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Plá em Dissonância: entrevista exclusiva

Por Tião Folk


plá entrevista exclusiva

Plá não é um artista de vitrine, surgiu da insistência. Nome que atravessa Curitiba com violão na mão e história nas costas, ele construiu uma presença que não depende de palco nem de algoritmo. Sua música carrega o peso das ruas, o improviso das esquinas e uma relação direta com quem para pra ouvir. Na entrevista conduzida por Tião Folk para a Revista Dissonância, o artista abre o jogo sobre trajetória, escolhas e o que significa existir artisticamente fora do circuito que dita tendência, mas raramente sustenta verdade.


Dissonância: Plá, você se formou em Licenciatura em Música e chegou a cursar Musicoterapia na FAP, mas decidiu "guardar o diploma na gaveta" para tocar nas ruas em 1984. O que o palco da rua oferece para a sua expressão artística que o ambiente da faculdade ou os teatros convencionais não conseguem suprir?


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O DiplomaPlá

Plá: Na verdade, eu fiz licenciatura plena em música na FAP, foi quatro anos, e não tava contente ainda. Daí eu fiz mais um ano de musicoterapia na mesma faculdade. Aí eu percebi que era muito tempo para ficar ali nos bancos da escola. Guardei mesmo os diplomas que eu tinha ali, e peguei meu violão e fui para a rua. Cantar e compor a minha música, fazer a minha música, ali na já tinha um bom número já de composições, minhas próprias, né? A rua, ela é diferente do palco convencional, ou mesmo da faculdade, em virtude de que é um espaço aberto, que proporciona liberdade para o artista. Você fica ali observando as pessoas, interagindo com a realidade do seu do dia a dia ali, se inspirando nos acontecimentos. Então é uma coisa que enriquece muito a gente. Pelo menos pra mim, é isso aí, por isso que eu sempre falo que a rua é o melhor palco, realmente é, e a diversidade de pessoas, né? Porque ali tem tudo que é tipo de pessoas, de ideologias diferentes, modos de visão diferente, gente grande, pequena, rica, pobre, etc. Negro, preto, branco, tudo, amarelo, etc. Então, é bem mais interessante a rua.

 

Dissonância: Você afirma que a rua é o "palco mais democrático que tem". Após mais de 35 anos de carreira, você percebe a evolução do público curitibano? E como a recepção da sua arte por quem passa pelo centro?


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A RuaPlá

Plá: Bom, a rua, sim, é um palco aberto, como sempre digo, e a questão da evolução do público, Curtibano, eu não tô muito interessado nessa questão, porque sempre minha música é uma pequena parte das pessoas que transitam pela rua e caminham ali pelas pela XV, consegue assimilar o conteúdo, ou se interessar, prestar atenção, porque é uma música que procura falar da realidade, da filosofia, um conteúdo que leva a pessoa a uma reflexão ampla da vida, do rumo que deveríamos ter, e o que eu tô trilhando, pelo menos o que eu canto, mas o rumo que estou trilhando. E aí que é um rumo à liberdade, rumo do autoconhecimento, da realidade, de si mesmo. Por isso que ela tem um conteúdo filosófico. Então, é uma pequena parte das pessoas que realmente se interessam, mas não tô interessado em quantidade de pessoas, tô interessado em viver aquilo que eu estou fazendo, e a pessoa que assimilar o conteúdo, ela vai ficar contente, e sempre essa parte aí que curte, sempre leva ali um CD, leva um livro, leva uma ideia, leva uma poesia, leva uma reflexão, é isso.

 

Dissonância: Suas roupas brancas customizadas com frases e seus pergaminhos são marcas registradas. Como você define sua "ideologia libertária" e o conceito de "alimentação espiritual" que você busca transmitir através das suas letras?


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As RoupasPlá

Plá: Bom, eu costumo ter roupa branca, que eu gosto muito de roupa assim clara, sempre gostei, né? E daí a ideia das escritas, foi que dei, ter tido a ideia de colocar uns panos para as pessoas escrever na rua, e daí eu geralmente eu levo uma canetinha que é dessa própria para tecido, que não sai quando lava. E então eu mesmo que costuro as minhas roupas, desde, há muito tempo, então a minha calça, a camisa, o que eu sempre faço. E daí eu tenho usado sempre o pano que a galera escreve ali. Então fica uma roupa assim mais interessante. Mas que é uma coisa artística, mostrar ali, aquilo que você está vivendo naquele dia, já reutilizando aquele material que você levou ali. E daí a questão, como eu falei antes, da filosofia de vida que busca um discernimento, um autoconhecimento e uma evolução, uma compreensão espiritual, porque o principal da nossa vida é no espírito, né? E aí esse autoconhecimento, quando a pessoa vai atingindo isso, ela vai definindo também o seu rumo espiritual, que é o caminhar para uma verdadeira libertação de transcendência. E, é isso aí.

 

Dissonância: A bicicleta não é apenas seu transporte, mas uma "extensão de si mesmo". Como o cicloativismo se fundiu à sua música, resultando em hinos como "Invasão das Bicicletas" e “Tem que ter Moral”? E qual é a sua visão sobre a mobilidade urbana em Curitiba hoje?


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A BicicletaPlá

Pla: Bom, a bicicleta começou, eu sempre andei de bike, desde há muito tempo. Eu lembro que as bicicletadas em Curitiba começou em 2003, 2004 ali, com o pessoal que se reunia no pátio da reitoria. Até o Goura que me convidou uma vez para participar da bicicletada, foi, se eu não me engano, foi em 2004. Tava no início ainda desse movimento das bicicletas na rua. E daí, eu já tinha, na verdade já andava, já desde antes, de muito antes, andava sempre de bike por todo o lado, daí eu pensei, ‘poxa, que bacana, né, mais gente a aderir da bicicleta, que é um negócio que não polui, a pessoa faz exercício, se movimenta’. Porque carro tem demais já na cidade, cada vez pior, cada vez mais, e além do congestionamento, a poluição etc. Aí fiquei contente. Daí, ali comecei a me inteirar mais com o pessoal dos movimentos de bicicletas. E daí, me inspirei até em "Invasão das Bicicletas”, é uma música que eu compus, inspirado justamente na bicicletada que eu fui lá no começo em 2004, ali na pátio da reitoria. Aí a galera curtiu, já logo virou um hino das bicicletas. Daí comecei a participar também dos movimentos de bicicletas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre. Então, eu compus três CDs que o tema é exclusivo sobre as bicicletas. Todas as faixas da do CD falam sobre a bike. valorizando a questão da bicicleta que a pessoa possa pedalar, andar e se conscientizar que é um meio de transporte muito bom e também de passeio, de terapia, de relax, exercícios para uma saúde melhor, etc. Então é isso.

 

Dissonância: No filme, você explica que a expressão "Tem que ter moral" surgiu ao observar que seus amigos já não conseguiam andar de bicicleta em seus próprios bairros devido ao domínio dos automóveis. Como você define essa "moral" que o ciclista e o artista precisam ter para retomar o espaço que lhes pertence na cidade?


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Tem Que Ter MoralPlá

Plá: Essa moral que tu pergunta ali, eu acho que é a questão de postura, digamos assim, que a pessoa tem, que ela tem ali, uma firmeza naquilo que ela é, naquilo que ela mostra, sabe? E convicção do que tá fazendo. E essa questão do bairro, justamente um amigo meu que contou que ele tava vindo de bicicleta para trabalhar, ele tem uma bicicletaria aqui perto da minha casa, eu moro aqui perto do Barreirinha, o César Sicles Lago, daí que ele comentou pra mim, que ele tava vindo de bicicleta pra trabalhar na bicicletaria dele, ele mora aqui no bairro, não é tão longe onde ele mora, de onde ele mora até a bicicletaria dele. Aí os amigos dele falaram assim: "Ô, César, o que que houve? Tá sem dinheiro pra comprar gasolina? Agora está andando de bicicleta". Olha, já pensou? Eu acho que a inconsciência é muito grande, das pessoas, eles acham que o carro é que é importante. Daí, devido a essa conversa que o César falou pra mim, ele falou: "Pô, realmente em Curitiba o pessoal é muito terrível, né? Pra andar de bicicleta aqui, realmente a pessoa tem que ter moral". Eu falei: "Poxa, mas é bem isso, né?" Daí essa foi o começo que me inspirou a compor essa música. "Pra andar de bicicleta tem que ter moral, tem que ter moral" e a música pegou de cara, e tá viva aí, sempre.

 

Dissonância: Você costuma dizer que é preciso "manter-se no alto de sua montanha". De onde vem o otimismo para continuar compondo diariamente, mesmo após percalços financeiros e desafios da vida independente?


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Alto AstralPlá

Plá: É, exatamente. Estar no alto da sua montanha é você tá ali numa frequência alta. É isso que eu quis dizer nisso, e que eu procuro vivenciar no meu dia a dia. Então, essa frequência alta, você tá em conexão ali com o todo, com o universo, e com o próprio Deus, que é o próprio universo, que é tudo. Esse aí é o principal pra que você tenha força de ser algo que move a vida e que faz acontecer as coisas. E nós estamos aqui pra um desenvolvimento das tarefas que nos propomos a fazer. Então, esse “estar no alto”, no alto da montanha, é isso, é a conexão com o todo, conexão com o divino e com a natureza e com tudo e você fazer bem aquilo que você faz a cada momento.

 

Dissonância: Sua vida virou documentário com o filme "Plá Rock’n Roll". Como foi se ver na tela da Cinemateca e qual mensagem você espera deixar para as futuras gerações de artistas de rua de Curitiba?


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O DocumentárioPlá

Plá: Foi uma alegria para mim, lógico, ver passar aquele documentário, ou um filme, né? Que um amigo meu fez, o GG, esse aí é o resultado de uma própria transformação. A ideia foi dele, falou assim: “vou acompanhar você durante um ano da tua trajetória, do que você vai desenvolver durante esse período”. E daí ele me acompanhou tudo aqui em Curitiba, fora daqui, nos festivais que eu participei fora também de Curitiba. E acabou dando um resultado excelente. É uma alegria, porque é um fruto natural de mim que fluiu e que tá ali registrado para que outras pessoas se inspirem também e façam as suas próprias caminhadas, suas experiências. Então, a mensagem que eu quero deixar é que a vida do artista, o resultado dela é a arte que o artista materializa. Então, essa arte materializada é um legado que vai ficar para que outras pessoas também possam desenvolver, se inspirar e se nortear também nos rumos que elas sentem que deve ser, e é isso aí. É um aprendizado, a arte é aquilo lá. É uma experiência viva que está acontecendo e que, que fica a marquinha, né? É isso.

 

Dissonância: Você afirma que "se a filosofia não for prática, ela não tem razão de ser" e que, se você canta algo, é porque está vivendo aquilo. Como você mantém essa coerência entre suas letras e sua rotina diária?


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A Teoria é a PráticaPlá

Plá: Então, é isso aí que eu falo, se a pessoa não pratica a filosofia, não tem sentido ela existir, lógico. A gente tem que ser coerente com aquilo que a gente apregoa. E o fato de, como você falou ali, “como se manter essa coerência”, é você ser autêntico em todos os momentos da tua vida. Ser coerente com o que está desenvolvendo. E ali, o que você está criando é um referencial que fortalece justamente essa continuidade da caminhada. E também não tem muita rotina, porque meu dia é tudo diferente, cada um dia é diferente do outro.


plá matéria de capa da 9ª Edição da Revista Dissonância



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