Carniçal: Os Reis da Putrefação Autêntica que Sobreviveram ao Apocalipse do Metal Independente
- Tião Folk
- 2 de jan.
- 6 min de leitura
Edição Especial de Ano Novo – 5ª Edição da Revista Dissonância
Por Tião Folk, um repórter com a missão de tentar traduzir como um bando de metaleiros do interior de São Paulo transformou trejeitos exagerados em um império de memes e mosh.

Ah, o Black Metal: aquele gênero sombrio, cheio de corpse paint, gritos guturais e letras sobre o abismo da existência humana. Mas o que acontece se isso tudo estiver misturado a uma dose cavalar de humor autodepreciativo, vídeos no Instagram que parecem saídos de uma sitcom underground, e uma resiliência que faria até o diabo morder os sete cotovelos de inveja?

Bem-vindos ao mundo da Carniçal, a banda de Nova Odessa, interior de São Paulo, que começou como uma paródia dos clichês metaleiros e acabou virando um fenômeno das redes sociais. Porque, vamos admitir, em um nicho onde a maioria das bandas soa como se estivesse invocando o fim do mundo enquanto luta para pagar o aluguel do estúdio, esses caras conseguiram o impensável: fazer até os fãs de pop seguirem suas aventuras por pura diversão. E não, não estamos exagerando – ou estamos? Afinal, exagerar é o lema deles.

A trajetória da Carniçal começou no final de 2019, logo após um show em Nova Odessa. Sombra (Felipe Rocha, que na época se apresentava como Nick Hair) e o baixista Mortificado (João Paulo) vinham de uma banda de punk rock chamada Spunk. Sim, punk, porque nada diz "transição suave", o bagulho é pular de anarquia adolescente para o abismo pagão sem dó nem piedade. Aí entra o guitarrista Matheus Castilho (o icônico Sototos), que, em uma caçada pelo Facebook digna de um detetive de memes, encontrou os caras e marcou um ensaio.

O entrosamento foi imediato: todos compartilhavam influências como Slayer, Sepultura, Mayhem, Darkthrone, Coroner, Necrophagist e, principalmente, Death. O som? Uma fusão macabra: o suspense psicológico do Black Metal com a violência insana do Death Metal, tudo regado a letras profundas sobre a ignorância humana em relação à "verdadeira religião natural e pagã", e a busca pela iluminação via introspecção. Eles se autodenominam uma banda de Black Metal, às vezes de "Purple Metal", seja lá o que "Purple" signifique, talvez uma referência ao Deep Purple... pouco provável.

O primeiro álbum, Inquisição Espiritual, lançado em 1º de janeiro de 2020 (ao som da queima de fogos de Nova Odessa), foi composto coletivamente por Felipe (ainda Nick Hair) na bateria e Mortificado no baixo. É um disco que evoca aquela sonoridade da velha escola, com riffs macabros e agressivos que capturam a alma da banda, ou o que restou dela após anos de putrefação nessa porra aí, ó!

Mas o que realmente catapultou a Carniçal para o estrelato digital não foi só a música. Foi o slogan imortal: “Salve galera! Sototos aqui. Tô co Sombra, aí, ó! Aqui é da Banda Carniçal!”. Essa frase virou um vírus nas redes, com fãs gravando imitações em contextos absurdos, gerando trocadilhos infalíveis como “carne e sal”.

Influencers como Celso Castellen e perfis como Vida de Metal entraram na onda, elogiando a autenticidade que vai além das notas: "Não tentaram parecer 'bandão', não moldaram a estética pra agradar. Mostraram bastidor, amizade, improviso, fé no trampo… e isso conectou", como bem resumiu o Vida de Metal. Até quem odeia Black Metal segue por causa dos vídeos cheios de humor genuíno. Prova de que, no mundo das redes, ser você mesmo vale mais que um contrato com gravadora.
Mas nem tudo foi headbanging e likes. O nicho do metal extremo é um campo minado: pouca grana, pouca visibilidade, e uma concorrência que prefere invocar demônios a inovar. A Carniçal se manteve resiliente como um zumbi em filme trash, e olha que eles entendem de putrefação.
Em 2022, uma reportagem no site Igor Miranda destacou como eles explodiram no TikTok com seu Black Metal "bem-humorado". Mas veio o caos: acusações em shows, incluindo alegações de misoginia que abalaram Mortificado emocionalmente, levando-o a sair em 2023. Sototos chegou a anunciar o fim da banda em novembro daquele ano, em um post dramático que parecia o apocalipse: "Fomos perseguidos por pessoas do Brasil inteiro, corremos risco de morte, ficamos doentes, mancharam nossa imagem... Não estamos nem atrás da justiça, só queremos paz".

O álbum Meia Noite nasceu dessa dor, como disse o próprio mortificado num post: "Durante esse ano fomos vítimas de várias mentiras e difamação... usamos toda nossa dor nesse álbum. Toda nossa raiva, desespero e depressão". Outras bandas tentaram "cancelá-los e surfar no hype", como Mortificado desabafou, mas a resiliência venceu. A banda continuou, e após o caso resolvido, entrou na banda outro membro, o Incrédulos, que saiu alguns meses depois para dar lugar ao Void que, adivinhe, saiu também, durante uma turnê pelo sul do país.
E como se viraram financeiramente nesse inferno de putrefação? Com muita criatividade, é claro. Incluindo recursos próprios obtidos através de sorteios de "Kit Carniçal" (camisetas, chaveiros, patches, CDs autografados), rifas de instrumentos (como um baixo para comprar equipamentos novos), vendas de camisetas pintadas à mão pelos próprios membros. Imagine Sototos e Sombra com telas de serigrafia pintando "camisas morféticas" na força do ódio.
Posts mostram eles pintando, vendendo bonecos, CDs, e até recebendo kits de ferramentas de fãs e patrocinadores como, por exemplo, a Ferramentas Curitiba (por falar nisso, tô precisando de umas ferramentas, vou passar lá essa semana). Além disso, eles divulgaram amigos músicos, como DJ Said, mostrando que espalham putrefação, mas também parceria.
Em entrevista exclusiva para a Revista Dissonância, perguntamos se eles conseguem viver da própria música e, sim, eles andam com as próprias pernas, como o Sombra revelou:
"Sim, a gente consegue sim. A gente já conseguiu em 2023 e agora em 2025 também tá conseguindo"
Um exemplo para artistas independentes: em vez de mendigar selos, criaram um ecossistema próprio, virando fãs em financiadores.

Falando na entrevista exclusiva, porque, claro, a Dissonância não perde a chance de cutucar o osso da autenticidade, Sototos e Sombra foram sucintos, falaram pouco, mas foram afiados como uma guitarra desafinada no bom sentido. Sobre a mensagem principal:
"É liberdade e autenticidade. Curtir a vida mesmo e meter o louco!"
Quando caiu a ficha do sucesso?
"A gente sempre soube que já ia dar certo. A gente já veio com uma proposta de arte que é das profundezas umbralinas, então a gente sempre soube"

O segredo para cativar até os não-metaleiros?
"Eu acho que é pela autenticidade nossa também. A nossa irreverência. O jeito que a gente se porta, em tom meio humorístico, mas, mesmo assim com mensagem... diversas vezes que a gente já caiu, e estamos de pé ainda"

O que une a base Sototos-Sombra? O próprio Sombra responde:
"O que mantém a gente unido é a expressão da arte... e a gente já brigou tudo que tinha para brigar já. Hoje em dia o que mantém a gente unido é isso aí, a arte, a música, dinheiro, sucesso e isso aí"
A pior fase? "Com certeza foi por falsas acusações, difamações e ameaças".
E o futuro?
"Muita putrefação! Muita destruição! Apocalipse! E álbum novo... principalmente gravar no estúdio do Edson e Hudson! (risos)".

E por falar em Edson e Hudson, olha só o que o cara falou da banda: No momento que nós estamos vivendo, do politicamente correto, as pessoas tem um cuidado muito grande, com medo de cancelamento, esses caras aqui mostram autenticidade, num momento em que ninguém quer mostrar autenticidade, porque as pessoas têm medo, e é por isso que eu sou fã deles. Eles apertam o ‘foda-se’ e foda-se!”
Hoje, a Carniçal segue em turnê, prepara novos lançamentos e carrega o respeito de quem entende que independência não é discurso, é prática diária.
Em 2025, a turnê rolou forte: Passo Fundo/RS, Joinville/SC, Jaraguá do Sul/SC, Guarapuava/PR, Jundiaí/SP.
Posts mostram eles "finalmente bebendo água depois de cinco dias de muita putrefação". Para 2026, o primeiro show é dia 25/01 no Vikings Pub em Goiânia, seguido de turnê no Paraná: 27/03 em Assis Chateaubriand, 28/03 em Medianeira, 29/03 em Pato Branco. Se a Carniçal ensina algo, é que no metal, e na vida, autenticidade vence o hype. Ou, como diriam eles: "Salve galera! Aqui é da Banda Carniçal!" Que venha mais putrefação em 2026. Respeito total, esses caras merecem.
Veja o clipe oficial de Meia Noite.
Sototos – Vocalista e guitarrista
Mortificado – Vocalista e guitarrista
Void – Baixista
Sombra – Baterista
Direção e Produção Audiovisual
Diretor de Filmagem: Matheus Castilho
Cinegrafistas: Welisson, Renan Ribeiro, Pedro "Fanta"
Diretor de Edição: Matheus Castilho
Editor de Vídeo: Matheus Castilho
Equipe de Apoio
Maquiagem e caracterização: Alinne Pinheiro
MEIA NOITE
As portas se abriram
Da percepção
Vestígios de um medo
Fruto da corrupção.
Na meia noite
De um dia vazio
No céu estrelado
Vermelho e infantil
Um Poço de dor
Desconhecido de nós
Aprisiona o ser
Em suas próprias memórias...
Pecados que guiam
Esses Homens tolos
Que buscam o prazer
Em vez de se entregar ao todo
O mestre de nós
O pai do inferno
Que vive sozinho
Nesse eterno mistério
Na meia noite
De um dia vazio
No céu estrelado
Vermelho e infantil
Um Poço de dor
Desconhecido de nós
Aprisiona seu ser
Em suas próprias memórias...

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