Val Porto a poetisa underground: ela saiu do coma ao som de Beethoven
- Tião Folk
- 11 de jul.
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de jul.
Por Tião Folk

Vou começar declarando meu total conflito de interesses, porque jornalismo sério é assim (e aqui na Dissonância levamos a seriedade a sério). A Val Porto é minha amiga pessoal. Fui eu que convidei ela para escrever na revista, sou eu que estou gravando uma música em cima de um poema dela e sou eu que já levei bronca dela mais de uma vez (mas foi por uma boa causa, é claro). Dito isso, sigo com a matéria de capa mais suspeita e mais justa que esta revista já publicou.

A Val, ou Valtéria Porto de Paula, para quem prefere o nome de batismo, tem 72 anos, mora em Novo Hamburgo (RS) e escreve poemas. Cinco deles já viraram música na mão de artistas independentes, alguns passaram pela nossa sessão de Release, e outros estão na fila de musicalização enquanto você lê isso.
Ela também é colunista desta revista, onde publicou textos como "Noite Sem Estrelas", "Onde o Tempo Não Alcança", "Enquanto Você Olhava Longe", "Até o Final da Estrada" e outros. Números respeitáveis para qualquer artista, de fato. Mas para alguém que começou a publicar depois dos 70, é aquele tipo de estatística que bota muito marmanjo no chinelo e faz o camarada repensar as desculpas que conta para si mesmo no escurinho do quarto vendo stories no celular.
O radinho de pilha tinha hora marcada

Gosto de começar pelo lugar mais lógico, o começo. A relação da Val com a música começou no interior gaúcho, num cenário que hoje pareceria minimalismo proposital, nos meus tempos de adolescência, eu chamaria de bucólico: um radinho de pilha e horário certo para ligar. "Lá fora, morei no interior, era só radinho de pilha mesmo, mas tínhamos horário para ouvir", ela me contou em entrevista exclusiva para a Dissonância.

A trilha sonora da casa era a música gaúcha de raiz, Teixeirinha, Gil de Freitas, César Passarinho, aquele repertório que o pai dela ouvia diariamente, quase num ritual. E foi dele que veio a lição que explica muita coisa sobre a Val de hoje:
"música tu tem que sentar para ouvir, não posso só escutar"
Guardem essa frase. A Val aprendeu desde cedo que ouvir é um verbo que exige cadeira. É esse ouvido treinado, sentado e atento que hoje analisa o trabalho de meio underground brasileiro. Volto nisso já já.
Quando a música chegou antes da consciência
Tem um capítulo na história da Val que dá arrepio de contar; ela já me contou algumas vezes e a cada nova contada é mais agoniante. Em 1992, ela passou mais de trinta dias em coma (eu sou hospitalfóbico, falou em hospital já me arrepia a espinhela). Durante todo esse tempo, a família manteve um fone de ouvido nela com uma fita de música clássica tocando sem parar, porque sentiam que ela reagia ao som. E foi assim, com Beethoven no ouvido, que ela acordou, voltou ao mundo e nasceu de novo. Dessa vez uma nova Val.
Fico pensando na lição do pai (a de que música se ouve sentado, com atenção) e no que aconteceu naquele quarto de hospital. A Val não estava sentada. A Val não estava consciente. E mesmo assim a música chegou, encontrou alguma coisa acordada ali dentro e puxou pela mão. Se você acha que estou dramatizando, converse com quem já passou por uma UTI. A ciência ainda discute o quanto o cérebro em coma processa som. A família da Val não ficou lá esperando o veredito da ciência sobre a música: colocaram o fone e apostaram na melhora. Deu certo. Trinta anos depois, a mesma pessoa que voltou ao som de uma orquestra passa as noites transformando sentimento em verso. Faça as contas de causa e efeito que quiser, eu prefiro só registrar que a música chegou primeiro e salvou nossa querida de ir até a luz.
Val Porto e a curva da estrada
Toda história de renascimento tem um capítulo ruim antes, e a Val não esconde o dela. "Foi uns dois anos e pouco atrás, quando eu tive uma decepção que me machucou muito e eu parei para repensar no caminho que eu estava trilhando e resolvi mudar a direção do olhar", ela conta. A mudança de direção trouxe amigos novos, quase todos músicos, e veio junto aquele tantinho de coragem para mostrar o que ela escrevia, mas já foi o suficiente.
"Foi uma mudança que me fez muito bem, me fez renascer, me fez ficar mais forte"
A rotina dela hoje é de uma organização que me deixa até envergonhado da minha desorganização (e olha que sou bem chato e metódico, mais chato que metódico, pra falar a verdade): trabalha, cuida da casa, cuida do marido, ouve muita música, lê bastante. E à noite, escreve. Sem programação, sem meta de produtividade, sem planilha. "Eu escrevo exatamente o que eu tô sentindo, nada eu programo. É a mesma Val", ela garante, quando pergunto se existe uma Val poetisa diferente da Val do dia a dia. A resposta encerra qualquer teoria sobre persona artística que eu pudesse inventar para deixar a matéria mais cabeluda. É a mesma pessoa. O que vai para o papel é o sentimento do dia, sem fantasia.
Curioso é que, durante muito tempo, ela nem imaginava que aquilo pudesse virar canção. "Quando eu tô escrevendo, eu nunca pensava que podiam virar uma música. Até o dia que um músico, que tu sabe quem é (risos), leu e falou que dava para fazer." Confirmo o boato: o músico era eu; e confesso que enchi o saco da Val para que ela escrevesse mais, eu estava enxergando uma coisa ali, uma espécie de poesia que tem sido deixada de lado nos tempos atuais, uma poesia crua, sem os floreios das "correções ortográficas" feitas com ajuda de IA (pois é artista independente, eu vejo você e sei o que você faz quando está frente a frente com o chatGPT).

"Hoje, quando eu escrevo, sempre imagino que ela possa virar uma música, e isso é muito bom", completa. Um desses poemas é o "Encontro de Almas", publicado lá na primeira edição da Dissonância, que estou gravando em releitura neste momento. Se ficar ruim, a culpa é minha. O poema já provou que é lindo, completo e não precisa de mais nada.
A mãe do underground
Aqui entra a parte que ninguém combinou, mas que todo mundo do cenário independente já sabe: se você ainda não recebeu uma bronca da Val Porto, sua carreira está incompleta. Ela ouve os lançamentos com muita atenção, aquela mesma atenção que tem quando senta para ouvir (a lição do pai, lembra?), e devolve o que pensa. Com carinho, com franqueza e com uma pontaria que muita consultoria paga não entrega. Virou uma espécie de mãezona de músicos de estilos, setores e opiniões que raramente concordam entre si sobre qualquer coisa. Sobre a Val, todos eles concordam. O respeito que ela circula por esse território ela conquistou do jeito mais difícil: virando artista também, uma artista das palavras.

Esse papel já rendeu até televisão. Em novembro de 2023, ela foi a convidada do programa Essência e Prosperidade, da TV Líder do Vale, numa conversa que levava no título as duas palavras que resumem a personagem: Persistência e Constância. Você consegue assistir a entrevista completa no YouTube e quem assistiu viu o mesmo recado que ela repete aqui, sem variação de discurso entre a câmera e a mesa da cozinha (ou a máquina de costura, pois é, ela ainda costura e já fez até roupas para alguns artistas). Coerência, aliás, é outro item raro no mercado que a Val distribui de graça.
A estrada não acabou
Num dos poemas dela publicados aqui na revista, "Até o Final da Estrada", tem um verso que diz que "sonhos não morrem, apenas esperam". Vindo de qualquer um, seria a típica frase de caneca. Vindo de quem esperou sete décadas para descobrir a própria voz, é relatório de vida, é história narrada e vivida ao mesmo tempo, não é para qualquer um.

Quando pergunto que recado ela deixa para os artistas independentes que estão começando, se o sonho tem data de validade, a resposta vem redondinha:
"Nunca desistam dos seus sonhos. Eu tô realizando um sonho que nunca foi sonhado. E o sonho não tem prazo de validade. Quem não começou ainda, tem que tentar, tem que tentar e conseguir."
Um sonho que nunca foi sonhado. Ela disse isso olhando por cima do tempo, e eu fiquei uns dois dias mastigando a frase, procurando um jeito de trazer para o papel a naturalidade de uma pessoa que faz coisas extraordinárias, que supera, que erra, que vai e volta e depois vai de novo. Perceba que a nossa Val não passou a vida esperando a chance de escrever. Ela descobriu aos 70 e poucos que existia uma porta, abriu, e agora recebe as visitas como se a casa sempre tivesse sido dela, e isso é maravilhoso.

Por isso ela está na capa da 11ª edição. Porque a Dissonância existe para artistas assim, e porque, na dúvida sobre o que fazer da sua carreira, da sua arte ou da sua segunda-feira, o conselho editorial desta revista recomenda: pergunte à Val. Mas sente antes. Bronca boa também se ouve sentado.
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