A banda que nunca fingiu ser do campo e fez do folk urbano sua identidade mais honesta
- Tião Folk
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Por Tião Folk, 17/12/2025

Nascida do caos urbano e da necessidade de dizer o próprio nome, a Flores de Plástico nunca tentou parecer o que não é. E talvez aí esteja sua maior força. A banda fluminense acaba de lançar o álbum “Adeus, Meu Bem”, um trabalho que costura encontros e desencontros amorosos com sinceridade, humor ácido e uma estética musical que assume suas contradições: delicada e explosiva, suave e caótica, como a vida real costuma ser.

O trabalho transita entre delicadeza acústica e explosões emocionais caóticas, capturando aquela vulnerabilidade humana que todo mundo sente, mas poucos admitem: o adeus que liberta, a saudade que aperta e a resiliência que surge no meio do caos. Com arranjos elaborados, influências que vão de Tame Impala a Marina Lima, passando por Titãs e The Strokes, o EP é pop rock indie com ótica feminina, dançante o suficiente para não deixar ninguém parado, mas profundo o bastante para acertar em cheio as questões existenciais dos relacionamentos.
A história da Flores de Plástico é quase uma comédia de erros com final feliz, ou pelo menos persistente. Nascida em meados de 2020, no auge da pandemia, quando Murillo Peres e Gustavo Guedes decidiram compor via WhatsApp sem nenhuma pretensão de virar banda de verdade.
A ideia era ficar no virtual, gravar fonogramas e pronto. Demorou três anos para o primeiro show ao vivo. Três anos! (em negrito mesmo). Enquanto isso, eles entenderam que, no cenário independente, ninguém te descobre por talento puro: primeiro vem a relevância nas redes, depois os convites chegam. Antes disso, a estratégia foi clara: construir relevância nas redes, entender o público e só então ocupar espaços físicos. Nada de romantizar o improviso.
O nome da banda? Uma piada interna que nos faz pensar. Murillo explica: começaram com vibe folk, mas sendo crias do caos urbano de São Gonçalo e Niterói, nunca conseguiriam um folk “genuíno do campo”. Então, resolveram escancarar a falsidade: flores de plástico, bonitas, mas fake. “Quase todo mundo copia alguém" eles só admitiram isso, colocando Flores de Plástico como uma flor fake. Ou seja, um folk da cidade, "nunca conseguirá ser um folk genuíno do campo".
De São Gonçalo saem boa parte das raízes:

Murillo Peres, de São Gonçalo (RJ), se apaixonou pelo violão aos 15 anos, num desses encontros aparentemente banais que mudam tudo. “Foi amor a primeiro acorde”, resume, e tudo mudou quando descobriu um violão do tio parado em casa, a partir daí nunca mais parou.

Luli Nepomuceno, atual vocalista, cresceu acompanhando a avó vestida de Clara Nunes cantando em asilos.

A formação evoluiu como uma novela: saídas, entradas, amizades preservadas. Gustavo Guedes deixou a banda recentemente, mas segue colaborando; Isabella Cavalcante e Lucas Coube também partiram, mas continuam parceiros. Hoje, o time é Luli nos vocais, Murillo nos sintetizadores, Arthur Bergo no baixo, Érico Campos na guitarra e Gabriel Cabral na bateria. Uma banda que não tem medo de se reinventar, inclusive no palco, onde às vezes, optavam por tocar sem baixo, os instrumentos trocavam de mãos e a estrutura se adaptava ao espaço e ao momento. Quando necessário, músicos convidados entram em cena. Faça você mesmo, mas faça bem feito.
O caminho não foi fácil, e eles não escondem. A maior dificuldade? Coragem para prospectar. Murillo batia na porta (virtual) de casas de show, mandando DMs para lugares onde bandas do nicho tocavam. De dez, só um respondeu: o Bandolim Vegam, na Lapa, que acolheu o primeiro sarau misturando música e poesia. Eis aí o embrião do “Sarau das Flores”, que virou mini-festival próprio reunindo artistas fluminenses.

Como diz Murillo: “Resiliência sempre, porque frustrado só aquele que nunca tentou”. E Rômulo, um dos ex-integrantes, completa: “As coisas só mudam na arte quando há movimento”. O recado para quem está começando? Planejem tudo. Sorte sozinho não leva ninguém a lugar nenhum.
De singles como “Andaluzia” (saudade marítima com folk europeu), “Luz do Fogo” (homenagem à pioneira nudista Luz del Fuego, vítima de feminicídio em 1967) e “Experiência Elétrica” (crítica às personas virtuais), passando pelo álbum de estreia Trem Veloz (2021), a banda construiu um som que funde folk bucólico com rock introspectivo dos 80/90, sempre com reflexões poéticas sobre o cotidiano.
Adeus, Meu Bem é o ápice dessa jornada teimosa e bem-humorada: prova de que, mesmo vindo do “lugar sem cultura”, batendo portas e levando não, dá para florescer, ainda que de plástico.
Disponível em todas as plataformas, com canal no YouTube (@floresdeplasticooficial) e Instagram (@floresdeplasticooficial) cheios de bastidores. Porque, no fim, como tudo na vida, o amor pode acabar, mas a música volta pro lugar e faz a gente dançar em cima dos cacos.

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