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Lucas Felix em dissonância: entrevista exclusiva

lucas felix entrevista para a Revista Dissonância

Lucas Felix é cantor e compositor niteroiense com mais de uma década de carreira independente. Transitou por homenagens a Gilberto Gil, gravou ao lado de Mariana Aydar, Mestrinho e Letieres Leite, e acumulou milhões de plays sem abrir mão da autogestão. Em abril de 2026, lançou Todas as Canções, produzido por Dadi Carvalho, com oito faixas que partem do amor doméstico e chegam nas ruas. Conversa com a Dissonância sobre o disco, a ansiedade como personagem e a arte de não esquecer o violão em casa.


Dissonância: Você define seu trabalho como “realismo otimista”. No Todas as Canções, o disco começa dentro de casa, em “Em Casa”, e deságua nas avenidas. Como foi equilibrar essa expansão do íntimo para o coletivo sem cair no discurso de autoajuda ou no panfleto?


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Realismo OtimistaLucas Felix

Lucas Felix: Hoje em dia, vem com muita naturalidade essa composição mais fluida. Eu já tenho um jeito que eu venho com os anos pegando uma característica de composição, principalmente de letra. E eu tento usar metáforas e outras figuras de linguagem para dizer coisas que eu quero dizer, para fugir desse lugar de música de panfleto, de autoajuda. Mas ao mesmo tempo eu busco não também ser rebuscado demais. Eu gosto de fazer música popular, então eu gosto da compreensão fácil. Então, tem uma ideia, tem uma poesia, tem uma coisa acontecendo, mas é tudo fluido, tudo é fácil de, de, de entender. E eu acho que hoje em dia eu tenho muita naturalidade já nessa maneira de compor. Mas lá no início eu penava mais para encontrar esses caminhos. Eu acho que hoje é mais maturidade, mais leitura, mais escuta também. Eu acho que hoje flui muito mais tranquilo.

 

Dissonância: Dadi Carvalho, com toda a bagagem dos Novos Baianos e Barão Vermelho, assinou a produção. O que ele trouxe de concreto para o som que você não conseguiria sozinho, e em que momento você disse “não, aqui eu quero do meu jeito”?


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O ProdutorLucas Felix

Lucas Felix: A relação com o Dadi foi a melhor possível, foi um aprendizado em diversos níveis. Não teve nenhum momento que eu falei, “não, aqui é assim”, porque eu já cheguei com as músicas, os caminhos prontos quando eu fui mostrar as músicas para eles, eu acho que a ideia estava toda ali já, eu só precisava que o Dadi traduzisse, e ele traduziu brilhantemente. A nossa conexão foi muito rápida e muito fácil. Não é à toa que eu apresentei as músicas para ele, a gente, um mês depois, já tava no estúdio, ele chamou os músicos e a gente em três dias gravou o disco, todo mundo ouvindo assim, uma vez, e vamos embora. E eu acho que isso que foi que eu consegui com ele de diferente, foi uma compreensão musical muito fácil, uma sabedoria ali que faz as coisas, vou de novo usar a palavra “fluidez”, mas eu acho que é isso, tudo fluiu muito fácil. Eu acho que os músicos que ele trouxe também foram muito, só agregaram maravilhosamente bem, Marcelo Costa na bateria e percussão, o Continentino no baixo, o Tavares que já vinha, já gravava comigo há muito tempo, nos teclados. Eu trouxe o Canequinha no violão e guitarra, o Veloso também gravando baixo. Mais um monte de coisa legal e também poder gravar no Liminha, nas nuvens, foi também um toque do Dadi, das amizades do Dadi. E trouxe uma energia, porque a gente podia estar todo mundo dentro do estúdio gravando. Eu nunca tinha conseguido fazer isso, sempre foram produções caseiras, os músicos cada um gravando da sua casa, no seu home studio. Então poder estar todo mundo junto, integrado e criando ali na hora foi mágico e, para mim, foi uma experiência incrível.

 

Dissonância: O álbum se costura em torno do amor (familiar, romântico, social). Qual faixa foi a mais difícil de parir e por quê? E qual você suspeita que o público vai entender de um jeito que nem você previu?


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O ProcessoLucas Felix

Lucas Felix: Bom, a faixa mais difícil de parir, eu acho que foi “Lugar e Tempo”, porque foi a mais visceral talvez. É, de momento que eu tava, enfim, do que eu tava sentindo, do fim de um certo relacionamento e de umas coisas que estavam acontecendo. E as outras canções são um apanhado de canções que eu fui fazendo ao longo de um tempo, tanto sozinho quanto com o Iolme, que é outro compositor. Que tem quatro faixas nesse disco comigo, meu amigo. E a gente já vinha citando esses amores sociais em algumas músicas, e eu fui guardando, sabendo que elas teriam uma história pra contar juntas. “Todas as Canções” e “Avenidas”, por exemplo, são de 2018. São canções que eu fiz muito próximo lá de data com o Iolme. Uma época que a gente tava meio desesperançoso das coisas, principalmente no Brasil, que estavam acontecendo, e como que a gente poderia transpor isso. E a música que tem me surpreendido bastante é “Vamos Juntos”, porque é uma canção bem lado B pra mim. Que eu fiz, acho que ano passado ou retrasado. Acho que foi ano retrasado. E eu fiz a partir de um relato de uma pessoa que eu adoro, contando sobre a ansiedade dela e sobre até um relato de taquicardia. E eu fiquei muito preocupado com aquilo e quando eu cheguei em casa, eu relacionei com as minhas próprias ansiedades, e, mais uma vez, usei de uma figura de linguagem, talvez uma prosopopeia, eu acho. Que eu peguei e dei uma humanizada nessa ansiedade, transformei essa ansiedade num par romântico. Eu fui conversar com ela, com essa ansiedade, pra gente caminhar junto e não ela sair correndo na minha frente. Mas, enfim, ficou uma música como um relacionamento amoroso. E a gente quando foi pro estúdio, ela não tinha, era que eu menos tinha ideias, assim. A gente foi muito freestyle lá, e os músicos gravaram tudo junto ao mesmo tempo, tocando e sentindo a música. Ainda, que o final dela, ela vai sendo levada, porque os músicos não quiseram parar de tocar, foram levando, eu fui deixando e adorando, assim, sabe? Ela foge desse mercado pop em questão de, até de tempo de música, né? Porque foi isso, foi uma coisa muito orgânica sendo criada ali, e eu acho que essa energia tá passando pras pessoas, eu acho que é uma música que tá indo mais alto do que eu imaginava, e eu tô feliz demais com isso.

 

Dissonância: O disco tem referências diversas, inclusive estrangeiras como The Beatles. Como as influências estrangeiras se entrelaçam com sua raiz MPB sem virar uma cópia mal disfarçada?


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ReferênciasLucas Felix

Lucas Felix: Essa questão de referências, eu acho que vai muito de artista pra artista, de músico pra músico. Eu tento ouvir, aprender quem está a minha volta. Eu acho que o grande segredo de qualquer sucesso é você se cercar de pessoas melhores que você, que vão te trazer mais coisas, então eu gosto sempre de estar perto de músicos que são gênios na minha opinião, que pensam de maneiras diversas. E, enfim, e eu gosto muito de ouvir coisas que o Gil diz, por exemplo, que é, meu guru maior. Então, o Gil lá atrás, quando ele fala pro Caetano que Beatles e os Pífanos, a banda de Pífanos de Caruaru, são a mesma coisa, eu tento sempre manter essa coisinha na minha cabeça ali, que foi, foi assim que surgiu a ideia do Tropicália lá. E eu acho que é mais ou menos essa linha de pensamento que eu tento levar. Eu tento, por exemplo, quando eu gravei o disco Baião de 2222, que foi uma homenagem a Gil, eu cheguei pro Canequinha, e falei, “Canequinha, eu quero muito gravar Deixar Você, do Gil”, que é uma música para mim linda, e nesses saxofones que tem aqui na versão original, eu escuto uma guitarra do John Mayer. Então, como seria o John Mayer conversando com o Gil? Então a gente já criou a partir dali, e o Canequinha, brilhantemente, entrou nesse lugar, e trouxe as suas próprias ideias, influências, mas pegando essa referência de como seria essa conversa. Então, eu tento sempre fazer muito essas pontes, e a MPB está enraizada em mim. Então as influências vão estar aqui com muita naturalidade. Eu tento buscar esses outros elementos, outras coisas, principalmente para esse disco, que trouxesse uma novidade sonora, mas também fosse uma coisa que entrasse com facilidade na cabeça das pessoas. Então é isso. Eu acho que Beatles sempre foram muito, muito, muito inteligentes nisso, de fazer coisas complexas e sim, parecerem simples e tal. Gil também, enfim, eu acho que é mais ou menos isso. É saber escutar, se cercar de pessoas fodas, é isso.

 

Dissonância: ‘Todas as Canções’ é um disco de amor que vai do lar para a rua. Se você pudesse escolher uma única frase para resumir o que quer que o ouvinte leve depois de ouvir o álbum inteiro, qual seria?


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Um Única FraseLucas Felix

Lucas Felix: Essa coisa de escolher uma frase, sempre escolher uma coisa me deixa muito mal. Eu gostaria de dizer um monte de coisas, mas acho que a última frase do disco, de “Avenidas”, eu acho que é, para mim é mais importante, que é “para mostrar que o amor não está nem perto de morrer, pois só faz florescer”. Eu acho que o disco é essa a ideia, que a gente amoleça um pouco a dureza da vida adulta e relembre que nós temos muito amor, nós somos amor, viemos do amor. E, às vezes, essas pressões que a gente vive hoje em dia e esse mundo doido que faz a gente se individualizar, se esquecer um do outro, faz a gente endurecer, e eu acho que a ideia do disco é que a gente amoleça um pouquinho os nossos corações.

 

Dissonância: Com mais de uma década de estrada, o que ainda te tira do lugar e te faz sentir que precisa provar algo ou fazer algo diferente? Ou já chegou no ponto em que a cobrança maior vem de dentro?


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A CobrançaLucas Felix

Lucas Felix: A minha cobrança maior sempre veio de dentro, desde o início, desde antes. Desde que eu me entendo por gente, acho que eu sempre fui a pessoa que mais me cobrei, mas eu acho que hoje eu tô mais relaxado em questão ao que pode vir a ser, o que vai ser da vida. Eu já estive muito mais pra baixo. Já estive muito mais incerto de um monte de coisa. Isso refletia na minha, na minha falta de conseguir compor até. E hoje eu tô buscando uma leveza. Claro que volta e meia, ser artista no Brasil é complicado. Então a gente tem muita dificuldade de fazer show, de qualquer conexão maior que a gente tenta, e às vezes vai empacando, vai empacando, aquilo vai te dando uma, vai te dando uma endurecida, na verdade, vai te deixando um pouco pra baixo. Mas eu tenho, tipo, não pensado nisso. Eu quero, a questão de vibrar com o que eu quero dizer no disco. Então eu preciso estar me convencendo em primeiro lugar. Então, eu acredito no que tá escrito no disco, no que tá composto no disco, eu acredito nas canções do disco. Eu acredito nos arranjos. Então isso tudo tá me dando muita leveza pra encarar. Eu acho que é assim que eu quero levar pra sempre agora. Sem me preocupar, se eu quero soar o cara mais original do mundo, nem penso nisso. Se eu quero parecer brilhante numa letra, não, eu quero mandar a minha mensagem, que ela tenha poesia, mas que ela chegue nas pessoas, e que as pessoas captem essa energia que eu quero passar. É isso, eu quero me comunicar, transmitir amor e receber amor. Basicamente é isso.

 

Dissonância: Você esqueceu o setlist escrito à mão antes de um show, improvisou com caderno emprestado e sobreviveu. A vida de artista independente no Rio ainda reserva perrengues assim ou o violão já aprendeu a navegar melhor nas marés?


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A Vida de ArtistaLucas Felix

Lucas Felix: Ah, isso aí é porque a vida do artista independente é assim mesmo. A gente tá pensando em mil coisas, criando mil coisas. Fazer um show envolve um monte de coisa que a gente, às vezes, não tem. Por exemplo, esse show, que foi um show menor, não tinha nenhuma, ninguém de produção, foi tudo o Bernardo e eu que fizemos. O Bernardo cuidou da parte estrutural do show, de acontecer, convidados, enfim, a noite acontecer, e eu cuidei de toda a parte musical, da direção, escolher o repertório, enfim. Que que a gente vai, como é que vai ser essa noite, combinar com os músicos, acertar tudo, enfim. Então, é muita coisa na cabeça que fica. Eu acho que todo artista independente passa por isso. E aí acontecem algumas coisinhas dessas, tipo, esquecer o repertório. E eu gosto de escrever o repertório à mão sempre, justamente por isso. Porque quando a hora que eu vou escrevendo o repertório, eu vou sentindo o show, vendo o show. Então, quando eu tô escrevendo ele ali, às vezes, eu mudo uma música de lugar com a outra, porque eu senti que não, a história aqui tá indo por esse caminho, tal. E aí esquecer faz parte. Deixei do lado do violão, peguei o violão, pelo menos eu lembrei do violão. E na hora a gente improvisa. Acontece essas coisas assim, mas é mais porque a gente, às vezes, tá tendo que lidar com mais coisas para além do show. Se eu tivesse só que cuidar do show, eu acho que seria muito mais tranquilo. Mas o violão também já aprendeu a navegar bastante. Eu acho que hoje, pra várias coisas, eu sinto, me sinto muito mais seguro, inclusive, com o próprio violão. Eu acho que hoje você pode me soltar em qualquer palco, qualquer lugar, que eu me viro. Então, mas antes já passamos por diversos perrengues, diversas inseguranças que eu acho que a maturidade, o caminho, a vida vão te amadurecendo, e a gente segue.


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