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Rogério Espósito: A maestria da engenharia e a paixão da música na Revista Dissonância

Por Jorge Murilo, 06/03/2026


rogério espósito piano

A música brasileira ganha um novo interlocutor nas páginas da Revista Dissonância. Trata-se de Rogério Espósito. Carioca de 52 anos, Espósito é uma figura singular que caminha facilmente e com maestria entre dois mundos aparentemente distantes: a precisão matemática da Engenharia de Petróleo e a sensibilidade artesanal da música profissional.


Com pós-doutorado na área técnica e uma carreira sólida de mais de 25 anos atuando em projetos de grande envergadura, ele traz para nossas páginas uma bagagem cultural densa, moldada por décadas de estudo sistemático ao piano e composições profundas sobre existência humana. Essa dualidade aparentemente contraditória revela-se, na verdade, complementar: a disciplina científica fornece a estrutura sobre a qual a criatividade pode florescer com liberdade e propósito.


Em sua estreia como colunista, Rogério abordará curiosidades do meio musical, técnicas de musicalização, o universo do piano e histórias fascinantes sobre grandes compositores. Mas quem é, afinal, esse artista que o jazzista americano Jonny May definiu como "100% passion"?


Palavras Cegas: Uma Canção que Revela Vidas Desperdiçadas


O cartão de visitas de Rogério Espósito para o grande público é, indiscutivelmente, a canção "Palavras Cegas". Composta em 1990, quando ele tinha apenas 16 anos de idade, a obra transcendeu o formato musical e ganhou vida literária através de um conto homônimo ("Palavras Cegas, a canção que é meio triste mas não era para ser") que recebeu Menção Honrosa no prestigiado Prêmio Destaques Literários de 2024. Nele, o artista aprofunda a ideia de cegueira simbólica: palavras que não conduzem à solução quando falta repertório para transformar recurso em realização.


Essa transposição de uma linguagem artística para outra demonstra a profundidade conceitual da obra, que carrega em si camadas de significado suficientes para sustentar diferentes formas de expressão e interpretação ao longo das décadas.


Diferente do que muitos podem supor ao ouvir a menção a Santa Rita na letra, Rogério esclarece de forma enfática que a música não é um hino religioso ou uma canção devocional. Em vídeo explicativo publicado em suas redes sociais, ele afirmou categoricamente: "Palavras Cegas não é um hino de louvor a Santa Rita. Eu já falei isso algumas vezes, mas é bom deixar bem claro: eu não sou religioso, não sou devoto da santa. Palavras Cegas é uma canção baseada em fatos reais que fala sobre falta de perspectivas". A escolha da figura de Santa Rita, reconhecida popularmente como a padroeira das causas impossíveis, funciona como uma metáfora para retratar vidas estagnadas na base da Pirâmide de Maslow, onde "todo e qualquer passo é maior do que a perna", nas palavras do próprio compositor.


Na entrevista exclusiva concedida à Revista Dissonância, Rogério aprofundou a explicação sobre a filosofia por trás da composição, revelando uma consciência social aguçada que surpreende em alguém tão jovem à época:

"Palavras Cegas fala de vidas desperdiçadas que chafurdam na base da Pirâmide de Maslow. Não viemos ao mundo para sobreviver e pagar conta. A existência tem um significado maior, mais elevado. E, se qualquer passo para você é maior do que a sua perna; se qualquer ambição, por menor que seja, é impossível de alcançar; e, se rezar é tudo o que você pode fazer, então reze logo para Santa Rita, a padroeira das causas impossíveis".

Essa reflexão sobre a condição humana revela um artista que, desde a adolescência, possuía uma visão crítica aguçada sobre as estruturas sociais que aprisionam indivíduos em ciclos de mera sobrevivência.


O Conto: da Música à Literatura

No conto que expande a narrativa da canção, Rogério utiliza uma metáfora visual singular, inspirada pelo filme "Perfume de Mulher", de Dino Risi, não para caracterizar o personagem cego, mas para iluminar a figura do jovem Charlie, que sofre com o "não-pertencimento" e a incapacidade de vislumbrar alternativas para sua situação. A cegueira, portanto, não é física, mas existencial: uma incapacidade de enxergar saídas e possibilidades mesmo quando elas estão presentes no horizonte de possibilidades. Para Rogério, o título reflete sua própria condição psicológica da época: "As minhas palavras não me faziam enxergar a solução. Daí o nome da música". É uma confissão poética de alguém que, mesmo possuindo o discurso crítico correto, não conseguia aplicá-lo à própria vida devido à revolta que o cegava.


rogério espósito e val porto

Em resposta a poetisa Val Porto, também colunista da Dissonância, que questionou o significado profundo da canção, Rogério elaborou uma explicação que conecta a obra à sua experiência pessoal de forma reveladora. Ele explicou que a música foi composta "num contexto de muita exclusão, acontecer, muita falta de cultura, falta de discernimento, falta de perspectiva". A reflexão que se segue é particularmente esclarecedora sobre a tensão entre consciência e capacidade de ação:

"Em 1990, do alto dos meus 16 anos, eu já tinha essa percepção, eu tinha o discurso certo, mas cego pela minha revolta, eu também não conseguia usar de maneira eficiente o recurso excedente, que obviamente não era eu que produzia, então também não tinha tanta autonomia assim, obtendo, portanto, o mesmo resultado pífio das pessoas que não tinham essa noção".

A Trajetória Musical e a Defesa da Autenticidade



Rogério Espósito é um músico "raiz", pianista e multi-instrumentista, ex-aluno de nomes como Antônio Adolfo e Rafael Vernet. Sua dedicação à música é evidente em sua rotina: "Estudo piano todo dia, mesmo com pouco tempo, me irrito com o que não consigo fazer, sou humano". Ele se posiciona firmemente contra o uso excessivo de inteligência artificial na composição musical, valorizando o esforço e a criação humana:

"Acho um absurdo o computador fazer sua música pra você... Poderia usar um software pra escrever os arranjos, não tenho nada contra isso, mas jamais pediria a máquina para gerá-los"

Sua trajetória profissional, que inclui a Engenharia e o pós-doutorado, inclusive com livro técnico publicado, reflete uma visão pragmática e realista sobre a carreira artística.


rogério espósito livro

Ao ser questionado sobre a superação de obstáculos como artista independente, ele aconselha:

"CONTINUEM RECEOSOS! Não se joguem! Mantenham seus empregos e continuem estudando. De preferência, façam concursos públicos, garantam seu salário e usem parte dele para se capacitar no mercado da música" .

Para ele, "Dinheiro é importante, mas não basta. É preciso ter cultura para saber onde e com o que gastar".


Um Artista Presente e Acessível

Uma característica que distingue Rogério Espósito de muitos artistas de sua geração é a sua presença ativa e engajada nas redes sociais. Longe de manter uma postura distante ou inacessível, ele cultiva uma relação de proximidade genuína com seus seguidores, respondendo perguntas, explicando suas composições e compartilhando reflexões sobre temas cotidianos que vão muito além da música. Essa acessibilidade não é uma estratégia de marketing, mas uma extensão natural de sua personalidade e de sua crença na importância do diálogo como ferramenta de construção cultural.


Em um post recente, Rogério demonstrou sua consciência sobre os desafios do acesso à cultura no Brasil ao discutir a dificuldade de conseguir ingressos para shows de qualidade no Rio de Janeiro. Com detalhes minuciosos, ele analisou a situação do mercado de entretenimento, questionando os mecanismos de distribuição de ingressos e a falta de divulgação adequada que exclui o grande público de eventos culturais importantes. "Eu considero impossível que esse esgotamento imediato dos ingressos seja por conta da venda aberta. Eu acho que deve ter uma parte considerável dos ingressos sendo distribuída para pessoas VIPs ou patrocinadores ou produtores".


A história familiar também encontra espaço em suas publicações, como no relato sobre seu avô Venzo, o primeiro Espósito a chegar ao Brasil. Imigrante italiano que se instalou em Ubá, Minas Gerais, no início do século XX, Venzo fundou a Agência Espósito de distribuição de jornais e revistas, um negócio que passou por gerações e manteve a família unida através dos anos. Rogério lembra com carinho dos gibis e revistas que recebia do tio Mário durante a infância, e a música se revela como mais um fio nessa teia de conexões intergeracionais. Essa capacidade de entrelaçar memória afetiva, história familiar e expressão artística é uma marca de sua escrita que certamente enriquecerá seus textos na coluna.


Seja bem-vindo à Revista Dissonância

A Revista Dissonância convida seus leitores a acompanhar essa nova voz que se junta ao nosso time de colunistas. Com sua visão multifacetada, Rogério Espósito promete enriquecer a Revista Dissonância com artigos que irão além das curiosidades musicais, abordando a arte, a cultura e a vida sob uma perspectiva única.


Seja bem-vindo, Rogério Espósito. Suas palavras, desta vez, não serão cegas: serão lentes através das quais poderemos enxergar a música por ângulos ainda não explorados.


Leia na íntegra a entrevista de Rogério Espósito:


Dissonância: Qual a mensagem de “Palavras Cegas”?

Rogério Espósito: Palavras Cegas fala de vidas desperdiçadas que chafurdam na base da Pirâmide de Maslow. Não viemos ao mundo para sobreviver e pagar conta. A existência tem um significado maior, mais elevado. E, se qualquer passo para você é maior do que a sua perna; se qualquer ambição, por menor que seja, é impossível de alcançar; e, se rezar é tudo o que você pode fazer, então reze logo para Santa Rita, a padroeira das causas impossíveis. Ou, se quiser realmente tomar providências, dê um passo atrás e reveja porque as coisas chegaram a esse ponto. Trace uma estratégia que te permita levantar da cama na busca de um objetivo maior: viver com plenitude, consumindo o que você gosta, de acordo com os seus valores. Dinheiro é importante, mas não basta. É preciso ter cultura para saber onde e com o que gastar.

 

Dissonância: “Palavras Cegas” é uma composição relativamente antiga, por que você demorou tanto para lançar e mostrar ao mundo?

Rogério Espósito: Passei muitos anos sem pensar nisso e na correria, trabalho, casa, família, não dava para pensar numa estratégia. Quando as redes sociais viraram uma forma viável (ainda difícil) de divulgar, eu resolvi gravar e investir.

 

Dissonância: Como sua trajetória profissional (Engenharia e pós-doutorado) reflete a superação de obstáculos como artista independente, já que são contextos distintos?

Rogério Espósito: Os contextos são parecidos porque a realidade do Brasil é comum a todos nós. Não existe emprego ou perspectiva aqui. Eu me esforcei muito para passar em um concurso público porque empreender é impossível. Só quem tem muito dinheiro para perder consegue fazer mais dinheiro. As redes sociais não "democratizaram" o mercado, como o povo fala, mas criaram uma alternativa secundária, mais realista para o artista que não deseja a fama absoluta, mas um público de qualidade e uma renda extra, complementar. Esquece fortuna e independência financeira. Com o pé no chão, pequenas conquistas podem trazer muita satisfação.

 

Dissonância: A música “Um Certo Artista” foi cantada junto com seus filhos, você já está preparando a nova geração ou foi apenas um experimento musical?

Rogério Espósito: Eles cantaram uma parte muito dolorosa de "Um Certo Artista", que fala do mesmo contexto de "Palavras Cegas". É opção de cada um se construir ou se esquecer. Saúde, por exemplo, é um requisito básico, não dá pra agradecer por ter saúde e não querer mais nada. É preciso construir momentos, realizar sonhos. Naquela época, isso era realmente impossível. São fases que a gente só torce pra acabar e voltar a viver. Acontece com todo mundo. O tempo em que você chafurda no básico é que faz a diferença. Eles sabem disso porque eu tenho essa experiência pra passar.

 

Dissonância: Você é um músico raiz, pianista e multi-instrumentista, como você enxerga os músicos “modernos” que usam apenas as IAs para composição do instrumental de suas músicas, ao invés de se dedicarem a aprender e a tocar algum instrumento?

Rogério Espósito: Só uso IA para vídeos de divulgação. Acho um absurdo o computador fazer sua música pra você. Eu estudo piano todo dia, mesmo com pouco tempo, me irrito com o que não consigo fazer, sou humano. Toquei os teclados, fiz as vozes, escrevi os arranjos na mão e paguei os músicos de estúdio para executá-los. Tenho orgulho disso. Poderia usar um software pra escrever os arranjos, não tenho nada contra isso, mas jamais pediria a máquina para gerá-los.

Não sei usar o Protools e gostaria de saber pra aprender a gravar, mixar e consertar uma ou outra nota errada. E só. Esse é o papel da tecnologia e nada mais.

 

Dissonância: Que mensagem você deixa para os artistas independentes que ainda estão receosos de se jogarem de vez na carreira?

Rogério Espósito: Excelente pergunta. Sou muito sincero: CONTINUEM RECEOSOS! Não se joguem! Mantenham seus empregos e continuem estudando. De preferência, façam concursos públicos, garantam seu salário e usem parte dele para se capacitar no mercado da música. Aí, tudo vai depender só de você mesmo. Conhecimento a gente compra, sim. O resto, não. O resto vem com ele.


rogério espósito página bio-discográfica

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