PapaNotPope: a insistência no humano em tempos de IA
- Paulo Ronaldo

- 20 de jan.
- 5 min de leitura
Por Paulo Ronaldo, 20/01/2026
Em um momento em que parte da cena eletrônica parece cada vez mais mediada por algoritmos e presets de IA e DJs que constroem sets inteiros com um clique no Ableton Live impulsionado por IA, encontrar um artista como PapaNotPope é como tropeçar em um vinil raro em meio a um mar de NFTs sonoros.
Eu, que vivi as eras douradas das drum machines analógicas como a Roland TR-808 nos anos 80, os sintetizadores modulares dos 90 e até os controladores MIDI touch-screen de hoje, como o Pioneer DDJ-REV7 ou o Ableton Push 3, me sinto aliviado ao deparar com alguém que ainda aposta na crueza do rock eletrônico "raiz".

PapaNotPope, ou Fernando Papassoni, não é o tipo que delega a criação para uma inteligência artificial; ele grava com voz, violão, guitarra e uma dose cavalar de rebeldia, eu até chamaria de gravar "na força do ódio". Seu som é uma ponte entre o psicodelismo analógico e experimentações digitais, sem perder a alma humana.

A jornada de Papassoni na música remonta à cena underground do rock alternativo brasileiro. Como baixista, ele integrou bandas como Detetives (SP), contribuindo para o álbum "Mondo Difficelle" (2010) pelo selo Monstro Discos, e fez parte da carreira solo de Marcelo Gross, da Cachorro Grande (RS).

Gravou baixos nos discos "Use o Assento para Flutuar" (2012) e "Chumbo e Pluma" (2015), além de tocar no power trio das turnês. Ele também passou por outros projetos subterrâneos, acumulando bagagem que agora transborda em seu trabalho solo.
Em entrevista à Revista Dissonância, Papassoni esclarece:
"Eu não sou exatamente ligado à música eletrônica de pista. Uso ferramentas da música eletrônica como drum machines, samples e sintetizadores no meu som. Prefiro dizer que sou da música alternativa, ou eletronic rock."

PapaNotPope não se coloca como artista de música eletrônica de pista. Seu uso de drum machines, samples e sintetizadores está a serviço de uma estética alternativa, mais próxima do rock psicodélico, da música experimental e de paisagens sonoras urbanas do que da lógica do dancefloor.

Seu primeiro equipamento nessa fase solo? Um Roland VA-76 workstation de 2000, uma relíquia que evoca os dias em que sintetizadores como o Moog Minimoog ou o ARP Odyssey exigiam mãos habilidosas, não prompts de texto.
Ao longo de 2024 e 2025, ele lançou singles e EPs como "Fifth Dimension", "Machine Pulse", "Exoplanets", explorando tanto instrumentais quanto colaborações com vozes.
Em parcerias com artistas de hip-hop como Attos e Zimita, ele fornecia as bases instrumentais e deixava as letras livres, como se vê no álbum DNA:

"Não tive nenhuma participação nas letras. Deixei sempre claro que se tratava de uma parceria 100%. Eu tinha as faixas instrumentais e encaminhava para eles que sentiam a música de forma pessoal e se expressaram nela de forma totalmente livre."
As faixas com Attos, crítico da realidade cotidiana, trouxeram tom questionador, mas Papassoni enfatiza: "A postura questionadora é do Attos. Meu foco é no som, na produção musical, na atmosfera da música, meu questionamento é sensorial." A partir de "Rings of Neptune", as letras ganharam espaço, mas não por apelo comercial: "A música com voz e letra sempre tende a aproximar mais o ouvinte. Impressionante a força da voz humana."
Sobre a IA na música, sua visão ecoa minha própria nostalgia:
"Sou contra quando o artista é IA. Acho que aí falta 'alma' no som. Eu não uso IA porque eu gosto do processo de fazer música com os instrumentos e desafiar minhas próprias limitações."
Ele admite o potencial como ferramenta para visualizar arranjos, mas prefere o desafio manual, algo que DJs modernos, com suas integrações de IA no Serato DJ Pro ou no Rekordbox, parecem esquecer. Papassoni se diverte com canais como "Fake Music" no YouTube, que recriam soul em versões de rock via IA, mas não abre mão do autêntico.

Agora, em 10 de janeiro de 2026, PapaNotPope consolida essa trajetória com o álbum "VOL. 1", uma compilação que define seu nicho: eletronic rock para um público alternativo que valoriza a profundidade. O disco reúne nove faixas de EPs anteriores, mais a inédita Eletrika, com colaborações de Vitamin Dream, Marcelo Gross, Elektra Graffithi e Lubra.
Pensado no formato LP clássico, com Lado A e Lado B, ele traz guitarras de Marcelo Gross nas faixas 2, 5 e 6, piano elétrico de Sergio Pollice na 8, e mix/master por Gê Marçano. Todas as composições são de Papassoni, exceto "Are We Even Real", coescrita com Vitamin Dream. Disponível em todas as plataformas de streaming, VOL. 1 ergue o dedo contra as fuças da música sintética: um convite a sentir o pulso humano em meio ao ruído digital.
PapaNotPope é um artista diferente porque é resistência. Em tempos de DJs que "produzem" com prompts no Suno ou AIVA, ele nos lembra por que a música eletrônica começou: com humanos plugando cabos, suando sobre teclados e gritando contra o vazio. Se você ainda valoriza isso, dê play e sinta a força do ódio transformada em som.
LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA EXCLUSIVA PARA A REVISTA DISSONÂNCIA
Dissonância: Quando você começou na música eletrônica?
PapaNotPope: Eu não sou exatamente ligado à música eletrônica de pista. Uso ferramentas da música eletrônica como drum machines, samples e sintetizadores no meu som. Prefiro dizer que sou da música alternativa, ou eletronic rock.
Dissonância: Qual foi seu primeiro equipamento?
PapaNotPope: Meu primeiro equipamento nessa fase solo foi um Roland VA-76 workstation do ano 2000.
Dissonância: Seu primeiro single Black Dog Kali foi lançado em 2024, a música foi pensada naquele mesmo ano?
PapaNotPope: Sim. A música nasceu no violão Inspirada na minha cachorra Kali, um pastor belga muito chorona. Por isso a atmosfera mais melancólica dessa canção.
Dissonância: O primeiro single veio em agosto de 2024 e no mesmo mês você lançou a mesma música como "alt take". Por quê?
PapaNotPope: Achei que ela soava bem também numa versão "naked", só com batida, violão, guitarra e piano elétrico, tocado pelo meu parceiro de anos Sergio Pollice.
Dissonância: Qual a mensagem principal da sua obra e como você quer ser reconhecido?
PapaNotPope: Minha música é para que a pessoa tenha experiência sonora. Sou muito ligado ao rock psicodélico dos anos 60 e 70, como o Pink Floyd, assim como bandas mais experimentais atuais como Radiohead e Primal Scream. Quero me firmar como um artista de música alternativa.
Dissonância: Você lançou muitas músicas instrumentais, mas, a partir "Rings of Neptune", lançou músicas com letras. Essas letras representam sua obra de fato ou foi uma opção mais comercial?
PapaNotPope: Quando fiz as collabs com artistas do Hip Hop como Attos e o Zimita, não tive nenhuma participação nas letras. Deixei sempre claro que se tratava de uma parceria 100%. Eu tinha as faixas instrumentais e encaminhava para eles que sentiam a música de forma pessoal e se expressaram nela de forma totalmente livre. A música com voz e letra sempre tende a aproximar mais o ouvinte. Impressionante a força da voz humana.
Dissonância: A parceria com o Attos (artista reconhecidamente crítico da realidade cotidiana) gerou algumas obras fortes e questionadoras. Isso foi uma fase ou você pretende assumir uma postura de um artista mais questionador?
PapaNotPope: A postura questionadora é do Attos. Eu assino embaixo todas as letras dele como mero ouvinte também. Meu foco é no som, na produção musical, na atmosfera da música, meu questionamento e meu objetivo na música é sensorial.
Dissonância: O que você acha do uso de IA na música?
PapaNotPope: Sou contra quando o artista é IA. Acho que aí falta "alma" no som. Eu não uso IA porque eu gosto do processo de fazer música com os instrumentos e desafiar minhas próprias limitações. mas é uma ferramenta boa pra visualizar arranjos e até mesmo melodias vocais. Ainda não me debrucei em nenhuma das novas ferramentas e me divirto muito ouvindo versões de IA no Youtube como o canal "Fake Music" que faz versões de soul de bandas de rock.
Veja o clipe de Eletrika, primeira faixa do álbum VOL. 1:

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Paulo, sensacional seu texto! Muito obrigado pelo espaço!! Valeu demais!!