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Alba Mariah: A Força Atemporal de um Temporal que Completa 60 Anos

Por Clara Mello, 04/04/2026


Esta matéria conta a história de uma mulher que, aos 60 anos, utiliza a maturidade como força, não como desculpa.


alba mariah na praia

Pessoal, eu preciso começar esta matéria confessando uma coisa: chorei. E não foi aquele choro bobo, não. Foi daqueles que vêm quando a gente se depara com uma história de vida tão potente, tão cheia de arranhões e cicatrizes que viraram medalhas, que a gente não tem como segurar. Alba Mariah, a artista que estampa a capa desta 8ª Edição da Revista Dissonância, é exatamente isso: uma mulher que fez da persistência o seu palco e da originalidade o seu repertório. E se você está aí pensando “égua, mais uma cantora paraense”, pode apagar essa ideia agora mesmo, porque essa mulher é um temporal, e temporais não se ignora, temporais transformam paisagens.


alba mariah Dissonância

Na capa da 8ª edição da Revista Dissonância, ela está lá: Alba Mariah, em toda a sua força mezzo-soprano, olhar direto e sem concessões. Assino esta matéria com o coração acelerado, porque aquele tipo de pessoa que não consegue disfarçar quando encontra uma mulher que realmente guerreou, levou porrada, disse não onde todo mundo dizia sim e, mesmo assim, construiu algo sólido.


alba mariah cantando no palco

Eu preciso confessar que quando li o material sobre Alba Mariah, precisei parar, respirar fundo e agradecer ao universo por existirem mulheres assim. É por isso que Alba merece ser capa desta edição, porque ela personifica aquilo que a Dissonância mais valoriza: originalidade feroz e persistência sem pose.


alba maria rastro de saudade

No dia 18 de fevereiro de 2026, enquanto celebrava 60 anos de vida e 44 de estrada, Alba Mariah fez um verdadeiro temporal. O lançamento do segundo volume de "Rastro de Saudade", tributo à obra do irmão Chico Sena, compositor falecido em 1986.

Chico Sena irmão de alba mariah
Chico Sena

O disco chegou às plataformas digitais como um presente de aniversário que ela mesma embrulhou com recursos próprios, muita fé e 44 anos de resistência.


A gênese de Alba Mariah reside em uma Belém onde o rádio era a janela para o mundo. Criada no bairro do Jurunas, ela cresceu em uma casa onde a música era um idioma cotidiano. Filha de Seu Ayres, que dominava o saxofone e a harmônica, e de Dona Anélis, uma “cantora afinadíssima” que executava as tarefas domésticas entoando melodias, Alba aprendeu cedo que a MPB era terreno de disputa afetiva entre os irmãos.



pais de alba mariah

A própria artista relembra com um sorriso que “éramos craques de MPB, fazíamos disputa em casa de quem sabia mais música”. Esse aprendizado doméstico lhe deu uma bagagem eclética impressionante, captando desde boleros caribenhos até as ondas das rádios da Guiana, passando por Clara Nunes, Elis Regina, Edith Piaf e Belchior.


O salto para o profissionalismo ocorreu precocemente, aos 16 anos, nos palcos da Assembleia Paraense, na Avenida Presidente Vargas, no centro de Belém. Foi ali, sob a tutela do maestro Vidinho, que a chamou para a primeira banda profissional em que cantou, e de nomes como Walter Bandeira, que Alba começou a moldar sua identidade vocal.



walter bandeira
Walter Bandeira

Bandeira, uma das grandes vozes do Pará, foi quem a encorajou a explorar seus graves naturais, uma característica que se tornou a sua marca registrada. “Você tem um grave bonito, tem que explorar esse grave”, dizia ele, contrariando a moda das cantoras que saturavam os agudos como demonstração de poder. Quando Alba ouviu Clara Nunes e identificou na cantora aquele mesmo registro, alguma coisa mudou dentro dela, e enfim percebeu para onde deveria caminhar.


Os anos 80, porém, impuseram sua primeira grande prova de fogo. Enquanto integrava a banda Megassom, de Roberto Takashi, no Hilton Hotel de Belém, tocando de terça a sábado, das 23h às 4h da manhã, a cantora confrontou o que ela chama de "ditadura dos fricotes".


A indústria exigia coreografias ensaiadas, personagens fabricados, mulheres-loiras de saias curtas e cabelos cacheados. Ofereceram-lhe, em uma ocasião emblemática, a chance de gravar uma música que seria sucesso nacional com a condição de que se transformasse em outra pessoa, que "parecesse com uma cantora loira", que vestisse um personagem. Alba recusou.

"Eu queria me vestir de Alba, ser Alba, cantar as músicas que eu quisesse, e eu fiz isso e faço até hoje".
alba mariah com vestido vermelho

A decisão custou caro: a música tornou-se sucesso na voz de outro artista. Mas consolidou um princípio que guiaria sua trajetória: a recusa em abdicar de si mesma em troca de validação externa.

alba mariah cantando

Essa busca pela essência a levou aos palcos da França e da Itália, onde viveu e trabalhou profissionalmente por anos. Na Europa, viveu uma experiência transformadora com o maestro Franco Vallisneri, que a convenceu a abandonar o estudo do canto erudito. Vallisneri percebeu modificações na voz de Alba após meses de aulas com o maestro Carlo Peruri e a confrontou: “Mas por que você está fazendo canto erudito, se você é uma cantora popular, que tem uma voz pronta, uma voz com experiências próprias, uma voz conectada com a natureza, com o seu Brasil?”. A resposta do mestre italiano foi definitiva: “A sua voz me transpõe ao Brasil, às matas, às cachoeiras… Não mude nada”.


alba mariah segurando uma folha de espada de são jorge

Essa vivência internacional permitiu que Alba construísse o que ela chama de “mosaico musical”, onde canções italianas, francesas e argentinas se encaixam naturalmente na sonoridade paraense, criando um repertório que é, ao mesmo tempo, cosmopolita e profundamente enraizado.


O retorno ao Brasil e a maturidade consolidaram Alba como uma "alma nostálgica e saudosista", mas perfeitamente sintonizada com a contemporaneidade, construindo uma carreira paralela ao mainstream. Projetos autorais, homenagens. O ano de 2017 trouxe "Simplesmente Vital", registro ao vivo de 15 músicas de Vital Lima.


álbum simplesmente vital

Depois, 18 anos dedicados a Chico Buarque no Theatro da Paz, encerrados em 2024. Mas é com Chico Sena que o círculo se fecha. Durante a pandemia, ela inicia "Rastro de Saudade". Gravado, mixado, mas o audiovisual falha. Em vez de desistir, divide em três volumes e lança exatamente nos dias carregados de significado: 12 de janeiro (aniversário de Belém), 18 de fevereiro (seu aniversário de 60) e 7 de abril (aniversário de Chico Sena, que completaria 64). Numerologia, saudade, garra. “É uma visita emocional, sim... lágrimas de felicidade, emoção, por poder cantar ainda aos 60 anos.


"O álbum começou durante a pandemia. Ainda não tinha 60 anos, mas eu fiquei me questionando sobre o fato. Chico já se foi, eu tenho só um álbum, Simplesmente Vital, com a obra do Vital. E eu me perguntei naquele momento."
alba mariah segurando espada de são jorge

No dia 27 de fevereiro de 2026, Temporal ocupa o Theatro da Paz, palco que ela sonhava desde criança. O título não é enfeite.

“Esse Temporal representa tudo... momentos de final de ciclo, que precisava cair aquela chuva, aquela tempestade pra que eu visse de novo a claridade e me reposicionasse com mais força.”
alba mariah com flor no cabelo

E quando o assunto é o Temporal, Alba faz uma conexão que vai além do título. Para ela, o conceito está ligado à força de Iansã, orixá de seu ori, “a deusa do movimento, das tempestades, dos raios, dos trovões, mas também da bonança, aquela que traz a luz depois da tempestade".

O Temporal, ele me trouxe até aqui, aos 60 anos. Ele me trouxe muita bonança, muitas descobertas. Houve momentos que os raios me deram luz para que eu visse coisas que estavam boas ou ruins. Mas eu sou uma pessoa muito grata pela vida, muito grata por essa força ancestral que me habita, que me leva pra frente.


A singularidade de Alba Mariah no cenário independente brasileiro reside justamente na sua recusa em ser rotulada e na sua dedicação ao ofício contínuo. Num momento em que a indústria musical privilegia o descartável e o imediato, ela se mantém firme na proposição de uma obra que é, por definição própria, atemporal. Ela afirma com a tranquilidade de quem já fez as pazes com suas escolhas:


“Eu consigo fazer com que coisas antigas, ou coisas de agora, de compositores que resistem, sejam atemporais. Mas eu tô sempre fora da tendência do mercado.”

A Revista Dissonância existe exatamente para historiar vidas como essa. Nossa 8ª Edição traz Alba Mariah na capa porque acreditamos que a originalidade e a persistência são os valores mais subestimados da cultura contemporânea. Num ecossistema que premia o viral e o efêmero, escolher colocar na capa uma mulher de 60 anos, cabocla do Pará, que construiu sua carreira fora das grandes gravadoras e dos holofotes da mídia nacional, é também um ato de resistência. E se tem algo que essa revista sabe fazer é resistir junto.


alba mariah no palco

Hoje, Alba Mariah vislumbra o futuro com a mesma coragem que a fez sair do Jurunas para o mundo. Com o lançamento gradual de "Rastro de Saudade", cujo terceiro volume chega em abril, no Teatro Margarida Schivasappa, dia em que Chico Sena completaria 64 anos, ela mantém viva a memória do irmão, reafirmando a atemporalidade de uma obra que, embora marcada pela ausência física desde 1986, permanece vibrante em seu sangue.


Ao caminhar para os próximos passos de sua jornada, Alba deixa uma mensagem que serve de farol para qualquer artista que esteja começando:

“Procurem ser o máximo possível vocês mesmos. Saberem exatamente o que vocês querem fazer. Ouvir muitos outros e ouvir a si, para entender, cantar, experimentar, não ter preconceitos, ouvir, ouvir de tudo, ouvir e ouvir-se muito. Ouvir sua alma, ouvir seu corpo, ouvir sua voz, ouvir, ouvir, tentar, não desistir.”
alba mariah posando para foto

E para quem pergunta qual é o legado que Alba Mariah quer deixar, a resposta vem com a firmeza de quem já viveu o suficiente para saber: “Uma pessoa extremamente corajosa, extremamente capaz, e que vai para cima e resolve, e bora.


Eu tenho a honra de assinar esta matéria, só tenho uma coisa a dizer: que venham mais temporais. Que venham mais Albas. Que a Dissonância continue encontrando essas vozes que a tempestade não derruba, porque são elas que fazem a chuva virar


alba mariah entrevista exclusiva


alba mariah página bio-discográfica


Veja Alba Mariah cantando Três Casa e o um Rio.


DVD Alba Maria Simplesmente Vital

Gravado nos dias 15 e 16 de dezembro de 2013 no teatro Waldemar Henrique (Belém-PA)


Músicos:

Floriano: Direção musical, violão e vocal

Edgar Matos: piano

Esdras Souza: sax e flauta

Adalbert Carneiro: contrabaixo acústico

Edvaldo Cavalcante: bateria


Direção Geral: Alba Mariah

Produção Executiva: Gláfira Lobo e Carla Cabral

Assistente de Produção exec.: Elayne França

Assistente de direção de prod.:Reginaldo Santos

Direção Artística: Adriano Barroso

Cenografia: Boris Knez

Assistente de cenografia: Fabrício Pinheiro

Contra-regra: Madson Gárcia

Designer de luz: Sônia Lopes

Assistente de iluminação: George Santos

Técnico de som e captação de áudio: Assis Figueiredo

Roaldies: Elias Pinheiro e Rone

Make up: Bruna Reis e Astrum Zion

Arte Gráfica: Luis Gomes

Fotografia: Walda Marques

Fotografia do Show: Bruno Pellerin

Distribuição: Na Music

Produtora de vídeo: Labzone

Direção, fotografia e finalização: Lucas Escócio

Montagem: Kauê Lima

Autoração: Maurício Brito

Câmeras: André Mardock André Morbach, Brunno Régis e Marcelo Rodrigues

Assistentes: Kleberton bidu e Marcos Leal "sapo"

Logger: Renan Yoshio

Making off: Cézar Moraes

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