Paromundo: cinco faixas, cinco temas, um EP único e ao vivo
23/08/2026

A Paromundo lançou em 3 de abril de 2026 a Paromundo Studio Session, um EP de cinco faixas gravado ao vivo em estúdio numa parceria com o JamSpot e distribuído pela Tratore. São canções que a banda já havia soltado antes, agora regravadas na forma que eles entregam no palco. O próprio grupo resume a intenção: "registrar quem é a Paromundo no seu eu mais íntimo, no palco". Ouço o disco como um cartão de visitas de uma banda que queria mostrar os dois lados, o que sai do estúdio e o que acontece no show.
Como já característico dessa coluna, vamos pegar nosso aparelho de Raio-X musical e ver como são formadas as entranhas do álbum. Prepare-se, essa banda vai te surpreender.

O disco abre com a faixa "Caiçara" e eles escolheram logo de cara tratar de um tema pesado: "Talvez seja a nossa música com o tema mais delicado: suicídio", diz o grupo, que puxa a Ophelia de Hamlet para o litoral brasileiro. O verso "E assim como Ophelia se joga no rio / Eu me deixo levar pelas ondas do mar" costura a referência literária. Ao ouvir a faixa, é possível abstrair que eles tratam do tema de frente, é como se eles olhassem o grito de socorro e reconhecessem nele uma espécie de beleza estranha, coisa que eles mesmos admitem (começar por aqui foi corajoso, ponto pros meninos).

A segunda faixa é "Sangue Meu" e já parte para a identidade indígena e para a vivência num "não-lugar", palavra que a banda usa para a desconexão de quem cresce longe da própria aldeia. "Sangue Meu é uma esperança por um futuro melhor, o desejo por esta reconexão", explicam. A letra sustenta isso com poucas palavras: "Sei o que fui e o que me tornei". É uma canção de reconstrução, e o arranjo ao vivo deu a ela um peso que a versão anterior não carregava (mas recomendo a versão anterior também, não se façam de regrados, vão lá conferir).

A terceira fica com "Pretty Lies" é a única faixa em inglês e a mais pessoal na origem. A banda a define como "uma autocrítica ao como já lidei com relações", sobre a dificuldade de dizer não e o estrago que a covardia gentil faz em quem a gente menos quer ferir. Acho que é um dos temas mais atuais, a gentileza forçada para não causar "desconfortos", isso tá impregnado nas nossas relações pessoais e não tô falando de ser polido, tô falando de segurar o grito, acumular internamente e implodir sua sanidade. O refrão "I want your heart, I don't want pity / I don't want pretty lies" já joga isso na cara. Uma coisa interessante é ouvir um grupo brasileiro cantando em inglês com naturalidade, se é pra fazer bora fazer bem feito.

A quarta faixa ficou com a "Moça" e trata do chão que some depois de um término. A banda nos conta com mais detalhes: "Uma relação tóxica, que refletindo nós percebemos que já não existia futuro ou nem mesmo presente". A letra traduz isso na imagem "E não há chão abaixo dos pés". É a faixa mais convencional do EP. O tema também não é muita novidade, já ouvimos essa temática do coração partido sob muitos aspectos ao longo da história da música. Mesmo assim, a performance ao vivo livra de soar como só mais uma canção sofrida. Embora tenha ficado excelente, não posso deixar de observar que essa é aquela faixa que o artista joga só pra não dizer que não falou de flores.

A quinta já chega mais pé na porta, "Anauê" fecha de forma mais política: "falamos de um caso particular de apropriação cultural e quem está por trás disto". O grupo levanta a seguinte questão: "qual foi o espaço que foi deixado para a população indígena nesta sociedade?". Essa retórica atravessa a letra inteira. O verso "Distorcida por patriotas / Que destroem cultura e casa" já chega mais afiado. O disco abriu na dor de Caiçara, deu voltas em busca do "não-lugar", disse o que queria sobre a "gentileza", deu aquela passeada na sofrência e encerrou em grande estilo, na revolta. Um disco completão pra se ouvir e deixar o botão de repeat acionado.

No conjunto, nossos meninos da Paromundo entregaram um disco bem variado e não tentaram esconder as arestas. Cinco faixas, cinco temas distintos, gravadas ao vivo com performance de alto nível. É trabalho de banda independente que sabe o que quer mostrar, e mostra sem firula.
Fotos de Artur Nascimento de Campos (@art.cenas)
Assista à performance de Pretty Lies:
FICHA TÉCNICA:
Paromundo:
Poti - Vocal
Juan Mitsuo - Violão, Bouzouki
Vine Marcondes - Guitarra
Johnny Cavalcanti - Baixo
Felipe Ornelas - Bateria
Aline Takata - Head de Produção
Jam Spot Studio:
Gui Vasconcelos - Direção, Fotografia, Câmera, Edição
Vinicius Scorza - Assist. de Direção, Fotografia, Câmera, Edição
Pat Sayuri - Captação de Áudio, Produção de Set
Aécio de Souza - Captação de Áudio, Mixagem
Luan Monteiro - Cor
Rafael Thomazini - Câmera
Realização Jam Spot Studio





Comentários