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A Transmutação do Silêncio: O Novo Ciclo da Magistry

Por Max Clark, 04/04/2026


magistry

Em setembro de 2025, a banda curitibana Magistry lançou o EP Venus Mellifera e, de quebra, abriu os shows de Anette Olzon em Curitiba e São Paulo. Para qualquer grupo de metal autoral brasileiro, isso já seria motivo suficiente para mandar fazer camiseta comemorativa, tatuagem duvidosa e um post em fundo preto dizendo “gratidão eterna”. A Magistry fez melhor: subiu ao palco e mostrou que o convite não foi um acidente, um favor de empresário ou um alinhamento místico dos planetas.


magistry lya seffrin

No meio da apresentação, Lya Seffrin foi chamada pela própria Anette para cantar “Sahara”. A cena tinha todos os ingredientes de um clássico do metal sinfônico: luz baixa, plateia emocionada, cabelos ao vento e gente olhando para o teto como se estivesse invocando um dragão ancestral. A diferença é que, desta vez, havia ali uma banda brasileira, autoral, de Curitiba, ocupando aquele espaço com naturalidade e que com harpa celta tocando junto, porque eles são desses, desculpa aí.


magistry e anette olzon
Magistry e Anette Olzon

Cantar com ela foi uma baita escola sobre técnica, performance e interação com o público”, disse Lya depois dos shows. O tipo de frase que, no universo do heavy metal, substitui tranquilamente um diploma pendurado na parede.


A ascensão da Magistry é rápida, mas não foi exatamente instantânea. Como quase tudo no metal autoral, ela começou antes, muito antes, em um lugar menos glamouroso que um palco lotado: uma gaveta.


magistry thiago

As primeiras músicas da banda foram escritas por Thiago Parpineli cerca de doze anos antes da fundação oficial do grupo, lá na terra do "leite queente, daí!" (eu sei, eu sei, essa piada do leite quente pode gerar um incidente diplomático entre SP e PR, mas e daí, isso é metal!!!!) . Enquanto muita gente passava a adolescência aprendendo três acordes para tocar num churrasco, Thiago mergulhava em música antiga, barroca, medieval e no estudo de harpas históricas. Porque, aparentemente, aprender guitarra já não era complicado o suficiente.


Quando a Magistry surgiu oficialmente, em junho de 2023 - ano em que a humanidade ainda se recuperava de uma pandemia e tentava entender se ia ter show de RBD de verdade ou não -, aquelas composições antigas finalmente encontraram um grupo capaz de transformá-las em algo maior. E o próprio Thiago explica a origem do nome:

“A ideia do nome veio justamente da ideia de dar uma nova era, uma nova vida para essas músicas; a maioria tem mais de 12 anos”

O nome da banda veio de um antigo grimório ligado à alquimia e à magia. Soa exatamente como aquilo que você esperaria de uma banda que mistura doom metal, death metal, harpas celtas e letras sobre autotransformação. A boa notícia é que a Magistry leva esse imaginário a sério sem cair naquele velho problema de parte do heavy metal: parecer uma mesa de RPG narrada por alguém que acabou de descobrir incenso e capa preta.


magistry thiago na harpa

Thiago montou o que a banda chama de "Corpus Magisterium" (sim, eles usam termos em latim, o que vocês esperavam, que batizasse a banda de araucária from hell?), reunindo um time de músicos que parece ter sido montado por um algoritmo de Inteligência Artificial treinado especificamente para irritar bandas cover de Curitiba.


A formação é, convenhamos, eclética (faz tempo que não uso essa palavra) no melhor sentido da palavra. Vamos aos nomes do grupo, segura aí esse carteado:


magistry lya

Lya Seffrin, vocalista, traz formação em Licenciatura em Música e Pós-Graduação em Pedagogia Vocal.

magistry leonardo

Leonardo Arentz, além de guitarrista, é autodidata em técnicas vocais de distorção e já foi frontman de um tributo ao Amon Amarth, o que, traduzido para o português claro, significa que ele passou anos gritando como um viking bêbado antes de aprender a fazer isso profissionalmente.


magistry joao

João Borth, outro guitarrista, tem mestrado em música e antropologia, foi regente da Big Belas Band e atualmente é timpanista da Orquestra Novva de Curitiba.


magistry leonardo baixo

Leonardo Rivabem no baixo já tocou com Tristania (sim, aquela banda norueguesa que você finge conhecer quando quer parecer cult no metal).


magistry bateria

Johan Wodzynski na bateria admite ter "pegado o bonde andando", mas garante que "deu tempo de dar a minha cara para cada um dos sons". E, é claro, Parpineli, que é basicamente o mago do grupo, literalmente (ele me dá medo, sério!).


Desenvolvimento Criativo: Quando o Erudito Encontra o Extremo

Agora, vamos falar sobre o elefante na sala, ou melhor, sobre a harpa celta na sala. A sonoridade da Magistry é o tipo de coisa que faz você questionar suas escolhas musicais. Eles pegam Death Metal, Gothic Metal, Doom Metal e jogam no liquidificador com orquestrações barrocas, românticas, harpas históricas, alaúdes, cítaras, oboés, saxofones, trombones e, para completar a salada, técnicas de throat singing mongol. É como se Bach e Cannibal Corpse tivessem tido um filho, e esse filho fosse criado por monges beneditinos em um mosteiro no Tibet.


"Eu acredito que esse equilíbrio se dá muito através do arranjo", explica João Borth em entrevista exclusiva à Dissonância.

"As orquestras na Magistry não são uma cama sonora, elas são partes inerentes do nosso discurso musical, da mensagem que a gente quer passar."

Tradução: enquanto sua banda usa teclado genérico de R$ 800 comprado na loja de instrumentos do centro, eles estão lá preocupados com a "assertividade da escolha da instrumentação" e com naipes de metais versus madeiras (e pensar que meu violão tá com o braço todo empenado e eu sofrendo pra tocar "Eu Sei" do Legião Urbana).


magistry new aeon

O primeiro álbum, The New Aeon, lançado em março de 2025, explora o dualismo entre bem e mal, porque, claro, uma banda de metal que não fala sobre dualismo entre bem e mal é como um hambúrguer sem pão.


São 11 faixas que, segundo os próprios integrantes, tratam de autotransformação, ocultismo e transmutação alquímica. "Alchemy of the Inner World", por exemplo, é sobre "todo um certo processo de autotransformação para seguir o caminho melhor para si mesmo", segundo os músicos. Ou seja, é terapia com distorção. E funciona.


magistry venus

Mas o verdadeiro salto criativo veio com Venus Mellifera, EP lançado em setembro de 2025. Aqui, a banda resolveu que afinal de contas já tinham sido suficientemente pesados e mergulhou nos epítetos de Afrodite, sim, a deusa grega do amor e da beleza, aquela que normalmente aparece em pinturas renascentistas saindo de uma concha. "Como se o EP todo fosse um passeio nesse campo florido, conhecendo e experimentando vários tipos de amor", descreve Parpineli. A sonoridade ganhou nuances pop, shoegaze, atmosferas mais poéticas. É a prova de que você pode fazer metal sobre deusas gregas sem soar como aquele álbum "conceitual" do seu primo que ninguém pediu.


A Voz dos Artistas: Magistry entre o Palco e a Alma


magistry leonardo
Leonardo Rivabem - Foto: André Tedrim

O que torna a trajetória da Magistry particularmente interessante não é apenas a técnica, embora, convenhamos, a técnica seja insultantemente boa (pqp). É a maneira como os integrantes falam sobre o processo criativo, sem cair nos clichês metálicos de "fazer música pelo metal" ou "viver pelo rock" (olhos revirando).


magistry lya cantando
Lya Seffrin - Foto: André Tedim

Lya Seffrin, sobre a experiência de gravar após meses de estrada: "Parece que eu consigo criar uma intimidade maior com elas [as músicas] e trazer ainda mais criatividade e personalidade pro vocal".


magistry leonardo
Leonardo Arentz - Foto: André Tedim

Leonardo Arentz, por sua vez, captura perfeitamente o dilema de qualquer banda em ascensão: "Estamos crescendo, sendo visto e medidos, e isso é assustador, mas ao mesmo tempo é incrível". É a síndrome do impostor que todo artista sério conhece, só que aqui temperada com guturais técnicos.


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João Borth - Foto: André Tedim

João Borth, o guitarrista com mestrado que compõe pensando em "forma musical" como se estivesse escrevendo uma sinfonia do século XVIII, declara: "Estou realizado como músico, compositor e intérprete". E não para por aí, ele é o porta-voz da banda quando o assunto é autoral versus cover. "Não sou favorável a bandas cover... acho, de certa forma, 'feio' que o nosso cenário... seja recheado de bandas cover nas casas mais legais". É um posicionamento corajoso em um país onde tocar "Paranoid" de Black Sabbath mal paga a cerveja do baixista, mas onde bandas autorais precisam fazer crowdfunding para lançar um single.


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Johan Wodzynski - Foto: André Tedim

Johan Wodzynski, o baterista que "pegou o bonde andando", traz uma perspectiva interessante sobre integração em bandas já formadas: deu tempo de "dar a minha cara para cada um dos sons". É o tipo de frase que soa simples, mas esconde meses de ensaio, discussões sobre arranjos e, provavelmente, algumas brigas sobre se a bateria está muito alta no mix.


O cenário autoral do segmento metal

O mercado de heavy metal, especialmente o nicho sinfônico, é um oceano vermelho sangrento. Estamos falando de um gênero onde bandas como Nightwish, Epica, Within Temptation e After Forever (agora defunta, mas eterna em nossos corações) dominaram o cenário global por décadas.


Para uma banda brasileira, de Curitiba (leite queente, daí!! [foi mal, não resisti]), sem gravadora multinacional, sem budget europeu, sem aquele sotaque escandinavo que automaticamente faz jornalistas de metal escreverem elogios rasgados, para essa banda existir e ser notada, ela precisa ser muito boa. Não "boa para padrões brasileiros". Muito boa, ponto final.


Para se destacar nesse cenário, é preciso mais do que virtuosismo. É preciso repertório, personalidade e, talvez o mais difícil, equilíbrio psicológico. Porque tocar metal autoral no Brasil significa conviver com casas cheias de bandas cover tocando os mesmos clássicos pela milésima vez enquanto o grupo que passou meses compondo, ensaiando e gravando tenta convencer o público a ouvir algo novo.


A Magistry sabe disso. E bate nessa tecla sempre que sobe ao palco.


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1º Lugar no VIII Festbandas CWB

Em 2024, a banda venceu o Festival de Bandas Autorais de Curitiba. Foi um sinal importante de que havia espaço para um trabalho autoral sofisticado, mesmo em uma cena acostumada a tratar novidade como se fosse uma doença contagiosa.


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A preparação técnica dos integrantes é quase obscena. Estamos falando de músicos com formação acadêmica em conservatórios, experiência em orquestras, domínio de instrumentos históricos, capacidade de transitar entre regência e guturais. Isso não acontece por acaso, é resultado de anos de estudo, prática e, provavelmente, muitas noites sacrificadas enquanto os amigos iam para festas azarar as gatas (ah meus 18 anos, que saudade!).


Fechamento Prospectivo: Para Onde Vai a Transmutação?

O futuro da Magistry aponta para mais experimentação e mais ousadia. João Borth adianta em entrevista exclusiva:

"Nós estamos no período de pré-produção do nosso segundo álbum... nós temos bastante experimentação com música brasileira. Tanto em termos de instrumentação, bastante percussão, como em questões rítmicas. Então, baião, samba, diversos ritmos do folclore brasileiro vão entrar nessa mescla com metal".

É uma evolução lógica. Depois de provar que podem fundir metal extremo com música barroca europeia, agora querem trazer o Brasil para dentro da equação. Atabaques, rabecas, violas caipiras, baião, samba, tudo isso misturado com a sonoridade que já os tornou reconhecidos. Borth garante que será "uma coisa muito única", e quem ouviu The New Aeon e Venus Mellifera tem motivos para acreditar.


A ambição internacional existe, como Borth declara: "existem perspectivas muito palpáveis no horizonte para que nós saiamos do Brasil, indo para territórios europeus". Mas a banda mantém os pés no chão. "Ainda existe chão pra percorrer aqui no país", reconhece.


magistry

O que a Magistry representa, no final das contas, é uma narrativa de esperança para o metal autoral brasileiro, temperada com realidade. Eles querem provar que é possível, sim, sair de Curitiba com músicas engavetadas de 2012, instrumentos medievais e uma formação acadêmica exagerada, e conquistar o respeito de ícones mundiais. Mas eles mostram também que isso exige preparação técnica que beira o obsessivo, resiliência psicológica para lidar com um mercado que prefere covers, e uma recusa total em fazer o óbvio.


Enquanto isso, sua banda ainda está discutindo se vale a pena tocar "Enter Sandman" ou "Sweet Child O' Mine" no próximo show. A diferença, como diria um alquimista, está na transmutação (ou na falta dela).


magistry entrevista exclusiva


magistry página bio-discográfica

Veja show ao vivo


The White Shores live at FestBandas, in Curitiba - Brazil


Magistry:

Lya Seffrin, Vocals

Leo Arentz, Vocals and Guitars

João Borth, Guitars

Leo Rivabem, Bass

Thiago Parpineli, Keys

Johan Wodzynski, Drums


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