawn of Annihilation - A 2ª Guerra Mundial na visão de Phantom Falcon Division

Por Fábio Drummond

phantom falcon division

Vamos começar com uma constatação interessante: alguém, em algum lugar do Brasil, acordou um dia e pensou "e se eu fizesse um EP de heavy metal sobre a Segunda Guerra Mundial cantado em inglês, alemão, japonês e português?". E pior: conseguiu convencer outra pessoa a tocar junto. Assim nasceu, em 28 de novembro de 2025, EP Dawn of Annihilation, da banda Phantom Falcon Division ou, como provavelmente se apresentam em festas de família, "aqueles que falam de tanques em vez de futebol".


Uma introdução necessária para quem ainda não conhece o projeto: a Phantom Falcon Division é uma banda de heavy metal temático, com foco cirúrgico em conflitos bélicos, especialmente a 2ª Guerra Mundial.


phantom falcon division formação
Daniel Palomo, Max Fiedelstein, Emir Von André, Eduardo Guilherme

Formação:

Emir Von André (André Freire): Vocal, guitarra e synths

Max Fiedelstein (Heitor Campos Dias): Guitarra, voz e baixo

Daniel Palomo: Baixo

Eduardo Guilherme: Bateria


Emir, o guitarrista e vocalista, recusou a palheta como outros recusam compromissos afetivos: definitivamente e sem negociação. Aluno da escola fingerstyle, preferiu atacar as cordas com os próprios dedos, o que exige uma explicação convincente para qualquer headbanger mais conservador. A explicação, felizmente, está no disco.


O outro arquiteto do projeto é Max, multi-instrumentista que gravou praticamente tudo nas demos e foi também a primeira plateia de algumas das decisões mais desconcertantes da produção. Mas isso virá com calma, faixa a faixa.


ALLIED FORCES: Phantom e a diplomacia no volume máximo

A abertura já vem no modo “reunião da ONU com distorção no talo”. Em Allied Forces, o verso “Attack one of us, It's attacking all of us” (Atacar um de nós é atacar todos nós) já chega espancando a porta com coturno.


A letra faz um resumo didático da Segunda Guerra Mundial, mas sem aquela pretensão acadêmica. É mais próximo de um briefing militar narrado por alguém com pressa e um amplificador ligado no 11. Quando eles mandam “Beware! The Allies strikes back” (Cuidado! Os Aliados contra-atacam), não estão emitindo um aviso, é ameaça mesmo.


O detalhe curioso aqui é o vocal gutural, que simplesmente… aconteceu. Não foi planejado. Escapou. E ficou. O tipo de acidente que, em vez de ser corrigido, vira identidade. Dá um certo charme caótico, como quem tropeça na escada e decide descer rolando porque já começou mesmo.


LUFTWAFFE ASSAULT: velocidade, fumaça e radar apitando

Em seguida, “Luftwaffe Assault” acelera as coisas. Speed metal de alta octanagem, com sintetizador imitando torres de controle de voo, isso porque Emir curte um synthwave e, por isso, não consegue fazer uma música de dogfight sem meter retrowave no balaio. “Feuer mit feuer” (Fogo com fogo).



A premissa: uma dogfight entre um piloto da RAF (foto azul) e um da Luftwaffe (foto em preto e branco).

A inspiração: relatos reais de pilotos da época, com menção especial a Erich Hartmann, o maior ás da história da aviação, com mais de 350 abates aéreos, recorde que permanece intocado até hoje. O homem era tão casca grossa no ar que os soviéticos colocaram preço pela sua cabeça.


É divertido imaginar o piloto da RAF ouvindo esse som, enquanto tenta não levar um tiro no meio dos córneos. Pois é, mas a faixa cumpre seu papel: trilha sonora para quem gosta de sentir o vento da hélice na cara sem sair do sofá.


THE DESERT FOX: o fantasma que anda de tanque

Aqui o EP desacelera, ou seja, “fica mais pesado ainda”.


The Desert Fox mergulha na figura de O homenageado: Erwin Rommel, o único alemão que os Aliados respeitavam, aliás, o único militar da 2GM respeitado por ambos os lados do conflito. Volksmarschall (o Marechal do Povo).


erwin rommel
Johannes Erwin Eugen Rommel

O verso “We can't see, but can you hear? Is the BOOGEYMAN!” (Não conseguimos ver, mas você consegue ouvir? É o bicho-papão!) eleva o cara ao nível de lenda de guerra.


Eu, particularmente, achei muito melodramática. Mas aí entram os detalhes que salvam a faixa de virar só mais um hino genérico:

  • o phaser simulando motores de blindados,

  • as vozes entre versos como “fantasmas do deserto”,

  • o uso da técnica de ataque chamada “pagode” que, ironicamente, ajuda a construir um dos momentos mais tensos da música.


Sim, pagode. No meio da guerra. Mas pior que funciona.


Quando eles repetem “Beware the phantom, The Desert fox” (Cuidado com o fantasma, a Raposa do Deserto), aí já deixou de ser história militar e baixou o espirito do folclore. E talvez seja exatamente essa a ideia.


SNAKE’S SMOKE: o Brasil entra na parada

Agora a cobra vai fumar, a Força Aérea Brasileira entrou no conflito. Antes da guerra, se dizia que era "mais fácil uma cobra fumar que o Brasil entrar na guerra", pois é, olha no que deu. Entramos na guerra e a símbolo virou a cobra fumando.


símbolo da FEB. cobra fumando
Insígnia da FEB na 2ª Guerra Mundial

"In memorian of brave brazilians who / Fought so hard And, Fall for their honor" ("Em memória dos bravos brasileiros que / Lutaram tanto e, caíram por sua honra").


Essa é a faixa onde a banda para de falar de estrangeiros e decide que os Praçinhas da FEB merecem seu próprio hino metálico. E não é qualquer hino, é baseado em O Guarani, de Carlos Gomes. Sim, aquela da Hora do Brasil. A Phantom Falcon pegou a música que anunciava programação estatal e a transformou em marcha de guerra contra nazistas na Itália. É culturalmente absurdo, mas muito interessante e funcional.


O interlúdio fingerstyle do hino da FEB era pra ser curto. Mas a mãe do Emir achou que devia ser mais longo. Emir, que não usa palheta (lembra? ele é da "escola Fingerstyle", o que pode soar suspeito, como algo que você inventa para justificar ter perdido todas as palhetas), toca o hino concentrado, com medo de errar alguma nota, parece que tá tocando para a própria mãe. O que, aliás, é exatamente o caso: a mãe de Emir insistiu que o hino deveria ser mais longo. E com mãe não se discute, o hino ficou mais longo. Essa é a curiosidade mais adoravelmente brasileira deste EP inteiro.


KAMIKAZE BÖDO: quando a banda resolve não traduzir nada

"Watashi no tochi ni wakare o tsugemasu / sensō ga matte irukara" ("Eu me despeço da minha terra / porque a guerra está me esperando").


kamizake
Pilotos japoneses kamikazes

Momento curiosidade: o primeiro ataque kamikaze aconteceu em 21 de outubro de 1944, quando um piloto japonês lançou seu avião contra o cruzador Australia. A estratégia partiu do contra-almirante Takashiro Ohnishi, que defendia o uso de aeronaves carregadas de explosivos como forma mais eficaz de atingir navios inimigos. Com o sucesso inicial, o Japão passou a desenvolver o Ohka (“flor de cerejeira”), uma espécie de bomba tripulada com cerca de uma tonelada de explosivos. Entre os americanos, ficou conhecida como baka (“louco”). O custo da operação era sempre o mesmo: a vida do piloto.


Mas falando agora sobre a faixa em japonês. Inicialmente eu pensei que fosse japonês de Google Translate, mas não, era japonês com Haiku, baseado no personagem Uchiha Madara de Naruto Shippuden, porque é claro que é.


Ao ouvir cuidadosamente a banda, percebi que A Phantom Falcon não faz as coisas pela metade: se vai fazer uma música sobre pilotos suicidas do Japão Imperial, para ficar bem-feito, você vai incluir poesia tradicional e referências a anime, correto? Pois é, eles fizeram isso. Que fique claro que isso, nem de longe, resume o que é o Japão, mas a faixa ganha pontos pela ousadia de ser cantada em japonês.


HELL ON EARTH: sem metáfora, sem saída


hell on earth

Essa faixa seria uma espécie de resultado lógico de um ambiente de guerra, mas tive a impressão de que ela não feita para esse disco propriamente dito, ela abandona a narrativa histórica linear e entra direto no pós-vida. Literalmente. Tanto é que a banda lançou um single dessa música em outubro de 2025.


Mas a banda acertou em cheio ao mudar o clima. Tem grunge, tem industrial, tem sujeira. O verso “While dead bodies stack themselves” (Enquanto os corpos se empilham) é quase desconfortável de tão direto.


"By the Song of the cannon we live / By the Song of the Cannon we tore apart / This is hell this is hell on Earth" ("Pela Canhão da canção nós vivemos / Pela Canção do Canhão nós despedaçamos / Isso é inferno, isso é inferno na Terra").


O fechamento traz Virmond Etrom, guia espiritual que mostra o resultado dos conflitos na visão do Hades. É o conceito mais ambicioso do EP, Dante meets metal. As bombas que caíam em faixas anteriores reaparecem aqui como destino final dos combatentes, criando uma espécie de concept album involuntário sobre como todo herói de guerra termina em carne podre.


A narração de abertura foi executada por Emir sem uso de efeitos, parece que o plugin de distorção travou, mas assim ficou ótimo. O resultado é um vocal gravado por alguém que acordou com ressaca e descobriu que tinha que narrar o Apocalipse antes do café da manhã.



Conclusão: um EP que se excede, sim, mas, ao mesmo tempo, não peca pelo excesso.


phantom

O Phantom Falcon Division EP não é um trabalho que tenta agradar todo mundo. Ele é barulhento demais pra isso, direto demais, e ocasionalmente específico demais.


Mas dentro do que se propõe, um mergulho estilizado, quase cinematográfico, na Segunda Guerra com pitadas de exagero e personalidade, ele entrega.


É um trabalho que não se leva excessivamente a sério, mas também não esconde a vontade de soar épico.


phantom no palco

Curiosidade final: o vocal gutural que “saiu sem querer” acabou sendo uma das coisas mais marcantes. Moral da história? Às vezes o melhor do álbum é o que ninguém planejou. O resto é só blitzkrieg com phaser.


A cobra fumou. O falcão voou. Resta saber para onde vai o próximo ataque.


phantom falcon division página bio-discográfica

Comentários


bottom of page