Raio-X do Álbum: Carnaval - A jornada introspectiva de Matheus Gomes Lima
- Natália Benevides

- 6 de mar.
- 8 min de leitura
Por Natália, Benevides, 06/03/2026

Matheus Gomes Lima não chegou ao seu primeiro álbum solo por acaso. Mestre em Cultura e Territorialidade pela UFF, coautor de estudo sobre o comportamento do turista fluminense em tempos de Covid-19, ex-vocalista e guitarrista dos Elefantes Voadores, ele transformou uma espera de meia década em um disco que soa exatamente como o título promete: uma explosão colorida, caótica e profundamente pessoal.
O título do álbum não é arbitrário. Inclusive, há uma certa coragem em nomear um álbum de estreia de Carnaval. A palavra carrega o peso de uma festa nacional, o símbolo de uma identidade coletiva, a promessa implícita de que o que vem a seguir será plural, generoso e irresistível. Por isso ele escolheu com intenção, com alegria e com plena consciência de que o gesto vai sujar o chão. Do ijexá à balada, do indie rock ao reggae, o autor joga o ouvinte na nuvem de possibilidades que é o carnaval, de onde ninguém sai o mesmo.
O disco, lançado em 25 de setembro de 2025, chega com a biografia de quem de quem foi obrigado a esperar e aproveitou o tempo. Idealizado originalmente para os Elefantes Voadores, banda de pop-rock que Matheus cofundou em 2015 e encerrou em 2023, o projeto foi interrompido pela pandemia e ficou cinco anos "em marinada", palavra usada pelo próprio artista para descrever um período de decantação involuntária. O resultado desse processo lento é um álbum sem pressa. Cada canção foi cozinhada até o ponto.
"Marataízes": O Refúgio Imaginário

A faixa mais extrovertida do álbum. Inspirada por um verão escaldante de 2018 e pelo desejo de viajar para o Espírito Santo, "Marataízes" trata a cidade capixaba como um "lugar imaginável e perfeito". A canção, que começou como um "jingle lúdico", evoluiu para uma reflexão sobre a distância entre a realidade e a aspiração, especialmente durante a pandemia, quando as limitações financeiras e o isolamento social tornaram o destino inalcançável. O videoclipe da faixa, com seu tom cômico e "tosco" proposital, é uma homenagem à estética de John Mayer em "New Light", utilizando elementos de baixo orçamento e erros técnicos deliberados para transmitir leveza e diversão.

Matheus e Sofia dividiam o calor com mais dois amigos num quarto que tinha "um ventilador de teto figurativo e um ventilador de chão sem botão". Marataízes, cidade capixaba que o artista conhecia apenas por fotos, se transformou na antítese perfeita daquele sufoco urbano, não como destino real, mas como desejo encarnado.
"Eu senti que aquilo soava como um jingle, como se a prefeitura de Marataízes estivesse fazendo um vídeo institucional"

A música, no entanto, só foi finalizada durante a pandemia, através de um desafio criativo proposto ao amigo Vinícius Menezes. A cada semana, os dois músicos deveriam apresentar uma nova composição, fosse ela criada do zero ou finalizada a partir de rascunhos antigos. Foi assim que "Marataízes" encontrou sua forma definitiva, revelando ao compositor um significado mais profundo do que ele inicialmente imaginara.
Quando Eu Envelhecer: Uma Carta de Amor à Vida

A canção é o contraponto emocional mais forte. A faixa nasceu de conselhos que Matheus dava à avó de 88 anos (hoje com 97) que perdeu a independência e foi morar com a família após uma queda.
“Vou comprar um aparelho de audição
E desligar pra não ouvir ninguém chato”
Este verso que poderia ser piada fácil. Não é. É carta de amor à vida e, depois que Sofia entrou na história, carta de amor a dois. A letra mistura humor (“Acabou de vazar na tua almofada”), irreverência política (“Quando alguém vier falar bem / De intervenção militar ou Bolsonaro”) e ternura (“Eu, você e a hidroginástica / Esse será o dia”).

Matheus não romantiza a velhice; ele tenta desmistificá-la com afeto. Para mim, após ouvir o disco inteiro, essa é a faixa que melhor revela o artista: alguém que transforma observação cotidiana em resistência leve.
"Quando eu envelhecer
Seremos só eu e você
E se os vizinhos ouvirem, nós
Diremos que foi a TV"
Essa conivência íntima, a conspiração doméstica entre dois velhos que se amam e fingem que o barulho vem da televisão, é de uma ternura que chega a der. Matheus não teorizou sobre o amor: ele o colocou em cena, com os seus móveis e seus costumes e seus aparelhos domésticos. E quando chega ao verso mais sério da canção — "se um dia acontecer / acontecer antes de você / não deixe de viver a vida" — o chão que foi pavimentado com humor suporta o peso emocional daquilo que vem a seguir. Essa é uma composição de alto nível. Ah! esses ciscos que vivem caindo nos meus olhos!
Encruzilhada, Licor e Dente-de-Leão: O Subconsciente Fala

Das canções do álbum, talvez nenhuma tenha uma história de criação mais misteriosa e reveladora do que "Encruzilhada, Licor e Dente-de-Leão". A música começou de forma despretensiosa: Matheus experimentava uma sequência de acordes no violão, Mi para Fá sustenido menor para Lá, e ia escrevendo rimas aleatórias que lhe vinham à mente. "Chamei um tal Joque, mas ele só fazia moedas e truques de baralho / Até que busquei sete esferas do dragão, mas ninguém me disse que elas não existem", eram alguns dos versos iniciais, que o próprio artista considera hoje "muito ruins" e que lhe causam "vergonha de ler".
O que importa, no entanto, é que a melodia insistia em permanecer na cabeça do compositor.
"Eu comecei a dar um pouco mais de atenção para ela porque eu senti que ela tava pedindo passagem"
Aos poucos, foi se revelando uma canção sobre "a eterna busca da parte faltante, seja ela o que for", uma definição que só faria sentido completo após uma experiência tocante durante a pandemia. Ao sair de um grupo de fãs do desenho "Hora de Aventura" no Facebook, Matheus passou o mouse sobre o perfil de uma usuária e viu surgir um balão com a inscrição "em memória de". Aquela jovem, que ele imaginava ter aproximadamente sua idade, havia morrido.

O desolamento provocado por essa descoberta anônima encontrou refúgio na canção. "A única coisa que me deu na cabeça foi pegar o violão e começar a tocar 'Encruzilhada' para mim, para me acalmar", conta o artista. Foi então que compreendeu a verdadeira dimensão da obra que havia criado:
"Encruzilhada é uma música sobre o luto, mas não a fase do luto que você tem aceitação. Encruzilhada é sobre aquele momento do luto em que você nega e você quer rodar os quatro cantos do mundo para encontrar aquela pessoa."
A experiência ensinou-lhe algo sobre o processo criativo: "Eu fico muito surpreso sobre como o nosso subconsciente, o nosso inconsciente agem e nos dão significados que nem nós mesmos temos momento que nós escrevemos."
Será Que Vai Chover?: O Diálogo com os Paralamas

A única faixa do álbum que nasceu de uma curiosidade inteiramente bibliográfica. Matheus descobriu que o álbum ao vivo "D", dos Paralamas do Sucesso, gravado no Festival de Jamontre, abre com uma música chamada "Será Que Vai Chover?", que nunca apareceu em nenhum álbum de estúdio. Sem poder ouvi-la (a faixa ainda não estava nas plataformas), ele mandou para si mesmo o comando de imaginar como seria essa música. O resultado foi uma composição própria. Quando finalmente ouviu o original, ficou aliviado: as duas não tinham nada a ver uma com a outra.
"Acho que eu mandei esse comando pro meu cérebro porque de repente eu me percebi criando uma música com o título 'Será que vai chover?'"
Para sua versão, Matheus se inspirou nas canções mais sensíveis do grupo, como "Tendo a Lua" e "Nossa Casa", que demonstram o que ele identifica como a capacidade de Herbert Vianna de "fazer você machucar dizendo umas coisas super sinceras".

É uma homenagem disfarçada de canção autoral, um diálogo intertextual entre um fã e uma das bandas mais importantes do rock brasileiro.
Pobre em Teresópolis: o hit recontextualizado
Uma das decisões mais reveladoras de Carnaval é a inclusão de Pobre em Teresópolis, hit indie que havia sido gravado com os Elefantes Voadores, numa nova versão carnavalesca, com pandeiros, naipe de sopro, coro e palmas. O gesto diz muito sobre a proposta do disco. Matheus não está apenas lançando músicas novas: está propondo um modo diferente de ouvir aquilo que já existia. A recontextualização como ferramenta criativa, a paleta nova sobre a tela antiga.

A produção compartilhada com Vini Pitanga, músico associado a nomes como Sávio e Drápula, foi fundamental para isso. Pitanga assina bateria, percussão, guitarras, baixo, backing vocal, mixagem e masterização. A parceria deu ao álbum uma unidade sonora que poderia ter se perdido diante de tanta diversidade de gêneros. O resultado é um disco que muda de roupa a cada faixa, entretanto, mantém o mesmo timbre de voz, a mesma presença, o mesmo olhar sobre o mundo.
Matheus e São Gonçalo
Há uma última dimensão de Carnaval que merece atenção: sua geografia afetiva. O disco soa carioca, fluminense, do Grande Rio, mas de uma perspectiva que não é a do Centro ou de Ipanema. São Gonçalo, cidade de dois lados de baía e história, raramente aparece na narrativa cultural do eixo Rio-Niterói. Matheus não reivindica isso de forma panfletária, mas sua música carrega esse endereço. Os ventiladores que não funcionam, as janelas de prédio, o concreto que sufoca, são imagens de uma experiência urbana específica, periférica em relação ao centro simbólico da cidade, mas absolutamente central em termos de vivência humana.

O pesquisador de Cultura e Territorialidade sabe disso melhor do que ninguém. Território não é só o lugar onde se mora: é o conjunto de experiências, relações e afetos que um espaço produz. Carnaval traz o mapa sonoro de um território emocional construído entre São Gonçalo, Niterói e o Rio de Janeiro, com viagens imaginárias para Marataízes e consultas subconscientes a encruzilhadas.
Matheus Gomes Lima chegou ao seu primeiro álbum pela rota mais longa possível: fundou uma banda, atravessou uma pandemia, fez uma pesquisa de mestrado, terminou músicas que ficaram paradas anos. O resultado é o inventário de um artista pronto.
Veja ao clipe oficial de Encruzilhada, Licor e Dente de Leão:
Créditos do videoclipe:
MATHEUS GOMES LIMA: protagonista (elenco), roteiro, direção, direção de fotografia, direção de arte, operação de câmera, pós-produção (design, edição, montagem, cor)
SOFIA CORRÊA: laila dunne (elenco), direção, direção de fotografia, direção de arte, operação de câmera
DANIEL CASTRO: mendigo (elenco), direção de elenco, operação de câmera
HUGO PARPAGNOLI: morador (elenco)
LAILA: gata em fotografia (elenco)
Créditos da música:
MATHEUS GOMES LIMA: interpretação, composição, produção, arranjo, voz, violão, guitarra
VINI PITANGA: produção, arranjo, mixagem, masterização, engenharia de gravação, bateria, percussão, baixo, guitarra, backing vocal
CRIS: teclado
LEANDRO BESSA: percussão
VINICIUS MENEZES: engenharia de pré-produção
Agradecimentos:
DANIEL CASTRO
HUGO PARPAGNOLI
VINICIUS MENEZES
VINI PITANGA
© 2025. Uma produção Matheus Gomes Lima + Sofia Corrêa.
Encruzilhada, Licor e Dente de Leão (Letra)
Fiz um pedido para uma estrela no céu
Pra te trazer de volta pra mim
Comprei na internet até uma constelação
Mas o pedido precisa da sua autorização
Migrei até as terras de Shangri-La
Tracei mil rotas até Canaã
Rodei o mundo atrás de esferas do dragão
Mas ninguém me disse que nada disso existe
Eu te encontrei
Eu te encontrei por entre ruas e quarteirões
Eu te encontrei por entre os Beatles e os Stones
Eu te encontrei a cada nove corações
Mas não sei quando é que você volta
Quando é que você volta pra mim
Vendi minha alma pra compor uma canção
Vendi prum cara de olhos azuis
Uma encruzilhada, licor e dente-de-leão
Mas fiquei sabendo que você nem gosta de blues
Eu te encontrei
Eu te encontrei por entre ruas e quarteirões
Eu te encontrei por entre os Beatles e os Stones
Eu te encontrei a cada nove corações
Mas não sei quando é que você volta
Quando é que você volta pra mim
Uh-u-uh-u
Eu te encontrei por entre ruas e quarteirões
Eu te encontrei por entre os Beatles e os Stones
Eu te encontrei a cada novos corações
Mas não sei quando é que você volta
Quando é que você volta
Quando é que você volta
Quando é que você volta
Quando é que você volta
Quando é que você volta pra mim
Pra mim

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