Raio-X do Álbum "Inteligência Armorial": a rabeca contra o robô, em dez rounds
- Fábio Drummond

- 11 de jul.
- 6 min de leitura
Por Fábio Drummond

O disco já começa com um trocadilho no título, é o primeiro aviso. E Sandrera já explicou esse disco umas cinquenta vezes, mas é sempre bom lembrar sua fala: "Todos os meus discos são conceituais", ele avisa logo de cara, em conversa com a Dissonância. "Um álbum precisa ter começo, meio e fim." Pronto, disso é tudo de que precisamos para começar esse exame profundo sobre o novo álbum do cantor capixaba: Inteligência Armorial.
Já aviso de cara, esse foi um dos discos mais complexos que analisei aqui nessa coluna. Não por causa de palavras difíceis, versos invertidos (tem bastante), rimas imprevisíveis (as melhores), mas porque é uma obra que desafia a lógica dos discos atuais. É narrativo, e ao mesmo tempo reflexivo; conta histórias (ou seriam estórias?) no mesmo verso que desafia o ouvinte a tomar uma decisão.
A menção a IA no título responde por Ariano Suassuna; a inteligência artificial entra em cena como um personagem, a figura que anda batendo na porta do seu feed vendendo curtida. Detalhe que vale registrar: Nesse disco, Sandrera faz mergulho profundo no cangaço, e estamos falando de um capixaba de Vila Velha, com vinte e cinco anos de estrada, isto é, ele sabe do que fala. O Armorial pegou a BR, desceu pro litoral e chegou inteiro. Vamos faixa a faixa.

1. Inteligência Armorial
A faixa-título abre o disco puxando as referências pesadas. "Misturei a força mítica do sertão com Guimarães Rosa e Suassuna", conta Sandrera.
"É uma canção sobre dor e cura, sobre gigantes vencidos e a esperança que brota nos olhos. Pra mim é uma celebração da cultura popular como ferramenta de emoção, de luta e de reinvenção do futuro."
Traduzindo: é um refrão que pede a Guimarães um buquê de margaridas e gruda na primeira audição, mais o verso "Santo algoritmo já nem decide", que resume a briga do álbum em cinco palavras. A imagem que fecha a música, "Vi o futuro no açude, Suassuna, no açude dos meus olhos", é das melhores coisas aqui. Começou no lugar certo.
2. Cantador Primogênito

"É o nascimento de um poeta já marcado pelo destino da cantoria", diz Sandrera sobre a segunda faixa. "Alguém que chega ao mundo com o canto pulsando no peito. Cantar, pra mim, é uma forma de existir e de resistir." A letra faz exatamente isso, com um piau aparece nadando, uma parteira que diagnostica poesia no berço e a Vó Bidica olhando pro céu (guardem o nome da senhora, ela reaparece mais de uma vez). O bom humor do refrão segura a música no chão e impede excessos de pompa. É a certidão de nascimento do 'primogênito cantador', o personagem que canta o disco inteiro.
3. Canudos

Aqui mora o trocadilho mais bem armado do repertório. "Ôh mainha pra quê conselhos / Se eu tô de boa com o absurdo / Eu já tive um conselheiro / Foi Antônio de Canudos." Antônio Conselheiro virando conselheiro pessoal do sujeito é o tipo de cenário que eu não esperava, fui pego de surpresa, no meio da música. "Quis celebrar o absurdo como força de resistência e de utopia", explica Sandrera. "É o direito de sonhar o impossível, um manifesto poético em forma de música." O pedido pra ser trancado no hospício "ou faz Brasília se tornar Canudos", legal para ela não ser tornar séria demais. Sandrera riu primeiro, é claro, e sustentou a utopia da canção em todos os versos. Excelente! Única palavra que tenho para essa reunião de versos.
4. Um Pedido a Lampa

O coração do álbum bate nesta faixa. "É um encontro imaginário", conta o cantor. "Um sertanejo humilde, sem arma nenhuma, só com fé, pedindo água e farinha ao Lampião pra salvar o filho da fome, e oferecendo em troca a poesia que tem. Eu quis mostrar o Lampião como líder popular, capaz de mudar destinos." O verso "Zefinha eu perdi pra fome / Mas Tonho não vou perder" é duro, um dos mais pesados do disco, cantado sem uma gota de firula. E a rima "Na sanfona, Luiz Gonzaga / No parabelo, Lampião" é certeira, chega a arrepiar. Quando Sandrera confia no personagem, o disco atinge o topo. Um comentário extra sobre o instrumental dessa música, só tenho uma coisa a dizer: ouçam! Depois a gente conversa.
5. Corisco

Da esperança da faixa anterior pro luto desta. "É o retrato da queda de Lampião e do fim do cangaço", diz Sandrera.
"Reconstruí a emboscada na Grota do Angico, a traição do João Bezerra, o tiro do soldado Santos. E, no meio disso, a resistência do Corisco, o Diabo Loiro, que se recusa a se entregar mesmo com o líder morto."
A canção guarda fatos históricos e traz fidelidade na narrativa, e pra isso Sandrera estudou o assunto. "Se entrega corisco / Eu não me entrego não", grita Corisco ao som de tiros voando alto. O trecho dos gritos segura a faixa nos ombros. O Diabo Loiro de viola em riste é uma bela imagem de fechamento pro cangaço. Eu resumiria a canção numa palavra: cinematográfica.
6. Tornei Caducar

O deboche assumido do disco. "Aqui eu misturei humor, crítica social e afirmação artística", conta o cantor. "É uma defesa da cultura e dos artistas independentes, uma celebração da liberdade criativa como resistência de quem insiste em pensar, criar e contestar." A letra entrega isso com "Minha caneta não tem medo de IA", uma linhagem que se declara ("Patativa cantou lá eu canto cá") e a promessa de ir ao senado "com um cachorro invocado / Pra morder cabra safado". É engraçada, é afiada, e serve de manifesto de intenções no meio do disco. Significa que o Sandrera sabe rir de si sem soltar a bandeira, e essa dose de sal cai bem.
7. Proa da Canoa

Um respiro ritual entre duas faixas pesadas. "É um duelo de violas às margens do rio, quase um embate de forças", descreve Sandrera. "Tem o Renato Andrade, tem o cabrunco, tem padre e reza no meio. Eu quis uma atmosfera ritualística, com a viola de protagonista." O refrão é um chamamento puro, "Heeee heeee heeee viola", é um transe curto sem necessidade de contar história nenhuma pra ser boa e funcionar. É a faixa mais leve do conjunto, e cumpre o papel que todo bom disco reserva pra uma música assim: deixar o ouvinte tomar fôlego antes do próximo mergulho.
8. Rouxinol

O desabafo pessoal encontra a revolta social. "Rouxinol é um desabafo entre a dor pessoal e a revolta social", conta o cantor. "Fala das perdas, das desilusões amorosas, do peso das promessas quebradas pelo poder. É o lirismo de alguém que vive entre a esperança e a indignação." A imagem das "cravadas rosas vermelhas" rasgando a canção do rouxinol é o ponto lírico do álbum, delicado de um jeito que as faixas de brasa não tentam ser. Lampião e Maria Bonita reaparecem "que no céu agora mora", costurando o disco de volta pra si mesmo. Bonita e brava na mesma medida.
9. A Vó Bidica

A senhora voltou, e agora com música própria. A canção começa com a Vó Bidica rezando um Pai Nosso e Ariano Suassuna recitando: "quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?". A faixa já me conquistou aí, nos primeiros segundos. "A lavadeira vira símbolo de cura, de memória e de resistência", explica Sandrera. "Quis conectar ancestralidade e espiritualidade, a força dos mais velhos, a fé como sustento. No fim, é uma afirmação da vida como algo sagrado, nascido do sopro divino e da experiência humana." O rio morto que brota do peito, a lavadeira que lava a dor, tudo desemboca no verso "A vida não nasceu da IA / Nasceu no sopro do nosso Senhor". Chega pela ancestralidade, não pela palavra de ordem, e por isso soa ganho de verdade. Tematicamente, é a faixa mais bem resolvida do disco.
10. Bilhete em Braille

O álbum fecha íntimo, sem cangaço e sem senado, só saudade e mar. "É uma canção de saudade profunda, a solidão diante do mar, a falta do amor perdido", diz Sandrera. "Transformei esse sentimento num bilhete escrito pra ser lido pelo toque, pra ser sentido mesmo à distância." O verso "O que eu não vejo mais / São os olhos lindos do meu bem" carrega a coisa toda, e a ideia do braile é frágil no melhor sentido da palavra. Terminar dez faixas de sertão e algoritmo num sussurro à beira-mar é escolha de quem sabe fechar uma porta com cuidado. Bom lugar pra descer a cortina.
Veredito
Inteligência Armorial prometeu e cumpriu: colocou a rabeca, a viola e a guitarra distorcida pra conversar com o próprio tempo, e saiu dessa lide com a cabeça erguida. Sandrera passou vinte e cinco anos afiando essa mistura de cultura popular e rock, e o disco nos revelou alguém que dominou o território em que pisa, do cordel ao refrão de arena. As histórias de cangaço (Lampa, Corisco) e as figuras que ele reverencia (Suassuna, Vó Bidica, Patativa) dão ao álbum um chão firme, e o bom humor impede que a reverência vire altar. É um dos lançamentos capixabas mais inteiros do ano, e faz a gente concordar com o Suassuna quando ele diz que o futuro pode muito bem ser primitivo.
Ouça Inteligência Armorial





A sonoridade desse álbum me atravessou, principalmente em "Um Pedido a Lampa " e "Corisco", essa que conta, em narrativa, a morte de Lampião.
Parabéns pela linda matéria!