O Nordeste que não cabe no eixo: a Zambrotta e a geração que aprendeu a sonhar fora da curva
- Fábio Drummond

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Por Fábio Drummond, 04/02/2026

Formada no Recife por três amigos de infância, a Zambrotta é dessas bandas que surgem como consequência natural de uma convivência longa, atravessada por zoeiras de amigos, afetos incompreensíveis, referências culturais e uma inquietação artística que os une.

O trio lançou em 4 de julho de 2025 o álbum "Ensaio sobre a noite e o dia", depois de antecipar o trabalho com o single “E Eu Lá Sei”, em maio do mesmo ano. Embora a trajetória ainda seja curta em termos cronológicos, a banda construiu um percurso intenso, marcado por produção constante, circulação de shows e uma presença ativa na cena independente nordestina.
O nome Zambrotta carrega um sentido afetivo que ajuda a entender a identidade do grupo. Como explica o vocalista Adner Matheus, a escolha remete à infância compartilhada no bairro onde cresceram, ao futebol e a uma época formativa que permanece como referência simbólica. O sobrenome do jogador italiano Gianluca Zambrotta surgiu como uma memória condensada, sonora e forte, capaz de dialogar com a energia do som que produzem. Essa combinação de lembrança pessoal e intenção estética atravessa também as canções do trio.
Se o nome carrega a força do futebol, o som de "Ensaio sobre a noite e o dia" carrega a densidade da vida adulta. O álbum, que levou seis anos para ser concluído, é descrito pela banda como "o retrato violento e sincero do afeto entre três grandes amigos". O disco explora terrenos variados do rock, passando pelo post-hardcore, shoegaze, dreampop e indie, sempre com uma roupagem experimental que remete ao rock dos anos 90, sem jamais abandonar as raízes pernambucanas.
A narrativa do álbum percorre as fases do "sonho médio de um artista que se coloca à margem de sua obsessão", tratando de temas como a ingenuidade inicial, a síndrome do impostor e a esperança de redenção.
Para Adner, a banda ocupa um espaço de continuidade dos sonhos de infância e de amadurecimento mútuo.
"Nossa amizade sempre se pautou muito pela forma como a gente compreendia o mundo e a forma como a arte e a música nos interessavam. Formar uma banda meio que se tornou óbvio".
Adner explica que a Zambrotta vai além de um projeto profissional: "É um espaço de grandes irmãos, de ser padrinho de casamento do outro".

Após lançar um EP em 2017, a Zambrotta optou por um hiato para amadurecer artisticamente. "Tivemos um momento em 2017, quando lançamos um EP, depois demos uma pausa para amadurecer, e estamos voltando", reflete Adner. Nesse período, os membros lidaram com desafios pessoais: faculdade, trabalho precarizado, família, etc. Tudo isso junto se infiltrava no processo criativo. O retorno veio nas nove faixas do disco ESND (como é carinhosamente chamado pelos fãs), Ensaio Sobre a Noite e o Dia, narrando os dilemas do fazer artístico.
A história da Zambrotta é uma história de afeto. "Eu e o Lucas a gente se conhece desde a infância e o Renan na época da adolescência", conta Adner.
"Nossa amizade sempre se pautou pela forma como a gente compreendia o mundo e como a arte e a música nos interessavam."
Essa cumplicidade transcende o profissional: são padrinhos de casamento uns dos outros, irmãos de vida que resolveram transformar conversas em canções. "A Zambrotta ocupa esse espaço afetivo de continuidade, de sonhos de infância e de acompanhamento do amadurecimento da vida de cada um", define o vocalista.

Fora do eixo Rio-São Paulo, a Zambrotta constrói seu espaço no Nordeste, região que defendem como um polo cultural vibrante, como afirma Lucas Emanuel à Dissonância.
"Queremos desmistificar essa narrativa de que existe um eixo cultural focado em Rio-São Paulo e mostrar que o Nordeste é um grande polo de produção artística".
Em 2025, eles dividiram palcos com bandas como Menores Atos e Backdrop Falls, e no ano seguinte, embarcaram na turnê "Ensaios de Guerrilha" com a paraibana Emerald Hill. "Surgiu dessa ideia de unir forças e sitiar as cidades nordestinas levando nosso som", explica Adner. A parceria incluiu shows em cidades como Recife, João Pessoa e Natal, com convidados locais e uma proposta jovial de "destruir o capitalismo por onde passarem".

Mas se há lição que a Zambrotta gostaria de deixar para outros artistas independentes que estão começando, é a de que o caminho é feito de pessoas, não apenas de talento. "As coisas não acontecem por a gente mesmo", alerta Adner.
"A gente é muito envolvido em tudo que gira em torno da produção cultural. Desde a comunicação, desde a produção de eventos, desde fazer parcerias. E, no final, construir amigos e relações."
Para 2026, a agenda promete manter o ritmo intenso. Além da continuidade da turnê com o Emerald Hill, que em janeiro desembarcou no Pico, em Recife, ao lado de bandas como DRVA e Associação dos Moradores, em evento produzido pela Noite Ruim Records, a Zambrotta planeja lançar um novo single ao longo do ano e, no segundo semestre, iniciar as composições para o segundo álbum.
A ambição é clara: tocar mais, conhecer ainda melhor o próprio quintal nordestino antes de mirar outras regiões, e continuar provando que é possível fazer arte honesta, dolorida e necessária longe dos holofotes tradicionais. Se o primeiro disco foi um mergulho nos conflitos do sonho artístico, o próximo passo parece apontar para uma banda ainda mais consciente de seu lugar, disposta a seguir produzindo, circulando e insistindo em fazer diferente.
Em um mundo sufocante, a Zambrotta é rock alternativo nordestino puro que resiste com ousadia e transforma obstáculos em som. Como diz Adner: "Queremos devolver à arte tudo que ela nos proporcionou – como ato de gratidão". E, assim, eles seguem ensaiando, entre a noite e o dia.
Veja o clipe oficial de "E Eu Lá Sei":
Letra: E Eu Lá Sei
Na chuva
No vento
Areia
No revolto mar
É nos pratos
Do jantar
E eu lá sei
O que é amar
Se o peito dói
Como sarar
E eu lá sei
O que é amar
E eu lá sei
O que é amar
Quero encontrar em qualquer lugar
Sem saber para onde ir
A resposta está no andar
E esperar o que há de vir
Quero encontrar em qualquer lugar
Sem saber para onde ir
A resposta está no andar
E esperar o que há de vir
Pois eu já sei
Como é amar
De onde vem
E como achar
Pois eu já sei
Como amar
De onde vem
Como achar
Pois eu já sei
Como é amar
Pois eu já sei
Como é amar
Eu já sei!
FICHA TÉCNICA
Guitarras e Violão: Lucas Emanuel
Baixo: Pedro Rasta
Vozes: Adner Matheus
Bateria: Raone Ferreira
Teclado e Synth: Diego Drão
Composição: Adner Andrade, Lucas Emanuel e Renan Pessoa
Arranjos: Adner Andrade, Lucas Emanuel, Renan Pessoa, Mathias Severien
Produção, Mixagem e Masterização: Mathias Severien
Percussões: Gilú Amaral

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Incrível acompanhar os meninos desde 2018! As músicas amadureceram, eles também… e ouvir ao vivo Zambrotta é uma experiencia!
Matéria muito bem escrita!
A banda consegue transpor tudo isso para os shows, que conta com momentos catárticos, explosivos, sensíveis e divertidos! Essa turnê pelo nordeste tem sido massa! Muito sucesso pra Zambrotta! A matéria ficou linda, parabéns galera!