As Cordas de Minas e a Alma de Confforte: Um Ensaio sobre "Canção de Minas"
- Paulo Ronaldo

- 28 de jan.
- 8 min de leitura
Por Paulo Ronaldo, 28/01/2026

Uai, tem coisa que o mundo dos streamings, com seus algoritmos afobados, demora a perceber, mas quem nasce em Minas e tem ouvido fino sabe que a verdadeira arte costuma chegar mansinha, pelo fundo do quintal. Foi assim que me deparei com o trabalho de Confforte, aquele cantor, compositor e baixista de Uberlândia que, só em 2025, decidiu dar o braço a torcer e lançar seu primeiro single. Mas não se engane pelo atraso nas plataformas digitais; Confforte é um baixista com uma bagagem musical densa, suficiente para compor belas canções que dialogam com nossa própria essência.

A prova incontestável dessa maturidade chega agora, em 13 de janeiro de 2026, com o lançamento do álbum “Canção de Minas”. Quem pega o disco para ouvir, logo percebe que não é apenas um trabalho de estreia, é um projeto que amadureceu no caldeirão do tempo. Como bem disse Confforte em sua entrevista exclusiva à Revista Dissonância, ele começou a compor muito cedo, lá pelos 13 ou 14 anos. O primeiro poema, feito aos 10 anos sobre o Brasil, já dava o tom de quem olha para o mundo com uma lente de exaltação e observação.
Confforte, é um nome artístico surgiu de uma adaptação criativa do sobrenome "Conforte", com um "F" extra para evitar piadinhas com amaciantes e criar uma marca distinta, como ele mesmo explicou em entrevista exclusiva à Revista Dissonância.

Sua escrita é marcada por um olhar literário sobre o mundo, mesclando elementos da cultura mineira com referências universais. Apesar de ter decidido lançar seu primeiro single apenas em 2025, com pouca experiência no universo impiedoso dos streamings, Confforte prova ser um baixista com bagagem suficiente para tecer belas canções. Sua persistência no instrumento, comprando o primeiro contrabaixo por volta dos 18 ou 19 anos e insistindo mesmo após "falhar miseravelmente", como postou em seu Instagram, reflete que "tocar vá além da técnica pura. Talvez tocar seja insistir, mesmo quando o público, ou o próprio músico, não vê resultado imediato". Essa resiliência culmina no álbum "Canção de Minas", uma prova viva de que a música autoral brasileira, especialmente a regional, está pulsando forte fora do mainstream.
“Canção de Minas” se joga de cabeça na nossa identidade. Não é o turístico de cartão-postal, não; é um "estado emocional", como ele define. É um trabalho que entrelaça o verde dos nossos campos com o cinza da literatura universal. O álbum, que ganhou vida no palco do Teatro Nininha Rocha em 2025, conta com a formação de um power trio clássico e eficiente: Confforte no contrabaixo e voz, André Urbano na guitarra e Lucas Kiko na bateria. Quando tocam, abrem com a enérgica Um Violeiro, que prepara o clima para essa viagem pelas raízes mineiras, falando de Romaria e fé.

O que me encanta, como estudioso de arte e baixista, é como Confforte utiliza as letras para pintar quadros sonoros. Na faixa-título, ele faz um dueto implícito com a história e a literatura. "O 'Canção de Minas' é mais sobre um estado emocional do que ferramenta turística", como ele mesmo nos contou, destacando referências como "O Corvo" de Edgar Allan Poe implícitas na letra. Ele exalta Minas em versos que capturam suas catedrais, biomas e memórias:
"A hora vai escrever a canção de Minas Agora vai do coração, tão bela às ruínas Minas Gerais é nossa, em versos e rimas Das catedrais, belo horizonte ou Centralina
...
Diz o corvo além: ‘’nunca mais’’, o poeta de novo escreve Pra quem faz poema A fumaça do trem, do café, envolve meu corpo Tiradentes também numa estátua remete o teu povo..."
O álbum, disponível em todas as plataformas de streaming e com o show de lançamento completo no YouTube, apresenta oito músicas autorais compostas e produzidas por ele. Gravado em formato de power trio, com Confforte nos vocais e contrabaixo, André Urbano na guitarra e Lucas Kiko na bateria. O repertório abre com a enérgica "Um Violeiro", que evoca as raízes mineiras, como romarias e fiéis, dialogando diretamente com a cultura do estado.
Aprecio como Confforte usa o baixo não apenas como base rítmica, mas como elemento narrativo, guiando as transições entre atmosferas, de baladas emocionais a momentos mais introspectivos.
"Comecei a compor muito cedo, por volta dos 13/14 anos, então a partir daí começou minha estrada na música"
Na entrevista ele citou heróis como Paul McCartney, Geddy Lee, Roger Waters e Humberto Gessinger como influências para escolher o baixo. Mas ele planeja expandir:
"Em algumas composições novas que vou lançar esse ano, quero trabalhar mais violão e gaita, resgatando o som mais 'folk' que também é uma referência pra mim".

A sensibilidade do disco também aparece nas baladas, como Muro de Berlim e a promissora Pôr do Sol. Em Muro de Berlim, a melancolia mineira ganha contornos geográficos e existenciais. Aqui, a canção cresce sem pressa, sustentada por uma linha de baixo que entende seu papel: não competir com a letra, mas empurrá-la adiante, criando tensão e respiro. É o baixista experiente a serviço do compositor:
"Talvez num dia Desses incomuns Em que parte alguém Seja o fim Do precipício Entre nós dois Há um muro sim Um muro qualquer, ou de Berlim"

Outro ponto alto é a participação de Tamara Lopes em Grão de Poeira, um dueto de música popular brasileira que discorre sobre a finitude do tempo, unindo vozes e sensibilidade poética. Mas se tem uma faixa que me chicoteia, dada a profundidade literária, é Noites Brancas. Numa época em que "políticos cada vez mais são celebridades estampadas em camisetas de um time de futebol (pop)ular", Confforte traz o silêncio.
A canção nasceu da leitura de Dostoiévski e é um hino à introspecção:
"Às vezes cansa falar sobre música, economia... mas a verdade é que tudo isso se mistura em algo maior, uma conversa silenciosa entre quem cria e quem escuta."
Ele diz que a música não é sobre ele, nem sobre um mundo ideal, mas sobre o silêncio fundamental em tempos de euforia-carnaval. "É como Dostoiévski dizia, de uma forma o outra: é sobre o silêncio em uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens", reflete o artista.

Encerrando o show e o disco, a reflexão sobre legado que fica no ar é a de um artista que não quer vender verdades, mas sim provocar pensamentos. Na entrevista, ele disse que ser lembrado como alguém que faz refletir já o deixa contente. E citando sua própria canção O Tempo e a Janela, que integra o projeto, ele nos deixa o recado: "me diga quanto foi o seu sonho, me diga em qual esquina ele se vendeu".
Confforte é um contador de histórias que usa o contrabaixo não como apoios, mas como a voz grave da nossa terra. “Canção de Minas” é um documento de um artista que insistiu, que "continuou nadando nas profundezas sem ver o fundo", e finalmente emergiu com uma obra que honra a tradição mineira de fazer arte com alma e calibre. Vale a pena dar o play e deixar a canção de Minas entrar pelo ouvido afora.
ENTREVISTA EXCLUSIVA PARA A REVISTA DISSONÂNCIA
Dissonância: Por que o nome "Confforte"?
Confforte: O nome nasceu do meu sobrenome, que é ‘’Conforte’’. A única coisa que fiz, foi acrescentar um ‘’F’’ a mais, pois acredito que esteticamente ficaria melhor e iria diminuir o estranhamento e a comparação com o amaciante ‘’Comfort’’, uma vez que essa piadinha sempre me perseguiu. A princípio pensei em utilizar meu nome e sobrenome, sem alterações, mas fui fazendo alguns testes e cheguei à conclusão de que utilizar ‘’Confforte’’ como uma marca seria estrategicamente melhor, além de ser uma forma de separar o artista da vida pessoal.
Dissonância: Quando você começou na música e porque escolheu o Baixo?
Confforte: Comecei a compor muito cedo, por volta dos 13/14 anos, então a partir daí começou minha estrada na música. O primeiro poema que escrevi, foi na escola quando tinha por volta de 10 anos, era um poema sobre o Brasil. Hoje não me recordo mais exatamente o que dizia o poema, mas me lembro que tinha um teor de exaltação ao Brasil no sentido da fauna/flora. O que pode ter contribuído de forma inconsciente para compor o ‘’Canção de Minas’’, que é quase uma ode ao estado. Sempre gostei de trazer referências regionais no que escrevo, o que fica muito perceptível nas músicas ‘’Um Violeiro’’, e a própria ‘’Canção de Minas’’.
Sobre o contrabaixo, na adolescência, meus principais heróis eram baixistas; Paul McCartney, Geddy Lee, Roger Waters, Humberto Gessinger, então a partir daí comecei a me interessar pelo instrumento. No entanto, em algumas composições novas que vou lançar esse ano, quero trabalhar mais violão e gaita, resgatando o som mais ‘’folk’’ que também é uma referência pra mim.
Dissonância: Qual a mensagem que você espera passar através da sua obra até aqui?
Confforte: De início, o que quero comunicar com o ‘’Canção de Minas’’ é mostrar que a música autoral brasileira e regional está na ativa, que existem muitos artistas que estão fora do mainstream fazendo um som muito bom, basta ir atrás, uma vez que esse som não está na corrente principal. Além disso, sempre gostei de fazer referências ao que leio e trazer isso pra música, como é o caso de ‘’Noites Brancas’’, que é uma clara referência do livro homônimo do Dostoiévski, dessa forma consigo comunicar vários âmbitos da arte (literatura, música, etc), e isso faz com que as pessoas que se identificam com meu som, tenham acesso a esses conteúdos também.
Dissonância: O que o álbum quer mostrar sobre Minas Gerais?
Confforte: Antes de tudo, acho que o estado de Minas sempre gerou muitos artistas importantes pra cena musical do país, principalmente com Milton Nascimento, Clube da Esquina, Lô Borges, Skank, então é um paralelo que eu sempre quis fazer e moldar isso dentro da música. Contudo, o ‘’Canção de Minas’’ é mais sobre um estado emocional do que ferramenta turística. A música ‘’Um Violeiro’’ por exemplo, traz narrativas importantes para a cultura mineira; fala sobre Romaria, sobre os fiéis, sobre o violeiro tocando sua viola caipira, então esse conceito dialoga bem com Minas enquanto um instrumento cultural. Mas além disso, o álbum também traz referências da literatura universal (na música ‘’Canção de Minas’’ por exemplo), eu cito ‘’O Corvo’’ do Edgar Allan Poe de forma implícita, então é uma forma de conectar literatura regional com a literatura universal. A principal ideia dentro do Canção de Minas é comunicar esse campo da literatura regional com a universal.
Dissonância: Como você quer ser lembrado?
Confforte: Sinceramente eu nunca havia parado para pensar nisso. Mas acho que ser lembrado como um artista que faz as pessoas refletirem já me deixaria contente. Fazer música que cause reflexão nas pessoas sempre foi o meu objetivo, nunca quis vender meu ponto de vista pra ninguém, sempre fui muito mais de questionar do que dar um veredito ou ter verdades absolutas, e acho que minhas letras comunicam isso também. Quando compus ‘’O Tempo e a Janela’’, que também entra no Canção de Minas, há uma reflexão explícita quando digo: ‘’me diga quanto foi o seu sonho, me diga em qual esquina ele se vendeu’’, e isso traz exatamente a lógica que gosto de trazer nas minhas composições. Então levar minimamente reflexão para o público que consome meu trabalho já faz valer a pena.
Ouça Canção De Minas gravada no Cineteatro Nininha Rocha em Uberlância/MG:
Canção de Minas
A hora vai escrever a canção de Minas
Agora vai do coração, tão bela às ruínas
Minas Gerais é nossa, em versos e rimas
Das catedrais, belo horizonte ou Centralina
Diz o corvo além: ‘’nunca mais’’, o poeta de novo escreve
Pra quem faz poema
Diz o corvo além: ‘’nunca mais’’, o poeta de novo escreve
Pra quem faz poema
A fumaça do trem, do café, envolve meu corpo
Tiradentes também numa estátua remete o teu povo
Dos biomas daqui, só se leva a memória no peito
Nossa bandeira também diz muito ao nosso respeito
Nas ruas centenárias, nas estradas que cortam a vida
São tuas as viagens, pela janela cada um é uma ilha
Diz o corvo além: ‘’nunca mais’’, o poeta de novo escreve
Pra quem faz poema
Diz o corvo além: ‘’nunca mais’’, o poeta de novo escreve
Pra quem faz poema
Ficha técnica:
Voz e Baixo – Yago Conforte (Confforte)
Guitarra – André Urbano
Bateria – Lucas Kiko
Gravado ao vivo no Cineteatro Nininha Rocha, Uberlândia – MG

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