Uma Espiã nos Tempos de Machado
- Hélio Silva

- há 20 horas
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Um conto de Hélio Silva, 23/02/2026

PARTE 01: VESTIDO ANTIGO
Num enorme prédio cinza, um banheiro rosa claro. Aurora se prepara para a sua nova missão, respirando fundo, tendo o cigarro à boca. Segura o isqueiro, acende. Ver a fumaça e sentir o calor já não é algo que a tranquilize mais. Bastam dois tragos, ela apaga o cigarro na pia e o joga na lixeira ao lado.
No amplo espelho, observa marcas de expressão começando a aparecer. Nota também que precisa retocar um pouco o batom. Pega-o da pia – a essa altura, sabia que nenhum colega de trabalho se importaria em mexer em suas coisas – e torna os lábios um pouco mais espessos. Aurora gostaria de sentir-se mais provocativa. Sendo uma espiã, era esperado que ela assim fosse, mas, como a realidade é indiferente aos clichês da ficção, Aurora sentia os lábios em permanente secura.
Passou a língua por eles, observou-se em mais detalhe. Estava em trajes antigos, do tipo que se usava no Brasil de muitos anos atrás, quando este país era, para outros povos, sinônimo de bom gosto e não de jugo. Povos como o dela, que haviam sido dominados após a Última Grande Guerra. E, mesmo assim, ela tinha traído seu povo: Aurora entregara, primeiro, seu coração à cultura do dominador. Depois, o próprio corpo. E a marca ali estava – uma cicatriz na testa, adquirida durante a travessia das severas grades de fronteira.
A essa dolorosa história da pele Aurora fez questão de encobrir com o cabelo ruivo, tentando se segurar para não chorar lágrimas rosas num mundo tão cinza quanto a Nova São Paulo. Aprumou o vestido branco, ajeitou o chapéu de igual cor, com detalhes em azul. Pousou os dedos sobre a maçaneta da porta principal, cortou a hesitação com mão firme e tomou o rumo do escritório.
No caminho, parou em frente à nova máquina de café, perto da janela. Lá fora, a tempestade engolia a cidade, transformando até os corredores de trabalho num lugar tranquilo.
A ilusão de tranquilidade logo se quebrou quando um sujeito alto e forte, de terno azul marinho, esbarrou em Aurora para pegar café.
– Ei! – ela disse ao desconhecido, equilibrando-se para não manchar o vestido.
Recebeu apenas um olhar de óculos escuros por cima das costas que rapidamente se distanciavam, deixando para trás um leve som de riso e um forte perfume de lavanda. Em suas baias, mais adiante, os outros permaneciam focados nas luzes azuladas de suas telas. Aurora percebeu as gotas sumindo no carpete marinho-escuro. Quis sumir como elas e embrenhou-se em linha reta para seu pequeno escritório. Fechou a porta, deixou o café sobre a mesa e contemplou a janela opaca de nuvens. Brincou com o isqueiro por alguns minutos, até ouvir a voz do chefe, que entrava sem bater e avisava sem esperar.
– Creio que você já esteja pronta – sua voz saía seca, enquanto ele observava o tablet, nada se atentando para a figura diante de si. Aurora não fez questão de virar as costas. Deixou-o falar: – Em breve, a Ana estará pronta no subsolo. Esteja lá quando seu computador apitar.
Ele saiu, sem ouvi-la dizer algo. Ao menos, deixou a porta fechada. Aurora ainda tinha bons minutos para reler algumas páginas de seu livro favorito. Pelo computador, acessou as páginas de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, um bom substituto para a edição física que ela possuía em casa – o tipo de coisa que ela jamais traria para o trabalho.
“Há em cada empresa, afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana.”
Assim escrevia o gênio de Machado de Assis. Palavras que caíam feito espartilho para quem tinha a precisa intenção de encerrar um ciclo naquele insuportável emprego. Aurora suspirou, guardou o isqueiro no busto e fechou sua leitura, após alguns parágrafos. Seus dedos não conseguiam parar diante da possibilidade de poder viajar para o século XIX. Se tivesse sorte, poderia conhecer alguns de seus escritores favoritos. Se fosse hábil, poderia fazer do passado mais que uma visita.
Passou a mão pelos cabelos. Eles ainda escondiam bem a cicatriz. Talvez ela própria precisasse de um esconderijo. Mordeu os lábios pensando nisso e a mordida teria sido forte o bastante para causar um machucado se a notificação no computador não a tivesse chamado. Aurora, quase instintivamente, pegou o isqueiro de cima da mesa e seguiu para o elevador de acesso restrito.
Rapidamente, desceu os cem pisos que a separavam de mais um trabalho a ser feito. Chegando ao subsolo, ela respirou o leve cheiro de éter e surpreendeu-se consigo mesma de ter pernas suficientemente firmes para caminhar naqueles corredores ainda mais azuis e metalizados. A sala vinte a aguardava.
Escaneamento facial feito, abriu-se a porta e Aurora pôde ver os cientistas trabalhando num círculo de máquinas, que tinham, ao centro, um simples portal metálico do qual apenas alguns fios discretos saíam, escorrendo pelo chão em direção aos controladores.
O chefe a aguardava ao centro, o rosto enfiado na luz do tablet. Aurora não esperou que ele desse a ordem. Após tantas viagens ao passado, ela não precisava da confirmação científica para perceber o funcionamento da “Ana”. Postou-se diante da máquina, tomando coragem para encarar sua nova missão.
– Você... – ele tirou o olho do tablet apenas por alguns segundos, para passar a missão – Você está sendo enviada para mil oitocentos e oitenta e um. Deve estar atenta ao utensílio que o informante trará para você. É algo de importante raridade, que traz informações a respeito de material de interesse biológico estratégico.
Neste momento, uma luz forte caiu feito véu do interior do portal. Transformou-se, logo, num tom leitoso e convidativo, que se estabilizou após alguns movimentos tremulantes. Era o momento de Aurora.
Ela subiu os três degraus em direção ao portal iluminado. Ouviu as últimas instruções: – Você deve trazer o conteúdo intacto, sob pena máxima de recolhimento e investigação. Quando estiver pronta, retorne à orla. E, por favor...
“Não interfira em momentos-chave”, Aurora já sabia de cor o discurso. Olhando para a superfície leitosa adiante, sentiu diversas perguntas e incertezas borbulharem em seu estômago. Se tivesse um cigarro... Não. Isso não ajudava. Não tinha o que ajudar.
Com mais dois passos firmes, entrou pelo portal para outra era. Sentiu um deslocamento emergindo das profundezas de seu coração até atingir o calor de sua pele. Num instante, os passos certos de Aurora perderam todos os seus porquês.
PARTE 02: UM PASSAPORTE
O Brasil de 1881 revelava-se diante dos olhos de Aurora em ondas de brilho e cor. Na terra da corte, o mar lançava rumores de calma, as construções apresentavam gosto pela forma e, ao fundo, os montes verdejantes testemunhavam a eternidade da natureza. Toda a orla era banhada pelo calor do sol e Aurora tomou aos pulmões, com prazer, os ares desse mundo dourado.
As carruagens cortavam os grãos de poeira flutuantes, moldando contornos próprios, como se ignorassem o ar. Esse espetáculo Aurora contemplava, quando outro veículo veio em sua direção. Belo cavalo preto e bem cuidado veio trotando tranquilo, até que, em breve contorção das pernas, deixou um mal cheiro para trás.
– A senhora precisa de um lenço? – uma mulher perguntou, percebendo Aurora tossir forte, ao seu lado. Estava acompanhada de um homem alto e uma moça mais nova. Provavelmente, mãe, pai e filha.
– Ah, obrigada – Aurora respondeu, ainda pigarreando por conta do cheiro.
– A corte é assim mesmo, minha querida – a mulher, prosseguiu.
– Logo a senhora se acostuma – a filha comentou, com um sorriso no rosto. O pai, embora nada dissesse, não tirava os olhos graúdos da ruiva que tinha diante de si. A mais nova comentou ainda: – Só tome cuidado para não andar por aí sozinha. – Ora! – a mãe reclamou com a garota – Não seja indiscreta! – Está tudo bem, muito obrigada! – Aurora respondeu, abanando o cheiro com a mão. Tratou de atravessar para o outro lado, indo dar direto na agitada Rua do Ouvidor.
Observou os comerciantes e seus empregados, adultos e jovens. Os menos abastados davam um jeito de carregar um sorriso no rosto mesmo com sacos pesados nas costas agora pela manhã. Os menores levavam caixotes ou faziam engraxate. As piores cargas, entretanto, viam-se nas costas negras, corpos humanos tratados feito máquina sob os atentos olhares de quem, com chicotes, lhes dava ordens.
Deste grupo numeroso, que constituía a veia da agitação entre os transeuntes, Aurora pôde ver uma confusão que se resolveu com ações enérgicas e breves: foi uma perseguição a um homem negro, provavelmente escravizado. Alguns homens vinham atrás dele, na rua à direita. Ele fez a curva, atravessou um cruzamento na Rua do Ouvidor e, com três pulos sobre uma pilha de caixotes, subiu um muro bastante alto. Pelo lado de dentro do terreno, hastes de madeira, provavelmente uma escada, o esperavam. O homem desapareceu rápido lá para baixo e dois de seus perseguidores passaram perguntando pelo paradeiro do perseguido.
Aurora se lembrou dos tempos da travessia pela fronteira, empinou o nariz e ignorou os questionadores. Nada diria sobre o paradeiro daquele homem que, de alguma forma, era como um companheiro de fuga. Também outras pessoas se recusaram a fornecer informações e Aurora conseguiu sair do burburinho para o café onde deveria estar. Bem ao lado da lendária Livraria Garnier.
Passou pelo prédio de gostos franceses imaginando se Machado de Assis não estaria lá dentro, neste momento. Largou o sorriso de curiosidade boba e entrou na cafeteria verde, que reunia diversos homens e algumas poucas senhoras a acompanhá-los em certas mesas. Aurora sentou-se ao fundo, demorou um pouco para ser atendida.
Foi tempo suficiente para que notasse algumas estranhas feições. Perto da janela, braços sobre a mesa mantinham um jornal sobre o rosto; noutro canto, próximo ao balcão, um homem se olhava no espelho por tempo demais, utilizando o chapéu para impedir a luz em seus olhos. Barba falsa? Talvez.
Aurora lambeu os lábios, espremeu a vista e desejou, no meio da fumaça de cachimbos e charutos, que seu café chegasse logo. E chegou. Ao menos, algo para acalmá-la da vontade de dar um trago. Ela passou a mão ligeiramente pelo isqueiro, no interior do vestido, como se aquela peça metálica fosse o próprio coração se aliviando. Em seguida, a vista do informante vindo pela porta, em passos seguros de quem chega a um reencontro.
Agora, ela podia ver o rosto dele: uma face quadrada, cheia de ângulos e algumas poucas rugas muito bem postas, muito bem calculadas. Óculos profundamente escuros, aquele terno azul em corpo forte e o mesmo perfume de lavanda. Ele olhava para Aurora, mesmo ela não vendo seus olhos. Trazia uma maleta na mão direita e um sorriso discreto na linha da boca.
– Nada como a pontualidade de uma senhora inglesa – ele disse, com irônica voz aguda. Aurora responderia a provocação se lá, ao fundo, seu cérebro não tivesse reconhecido a figura que tanta curiosidade lhe despertava.
Era o próprio Machado de Assis, um pouco menos imponente, quase manco em sua bengala adentrando o café, com um sorriso para o gerente do balcão. Provavelmente, um velho conhecido. Ele levantava a mão para pedir um café e Aurora esticava o pescoço para acompanhar o movimento.
– Ora! Não se deixe distrair, my dear – o informante disse, após virar-se de costas para acompanhar o olhar de Aurora. Ela aproveitou o breve movimento para captar sua vista por detrás dos óculos, mas os olhos daquele homem eram tão negros quanto as próprias lentes. Voltava, agora, a atenção para a maleta.
– Sejamos breves – ela respondeu, mirando diretamente as lentes fundas – Contei, pelo menos, dois inconvenientes por aqui e o futuro não espera.
– Bom, muito bom! Meu cliente também possui certa pressa. Então, vamos ao conteúdo.
Ele arqueou-se, sem tirar seus olhos dos de Aurora, num estranho teste de firmeza. Puxou um livro e sorriu ao endireitar-se com o objeto sobre a mesa. Entre eles dois, repousava o encadernado verde que refletia a luz feito pele de crocodilo afogada em verniz, acompanhada de detalhes de ouro em alto relevo. Um destes detalhes se destacava ao centro: o desenho de um crânio humano sobre um corpo de cobra.
Aurora olhou para os lados. Precisava garantir aquela raridade. Mal acreditava em si, em estar pegando nas mãos aquele objeto lendário de sua profissão. Enquanto abria o livro, o informante fez um garçom se aproximar e pediu um café que lhe foi servido após poucos segundos.
– Você é um informante especial, não é? – ela questionou.
– Prefiro não ser... – ele respondeu, tranquilo, à provocação dos olhos por cima do livro.
– Pois você não deveria trazer roupas tão distintas para este país.
– Eu, sei, eu sei. Mas não me importo – pela primeira vez, ele parecia estar falando sério. Após uma bicada no café, questionou: – Analisando o conteúdo?
Os olhos de Aurora pareciam inúteis diante das palavras que dançavam nas páginas para não serem pegas. Apenas pelos cantos, onde os olhos não alcançavam totalmente, podia perceber alguns termos de relance: “extensão vital prolongada” dançava aqui, “cuidados de aplicação” rodopiavam ali e um “além da humanidade” dava um carpado para logo se esconder da vista faminta de Aurora.
Brevemente, ela percebeu que era perda de tempo tentar saciar sua curiosidade naquelas páginas. Tomou o café num gole rápido, ajeitou o chapéu e fechou o livro rapidamente. Sem embaraço com o incômodo vestido, apossou-se da maleta, guardou o livro e respondeu o informante:
– Espero que o mistério do seu cliente não atrapalhe nossos serviços.
– Não, não... – ele respondeu com voz tranquilizadora – Tudo funcionará corretamente no seu retorno. Aliás – ele mexeu a cabeça indicando o balcão, enquanto se levantava – a senhora terá boa ajuda em sua viagem de volta a seu país.
Após um sorriso sarcástico, ele acrescentou um “Passar bem”. Saiu caminhando com rapidez. Deteve-se apenas para deixar duzentos réis com o garçom que lhe atendera e desapareceu na rua como a fumaça dos charutos.
Aurora captou a dica anterior. Dirigiu-se ao balcão, percebendo que os dois suspeitos de antes se moviam de seus assentos. Firmou algumas passadas e estendia a mão para Machado de Assis, na tentativa de usá-lo como um salvo-conduto, quando foi ele próprio quem a surpreendeu:
– Vejam, se não é a grande condessa da bretanha!
Os dedos de Aurora perderam a força e foram amparados pelas mãos do gentil senhor amigável que a observava por detrás dos óculos.
– Ooohh... – as vozes se voltaram, surpresas, para a imagem da moça ruiva. Alguns rostos pareciam curiosos diante de tão importante presença, assim, desacompanhada do cavalheiro do terno azul. O cumprimento de Machado, entretanto, amenizava seus enxerimentos e também os passos dos dois, que preferiam dirigir-se à janela.
– Ah... – foi apenas o que Aurora conseguiu dizer.
– A caminho da embaixada?
Ela respondeu com um aceno de cabeça. Machado deixou a xícara de café incompleta e, com ajuda do balconista que, prontamente, saía para fazer um favorzinho, conseguiu um coche para si e para a tal condessa. O balconista recebeu, com o peito estufado da fama dos outros, o agradecimento simpático do lendário escritor e o sorriso da nobre. Fechou a porta da carruagem com um sorriso bobo, mas logo arranjou briga com os dois sujeitos que esbarravam nele e perdiam a carruagem de vista.
Aurora observou a cena lá atrás e agradeceu não só pela velocidade do cavalo como pela sagacidade da figura ao seu lado.
– Esta embaixada é muito distante? – ela questionou, como para despertar alguma fala daquele rosto em suadouro.
– Bem... – ele passava um pano na testa para resistir aos ataques do sol – Temos uma condessa perdida!
Machado sorria para ela e, pela primeira vez em meses, Aurora conseguia sorrir de volta – ao menos, de forma não planejada. Mas ela não estava convencida.
– Este Brasil é novidade para mim.
– Ah, imagino... – ele comentou, tossindo um pouco – E são estes os presentes que entregaram à senhora? Que maleta indiscreta, não?
– Pois é – ela hesitou um pouco, mas completou – Todavia, vale o conteúdo!
– Precisamente, preci... – ele interrompeu a palavra, num breve espasmo, mas logo retomou o raciocínio – Desculpe-me. Não sou acostumado aos costumes da Inglaterra... Inglaterra, não é?
– Talvez, meu caro. Talvez – ela evitou uma resposta direita aos instigantes olhos de agulha.
A carruagem passou por uma rua de onde vinha um forte barulho. O condutor viraria à direita bem ali, se não o incomodasse a passagem de gente animada demais para seu gosto:
– Droga! Maldito Entrudo!
Machado de Assis observava a movimentação na rua, gente cantarolando, alguns batucando e outros lançando perfume para o alto. Cena curiosa, mas nada desejável para ele; mais uma oportunidade para Aurora.
– Desceremos aqui – ela disse, afetando o sotaque de seus “erre” embolados de muito tempo atrás e, a contragosto da multidão carnavalesca, o bruxo desceu com sua companhia.
Após o pagamento do condutor, ambos seguiram pelo meio da multidão, Machado mantinha-se bem colado à parede, enquanto Aurora apreciava a vista das vestimentas mais despojadas e do papel picado pelo céu – algo tão belo, e tão odiado no futuro. Numa olhada para trás, tranquilizou se de ver o sujeito de chapéu passando numa outra carruagem em busca do veículo vazio que eles tinham deixado. Busca despistada.
Voltando o olhar para frente, Aurora notou que Machado falava em tom suplicante, como a repetir algo importante:
– ... Esta galeria, por favor.
Eles entraram em um breve espaço comercial. Machado teve, alguns espasmos fortes, tendo sido amparado por Aurora, na falta de força para segurar a bengala. Após isso, respirou lentamente, como a recuperar a força da consciência. Um homem que passava ofereceu ajuda, mas o próprio doente fez recusa:
– Não, está tudo bem, meu caro. Agradecido – disse, apoiando seus passos no braço de Aurora. Os dois, com os braços enlaçados, caminharam pela breve galeria. Machado tentou se justificar, embaraçado:
– Eu, eu às vezes tenho essas ausências...
As ausências faziam lembrar a face histórica do homem a seu lado. Todavia, a mente de Aurora não estava interessada neste tipo de divagação. Essa saúde frágil, na verdade, fazia lembrar outra coisa. Foi mais direta, deu voz a suas suspeitas:
– Eles não contratariam um homem com esta saúde, de onde eu vim...
Estas palavras surpreenderam os olhos do escritor. Por detrás dos óculos, suas sobrancelhas formaram altos arcos. Diante da reação, Aurora decidiu prosseguir:
– ... Não quero informações formais. Mas, estou curiosa, o que o senhor ganha com isso?
Eles estavam na rua, novamente. Caberia certa discrição, pois alguém poderia estar ouvindo, mas Machado tinha sido descoberto. Explicou-se da melhor maneira que pôde: – Não espero que meus livros durem para sempre. Então, eu exigi certas garantias...
Aurora não pôde segurar o riso: – Ora! Medo de seus livros não durarem?
– Veja só... – ele tentou retribuir o sorriso, mas falava sério – Preciso pensar além da Livraria Garnier. E sei que eles podem garantir isto para mim, para minhas palavras. Além do mais, deixam-me livre com os arquivos de missão. É algo importante nestes meus tempos difíceis.
A espiã abriu a boca em espanto. Aquilo era uma condição inimaginável de contrato. Quem será que estaria por trás disso? Imediatamente, ela afastou seus braços dos de Machado. Ele pediu desculpas por gerar desconfiança, mas voltou estas palavras para Aurora:
– E eu conheço muito bem esse objeto em tua posse. Posso garantir que a senhora nada tem a ganhar com ele.
Eles se aproximavam da orla. Já era possível sentir o vento salgado se aproximar. Menos transeuntes se faziam presentes e os dedos se agarravam mais à alça da maleta. As palavras eram tentadoras, mas ainda não convenciam.
– E o senhor lá sabe o que contém este artefato? – Aurora questionou, fingindo indignação.
– Se dão tanta importância a ele, isto se dá porque desejam o que todo homem deseja: não passar, não ser ruído pelos vermes da existência.
O coração de Aurora pulou perto do isqueiro. A crueza das páginas ganhava beleza, assim, na voz de quem as depositara sobre o papel. Ela questionou:
– E por que eu nada ganharia com isso?
Machado repousou o olhar sobre os trabalhadores, por um instante. Em especial os que passavam pela orla, ao longe, em direção ao abastecimento dos comércios da corte, contrastando a beleza da claridade com o peso das escuras cargas nas costas. Muitos ali, é claro, não eram livres. Mas o que se podia fazer?
– Porque o destino de tudo é passar. A fome dos vermes é infinita. E a senhorita acha que poderemos fazer brindes no banquete final, quando somos nós mesmos o prato principal? Bem, eu nunca vi um suíno assado retirar a maçã da própria boca.
O próprio Machado riu da conclusão. Certamente, anotaria isso ao chegar em casa. Aurora, entretanto, olhava para o vazio, como se encurtasse longas jardas entre ela e um porquê. O vento se intensificava, mas pouco se importava com o cabelo, ou o chapéu, ou a cicatriz. A cicatriz.
Abriu a maleta com presteza. Entregou o livro à figura diante de si. Ele segurou, meio sem jeito, o lendário objeto. Observou-o brevemente, mais surpreso com o luxo da encadernação. Teve, entretanto, de voltar sua atenção para os olhos marejados de Aurora.
– Primeiro, eu quero que você dê um jeito nisso – ela disse, puxando o isqueiro do busto de seu vestido, pouco se importando com o que outros curiosos pudessem pensar. Deixou o objeto sobre o livro. Machado apoiou se na parede do estabelecimento ao lado, tentando se virar com os utensílios. Aurora, entretanto, continuou as instruções:
– No futuro, eu sei que você dará um jeito em vários documentos importantes. Assim, isto estará melhor contigo. E, em segundo lugar... – ela precisou segurar bem o ar para que a voz saísse com a força necessária: – Eu não sou inglesa. Eu sou brasileira!
Aquela informação tinha a sutileza de uma avalanche. Entretanto, Machado preferiu não fazer questionamentos. Recebeu com ternura o breve abraço que Aurora lhe deu e encontrou poucas palavras para a sucinta despedida:
– Pois seja bem-vinda ao Brasil! – ele disse em riso, enquanto ela já se afastava pela orla, lançando um último olhar e um aceno com a mão direita, os dedos avermelhados pela alça da maleta segurada com tanta força.
PARTE 03: SEM DADOS
Do outro lado, após sentir o corpo tomado pela corrente fria, Aurora já sabia o que a esperava no Brasil implacável: o recolhimento. Sua casa, seria a nova prisão. O único lugar para uma mulher duplamente traidora.
Assim foi feito. A chuva na Nova São Paulo caía de forma torrencial. O carro da agência parou em frente à casa de Aurora e os agentes se estabeleceram para a vigília do primeiro dia.
Entraram por todos os cômodos com paredes pintadas de um leve e acolhedor tom róseo. Instalaram câmeras onde acharam necessário e se apossaram do quarto de visitas como uma espécie de escritório de vigilância.
Aurora passou a andar com moletom pela casa, mantendo o ar-condicionado constantemente ligado, apesar do frio arrepiar-lhe a espinha. A maior parte dos dias, ela passava na biblioteca, com acesso apenas aos seus exemplares físicos, nada de acesso a telas. Precisamente o que a mente dela precisava.
Um dia, bem cedo, sinais de pulso saíram desta biblioteca. Foram enviados reforços da agência central para lá. Nada nas câmeras, nada nos cômodos. Apenas guardas desacordados, livros pelo carpete e um forte cheiro de clorofórmio pelas entradas de ar. E o carro? Sumido.
Quando se deram conta, já era tarde. Foram precisas semanas para que um relatório minimamente conclusivo pudesse ser elaborado. Ainda assim, nada muito promissor.
O chefe de Aurora fez questão de ficar acordado, em casa, até tarde só para acompanhar o lançamento do relatório na intrarrede governamental. Decepção pura estampou-se em seu rosto, quando leu as conclusões:
“A agente não foi identificada. Entretanto, é preciso atentar-se para um dos livros que se encontrava aberto sobre o rosto de um dos guardas desacordados. Consta apenas um destaque, feito com força, no seguinte trecho:
‘não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria’
Esta obra, ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, era de frequente acesso da agente. Deve-se verificar mensagens cifradas no conteúdo da obra que possam remeter ao planejamento da fugitiva”.
Fora disso, havia apenas uma informação relevante: Ana, numa madrugada, havia sido ligada sem o auxílio de cientistas que trabalhavam na máquina. Os relatórios, porém, nada indicavam, exceto uma viagem para o passado. Mas onde raios era esse “passado”?
O peso de três milênios caiu sobre os olhos do chefe de Aurora. Ex-chefe. Ele dormiu em frente ao computador. Acordou sem solução e com um irritante torcicolo. Levantou-se para buscar um anti-inflamatório. Mas estranhou, pela casa, um forte perfume de lavanda.
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