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Raio-X do Álbum: Quanto Tempo Temos? A Diva Pop tem nove respostas

Por Fábio Drummond


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A Diva Pop é uma banda de pop rock autoral de São Paulo formada por cinco músicos que dividem, entre outras coisas, a convicção de que compor é mais interessante do que copiar. Karine Lisboa cuida do vocal principal e da maior parte das letras; Diogo Alves assina as guitarras, as bases instrumentais e algumas composições; Matheus Ramos, Jenifer Gomes e Damir Godinho completam a formação no baixo, teclados e bateria.


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Foto: Everton Luis Almeida

O que une esses cinco, além de ensaio, cachê baixo e a fé na música autoral numa cidade de dez milhões de pessoas, é um disco gravado, produzido, mixado e masterizado por Ernani Barbosa, na Casa do Ernani Barbosa. A ficha técnica tem um único nome repetido em quatro funções, o que ou é sinal de eficiência absoluta ou é a descrição mais honesta de como a música independente funciona no Brasil (provavelmente as duas coisas). "Quanto Tempo Temos?" é o resultado: nove faixas autorais, formatado com uma pergunta no título que a banda obviamente não pretende responder.

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Existe um fio invisível atravessando as nove faixas de "Quanto Tempo Temos?": a percepção de que o presente escorrega entre os dedos enquanto a gente ainda está tentando entendê-lo. O tempo, aqui, é assunto sério demais para ser tratado com leveza, e leveza demais para ser tratado com solenidade. Entre Karine Lisboa, letrista de vinte e poucos anos, e Diogo Alves, letrista de quase quarenta a mais, o álbum se constrói como um diálogo entre quem ainda está formando opinião sobre o mundo e quem já formou (eu acho), já refez e já está revisando de novo. O resultado é um disco que fala de escola, ditadura, redes sociais, amor, morte e indignação. Então, mãos à obra e vamos passar um Raio-X nesse disco e ver o que temos em cada faixa.


1. Quanto Tempo Temos?


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Karine Lisboa

A faixa que dá nome ao álbum é também sua declaração de intenções. Karine Lisboa escreve a partir de um daqueles momentos em que o fim de uma fase (o ensino médio, uma banda, um ciclo) faz o chão ceder um pouco. A música não responde à pergunta do título; ela apenas a formula para que o ouvinte carregue o incômodo consigo. "Mais um tempo que passa deixando memórias / nas paredes, histórias de vida, dor e glória" pode soar como abertura de caderno de colégio, mas aí vem o refrão e transforma o tom: a percepção de que o relógio no pulso é uma ilusão de controle, e que na verdade é o tempo que nos tem; isso é uma inquietação adolescente, talvez uma questão existencial, quem sabe. De qualquer forma qualquer adulto reconhece sem precisar ser avisado.


2. Banalizados


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Das aulas de História sobre o Holocausto para uma letra. O caminho entre sala de aula e estúdio raramente produz algo além de resumo escolar, mas "Banalizados" escapa desse destino ao trocar a análise histórica pela imagem cotidiana: a porta aberta, o mundo que cai para o outro enquanto o seu ainda está de pé, a boca fechada diante do que não é, tecnicamente, problema seu. "O meu mundo cai / mas o seu ainda está de pé" é a descrição mais precisa de como a indiferença funciona, e funciona tão bem justamente porque dispensa a grandiosidade. A canção não precisou citar nenhuma atrocidade específica para falar de todas elas, isso foi o que me chamou a atenção.


3. Este País

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Diogo Alves

"Este País" é a mais direta do álbum, e nenhum ponto a favor. Diogo envia uma base com sotaque nordestino no DNA sonoro; Karine responde com uma letra sobre a distância entre a imagem do Brasil e a experiência de viver nele. "O mar esconde a dor / que é viver nesse país / a bela imagem avistada / não é para todos que vivem aqui", o contraste entre cartão-postal e realidade é tão antigo que qualquer abordagem mediocre cairia em discurso de palanque. A saída da letra é a primeira pessoa vulnerável: não é um manifesto político, é uma voz que diz que vai lutar, que vai pedir uma migalha, que vai fazer o que puder, e que eles não ligam para você. Me pareceu muito uma indignação de quem ainda não desistiu, o que, convenhamos, já é bastante.


4. Batalhas

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Karine recebeu a provocação de uma poesia escrita por uma colega e devolveu um hino de autoconfiança com estrutura de ring de boxe. "Façam apostas / desdenhem de mim / enquanto eu conquisto / um mundo pra mim" é exatamente o tipo de letra que parece exagerada até o momento em que você precisa dela, e então parece precisa. A música fala de resistência pessoal sem nomear o adversário, o que a torna estranhamente universal: pode ser o julgamento dos outros, a própria insegurança ou aquele professor que achava que você não dava para nada (todos tivemos). O refrão repetido cumpre sua função com eficiência: quanto mais você ouve, mais difícil fica duvidar.



5. Abra Seus Olhos

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Uma das primeiras composições de Karine, e é exatamente assim que soa, no sentido mais generoso possível. "Abra Seus Olhos" tem uma convicção não processada, como se fosse alguém que ainda não aprendeu a suavizar a própria indignação, e isso é, paradoxalmente, um dos seus maiores trunfos. A letra trata da sedução do poder político, do fantoche que o cidadão se torna quando fecha os olhos para as promessas, do castelo de cartas que vai desabar. "Essa torre está prestes a desabar!" é grito, não é análise; e gritos têm uma utilidade que a análise, às vezes, não tem. Dentro do álbum, funciona como o momento em que alguém acende a luz de uma sala que preferia continuar escura.


6. Modernidade

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Diogo Alves vira o olho crítico para a geração de Karine, e o faz com uma precisão desconfortável, como aquela pessoa que já passou por um processo parecido. "Quando tira fotos / sempre usa um filtro / não mostra quem é / se esconde muito bem" poderia soar como sermão de cinquentão indignado com o TikTok, mas o refrão salva a música de si mesma: "Qual é o teu valor? / Qual é o teu preço?". Não tem como desvencilhar a pergunta da sua filosofia. Não há resposta oferecida, apenas um espelho colocado na frente. Se a música te incomodou, então ela acertou em cheio, porque foi projetada para isso.


7. Caminhando

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Elinaldo Fidelis escreveu "Caminhando" quando Diogo Alves tinha mais ou menos a mesma idade que Karine tem hoje, o que confere à faixa uma dimensão de arqueologia afetiva que as demais não têm. A letra é sobre o lado sombrio do mundo como os adolescentes de uma certa geração o enxergavam: desconfiados do sistema, furiosos com algo que ainda não sabiam nomear direito, mas sentiam com clareza. "Por uma luta sem causa / sem generais no comando" ecoa aquele tipo de angústia que antecede a consciência política de fato. No álbum, a faixa funciona como memória inserida no meio da conversa, uma espécie de lembrete de que a indignação de Karine tem genealogia.


8. Ilha das Flores

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Diogo tinha dezesseis anos quando escreveu esta. A leitura de um livro sobre 1968 e a história da ditadura militar fervilhando na cabeça de um adolescente produziram algo que, mais de vinte anos depois, parece pesado. "Tentar não chegar à conclusão / de que nossa pátria não é nação" é um dos versos mais duros da música, por que não dizer, do álbum, porque trata da desilusão como um processo que se tenta evitar, mas não se consegue. A faixa é áspera, ele escreveu sem calcular o efeito, o que, no contexto de um álbum cuidadosamente construído ao redor do presente, funciona como distância histórica necessária: o Brasil de 1968, o Brasil de quando Diogo tinha dezesseis anos e o Brasil de agora estão, infelizmente, tendo uma conversa muito mais coerente do que gostaríamos.


9. Fim dos Tempos

diva pop no palco

O álbum fecha onde o coração de qualquer adolescente termina: no fim de uma relação que pareceu ser o fim do universo. A música não tenta diminuir esse sentimento nem justificá-lo. O verso "É fim dos tempos, amor / veja com seus próprios olhos / o cosmo inteiro desabou / num mundo que era nosso" me pareceu um exagero calculado, não posso dizer ser foi autoconsciente ou não, mas fecha o ciclo do álbum de forma precisa: começou com a pergunta sobre quanto tempo temos, e termina com a sensação de que o tempo acabou. Que seja para um amor de colégio ou para uma civilização, a dor tem a mesma temperatura, e Karine, a essa altura, já entendeu como descrevê-la.


Diva Pop — Quanto Tempo Temos? está disponível nas plataformas digitais.



Página Bio-Discográfica da banda Diva Pop


Veja o clipe da música "Quanto Tempo Temos?"




1 comentário


Parabéns pela matéria, sensacional a leitura da discografia, parabéns a banda também, por tocar em assuntos tão necessários nos dias de hoje 👏

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