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O Profeta do Calçadão: A Moral Inabalável de Plá em seu Ato nº 77

Atualizado: há 1 dia

Por Tião Folk, 09/05/2026


plá com pergaminho
Foto: Cláudia Carneiro

Aos “900 anos” de idade, o músico Ademir Antunes dos Santos, o Plá, acaba de depositar mais um tijolo em sua imensa catedral discográfica: o álbum Pla Tons, seu 77º trabalho independente. Em uma Curitiba que muitas vezes se fecha em vidros fumês, Plá permanece como a fresta aberta, um artista importante não apenas pela longevidade, mas por representar a resistência de uma filosofia prática que sobrevive a golpes digitais, repressões fiscais e ao próprio tempo.


capa da 9ª edição da Revista Dissonância

Para a 9ª Edição da Revista Dissonância, que tem a honra de estampar Plá em sua capa, mergulhamos na trajetória desse ícone que, ao invés de esperar o povo nos teatros, levou sua arte para o asfalto, para a rua, o palco mais democrático de todos.


Nessa minha estrada, conheci artistas que lançam um disco a cada quatro anos, fazem turnê em teatros climatizados, concedem entrevistas coletivas com assessoria de imprensa e, no auge da carreira, recebem um prêmio de popularidade escolhido pelos coleguinhas da internet. Aí eu conheci o Plá.


Quem passa pela Boca Maldita, para, escuta e leva um pedaço daquilo para casa. Não é lançamento de gravadora, não tem assessoria de imprensa, não tem playlist editorial. É só mais um tijolo na catedral particular que esse artista vem construindo initerruptamente há quatro décadas. E agora, aos 70 anos, ele já está gravando os discos 78, 79 e 80. E você aí no seu sofá achando que independência é romantismo, não é não, é teimosia mesmo.


Da boca de um Campo Belo para a Boca Maldita


Plá, nasceu em Campo Belo do Sul, uma cidadezinha no interior de Santa Catarina que, como o nome sugere, fica num cantinho que Deus fez e esqueceu de colocar no GPS. Foi lá, no meio da roça, do gado e das serenatas ao luar, que ele compôs sua primeira música, ainda piá, com versos sobre a natureza que hoje soariam como um hino ecológico na voz de qualquer ativista de plantão.


A lembrança é tão viva viva que ele cantou um trechinho da música, como eu sempre digo no meu programa na rádio, "ouve aí":



"Olha natureza, enfim,

tão lindo luar cor de prata

branquejando pelos campos afora,

sinto saudades de uma serenata"


pla na praça

O catarinense de Campo Belo do Sul desembarcou em Curitiba em 1976 com violão na mão e cara de quem não ia voltar. Fez Licenciatura plena em Música na FAP, concluiu em 1982, experimentou um ano de Musicoterapia e chegou à conclusão lógica de qualquer um que pensa demais: os diplomas servem melhor guardados na gaveta.


pla cantando

Em 1984 largou o “água com açúcar” dos bancos escolares e foi para a rua. “Guardei os diploma lá e daí comecei mostrar minha arte na rua.” Ponto final.


"Guardei os diplomas que eu tinha ali, e peguei meu violão e fui para a rua. A rua proporciona liberdade para o artista — você fica ali observando as pessoas, interagindo com a realidade do dia a dia, se inspirando nos acontecimentos."

A Boca Maldita virou palco, escritório, estúdio e ponto de venda. A rua, segundo ele, é “o palco mais democrático que tem”. Democrático porque não cobra ingresso, não tem camarim, não tem censor de repertório e, principalmente, porque o público não escolhe o artista, o artista escolhe o público, todo santo dia.


Em maio de 1987 ele arriscou o primeiro grande salto: três noites lotadas no Teatro Paiol. O show virou o disco "Raio de Sol", e esse, o primeiro registro oficial da carreira. E por falar em primeiro registro, catalogamos a foto original usada para a edição da capa.



Sim, o artista de rua lotou o teatro.


E, ainda assim, voltou para a rua.


Esse detalhe é importante. Porque desmonta a narrativa confortável de que o palco institucional é o objetivo final. Para Plá, foi apenas um episódio.


Existiu um mítico "CD Zero", ainda mais raro que a Dissonância fez questão de catalogar, gravado antes do disco "Raio de Sol" (1987).


cd zero

E o que falar das capas, um espetáculo à parte, desde as iniciais até a mais recente. As capas iniciais eram pura gambiarra artesanal: fotos coladas com papel escrito à mão pelo próprio Plá. Nada de gráfica chique. Faça você mesmo antes de o termo virar moda hipster. As capas iniciais eram pura gambiarra artesanal: fotos coladas com papel escrito à mão pelo próprio Plá. Nada de gráfica chique. Faça você mesmo antes de o termo virar moda hipster.


cd 21

O Spotify, claro, não dá conta, muita coisa nunca foi digitalizada ou foi lançada em tiragens pequenas demais para o algoritmo.


Desde então são 77 CDs independentes. Eu disse "setenta e sete", seu eu fosse colocar em números romanos, você provavelmente nem ia saber ler, LXXVII. A discografia completa que a Dissonância levantou inclui desde o tal CD Zero até Pla Tons. Veja uma minúscula amostra do universo de discos lançados pelo Plá. Na página bio-discográfica do artista você vai poder ver todos os álbuns lançados até o momento dessa reportagem.


Sem dúvida, um marco considerável, 77 capas feitas artesanalmente. É óbvio que, à medida que os anos foram avançando, as capas foram ficando melhor editadas, mas nunca perderam a essência do artesão.


As ilustrações mais recentes foram sendo feitas com ajuda de amigos próximos do nosso profeta, mesmo essas não deixaram de fora os elementos que tornam as capas tão singulares.


plá tons

A capa do disco “Pla Tons” conseguiu reunir outras 49 capas numa só, tá certo que precisei ressuscitar minha lupa para poder enxergar todas as subcapas disponíveis nesse disco. Mas foi um exercício interessante porque o cuidado em organizar cronologicamente os lançamentos, desde o disco Zero até o 49º, nos coloca numa máquina do tempo na qual é possível ver a passagem dos anos pelo olhar de um artista tão longevo.


Isso contrasta com os dias atuais em que qualquer músico com vinte minutos e uma IA gratuita consegue gerar uma capa deslumbrante, com cores que não existem na natureza, tipografias que flutuam no espaço e estética milimetricamente perfeita, na qual o grito de "nenhum ser humano tocou nisso", é ensurdecedor.


plá sua cara

As capas do Plá são um choque de realidade: imperfeitas, artesanais, às vezes tortas, mas sempre verdadeiras.


O mercado atual está inundado de obras visuais geradas por algoritmo: belas, técnicas e completamente ocas, como um manequim bem vestido numa vitrine fechada. As capas do Plá não são para impressionar , elas são sua identidade. Há uma diferença enorme entre as duas coisas, e essa diferença é justamente o que separa um artista de um produto.


O processo físico de produzir um CD hoje beira o arqueológico. Gravar dados em disco óptico exige equipamentos que estão desaparecendo das prateleiras do mundo junto com as locadoras e as lan houses. Encontrar quem ainda faça isso em escala acessível é tarefa para os fortes. Mas há algo profundamente honesto em segurar nas mãos uma capa impressa, dobrada com cuidado, encaixada numa capa plástica transparente: o resultado do trabalho ali, palpável, cheirando a tinta de jato. Nenhuma playlist, nenhum stream, nenhum algoritmo de recomendação devolve essa sensação.


plá anos 2000

E como todo profeta que sobrevive, Plá se adaptou sem se trair. Hoje vende também pen drives — cada um carregando três ou quatro discos. Os fãs, ele garante, adoram: é mais fácil ouvir nos aparelhos modernos, e de quebra ainda levam um pendrive de brinde. Típica solução de quem passou quarenta anos vendendo arte na calçada: pragmática, direta, sem perder a graça.



Trilogia das Bicicletas, Dividilismo (ou "As Alturas", dependendo de quem conta), álbuns temáticos, discos gravados ao vivo na rua, no estúdio improvisado, em festivais. Tudo pago do bolso, vendido na mão, sem intermediário. Se o mercado fonográfico brasileiro tivesse um espelho, ele quebraria de vergonha ao ver esse sujeito de roupa branca costurada por ele mesmo, com frases que o público escreve nos panos.


Plá na XV

Lá na Boca Maldita, Plá chegava com seu gravadorzinho de pilha, uma fita cassete, e um livrinho datilografado por ele mesmo com as letras de dez ou doze músicas autorais, já cifradas. Ligava o gravador no chão, começava a cantar e anunciava para os passantes que estavam assistindo à gravação ao vivo de uma fita que, no final, ele venderia. Era o streaming analógico de 1984. O algoritmo era a voz e a audácia.


plá na XV

Houve inclusive um encontro inevitável com os guardiões da ordem. Fiscais chegaram, informaram que ele não podia vender nada na rua. A resposta de Plá foi colocar a fita na bolsa e declarar: "Cantar vocês não vão poder me impedir em lugar nenhum." A galera aplaudiu. Os fiscais baixaram a bola. Esse episódio, narrado pelo próprio Plá com a calma de quem já viu o filme várias vezes, resume muito: ele nunca pediu permissão. Ele foi.


plá na XV

E essa não foi a última vez que precisou ir para o conflito para continuar cantando na rua, houveram várias outras. Em 2019, por exemplo, foi surpreendido por guardas municipais na Rua XV com a tal "lei do silêncio", decreto do então prefeito, Rafael Greca que, segundo os agentes, vetava até seu violão acústico. Plá usou as redes sociais para denunciar, recebeu apoio e continuou. "No mesmo dia usei minhas redes sociais para denunciar a ação. Como sou bastante conhecido, recebi muito apoio e desde então nunca mais fui incomodado. Continuo aqui cantando e apresentando meu trabalho."


A estética do improviso, Plá e a filosofia no corpo


plá com pergaminhos
Pergaminhos criados com tecido em que as pessoas escrevem seus nomes

A conversa sobre Plá não está completa se não falar das roupas. Sempre brancas. Sempre costuradas por ele mesmo. E sempre cobertas de frases que o público escreve com caneta de tecido, aquelas permanente, que não saem quando lava. Plá leva um pano para a rua, as pessoas escrevem, ele costura. O figurino vira pergaminho vivo da voz das calçadas, o corpo uma galeria ambulante.


"Eu mesmo que costurei as minhas roupas há muito tempo. A minha calça, a camisa tudo. Fico usando o pano que a galera escreve ali. Fica uma roupa assim mais interessante."
plá cantando

É uma escolha estética, mas também é uma extensão da ideia de “dividilismo”, conceito recorrente na sua fala: compartilhar criação, dissolver autoria individual, transformar arte em troca. Aliás, ele vive o que canta. Além de costurar as próprias calças e camisas, anda de bicicleta todos os dias e transformou a magrela em militância sonora.

“A bicicleta, pra mim, é uma extensão de mim mesmo. Sem a bicicleta eu não poderia fazer de modo algum o que eu faço em Curitiba”

Pode soar utópico. Às vezes soa mesmo. Mas ele está há quatro décadas fazendo isso na prática. E prática, para ele, não é opcional.


“Se a filosofia não for prática, ela não tem a sua razão de ser.”

Desde 2004, quando entrou na Bicicletada na Reitoria da UFPR, pedala mais de 20 quilômetros todo os dias na sua "Ventosa", nome de batismo de uma das bikes. Participou de diversos eventos envolvendo o tema bicicleta. Em junho de 2015 esteve presente na inauguração da ciclovia da Avenida Paulista e convocou os presentes a ingressarem nesse movimento pró vida, através do ciclismo.


Plá na avenida paulista
Plá na inauguração da ciclovia da Av. Paulista (2015)

É claro que não poderiam faltar músicas sobre bicicleta. Ele compôs hinos que viraram trilha sonora do cicloativismo nacional: “Invasão das Bicicletas” e, principalmente, “Para andar de bicicleta tem que ter moral”.


plá de bicicleta
Foto: Tião Folk

A frase nasceu de uma conversa prática, como tudo na obra dele: um amigo, dono de uma bicicletaria, foi ridicularizado por pedalar até o trabalho no próprio bairro. Os "amigos" perguntaram "Ô, César, que houve? Tá sem dinheiro para comprar gasolina?". Plá ouviu, processou e transformou em arte: "Para andar de bicicleta tem que ter moral". A moral, explica ele, é "postura, firmeza naquilo que ela é, naquilo que ela mostra, convicção do que tá fazendo". Em uma cidade onde o carro ainda é tratado como extensão fálica do ego, pedalar é um ato político. E Plá é seu ministro da propaganda.


"A moral é a questão de postura que a pessoa tem — uma firmeza naquilo que ela é, naquilo que ela mostra. Convicção do que está fazendo."

A ironia curitibana

plá na câmara municipal

Ele próprio precisou dessa moral várias vezes. Em 2018, a Câmara Municipal de Curitiba, por unanimidade, concedeu a Plá o título de Cidadão Honorário. Vereadores discursaram emocionados. Plá foi chamado ao plenário. Desensacou o violão e tocou. Evidentemente. "Violeiro que é violeiro, que carrega o violão, tem que tocar."


plá vaquinha online
Plá lançando vaquinha online pelo catarse

Reconhecimento bonito, mas que não paga aluguel. Em 2023 fez vaquinha para cobrir contas pós-pandemia. Em novembro de 2025 caiu num golpe de WhatsApp e perdeu R$ 2,7 mil que eram para o aluguel. “A gente luta no dia a dia para equilibrar as contas e pagar o aluguel, chega uma pessoa como essa e leva tudo.” Nenhuma queixa dramática, nenhuma vitimização. Apenas o registro frio, porque ele sabe que a rua dá e a rua cobra.


Na entrevista exclusiva para a Dissonância, Plá foi direto: a rua enriquece porque é espaço aberto, diversidade pura.

“Tem tudo que é tipo de pessoas, de ideologias diferentes, modos de visão diferente, gente grande, pequena, rica, pobre... é bem mais interessante a rua.”
plá cantando na rua XV

Ele não está interessado em quantidade de público. “Tô interessado em viver aquilo que eu estou fazendo.” Quem para, ouve, entende o recado filosófico que está no autoconhecimento, na liberdade, no desprendimento, na “alimentação espiritual” contra a solidão dos elevadores e contra a informação virtual que não sabe o que acontece no quintal. Quem topa com o Plá na rua, leva o disco, leva a ideia, leva a reflexão.


A voz do artista (sem filtro)


Em nossa conversa para esta edição, Plá nos presenteou com algo raro: uma música inédita, composta em parceria com um amigo. Ouvimos antes do mundo. Ela entrará nos próximos discos vindouros, seja no 78, 79, seja no 80, ainda está indefinido. Aqui, a Dissonância publica a letra antes de qualquer lançamento formal. Abaixo, assista ao vídeo exclusivo de Plá cantando a inédita.



Vão querer te derrubar,

Mas você não vai cair,

Pois quem nasce para vencer

Aprende sempre a resistir.


Vão querer te atrapalhar,

Mas você continua aí.

Tua força é maior

Que qualquer vento contra ti.


Vão querer te derrubar,

Mas você não vai cair.

Os baques da vida só

Te ensinam a evoluir.


Vão querer te ofuscar.

Mas você vai persistir.

Quem carrega fé no peito

Sempre encontra por onde ir.


Vão querer te caluniar.

Você vai se sobressair.

Quando é Deus que te sustenta,

O inimigo vai fugir,

o inimigo vai sumir.


Entre o folclore e a realidade

Curitiba transformou Plá em figura lendária. E toda cidade gosta de ter seus personagens. O risco disso é transformar o artista em curiosidade.


  • O cara da bicicleta.

  • O senhor do violão.

  • O “folclore urbano”.

plá na XV a noite
Foto: Augenblick

Só que, quando você olha com mais atenção, percebe que tem algo menos confortável ali: um sujeito que recusou praticamente todos os caminhos convencionais e, ainda assim, construiu uma obra que poucos conseguem acompanhar.


  • 77 discos.

  • Sem gravadora.

  • Sem estratégia de marketing.

  • Sem algoritmo.

  • Só insistência.

plá na XV
Foto: João Saplak

O que Plá representa no cenário independente brasileiro em 2026 é a resposta para uma pergunta que poucos se atrevem a fazer: e se o artista simplesmente recusasse o jogo? E se, em vez de buscar o spot na playlist editorial, ele gravasse 77 álbuns, colasse as capas com próprias mãos, vendesse na calçada, costurasse a própria roupa, pedalasse 20 km por dia e ainda assim encontrasse sentido?

"A vida do artista, o resultado dela é a arte que o artista materializa. Então, essa arte materializada é um legado que vai ficar para que outras pessoas também possam desenvolver, se inspirar e se nortear."
plá documentário

O documentário de GG Valentino e Rodolfo de Moraes, realizado entre 2018 e 2019, já registrou parte desse legado. Mas o legado verdadeiro não está na Cinemateca; está na memória muscular de quem já parou na XV para ouvir uma canção e saiu de lá com um CD e uma pergunta a mais na cabeça.


plá atravessando a rua
Foto: Gazeta do Povo

Plá é capa da 9ª Edição da Dissonância não porque é um músico simpático e longevo, há muitos assim. Plá é capa porque em Curitiba, toda vez que alguém passa pela Boca Maldita e ouve um acorde no ar, para um segundo, olha e reconhece. Isso não se compra, não se fabrica, não se projeta em reunião de marketing. Isso se constrói calçada por calçada, disco por disco, pedalaço por pedalaço.


Plá com violão
Foto: Tião Folk

Quando perguntei a Plá de onde vem o otimismo para continuar compondo diariamente, ele falou de "estar no alto da montanha", uma metáfora de frequência, de conexão com o universo, com o divino, com a natureza. Uma resposta que a maioria dos artistas daria depois de uma crise de ego seguida de retiro espiritual. Plá diz isso com naturalidade, porque ele vive na prática a paz de espírito que prega. Por isso, continuar compondo, é uma simples extensão da sua vida.


plá entrevista exclusiva para a Revista Dissonância



Plá - Página bio-discográfica


Assista ao documentário "Tem Que Ter Moral".



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