Lucas Felix e a arte de amolecer o coração alheio
- Natália Benevides

- 5 de jun.
- 5 min de leitura
Por Natália Benevides

No dia 29 de abril deste ano, Lucas Felix lançou "Todas as Canções", um álbum com oito faixas autorais produzidas por Dadi Carvalho e gravadas no estúdio Nas Nuvens. Dadi é o mesmo cara que já trabalhou com Novos Baianos, Barão Vermelho, Caetano Veloso e Marisa Monte, então a expectativa era alta. E o disco atendeu às expectativas do público, porque Lucas entendeu o que muitos artistas independentes nem sequer vislumbram: não precisa gritar para ser ouvido.
Ouvi com atenção toda a discografia do Lucas, esse cara finalmente parou de se preocupar e resolveu cantar.

Cantava antes, claro, e muito bem. Mas havia uma tensão nos discos anteriores, uma espécie de “preciso mostrar que sei fazer isso” que agora deu lugar a algo mais solto.

Lucas tem 12 anos de estrada, começou em Niterói com um mochilão pela América Latina como combustível, gravou o primeiro álbum, "Céu de Poesias" (2013), antes mesmo de fazer um único show e (aliás, ele fez o show de estreia no Bem Dito Steak & Burgers Co, em Niterói), desde então, vem construindo uma carreira na base do violão e da teimosia.

O niteroiense, que hoje mora no Rio e já cogita aceitar o nome "joelho" para o pastel de feira carioca, o que diz muito sobre o nível de integração dele com a cidade, tem mais de uma década de estrada e uma discografia que inclui homenagem a Gilberto Gil, EP gravado na pandemia com Mariana Aydar, Mestrinho e o saudoso Letieres Leite, e o álbum Canto Que Vem do Mar (2023), que rendeu faixas com mais de um milhão de visualizações no YouTube. Ou seja, o cara não é novato e o "Todas as Canções" traz esse resultado e ensinamento: confiar no próprio instinto.
O disco

"Todas as Canções" começa dentro de casa, com “Em Casa”, e termina nas ruas, com “Avenidas”. No meio, passa pelo amor familiar, pela retomada de perspectiva em “Cada Passo”, por reencontros atravessados pela maturidade em “Lugar e Tempo”, pela música como abrigo na faixa-título, pelo desejo em “Deleite” (com Gabi Monteiro nos vocais) e pela ansiedade tratada como personagem em “Vamos Juntos”. Lucas transformou ansiedade em par romântico:
“Eu peguei e dei uma humanizada nessa ansiedade, transformei num par romântico, fui conversar com ela pra gente caminhar junto e não ela sair correndo na minha frente.”
E olha, funcionou!
“Vamos Juntos” virou uma das faixas que mais cresce em streaming, e a razão é simples: a música faz parecer que está falando de amor, e está. Lucas pegou um tema que costuma ser tratado com peso e transformou em algo que você quer ouvir numa tarde qualquer.

A produção de Dadi Carvalho é o elefante na sala, e vale falar sobre ela sem cerimônia. Antes disso, Lucas gravava em produções caseiras, cada músico no seu home studio, cada parte chegando por arquivo. O Dadi trouxe algo que Lucas nunca tinha conseguido: gravar com todos os músicos juntos, no mesmo estúdio, ao mesmo tempo. “Eu nunca tinha conseguido fazer isso. Sempre foram produções caseiras, os músicos cada um gravando da sua casa”, explica. Dadi chamou Marcelo Costa na bateria e percussão, Alberto Continentino no baixo, Rodrigo Tavares nos teclados, Canequinha no violão e guitarra e Antônio Neves nos arranjos de metais. Três dias de estúdio, praticamente tudo ao vivo. O resultado soa como uma roda de amigos tocando numa sala, porque foi exatamente isso.

A faixa-título, “Todas as Canções”, e a faixa final, “Avenidas”, foram escritas em 2018, junto com o compositor Iolme. Ele guardou essas músicas por anos sabendo que elas tinham uma história para contar juntas (eu queria ter essa paciência pra esperar). Hoje em dia todo mundo solta single a cada dois meses para alimentar algoritmo. Lucas fez o contrário: esperou o momento certo.
Uma conversa com Lucas Felix

Lucas define seu trabalho como “realismo otimista”. Perguntei como ele equilibra falar de amor sem cair na autoajuda. A resposta veio direta:
“Eu tento usar metáforas e outras figuras de linguagem para dizer coisas que eu quero dizer, para fugir desse lugar de música de panfleto, de autoajuda. Mas ao mesmo tempo busco não ser rebuscado demais. Eu gosto de fazer música popular, gosto da compreensão fácil.”
É sincero. Lucas não está atrás de ser o compositor mais original do planeta. “Se eu quiser soar o cara mais original do mundo, nem penso nisso”, afirma. Ele quer se comunicar. “Eu quero mandar a minha mensagem, que ela tenha poesia, mas que ela chegue nas pessoas.”

Sobre as referências, ele cita Beatles ao lado de Gilberto Gil, a explicação é prática, é a partir desse diálogo que Lucas pensa o próprio som:
“O Gil lá atrás, quando ele fala pro Caetano que Beatles e os Pífanos de Caruaru são a mesma coisa, eu tento sempre manter essa ideia na minha cabeça.”

No disco Baião de 2222, pediu ao guitarrista Canequinha que tocasse “Deixar Você” como se fosse o John Mayer conversando com Gil. Funcionou.
Os perrengues

A vida de artista independente reserva cenas que ficam engraçadas na retrospectiva. Ele mesmo contou que esqueceu o setlist escrito à mão antes de um show, pegou um caderno emprestado e improvisou. Levou violão, cabo, capotraste, mas deixou o papel do lado do sofá. “É a vida do artista independente”, resume. “A gente tá pensando em mil coisas”. E quando pergunto se ele já se sente seguro no palco: “Hoje você pode me soltar em qualquer palco, qualquer lugar, que eu me viro.”
O resumo da ópera
Se você quer um resumo do que o disco propõe, a última frase de “Avenidas” serve: “para mostrar que o amor não está nem perto de morrer, pois só faz florescer”. É moleza demais? Talvez. Mas depois de ouvir o álbum inteiro, a frase já não soa como um clichê, é mais como uma constatação.

Que fique claro que o Lucas não está se propondo a inventar um gênero novo, ou reinventar a roda, ele está fazendo MPB e trazendo letras que fazem sentido. Aqui pela Dissonância já passaram vários artistas tentando ser o próximo grande revolucionário da música, ele parece ter descoberto que ser honesto já é bastante difícil. E, por isso mesmo, já é bastante.
Assista ao clipe oficial de Esse Seu Jeito, de Lucas Felix:
ESSE SEU JEITO
(Lucas Felix)
Esse seu sorriso que aquece meu peito
Esse seu jeito bonito de ser
Mil poesias que carrega em seus olhos
Estar contigo é um imenso prazer
Porque és desse mundo
O ser mais doce
E essa alegria de viver ao seu lado
E poder dizer que sou seu namorado
E essa alegria de viver ao seu lado
Me faz tão bem, me faz tão bem
FICHA TÉCNICA
Estrelando Lucas Felix e Natasha Jascalevich
Direção e Roteiro: Natasha Jascalevich
Direção de Fotografia: Andre Hawk
Direção de Arte e Figurino: Miti
Direção de produção: Bela Andréo e Alexandre Lessa
Agradecimento: Gabriel Lima
Still: Lorena Zschaber
Edição: Camila Baggio
Color grading: Rodrigo O’Campo
Gaffer: Rodrigo Ocampo
Assistente de fotografia e Making Of: Guilherme O'doro e Lorena Zschaber
Assistente de câmera: Camila Baggio
Assistente de arte: Fernando Protasio
Contrarregra: Hugo Alves
Operador de Luz: Teatro Fred Kotouc
Violão: Canequinha
Baixo e Produção Musical: Fabio Lessa
Bateria: André Marques
Percussão: Junior Moraes
Cordas: Dudu Trentin
Mix e Master: Alberto Vaz
Produtora Audiovisual: Meduzza Filmes

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