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Afinando a Viola

Por Hélio Silva, 26/12/2025

um conto de hélio silva

Venâncio levava o copo com café à boca. Observava um armário diante de si, uma porta de correr, lisa, branca, fechada como se fosse parte da parede. Ninguém que passasse por ali desconfiaria. Ninguém que olhasse para aquela casa reluzente e espaçosa, pensaria que ela fora construída sobre um casebre esburacado, uma vitória sobre o passado que, sobre um morro de Sertãozinho Sonhado, se abria para o mundo.


Mas as pessoas que ali moravam conheciam tudo. Eram inúteis as portas e cortinas.  Pelo sangue, intuíam a história do próprio passado e pelas fofocas terminavam de formar o conhecimento iniciado pela biologia. 


Uma dessas histórias estava sob vigília atrás daquela porta de correr, irritantemente silenciosa, agora pela manhã. E Venâncio odiava sentir-se vigiado, sentir se nu, dentro da própria casa. Repensava, todas as manhãs, sua ideia de mudar-se para o interior. Pensava nisso, quando foi desperto pelo chamado da esposa:

– Você cismou com esta porta, hein? – Marta vinha, com um riso provocativo, balançando seus cabelos loiros entre as pontas dos dedos. Novamente, vinha trazer o calor de suas intenções: – Por que não olha para o resto da casa? Não acha que há muito espaço aqui?


Venâncio não acordara muito disposto para o jogo do flerte. Lançou um sorriso falso para a esposa e, com a mão em seu quadril, levou-a para a sala espaçosa.


– Tenho algo sério para te dizer – ele comentou, por entre os dentes, sentando a esposa numa cadeira de espaldar, enquanto ia para uma poltrona um pouco mais distante que o permitia observar a janela por entre as cortinas.

– O que é que há? Você tem fugido de mim, nos últimos dias.

– É que, eu não estou com cabeça para isso agora.

– E o que está na sua cabeça, então?


Venâncio tomou um gole de café, respirou fundo e comentou:

– Marta... Eu estou com a impressão de que não devia ter voltado. Não devia ter construído nada disso.

– Como assim?

– Eu não deveria ter trazido a gente pra esse fim de mundo.

– Agora essa! – ela pulou da poltrona, sorrindo, incrédula, como se o marido estivesse brincando – Essa falta de sono te deixou louco! Eu te conheço há anos. Sempre foi obstinado com isso. E, agora, mudou de ideia?

– Ainda não. Mas estou quase nesse ponto.


Venâncio fez silêncio. Dentro de si, titubeava em soltar as palavras. Pousou o copo numa mesa de apoio ao lado da poltrona. Deslizou a mão sobre a cintura de Marta, mas não teve energia para puxá-la para perto de si. Levantou a cabeça, olhou nos olhos da esposa e confessou sua agonia:

– Eu não durmo porque eu vi ele semana passada. Meu pai, Marta!

– Deu para ver espírito, agora? – Não era bem ele. Quer dizer, era ele, com uma viola, lá no canteiro de obras.


Mas, quando virou o rosto, era outra pessoa e a viola tinha sumido, era uma picareta.

– Amor... Você tem certeza? Você está sem dormir direito e isso pode ter afetado sua percepção...

– Mas foi justamente isso o que tirou meu sono! Não precisa me tratar como um dos seus pacientes!


Venâncio, levantou-se, pôs as mãos sobre a cabeça. Caminhou até a janela e fechou a cortina.


Em tom grave, complementou:

– Eu falei para o prefeito que essa inauguração seria uma péssima ideia.

– Ainda isso? Esqueça aquele museu!

– Eu esqueceria! Se eles me deixassem esquecer! – sua voz saiu repentinamente exaltada, o que causou um tremor em Marta. 


Venâncio imediatamente se desculpou. Deu meia-volta e saiu da sala, direto para o amplo quintal. Caminhou até uma construção em frente, que funcionava como seu escritório. Ligou o ar-condicionado para resfriar a mente e se trancou, mais para refletir que para trabalhar. Era Véspera de Natal. Não trabalharia. Nem receberia amigos. Não faria nada além de pensar no que fazer com aquela maldita viola.


Após algum tempo de olhos abertos, passou a mão sobre eles, quando começaram a arder. Sem conseguir se segurar, entrou no carro, cerrou as janelas e, ainda cedo, dirigiu-se à casa do prefeito Ademir. Foi recebido pelo próprio, com o sorriso de sempre no rosto, bem ajustado feito um terno de grife:

– Ora, o que faz aqui tão cedo? – disse, em tom amigável.

– O senhor vai, mesmo, insistir na inauguração daquele museu? – Venâncio foi direto, se esforçando para não soar grave demais. 


Percebendo a exasperação de seu visitante, o velho senhor alisou os bigodes e fez questão de pôr o mais jovem para dentro. Só depois de Venâncio cumprimentar a primeira-dama e receber, sentado, uma xícara de café prontinha da empregada, o prefeito voltou ao assunto:


– Olhe, meu jovem, eu já entrei em contato com o pessoal da sua empreiteira, os seus dois sócios... – essas palavras foram ditas com calma proposital para arregalar os olhos de seu interlocutor – Eles não disseram que há problema com a obra. E, como é desejo da população, não há porque eu tirar a felicidade de um povo tão sofrido.


Venâncio pôs a xícara sobre a mesa da varanda e esfregou a face, indignado com as duas criaturas que, mesmo tão distantes, interferiam até naquela pequena cidade. Mentalmente, amaldiçoou o controle acionário e, contendo seus desejos monopolistas, tentou se explicar:


– Então... O senhor vive aqui há bastante tempo. Deve saber que este museu está querendo reviver a história de todo tipo de gente daqui. E eu não quero minha imagem ligada a isso, entende? – Ora, basta falar com a curadoria. Nem precisava vir até aqui, desperdiçar o tempo de Natal.


– A questão não é essa... É mais profundo que isso. Eles insistem em pôr a história de meu pai como parte do museu, mesmo sabendo que eu sou abertamente contra isso!


– Ah... Mas seu pai foi muito importante para todos. Até hoje, me lembro do seu Horácio da Viola! Nunca chegou a gravar um disco, mas todo mundo ainda se lembra daquelas canções. Voz bonita, tinha aquele homem...


– Pois por que não falam da pobreza em que a gente vivia? Ou da ideia “brilhante” de colocar os pequenos para trabalhar cedo? Por que não falam de meus outros dois irmãos, que sumiram no mundo para não terem de viver com o velho, hein? Mas não... Eles sabem que eu estou aqui e insistem em me humilhar!


Ademir elevou a mão, em sinal para que Venâncio falasse mais baixo. Lá, ao fundo, atrás da piscina, um segurança de terno esticava o pescoço, desconfiado daquela elevação no tom de voz. Após alguns segundos, percebendo que não havia nada demais, voltava a caminhar em volta da piscina.


Juntando toda sua grande experiência em lidar com gente peixe grande, o prefeito torceu o bigode e, com um pouco de demagogia, temperou suas palavras para o insistente lambari:


– Veja, que você tenha seus traumas eu entendo. Mas a história da cidade nada tem a ver com isso. O povo ama o Horácio da Viola e, aqui, quem manda é o povo. E eu estou aqui para garantir que o povo continue mandando! Felizmente... – Ademir, levantou-se e, com um toque leve ao braço, foi encaminhando o visitante para o portão – Nós temos uma ótima relação com o pessoal da sua construtora e farei de tudo para que as coisas continuem assim. Quanto a você, meu caro, aproveite o Natal com sua esposa, suas crianças...


– Não temos – Venâncio fez uma pausa, como a resolver algo em sua mente, depois completou: – Filhos.

– Bem, algo mais para se pensar! – atalhou Ademir, sem embaraço – De qualquer forma, estaremos de portas abertas para você!


A um simples gesto, um criado apareceu, como se brotasse do gramado. Venâncio, novamente notou uma aparência reconhecível, mas logo dissipada, naqueles olhos velhos que conheciam a história.


Venâncio estava farto de história. Rapidamente, desvencilhou-se do aperto de mão do prefeito, e encaminhou-se com velocidade para dentro de seu carro. Daí, pegou o rumo de casa, tendo, no caminho, a vista da fachada do museu sendo finalizada. 


Em frente, uma estrutura de palco e outra, de uma metálica árvore de natal, eram montadas, fazendo o ambiente mostrar-se convidativo para os transeuntes que passavam alegres. Todos com seus chapéus e roupas caipiras. 


Por que resolveram usar essas roupas, fora de época? Venâncio preferiu não responder. Como morava para o outro lado, acelerou para o escritório. Ao entrar, deitou-se sobre uma larga poltrona e fechou os olhos. Os doces acordes da juventude entravam em sua mente feito açúcar. Mofado. Não era possível dormir. Teria de dar um fim nisso.


Todos estranhavam os modos do ricaço recém-mudado e muitos foram os comentários a respeito da quietude de seu lar no dia vinte e cinco. Mas era difícil para um novo rosto surpreender as vistas de uma cidade pequena. Assim, todos se puseram de pé quando a querida Marta apareceu na festa de Natal que, ao mesmo tempo, servia como inauguração do museu.

Marta roubou a atenção, ao descer de seu carro com vestido prateado. Foi bastante elogiada pelas pessoas, incluindo muitos de seus pacientes, sentados entre as cadeiras de plástico, mais simples, próximas do palco. 


Ali de cima, discursava o sorridente Ademir. Os assessores do prefeito eram veementes em apontar um lugar para que a visita pudesse sentar-se mais perto das faces ilustres da cidade. Todavia, a doutora Marta preferiu manter-se entre os assentos comuns, entre aqueles que lhe sorriam em roupas mais simples.


– Cadê o maridão? – perguntou uma senhora, fingindo curiosidade.

– Ele vem aí – Marta respondeu, como que aliviada em começar o dia vendo o esposo novamente disposto – Logo ele deve chegar!


Demorou ainda um pouco. Terminado o longo falatório de Ademir, seria momento de entrar a banda local e fazer uma bela homenagem ao grande Horácio da Viola. Mas, como o ego fala alto, os gerentes do museu resolveram lançar mais algumas palavrinhas, como se isto os garantisse bons assentos no bonde história. Foi justamente nesse ponto que um carro, acelerado, freou bruscamente, próximo à árvore de Natal.


Do veículo, Venâncio desceu, resoluto. Trazia consigo, a viola às costas. Pintada de branco e verde, as cores da cidade, o instrumento reluzia, feliz em rever o ar livre, em rever o seu povo, sob a iluminação do fim de ano. O rosto de seu portador, entretanto, era pura carranca de ódio, a raiva encarnada de quem possui o estômago repleto de verdades.


Ao aproximar-se, ele apontou para o palco:

– Se é isso o que vocês querem, então tomem! Aqui está!

– O que é isso? – Marta se levantou, imediatamente, ao ver o marido lançar a viola palco acima, para a desajeitada surpresa dos figurões que acudiram para pegar o instrumento. Venâncio olhou em volta, ignorando a vinda da esposa ao seu encontro. Queria falar direto para o povo, para aqueles olhos escondidos entre chapéus antigos e roupas baratas. Precisava confrontá-los:


– Vocês veneram Horácio da Viola! Vocês amam as músicas dele! Mas são um bando de fingidos! Não se lembram de tudo o que ele fez minha família passar. Esse beberrão maldito!


– E quem é você para dizer isso?! – uma voz se levantou, sendo acompanhada por outra: – O que é que o povo tem a ver com a tua vida?


Venâncio falou com maior força, no limite da voz: – Será que vocês só conseguem pensar nessa porcaria de viola?! Será que vocês não entendem a desgraça que esse sujeito criou?!

Ao dizer isso, olhou em volta. As faces eram incompreensíveis, algumas indiferentes e outras, de certa forma, viradas do avesso, obcecadas com o passado. Nem com as luzes do Natal, Venâncio conseguia penetrar a sombra dos olhares em sua direção. Atrás de si, o palco e o museu lançavam seu silêncio opressivo. 


Ele não tinha lugar ali. Baixou a cabeça. Tentou puxar a mão da esposa, mas ela estava assustada demais para se mover:

– Você vem comigo? – Venâncio perguntou, à meia voz.

– Não! Eu não estou te reconhecendo, desse jeito. – Marta respondeu,

soltando-lhe a mão.


Não restava o que dizer. Venâncio correu para o carro e tratou de se retirar. Ouviu, ainda, alguém gritar: “Finalmente, ele entregou a viola!”. Talvez fosse o prefeito. Mas já não importava. 


Pegou a estrada. Foi para bem longe. Outra cidade, outro Natal.


Parou num hotel barato e, apesar das paredes que deixavam passar brigas, gemidos e cumprimentos natalinos, Venâncio finalmente pôde reencontrar o prazer de dormir. 

No dia seguinte, acordou tarde, pingando de suor. Usou a ducha emperrada e, depois, resolveu tomar um café na padaria da esquina. Cidade pequena, padaria vazia, já não tinha pão. Comprou um misto quente e foi alcançado pelo som de um violão vindo da praça central, há alguns metros dali.


Venâncio moveu os pés até lá, cansado. Sentou-se num banco próximo ao de um violeiro e de uma menina. Ouviu a melodia parar, um ajuste breve na afinação e a volta do dedilhado.  A criança, sentada ao lado, mexia a cabecinha conforme a música, cantarolando baixinho, como se soprasse cada nota. A melodia era tranquila, a clássica “Noite Feliz”, natalina de tempos imemoriais. 


Novamente, uma interrupção. A pequena apontou para Venâncio, estranhando o “moço” que observava fixamente. Para parecer menos esquisito, Venâncio chegou mais perto.


– Bom dia! – disse ao violeiro.

– Bom dia! – o outro respondeu.

– Ela gosta desse som, não é? – Venâncio perguntou, dirigindo-se à criança.

– Sim – veio a resposta do músico, enquanto olhava para a menina – Diz ela que vai ser violeira, um dia, não é, minha filha?


Venâncio engoliu em seco. Sua boca se entreabriu, mas preferiu não dizer nada. Pôs a mão nos bolsos, tirou uma nota de duzentos reais e estendeu ao pai. Surpreso, este interrogou:

– Que é isso, moço?

– Isso? É um presentinho de Natal... Cuide da pequena. Para que ela não seja como meu pai foi.


Antes que o homem tentasse devolver a nota, Venâncio virou as costas e pôs-se a caminhar. Bastaram alguns passos para o violeiro lançar sua pergunta:

– E seu pai era músico?


Venâncio estacou. Sentiu o sol no rosto. Irritante, mas necessário. Voltou-se para responder:

– Era sim. Mas muito desafinado!


O violeiro não poderia entender aquela resposta. Limitou-se a agradecer e a cutucar o braço da filha:

– Obrigada, moço!

– De nada! – Venâncio disse alto, pois já estava há alguns metros adiante. 


O calor começava a picar sua pele. Teria de buscar outro lugar para passar o dia.  Todavia, não tinha pressa, sentia-se renovado. Afinal, nada como uma boa noite de sono!



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