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Yassir Chediak: O Carioca que Aprendeu a Afinar no Tom Errado

Por Jorge Murilo

yassir chediak com a viola

Tem coisa mais improvável do que um menino criado em Ipanema, entre o asfalto molhado de chuva de verão, o cheiro de coco queimado da orla e o som de bossanova vazando pelas janelas dos apartamentos, se tornar uma das maiores referências nacionais da viola caipira? Tem não. E é exatamente por isso que trouxemos Yassir Chediak aqui nesta nona edição da Dissonância: para nos lembrar que a música brasileira não precisa (nem pede) passaporte, não exige registro de nascimento rural e não obedece à lógica do senso comum.


yassir chediak em campos do jordão

No dia 4 de abril de 2026, a Serra da Mantiqueira acendeu velas e afinou dez cordas em Campos do Jordão. Yassir Chediak subiu ao palco do Campos Hall com o espetáculo Luz & Viola – Roda de Viola e fez o que sempre faz: levou a viola caipira para outros terrenos, porque ela não precisa de terreiro de barro para soar verdadeira.


yassir chediak de chapéu

O carioca de Ipanema, criado entre Nelson Rodrigues e Radamés Gnattali, continua sendo o sujeito mais incômodo do pedaço, aquele que pega um instrumento “do interior” e o enfia no samba, no forró, no blues e até no silêncio da Cantareira. E o pior: o público adora.


O carioca que deu errado (ou será que deu certo?)


yassir chediak e o pai

Yassir nasceu em Ipanema. Isso mesmo: praia, concreto, gente correndo atrás de coisa que não sabe o que é. Não é exatamente o berço clássico de um violeiro. Filho de Braz Chediak, cineasta, e de uma documentarista, ele cresceu pisando em tapetes onde Tom Jobim, Gal Costa, Bethânia e Chico Buarque deixavam cinza de cigarro. Mas aí entra aquela frase que ele mesmo solta, com aquela cara de quem sabe o que tá fazendo:


“Eu tocava o instrumento errado no lugar errado na hora certa.”

Errado pra quem, né?


Porque foi justamente essa inadequação que virou vantagem. A galera tentanto encaixar a viola num molde rural de cartão-postal, Yassir fez o contrário: tirou o instrumento do cercadinho e soltou no mundo.


Mas não foi do nada. Teve base. Aos 10 anos já estava estudando violão com o tio, Almir Chediak, o mesmo Almir dos Songbooks, aquela série de livros que praticamente ensinou harmonia MPB para duas gerações de músicos brasileiros (um gênio).



E não era qualquer aula, não, era harmonia de MPB, daquelas que dão calos nos dedos. Foi com ele que Yassir teve as primeiras lições.


E, de fato, não dá para falar de Yassir sem parar um instante diante do tio Almir Chediak, o homem que praticamente codificou a harmonia da MPB em livro. Criador dos célebres Songbooks, Almir transformou as cifras e arranjos de Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso e outros gigantes em material didático acessível, ensinando violão para gerações inteiras de brasileiros que nem sabiam que precisavam aprender. Foi ele quem deu as primeiras aulas ao sobrinho, não de violão erudito, mas de MPB, que para Almir era uma língua própria, com gramática e sotaque definidos. Uma herança que Yassir carrega até hoje, mesmo tendo escolhido, com toda a consciência, o instrumento mais improvável que um herdeiro dos Songbooks poderia tocar. Isso porque o garoto era teimoso como viola de metal num show de bossa nova, queria mais: queria solar. Queria o dedo na corda, o som ponteado, o diálogo nota a nota.


Seguiu pelo violão erudito, passou pelas mãos dos professores Nicolas Souza Barros e Carlos Alberto de Carvalho, formou-se na UniRio e, em algum momento dessa trajetória impecavelmente clássica, conheceu a viola caipira. O instrumento "errado". O instrumento que ninguém esperava.


Minas que mora na memória, não no CEP


yassir chediak pé na porta

Só que técnica sem chão vira firula. E o chão veio de Minas, e aqui é onde eu, mineirinho dos queijo, me sinto no direito de entrar na narrativa com um gosto de família.. Porque tem uma coisa que a gente de Minas sabe que o resto do Brasil ainda está aprendendo: o interior não é só um lugar no mapa. É um lugar na memória. E memória afetiva é a matéria-prima mais resistente que existe.


O coração do Yassir foi sequestrado em Três Corações, Minas Gerais. Lá, criança ainda, Yassir via a Folia de Reis chegar na casa dos avós e ouvia o ronco do “velho fenemê” do vizinho. Ele não aprendeu a tocar viola em Três Corações, na verdade ele aprendeu sozinho, no Rio, de forma autodidata, tentando imitar os ponteados do Tião Carreiro sem nunca ter tido uma aula formal no instrumento. E o resultado?

“Eu tocava o instrumento errado no lugar errado na hora certa.”


"Quando eu era criança, eu vivenciei a entrada e a chegada da Folia de Reis na casa dos meus avós". Aquilo me marcou profundamente. A partir daquele momento, aquela sonoridade do folclore, aquela sonoridade do rural acabou realmente fazendo parte para sempre da minha vida."

Da Novela ao Silêncio da Cantareira

A televisão brasileira, que raramente peca pelo excesso de bom gosto, fez algumas coisas certas ao longo da história. Uma delas foi abrir espaço para Yassir Chediak. A música "Estradas" entrou na trilha do seriado Carga Pesada, da Globo, em 2003. Em 2009, ele foi ainda mais longe: atuou como o violeiro Juvenal na novela Paraíso e gravou disco pela Som Livre. Em 2011, "Aroma que Inebria" virou tema de Morde & Assopra.



Para um instrumento que muita gente ainda associava exclusivamente ao interior sem luz elétrica, aparecer no horário nobre da Globo era quase um manifesto.


Enquanto morava na Avenida Paulista, Chediak ficava com a janela fechada o dia inteiro. O barulho dos carros era insuportável. Virava as madrugadas tocando, trabalhando, criando, mas o custo era alto. Dois anos atrás, ele tomou uma decisão que poucos artistas no pico da carreira teriam coragem de tomar: trocou o barulho do asfalto pelo silêncio da Serra da Cantareira.


"É maravilhoso poder trabalhar justamente dentro da natureza e mergulhado no silêncio. É o som do silêncio"

O homem que resolveu mexer nos vespeiros da música

Vespeiro 01: Os ritmos de raiz vão morrer.


yassir com a viola 12 cordas

Na entrevista exclusiva para a 9ª edição da Dissonância, Yassir não veio para agradar. Veio para cutucar aquela turma que acha que tradição é coisa intocável e não faz questão nenhuma de ser diplomático.


“Ritmos de raiz podem morrer se não receberem influências modernas. A gente está perdendo ritmos como o Cururu e o Cateretê porque a nova geração vem com uma bateria sem tempero brasileiro”

Vespeiro 02: A viola é a mãe do samba.

Tem uma coisa que Yassir Chediak diz que faz qualquer purista do samba engasgar com o café: "A viola é a mãe do samba."


xangô da mangueira
Xangô da Mangueira (1923 - 2009)

Antes que alguém vá reclamar, é bom deixar claro que não é ele quem inventou isso. Foi o Xangô da Mangueira, e os discos antigos confirmam. Clementina de Jesus. Cartola. Martinho da Vila gravando Rio de Piracicaba, do Tião Carreiro. Os sambas enredo até o começo dos anos oitenta, com o Zé Menezes ponteando viola nos estúdios.


"A viola ela foi substituída por um ponteado de violão, ou de cavaquinho em alguns momentos", observa Yassir. "E o samba perde muito quando a viola deixa de tocar no samba. Perde muito".


Mas há esperança. Uma vez, chamado para gravar um álbum de samba, Chediak recusou o espaço que havia sido reservado para ele: uma harmonia de viola onde já estava tudo pronto, com o solo feito pelo violão. "Ponteado tem que ser de viola", insistiu. E convenceu. E o disco ficou melhor. Alguém tinha que dizer.


"O Rio de Janeiro não é o túmulo da música caipira não", provoca, lembrando que há violeiros na cidade, que há Folia de Reis no Morro da Mangueira e em Caxias, que a viola caiçara, aquela que anda na beira do mar, como o próprio Yassir, é tão legítima quanto a que percorre o sertão.


Yassir Chediak, o Guardião Analógico da Era Digital

Desde 1999 Yassir mantém no ar o site Viola Caipira, lembrando que nessa época a internet brasileira era basicamente uma novidade cara para poucos. Durante muitos anos aquele site foi a única referência online sobre o instrumento no país. Todo violeiro que tentou pesquisar alguma coisa sobre ponteados, afinações ou história da viola naquela época passou por ali.



Hoje o portal está "meio desatualizado por falta de tempo", como ele mesmo admite. Mas o que ele construiu ali, antes das redes sociais, antes do YouTube, antes de qualquer algoritmo decidir o que merece atenção, foi um ato de fé e de teimosia que merece reverência. E esse é paradoxo de Chediak: ele manteve vivo um arquivo da tradição enquanto o mundo ainda não sabia que precisaria dele.


"O que eu sinto falta nessa turma ainda é uma busca da própria identidade musical, da inovação do instrumento"

O Próximo Capítulo: A Porrada Nordestina


yassir chediak último lançamento
Viola Brasileira Contemporânea (12/2022)

Depois de Viola Brasileira Contemporânea (2022), que explorou as memórias afetivas do universo caipira com uma abordagem mais rural e contemplativa, Yassir Chediak está terminando um novo álbum. E pelas palavras dele, quem espera mais do mesmo vai levar susto.


"Vocês vão ouvir uma porrada sonora que vai tremer o pulmão e o coração aqui, vai dar aquela sacudida bem interessante."

O novo trabalho mergulha no Nordeste, nos repentes, na viola nordestina, naquele suingue que a gente do Sul e Sudeste ainda não aprendeu a respeitar direito. Porque sim, a viola também está no Nordeste, e Yassir está cansando de ver as pessoas esquecerem isso.


yassir chediak viola

O carioca que aprendeu viola sozinho no Rio, que absorveu a Folia de Reis em Minas, que levou o instrumento para a beira do mar e depois para a Serra da Cantareira, agora aponta para o Nordeste, não como turista de Instagram, e sim como músico que percebeu que o Brasil é grande demais para caber numa só identidade regional.



Enquanto isso, em shows como o Roda de Viola e a parceria com Renato Teixeira no show "Um Legado", Chediak continua fazendo o trabalho que sempre fez: colocar a viola no centro.


Mais de 50 mil pessoas já foram presencialmente. Campos do Jordão à luz de velas foi mais um capítulo.


No fim das contas, a história de Yassir Chediak é a história de alguém que aprendeu a afinar no tom errado e descobriu que, às vezes, o tom errado é exatamente o que a música precisava ouvir.


yassir chediak com viola de prata

Ele não veio salvar a viola. Veio provar que ela nunca precisou ser salva. E ela continua andando. E não está mais só no sertão. Está onde ela sempre deveria ter estado: em qualquer lugar onde um brasileiro resolva desafinar o mundo com dez cordas afinadas.


yassir chediak entrevista exclusiva


yassir chediak página bio-discográfica


Assista ao clipe de Jaula Das Feras de Yassir Chediak.


Jaula das Feras

Yassir Chediak


Faz tempo que eu quero falar, mas você se defende

E embargar minha voz não será seu consolo

Eu quero mostrar pra você que o tempo não para

E se prender no passado é o mesmo que nada

E tudo que você viveu é a sua história

Não pode jogar na minha cara a sua memória

Não pode confundir o tempo o passado e o futuro

Você precisa se entregar a um amor mais maduro

Faz tempo que a vida precisa de um novo sentido

Quando eu lhe estendo a mão sem medo vem comigo

Não quero vencer este jogo, deixo as cartas na mesa

Não vou entregar o meu peito a sua tristeza


E tudo que você sofreu por favor jogue fora

Não deixe que a vida passe a hora é agora

Não pode confundir o tempo o passado e o futuro

Você precisa se entregar a um amor mais maduro

E quando sentir em seu rosto a chuva caindo

Você vai ser a criança de novo sorrindo

Vai ver que todo tempo perdido te chama lá fora

E vai querer correr livre no amor que te aflora

E tudo que te fez chorar não vai ter mais futuro

Você vai se reencontrar neste amor que é tão puro

Vai ter uma chance de ser novamente o que era

Antes de que a vida te jogasse na jaula das feras.



FICHA TÉCNICA DO VIDEOCLIPE:

Artista: Yassir Chediak

Direção Artística: Yassir Chediak /Luana Henrique/Ramiz Oliveira

Produção Geral: Cantareira Arte e Cultura

Direção, Captação e Edição: Ramiz Oliveira


FICHA TÉCNICA DO ÁUDIO:

Artista: Yassir Chediak

Compositor/Autor: Yassir Chediak

Arranjador: Marcellus Meirelles

Produtor Musical: Yassir Chediak e Marcellus Meirelles

Violões e Contrabaixo: Marcellus Meirelles

Percussão: Elder Brasil

Bateria: Italo Oliveira

Teclados e Sanfona: Adriano Magoo

Mixagem e Masterização: Jean Angelotti e Omar Campos

Distribuidora Digital: New Music Brasil

Produção Geral e Divulgação: Cantareira Arte e Cultura

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