Déa Cavalcanti
Atualizado: 3 de set.
A barra do dia de Déa Cavalcanti - o ofício do Xote

Um EP dura o quanto dura: quatro faixas, catorze minutos e vinte e sete segundos. "Na Barra da Saia, a Barra do Dia", que Déa Cavalcanti lançou em 28 de junho de 2024, acomoda nesse espaço curto três xotes ("Tua Morada", "Beijo E...", "Flor de Algodão") e um baião ("Alumia"). O título já traz uma imagem dupla, a barra da saia que roda e a barra do dia que rompe, e é por essa fresta que prefiro entrar.

Gosto de pensar que cada ritmo brasileiro guarda, no seu núcleo, um jeito de estar no mundo. O xote condensa alguns deles de uma forma interessantemente econômica: a memória de quem veio antes, a saudade que não paralisa, o corpo que responde à música antes da cabeça e a espera de que o dia, enfim, rompa. São coisas antigas, dessas que a filosofia chama de perenes, e Déa as costura ao longo das suas canções. Na discografia dela, o xote e o forró se tocam sem que ela se preocupe com a fronteira, e nós, meros ouvintes contemplativos de obras perenes, saímos da audição com o peito em paz e os pés já inquietos.

O trabalho de Daniel Alves na produção mantém os arranjos limpos, deixando o acordeon e o vocal ocuparem o centro do grande palco. A voz de Déa é doce e tem potência, dois atributos que costumam se excluir e que aqui convivem harmoniosamente. Ela canta tão firme quanto o chão onde nasceu, o Agreste de Surubim, os ciclos do Carnaval e do São João, o frevo e o forró que ela mantém acesos como uma fogueira exuberante.

Há uma frase dela que gostaria de destacar: "meu servir ao mundo é artístico". É uma definição quase estoica, a de uma pessoa que entende a arte como ofício e o ofício como dever para com os outros. Esse EP soa exatamente assim, feito na manha de um Xote, na medida de um Forró, e na extensão de um Baião.

Fecho a audição com a sensação de um trabalho bem-acabado, que faz o que o xote sempre fez: guarda o que passou e aponta o que vem, na barra da saia e na barra do dia.





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