Alexandre Escher: O Lar que Cabe em Uma Corda de Violão
- Tião Folk
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Por Tião Folk, 04/04/2026

Na manhã de 6 de março de 2026, quando o mundo ainda digeria os primeiros murmúrios do outono brasileiro, Alexandre Escher liberou nas plataformas de streaming uma canção chamada "The Bird". Nada de produção cinematográfica, nada de algoritmos otimizados para viralizar. Apenas um violão, uma voz leve de quatro décadas, e uma melodia que nos leva direto ao folk-rock dos anos 1960, aquela mesma que Jim Croce cantava sentado em um banquinho de madeira e Neil Young entoava sob luzes de palco amareladas.

Aos 26 anos de carreira, Alexandre Escher ocupa um espaço raro na música independente brasileira. É cantor, compositor, vocalista da Gear, guitarrista da Orquestra Estelar, professor universitário, bioquímico e mestre em Genética. Entre laboratórios, salas de aula e palcos, construiu uma obra marcada pela sensação de deslocamento, pela tentativa de conciliar mundos aparentemente opostos e por uma obstinação em fazer da música um território habitável.
Nascido no Rio Grande do Sul, Alexandre foi transplantado para as paisagens do Pará aos sete anos de idade. Tinha apenas sete anos quando deixou o Sul e passou a viver em Santarém. Mais tarde, mudou-se para Belém. Depois, voltou novamente a Santarém. A vida inteira parece ter sido feita de partidas, retornos e tentativas de adaptação. Nenhum desses lugares, no entanto, foi capaz de lhe oferecer a sensação definitiva de pertencimento.
“Eu sempre me sentia bem e ao mesmo tempo não fazendo parte de onde quer que eu estivesse. Então, eu acho que boa parte das coisas que eu escrevo é tentando até entender esse sentimento.”
A frase talvez seja a chave de toda a sua discografia. Em Alexandre Escher, a música nunca surge como mera descrição do mundo. Ela nasce da necessidade de decifrar aquilo que não cabe em palavras comuns: a estranheza de estar em casa e, ao mesmo tempo, sentir-se estrangeiro.

Essa sensação de estrangeirismo íntimo, de estar bem, mas nunca completamente dentro, percorre sua obra como rio subterrâneo. Em Ventos de Arcádia, canção que carrega em si a essência de seu projeto solo, Escher admite nunca mais ter voltado "pra onde um dia eu chamei de lar". Na canção, o artista fala de paisagens, rios, campos, mares e estrelas, mas a imagem central é outra: a de alguém que já não sabe exatamente para onde voltar. O verso conclusivo é o que talvez melhor defina sua existência artística: “Eu moro em meu cantar".
O Cientista que Escuta Moléculas
Essa dualidade não se restringe apenas à origem geográfica, mas também à sua formação intelectual. Escher é Mestre em Genética e Bioquímico que leciona na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Para ele, o microscópio e o violão não são ferramentas opostas. Ele rebate veementemente aquele velho preconceito, e bastante equivocado, de que a ciência e a arte habitam planetas diferentes.
"A ciência não se choca com a arte, não, pelo contrário," ele afirma. "A própria ciência tem, por exemplo, fotografias incríveis, desenhos incríveis de moléculas. Elas têm fórmulas incríveis que são verdadeiras obras de arte."

Essa dupla identidade, o gaúcho que vive no Pará, o cientista que canta, o professor que compõe, está longe ser uma contradição, é sumariamente o motor que alimenta sua obra.
As experiências de Alexandre Escher

A trajetória musical de Escher nunca foi uma linha reta, pelo contrário, é uma rede de conexões que se entrelaçam ao longo dos anos. Um exemplo é a colaboração com o projeto Osquestra Estelar.

Ele mantém até hoje a banda Gear, sendo projetos coletivos que o ensinaram sobre arranjo, sobre escuta, sobre a arte de ceder espaço.

Mas foi justamente o convívio com essas formações que revelou a necessidade de um espaço próprio, um lugar onde sentimentos que não cabiam em propostas coletivas pudessem respirar.

E assim que nasceu, em 2014, o projeto Phyxsius, seu primeiro laboratório solo. Inicialmente concebido como um CD físico com mais faixas do que a versão EP que chegaria posteriormente às plataformas de streaming, Phyxsius reuniu músicas que Escher vinha acumulando ao longo dos anos, peças que simplesmente não encontravam lugar no repertório das bandas onde atuava.
"Um conjunto de músicas que eu já vinha escrevendo a partir das bandas onde eu me encontrava, e que não cabiam com a proposta das bandas onde eu estava"
Projeto Humanitarium - França

Ainda em 2014, outra experiência marcaria profundamente sua visão de mundo e de música. Escher participou do projeto Humanitarium, na França, ao lado de sete músicos de sete nacionalidades diferentes: brasileiro, etíope, italiano, alemão, estoniano, austríaco e sueco. O inglês funcionava como língua franca, ou melhor, como língua franca imperfeita, o que tornava a comunicação musical ainda mais dependente de intuição e disposição.

Foi nesse contexto que ele entrou em contato com instrumentos como o bouzouki e levou de presente uma viola caipira do Brasil. Sete músicos compostas em sete dias, que até hoje tocam em rádios do sul da França. A experiência redefiniu sua compreensão do que é possível quando se abre mão de fronteiras sonoras.

"Você percebe ali uma gama de coisas que podem ser feitas que pode aumentar o som, aumentar no sentido de torná-lo mais amplo... te tornar inteiro, que eu acho que esse que é o sentido da música"
Do rigor das bandas à liberdade do celular
Essa integridade artística manifesta-se hoje em uma escolha estética corajosa: o abraço ao lo-fi. Em seu projeto "Daydreams in D major (and some other keys)", Escher opta por manter registros feitos por celular, com eventuais erros de execução. "Os pequenos desacertos buscando uma perfeição inatingível é justamente o que nos torna humanos", defende ele, posicionando-se contra a música pasteurizada por algoritmos e inteligência artificial. Para o artista, a verdade de uma canção como "Let go", gravada de forma simples para suas filhas em 09/12/2025, vale mais do que qualquer perfeição técnica.
Isso contrasta diretamente com o que Escher identifica como a ameaça do momento: a música gerada por inteligência artificial e a tendência de algoritmos ditarem o que deve ser produzido e consumido. Numa música sem erro, ele enxerga a ausência de quem a fez. E uma música sem quem a fez, para ele, não é música, é produto.

Let Go, single lançado em dezembro de 2025, é talvez o exemplo mais preciso desse posicionamento. Gravada diretamente do celular, com uma letra escrita para as filhas, a canção tem a intimidade de algo que não foi feito para ser perfeito, foi feito para ser verdadeiro. Há nessa escolha um eco que vem de longe: Gilberto Vanderlei Boger, pai de Alexandre, foi uma presença musical que marcou fundo. Em uma publicação rara e despida de qualquer artifício, Escher escreveu sobre ele:

"Poderíamos e deveríamos ter tocado muito violão juntos ainda, pai... Eu sigo escrevendo e cantando aquilo em que acredito, como eu acho que você fazia... Muitas falam de nós."
Dezenove anos depois da partida do pai, a herança permanece ativa como uma bússola. Escrever e cantar aquilo em que se acredita é uma forma de continuar uma conversa que o tempo interrompeu antes da hora.

Em 2 de fevereiro de 2026, ele lançou "Dreams", single de abertura do projeto Sages of Forest, uma colaboração com PC de Moraes e Éder Jofre Machado. As canções foram compostas em 2018, em Belém, e ficaram aguardando o momento certo. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Fagner Pimentel, da Dois Mundos Produtora, em Minas Gerais.
"Abordando uma tênue linha entre sonhos e pesadelos"
O projeto Sages of Forest pretende culminar com a release de 8 a 10 singles até dezembro de 2026, construindo um álbum de forma gradual, mensal, quase como uma correspondência epistolar com o ouvinte. "The Bird", lançado em 6 de março, traz a arte de capa assinada por sua filha fotógrafa, mais uma camada de significado em uma obra que já é, por natureza, íntima.
"The Bird é o pássaro na manhã de domingo, como a própria letra diz. Eu acho que trazendo uma mensagem muito bonita de esperança, uma mensagem de desapego"
Os números, embora modestos na lógica das grandes gravadoras, são expressivos para um artista independente. "Coda of Life" alcançou 20 mil streams e integra 400 playlists de usuários em 2025. "Let go", lançada em 9 de dezembro de 2025, foi gravada inteiramente pelo celular e dedicada às suas filhas, um gesto que sintetiza sua filosofia: a tecnologia deve servir à emoção, nunca substituí-la.
O lugar na cena

No contexto da cena musical do Norte do Brasil, Escher ocupa um lugar singular. Não é um intérprete de carimbó, não é um cantor de tecno brega, não segue as fórmulas consagradas pela indústria regional. Sua proposta é outra: contar histórias urbanas, sentimentais, sobre as cidades do Norte e, principalmente, sobre as pessoas, o convívio, a percepção que se tem delas.
"Eu vejo a minha ideia musical para a região Norte como uma ideia musical cosmopolita"
Sua filosofia de redes sociais reflete esse posicionamento. Escher prefere mil ouvintes no Spotify a dez mil curtidas no Instagram. São quase 5 mil ouvintes mensais na plataforma de streaming, um número que, na lógica independente, se traduz em presença real, em pessoas que efetivamente escutam, e não apenas rolam um feed. "Se a produção independente é sobrevivência, nós sobrevivemos". A frase não carrega ressentimento. É um diagnóstico de quem aprendeu a construir sem andaimes.
O cordão de pérolas
Existe uma metáfora que Escher carrega consigo, e que talvez seja a melhor definição de sua trajetória. Ele compara a vida a um cordão de pérolas, não como algo linear ou previsível, mas como uma sequência de momentos que, de tão discretos, quase passam despercebidos entre os fios que os conectam.
"A gente sempre diz que a nossa vida ela é feita de pérolas e de um cordão de pérolas. E cada pérola, ela é um momento legal, bonito na nossa vida. Então, às vezes a gente tem que passar por muito cordão até chegar numa pérola"
Os projetos que estão por vir são novos fios sendo tecidos nesse cordão. Entre tubos de ensaio e afinações alternativas no violão, entre aulas de genética e noites de composição, Alexandre Escher constrói sua coleção de momentos, um por um, sem pressa, sem algoritmo, sem atalho.
Seja no Pará que o adotou, no sul que o gerou, ou em palcos internacionais onde o bouzouki e a viola caipira se encontraram, seu lar permanece aquele que ele mesmo edificou, verso por verso, melodia por melodia. O cientista que mora no cantar segue em travessia. E a travessia, como toda boa canção, não tem pressa de acabar.
Veja o clipe de Dreams.
Composição de PC de Moraes, Éder Jofre Machado e Alexandre Escher, Dreams é o primeiro single do projeto "Sages of Forest", iniciado em 2018 e que contará com um álbum no final de 2026.
Ficha Técnica:
Composição: Eder Jofre Machado, PC de Moraes e Alexandre Escher
Mixagem e Masterização: Fagner Pimentel (Dois Mundos Produtora)

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