top of page

A Estranha Vizinha da Rua de Trás

Hélio Silva, 04/04/2026

hélio silva conto

Não havia nenhuma nuvem no céu, no dia em que o cachorrinho de Dona Maria fugiu outra vez pelo portão. Com o calor, ela mal teve vontade de ir busca-lo, apenas se abanou com o vestido de chita, enquanto lançava gritos de “venha aqui, Bombom” para o bolonhês, que dava nas patas, virando à esquerda na esquina.


Dona Maria ajeitou os cabelos meio brancos, meio pintados, atravessou o quintal de volta para casa. Tomou um copo d’água. Viu o marido dormindo na frente da televisão. Era meio dia e a moça do tempo dizia que iria chover mais tarde. Melhor ir rápido. Depois, avisava o marido da saída, quando ele parasse de roncar. Ou a Claudete do 200 dava com a língua nos dentes – fofoqueira que só.


Calçou, nos dedos rechonchudos, os chinelos de sair. Sentiu uma leve dor no calcanhar. Era o “esporão” de sempre, nada com o que se preocupar. Atingiu o que, para sua idade, era boa velocidade e seguiu para a rua de trás.


O sol estava de rachar e as calçadas irregulares não ajudavam a pegar boas sombras. Dona Maria precisou, com uma das mãos, tapar a vista do sol. Ninguém na rua, nesse horário de domingo. Uma caixa de som tocando ao longe, algumas fumaças esporádicas de churrasco e uma senhora com um cachorro, lá na frente, em uma casa escura salpicada de pintinhas brilhantes.


Era ele? Sim, ele mesmo. Ufa, desta vez, até que Bombom não dera muito trabalho! Dona Maria se aproximou, com a mão esquerda nas cadeiras e o chinelo fazendo chape-chape no asfalto. Surpreendeu-se de uma árvore aparecer diante da sua vista, lá na calçada da vizinha, como se fosse descoberta pelo sol. Talvez, fosse coisa da vista, devia ter trazido os óculos.


Conseguiu chegar até lá e apareceu agradecendo-a pela sombra:

– Ô, bendita seja essa árvore da senhora, hein!

– Oi, Dona Maria – a vizinha cumprimentou, fazendo carinho no Bombom, enquanto ele bebia água numa bacia em seu portãozinho. Ela tinha um sorriso bem conservado, despreocupada do tempo e do olhar de estranhamento que era lançado para seus cabelos roxos. Preferiu prosseguir o assunto: – Até que a senhora veio rápido, hein!

– Pois é, mulher – Dona Maria desviou o olhar daqueles estranhos cabelos de algodão-doce – Esse cachorro vive fazendo isso. Ele cisma com essa rua.

– É... A sorte é que hoje eu estou aqui. Né coisa fofa? dirigia-se ao cachorro, depois retomava a conversa com a outra senhora – Só tem que tomar cuidado para o seu marido não reclamar muito. Bolonhês é coisa cara!


Dona Maria não recebeu bem o comentário. O que significava aquilo? A língua de Claudete era grande, mesmo.

– Ora, como a senhora sabe se meu marido reclama?

– Ah, minha filha, homem é um bicho complicado.


Pelo comentário, Dona Maria desarmou-se com um sorriso. Mesmo assim, não queria deixar o homem sozinho em casa. Isto seria dar asas a Claudete. Aproximou-se para pegar Bombom, mas o danado virou as nádegas e deu três pulinhos para dentro da casa de... Quem era aquela vizinha?

– Mas esse cachorro! Pra eu não entrar na casa da senhora, teria como pegar ele pra mim?

– Imagina, pode entrar. O portãozinho está até aberto!

– Ah, obrigada. E a senhora, como se chama mesmo?

– Bem, é um nome que não se usa mais hoje em dia.

– Pois a senhora é antiga aqui, é?

– Sim, moro aqui muito antes da senhora. Me chamo Santinha.


Realmente, era um nome incomum. Mas Dona Maria estava mais preocupada em pegar o cachorro. Parou seus poucos passos assim que viu o cachorro ir para perto da entrada. Uma luz avermelhada saía pela porta aberta da sala de estar. Passaram pela sua cabeça indecências a respeito da tal “Santinha”.

– Eu, eu... acho melhor não entrar, não.

Percebendo o susto da outra, Dona Santinha adiantou, com sorriso, uma explicação:

– Essa luz? Não se preocupe. É coisa do meu trabalho...

– Pois é justamente por isso que não entro!

– ... Que nada, menina! Eu trabalho é no ramo de transporte!


Ramo de transporte? Ah, conta outra! Dona Maria não acreditaria nisso. Felizmente, Dona Santinha se mexeu para pegar o Bombom, que veio tranquilo em seus braços. Mas, agora, o mosquitinho da curiosidade investigativa tinha picado a senhora de cabelos grisalhos. E vinha bem a calhar, já que outro destemido vinha caminhando com suas sandálias sob o sol, com duas sacolas de mercado.


– A senhora disse que é antiga aqui. Eu não lembro da senhora nesse bairro, não! – Dona Maria fez questão de falar alto, para fisgar o novo interlocutor.

– Ah, mas eu sempre estive aqui. Sou mais antiga que o Seu Aristides, né mesmo? – essas palavras surpreenderam Dona Maria, já que se dirigiam ao próprio Aristides.

– Oooopa! – ele disse, analisando a construção e a senhora que tinha diante de si. As pernas meio em arco foram parando e ele lançou um incompreensivo olhar para Dona Maria. – Como é que vai? – ele disse rapidamente, antes de emendar a seguinte pergunta: – Essa casa estava aí quando eu fui?


Dona Santinha caiu na gargalhada, com as curiosidades. Um bom entretenimento para a tarde.

– Pois é, seu Ari. Eu não lembro da Dona Santinha por aqui.

– É... E essa mangueira aí. Sombrinha boa, hein!

– Pois é – Dona Santinha ajuntou – Essa foi a primeira mangueira da rua. Quando tudo isso aqui era mato! O seu pai nem tinha pulado a cerca, ainda.


Seu Aristides deu um pulo, quando notou que o olhar era dirigido a ele.

– Que isso, minha senhora? Meu pai do céu nunca fez nada disso!

– Ai, ai... Tal pai, tal filho.

Seu Aristides não queria engolir desaforo, ao mesmo tempo que não conseguia abrir a boca para soltar algo capaz de retrucar. Conseguiu apenas deixar cair um murcho “Ora, essa” e se pôs a andar, sendo logo interrompido por Dona Maria, que chamava a vizinha mais jovem, vinda de seu portão, após pôr o lixo para fora.

– Boa tarde, Elizete!

– Boa tarde Dona Ma... Eita! Que árvore grande, hein!


Elizete arregalava os olhos, enquanto Dona Santinha se encostava ao portãozinho rosa, com o pequeno Bombom em seus braços. Ele lhe lambia a face, com um amor que apenas poderia dedicar à dona. Isto franziu os olhos de Dona Maria, que engoliu saliva para manter firme a garganta. Ela teria muito o que falar, embora fosse a senhora do cabelo roxo quem puxasse o assunto:

– E como anda a filhota, hein, Elizete?

– Senhora?! Mas, eu nem tenho filha...

– Ora... – Dona Santinha disse, sorrindo e relaxando os olhos – Então, uma passadinha na farmácia fará bem.


Elizete, agora, tinha uma explicação rápida para os estranhos sintomas dos últimos dias. E uma outra sensação se apoderava dela, só podendo ser expressa por uma pergunta feita em uníssono pelos três:

– QUEM É A SENHORA?!


Se a coisa fosse fácil de descobrir, eles não teriam terminado lá para o anoitecer, nem teriam reunido a multidão que agitou o pequeno Bombom, o qual teria dado umas dentadas em certas mãos se Dona Santinha não o acalmasse com sua própria tranquilidade.


A primeira onda chegou após o horário de almoço. Eram senhores e senhoras envolvidos com trambiques e traições, ou gente com segredos menores, coisa pouca como um choro por conta dos filhos ou uma lástima por conta de intrigas familiares. Todos eram tragados até o portão para terem suas vidas desnudadas pelo olhar clínico de Dona Santinha.


Alguns esqueceram o feijão no fogo, tendo sido avisados pela própria senhora da casa escura. Correram para apagar o fogão e, quando voltaram, pegaram fila de quarteirão, com gente cada vez mais jovem se somando ao conjunto dos intrigados.


Com todos, Dona Santinha era rápida no atendimento – e piadista.

– Trate as hemorroidas, seu Luiz. Homem teimoso.

– Mas eu não tenho isso!

– Só quem não tem isso é o hamster da Zumira. Mas fica de olho, Zu, que logo ele parte dessa para melhor!

– Como assim?

– Próximo!


E vieram os próximos. Os daquele bairro começaram a correr o boato de que a Dona Santinha, na verdade, era a própria Claudete do 200. Mas o correr da fila trouxe gente de outros bairros, vindos a pé, ou de carro e ônibus, causando transtornos em diversos trechos da rua principal. Portanto, não, a língua de Claudete não alcançaria tamanha quilometragem.


A procissão começou a atrair as crianças, em seu horário de sair da escola, ou mesmo aquelas que tinham faltado aula, e Dona Santinha mantinha seus serviços, adaptando suas revelações para aqueles de menor idade.


– Olha, você pare de roubar pipa do Joãozinho – disse ao Zézinho. Joãozinho arregalou o olho e Zézinho logo confessou:

– Só roubei porque você não devolveu minha bicicleta!


Bastou um olhar de Dona Santinha e eles entraram num acordo de devoluções. Assim também faziam outras pessoas, que traziam suas rusgas para o meio das filas já desordenadas. Mas, enquanto diminuíam as contendas, aumentava-se a curiosidade e cabeças começavam a se espremer para desvendar a luz alaranjada que vinha da casa escura.


Era Bombom quem impedia que entrassem naquele local, representando um risco aos mais audazes. Entretanto, quando Dona Santinha percebeu uma movimentação aumentando lá na esquina, checou o relógio e concluiu que já tinha conversado demais com o povo.


Parou de prestar tanta atenção aos intrusos, pegou Bombom no colo para acalmá-lo novamente e prontificou-se para responder aquele que vinha acompanhado por um séquito de seguranças. Ninguém mais, ninguém menos, que o próprio prefeito da cidade. Valeria a pena atender este último, apesar do rosto de poucos amigos que ele arrastava por entre a multidão.


Tomou o lugar onde antes estivera espremida Dona Maria, agora desaparecida na multidão. Virou-se para analisar as pessoas em redor, enquanto os seguranças montavam um círculo de contenção. Não era bom, com as últimas denúncias, estar assim no meio do povo. Ele tentou organizar rápido a situação:

– Minha senhora, o que está havendo aqui?

– Seu prefeito! Boa tarde – Dona Santinha contrapôs calma às palavras secas do prefeito – O povo veio se consultar comigo, hoje. Tiraram o dia para isso, e olha que logo eu tenho que ir dormir para trabalhar.

– Acorda cedo amanhã? – ele questionou, ajeitando os óculos inquisidores.

– Sim, sabe como é: ramo de transportes. O senhor conhece bem!


A voz de Dona Santinha era ouvida por todos. O homem tremeu por trás das lentes. A última manchete do jornal tratava justamente disso: o escândalo no preço da passagem de ônibus. A única prefeitura da região a cobrar tarifas mais altas.


Um “É mesmo” surgiu no meio da multidão, sendo acompanhado por “E os ônibus?” e o reboliço voltou à tona.


Formou-se um empurra-empurra, com gente aproveitando para saltar muro adentro e matar a curiosidade a respeito do estranho brilho na casa. Logo, os próprios seguranças conseguiram conter os ânimos e parar os que pulavam.


Conforme o sol ia descendo, sem ser percebido, no horizonte, a luz da casa escura atraia mais atenção. O laranja começava a ficar mais fraco, quase sumindo. Até que sumiu, mesmo, sendo substituído por um brilho branco e intenso que parecia vir de outro cômodo.


Todos estavam apreensivos, até mesmo Bombom sentia seus pelos se enrijecerem com o brilho estranho que se aproximava. Dona Santinha gargalhou, percebendo o medo do cachorro e se adiantou com a explicação:

– Bem, aí está o meu trabalho!


Foi Dona Maria quem apareceu na porta com uma brilhante foice preta na mão. Do objeto sombrio saia uma luz branca que crescia até tomar conta de quem o segurava. Dona Maria tentava falar enquanto caminhava lentamente, mas nenhum som saia de sua boca, por mais que ela mexesse os lábios.


Dona Santinha desgrudou-se rapidamente do muro e foi à varanda, socorrer a outra senhora:

– Me dê isso aqui! Isso você não pode pegar – ela disse, pegando a foice, que cresceu, parecendo respirar na mão da dona, puxando para si a atenção de todos os olhares.


O prefeito, espantado, deixou os óculos penderem sob seu nariz e lançou um grito para Dona Santinha:

– O QUE É A SENHORA?

– Eu? Ah, muito simples, meu querido. Eu sou a Morte!


Todos soltaram um suspiro de espanto diante da revelação. Dona Santinha fez questão de explicar um pouco da prenda que pregara naquelas pessoas – ainda que não tivesse a mínima obrigação disso. Aproximou-se do portão e, mesmo com voz calma, pôde ser ouvida por diversos quarteirões.


– A gente não pode nem aproveitar uma folguinha, hein? Bom, talvez eu tenha perdido a noção do tempo. As coisas se passam num ritmo diferente para mim. Enfim, faz parte do meu trabalho.

– Ma... Ma.... Mas e o ramo de transportes? – Dona Maria disse, meio sem confiança.

– Ah, é transporte de almas. Elas vão daqui para ali, mas eu nem posso dar muitos detalhes. Sabe como é, sou uma motorista discreta...


Parou um instante para contemplar os rostos que tinham diante de si. Encaminhou-se para a conclusão:

– Bem, acho que, por hoje, já tiveram aventura demais. Amanhã, vocês não vão guardar o que viram. Mas, mesmo assim, eu espero que se lembrem de não ficar brigando por besteira. Ninguém come briga, nem dinheiro, né seu prefeito?


Os seguranças tiveram trabalho para segurar o desmaiante, após essa informação. Dona Santinha fez alguns movimentos circulares com a mão, enquanto deixava suas últimas palavras daquele dia:

– Da próxima vez, eu prometo que serei mais discreta! Agora, a noite já chegou e todo mundo tem que acordar cedo amanhã. Vai que alguém precisa de uma carona...


Bastou um estalar de dedos, veio a chuva. Neste momento, o olhar de todos se escureceu e apenas uma risada forte foi ouvida ecoando sobre o tapete universal do silêncio e da indiferença.

Dona Maria abriu os olhos já na cama, após uma noite sem sonhos. Ou teria aquilo sido um sonho? Ela não sabia dizer. Ao seu lado, o marido roncava – pelo menos, não muito alto.

Ela calçou os chinelos, foi para a cozinha preparar o café. Dali, podia ver Bombom dormindo perto da porta da sala. Dona Maria caminhou na direção do cachorro. Sentiu uma leve dor no joelho. Antes era o pé, agora o joelho. Sempre havia esses problemas, nessa idade.


Era uma gracinha o cochilo de Bombom. Ela abriu a janela para começar a arejar a casa. Sentiu o sol entrar bem iluminado, mesmo a essa hora da manhã. Tudo muito bonito, mas algo naquele sonho, que começava a desaparecer, ainda tinha deixado ela encucada. Aquilo deveria ter um significado.


Ah, sim! Tinha algo a fazer. Comprar uma coleira para o Bombom. Vai que a Claudete resolve pegar o cachorro fujão. E ela iria reclamar para devolver. Isso se não espalhasse para a vizinhança: “Maria não cuida nem dum bichinho, que dirá do marido”. Claudete... A linguaruda!


LEIA MAIS CONTOS DE HÉLIO SILVA.


hélio silva espiã


hélio silva viola


hélio silva sacolas

Comentários


bottom of page