Ju Abe em Dissonância: entrevista exclusiva
- Jorge Murilo

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Por Jorge Murilo, 02/01/2026

Cantora, compositora e produtora paraense, Ju Abe constrói uma trajetória artística que vai além da música e se firma como gesto político, espiritual e estético. Nascida e radicada em Belém do Pará, ela faz da Amazônia não apenas cenário, mas centro de pensamento, articulando sonoridades da Nova MPB com linguagens contemporâneas e um discurso crítico sobre crise climática, desigualdade e modos de existir. Em sua obra, canção e audiovisual caminham juntos como ferramentas de questionamento e transformação, posicionando Ju Abe como uma das vozes mais inquietas e conscientes da cena amazônica atual.
Dissonância: Qual a mensagem do clipe “Eden”?

Ju Abe: Os versos de Éden. Eles foram, por incrível que pareça, inspirados por um livro chamado As Flores do Mal, de Charles Baudelaire. Ora, mas como que uma poesia que fala sobre o bem, o refrão da música Ela fala sobre o bem, no nascer do dia em que reinará o bem, pode ter nascido de um livro cujo título traz a palavra mal? Bem, é porque esse livro do Charles Baudelaire, ele, apesar de ter esse título, ele não é uma lírica sobre o mal, mas uma reflexão sobre o mal e o bem que pode nascer do mal, digamos assim. As flores do mal é justamente a luz bíblica que pode surgir das trevas. Então tem uma reflexão moral sobre o bem e o mal muito grande nesse livro. Então essas reflexões e mais o curso de filosofia que eu fazia na época me trouxeram essas palavras, digamos assim, as palavras para compor o poema. Nesse tempo eu frequentava a religião do Santo Daime e eu tive uma iluminação muito forte lá onde tudo que todas as angústias e todas as depressões que me afligiam que eram muitas. Então, nesse sentido, foi um processo terapêutico, porque quando eu conheci o Santo Daime, o qual eu não frequento mais hoje, mas na época eu frequentei, eu tive uma certa frequência, quando eu conheci aquilo, veio como cura para mim. E quando eu me curei eu vi uma luz, uma esperança. Todas as aflições, as depressões, as ilusões, elas passaram a ser coisas pequenas. A partir desse despertar, meu, e eu quis escrever sobre isso. Então, o Éden, ele é uma música que fala de esperança, principalmente. O não desistir, o persistir mesmo dentro das trevas. Então, quando nós estamos vivendo um momento ruim, uma vida difícil, cercado de coisas que nos afligem, nós devemos sempre lembrar que isso tudo é passageiro e que existe uma esperança sempre de que as coisas podem realmente vir a ficar melhores. Então, o superar as dificuldades, na verdade, não é uma abolição das dificuldades, mas sim um aprender a conviver com as dificuldades de uma forma leve. Tomar isso tudo aqui como passageiro. Portanto, a mensagem é essa e fé, esperança, determinação diante das dificuldades. Então, o Éden que eu retrato na poesia é um mundo cujo propósito vale a pena viver. Então, nós não podemos, não devemos, como diz a letra do Acadêmicos de Niterói, “não é digno fugir”, nós temos que lutar, nós temos que persistir em nome da construção deste Éden. E no clipe nós mostramos a contraposição disso. Quer dizer, quando nós fugimos, quando nós simplesmente sucumbimos diante das dificuldades, e acreditamos que este mundo, da forma como está dado, é tudo que existe. Quer dizer que não existe a possibilidade de mudança de um algo além disso para além do que a vista alcança, como diz a poesia da canção. Então nós acabamos caindo em depressões em cavernas, como o clipe faz alusão ao mito da caverna. Quer dizer, a minha personagem, ela aparece dentro de uma caverna, brincando e enlouquecendo com sombras. Quer dizer, muitas vezes esse mundo que nos cerca, o mundo sombrio, mas são apenas sombras, não é a realidade. E para que a gente veja a verdade de que é possível construir algo melhor, algo diferente, a gente precisa querer vencer as dificuldades ou então se entregar para a depressão, para a agonia, como é retratado no clipe. Então, a mensagem de Éden é uma mensagem de perseverança, de esperança, de determinação, de fé, de coragem e de, principalmente, da crença de que um outro mundo é possível.
Dissonância: Quando e como você descobriu que queria ser a artista Ju Abe?

Ju Abe: Eu fui influenciada na música pelo meu pai, que era músico. Ele faleceu em 2022, o Rafael Lima. E a partir dele, eu comecei a pegar gosto pelos palcos, digamos assim. E aí vi que eu tinha talento e comecei a cantar. Cantava em bares, cantava em casas de shows e cantava a convite dele nos teatros. Mas aí surgiu umas composições. Eu com o meu violão comecei a compor aqui em casa mesmo. E aí eu comecei a ver que eu levava jeito pra isso e senti a vontade de gravar as minhas próprias músicas. E eu percebi que, para que esse projeto desse certo, eu precisaria descobrir qual era a minha personalidade artística. Isso foi lá em meados de 2012, quando eu comecei a compor canções pensando já num álbum mesmo. E aí eu vi que essa personalidade artística buscada, primeiramente, ela poderia contribuir com uma divulgação dos ritmos regionais. E foi assim que eu gravei o meu primeiro álbum. Foi no momento de boom aqui onde vários artistas do Pará tiveram projeção nacional, como Gaby Amarantos, como Dona Onete, e a partir desse boom cultural, eu vi que eu poderia contribuir com a divulgação dos nossos ritmos. Então, o meu primeiro álbum chamado Jua Abe, homônimo, ele tinha ritmos regionais: Carimbós, bregas, algumas influências também do Marabaixo, do Bumba Meu Boi. E aí, foi assim que eu comecei a desenvolver a minha personalidade artística. Me percebendo enquanto uma indivídua dentro de uma cena cultural que poderia contribuir de determinadas maneiras. A minha primeira contribuição foi essa, a partir desta divulgação dos ritmos regionais.
Dissonância: Qual principal acerto você acredita ter feito como artista até hoje?

Ju Abe: O meu principal acerto é um acerto coletivo. Porque é de uma equipe incrível que criou esta obra de arte, modéstia à parte, que é o nosso último lançamento, que é o clipe “Éden”. Ver a equipe tão empolgada e feliz com o resultado e quando a gente estava gravando, quando a gente tava dando corpo, aquilo que a gente já estava vendo que era incrível, desde a concepção do roteiro, foi uma sensação assim de sucesso muito grande, porque, quando a gente vê tantas pessoas felizes em torno de uma obra, é porque realmente essa obra, ela tá dando certo, né? Então, eu acho que foi o maior acerto, foi esse videoclipe. E ele sintetiza de uma forma nunca antes concebida, o que de fato a artista Ju Abe quer passar para o planeta. Que é uma discussão, uma contribuição dentro de um debate, digamos assim, planetário. Porque muito se fala hoje em meio ambiente, em mudanças climáticas, mas as implicações disso e a relação disso com a política, com a conjuntura política, com a conjuntura socioeconômica, é algo que eu, como disse, já na primeira pergunta, sinto que eu tenho muito a contribuir por conta desse histórico de militância política dentro dos movimentos sociais, porque eu, nós, estamos na Amazônia, eu, eu nasci na Amazônia e a gente como ninguém sente – e vamos sentir mais –, quando este bioma é destruído ou quando ele está ameaçado. Então, nós aqui todos sentimos essa missão de lutar por ele, de lutar pra reverter o seu processo de degradação. Mas as implicações socioeconômicas disto e o sistema político como que ele contribui pra isso, é algo que eu sinto que eu posso contribuir muito. Então, esse clipe ele traz tudo isso, ele traz uma contribuição pra essa temática climática, pra esse debate sobre o meio ambiente, a Amazônia, mas de uma forma profunda, né? As implicações sociopolíticas e econômicas; quais são as camadas geopolíticas, sociais, econômicas dentro dessa discussão climática e qual a importância disso para a própria preservação da espécie humana e como nós, amazônidas, podemos contribuir com isso para o mundo, podemos contribuir dentro deste debate. Então, o clipe Éden ele traz tudo isso, traz essa nossa, essa pequena grande contribuição para todo este debate, enquanto pertencentes à região amazônica, a um povo que tem muito a dizer para o mundo.
Dissonância: Qual erro você espera não cometer mais como artista?

Ju Abe: Um erro que eu cometi muito e que eu espero não cometer mais é ter me visto como uma artista isolada. Então, era como se a Ju Abe quisesse trazer um produto que fosse simplesmente personalista, que trouxesse somente ela, algo dito somente por ela, como uma coisa única e, na verdade, não. Hoje, eu compreendo que a artista Ju Abe ela é apenas uma peça dentro de um grande quebra-cabeça chamado cultura amazônica; e eu sou apenas uma peça dessa engrenagem. Sem essa peça, a engrenagem talvez não funcione bem e, com essa peça, ela pode funcionar muito melhor. Então, a peça não é nada sem o todo. Então, é isso que resume o meu entendimento enquanto artista hoje. Eu não sou nada sem o todo. Eu tenho algo a contribuir com o todo para que esse todo forme a sua grande contribuição planetária chamada cultura amazônica. E eu não quero mais me ver como alguém isolado que tem em si a sua contribuição. Não. Eu sou porque eu sou um coletivo. Eu, junto com outras pessoas, eu posso transmitir, posso causar uma ferida no planeta, digamos assim, né? Então, eu não quero mais me ver como essa artista isolada. Eu quero me ver como uma artista que está contribuindo dentro de um cenário que é maior do que eu.
Dissonância: Qual a mensagem que a Ju Abe quer passar com sua obra?

Ju Abe: Essa mensagem, ela tem camadas políticas, espirituais, existenciais, éticas, e nós todos que trabalhamos com arte, a gente contribui com aquilo que é a nossa história. Então, a minha história é de uma família de militantes. Militantes da esquerda. A minha mãe, ela foi de partido comunista. Meu pai conheceu ela nesta militância e foram juntos de um jornal aqui de Belém chamado Resistência, que foi um jornal que, por um tempo, foi clandestino na época da ditadura militar. Que hoje não existe mais, mas os seus dissidentes viraram grandes jornalistas, como a Cristina Serra, por exemplo, que é uma jornalista grandiosa daqui da terra. Então, esse histórico de militância na esquerda dos meus pais me constituiu enquanto um ser que, com uma consciência que deve ser compartilhada. Uma visão do cenário político, dos riscos que a nossa democracia sofre e, portanto, eu me vejo assim, dentro da cena, como alguém que pode trazer uma compreensão mais profunda do nosso cenário político, do nosso contexto histórico, da nossa conjuntura sócio-econômica para que outros artistas ou formadores de opinião, intelectuais, professores, se inspirem em mim para tentar compreender o que está acontecendo ao nosso redor e para, com isso, reverter esse quadro de injustiça social e de desigualdade. Então, a mensagem que eu quero passar é uma mensagem de consciência crítica sobre a realidade que nos cerca. E para que com isso a gente consiga reverter essa ameaça planetária que nós hoje sofremos, com a Amazônia sendo a última floresta, um bioma preservado da terra, com essa ameaça climática, com essas injustiças e essas desigualdades sociais tão acentuadas. Então, uma consciência mais profunda desse contexto para que a gente possa encontrar os caminhos da mudança. Então, os caminhos da mudança, e quais esses caminhos e como nós podemos percorrê-los. Esta mensagem que acaba sendo mais uma indagação. Mas uma indagação que, apesar de não ter uma resposta pronta para ela, mas ela ao menos levanta o questionamento de que é preciso insurgir, é preciso se rebelar, é preciso não aceitar o status quo, é preciso querer mudar e é preciso agir para isso.
Dissonância: O que podemos esperar da Ju Abe para o futuro?

Ju Abe: A Ju Abe do futuro ela quer aprimorar essa consciência de si enquanto contribuidora para a cultura amazônica, mas uma cultura amazônica disruptiva. Eu vou me juntar com pessoas, artistas, e vou atrair para mim a cultura disruptiva, porque eu não penso em fazer uma arte para manter as coisas como estão, não. A minha arte, ela quer contribuir para a transformação, porque eu acredito que o mundo do jeito que está não pode continuar, senão a Amazônia vai ser destruída e a gente vai sofrer muito, quiçá até ser sermos extintos daqui da face da terra. Então viver tendo que explicar para os nossos filhos, para os nossos descendentes, porque é que tem tantas pessoas na miséria e tanta gente, tão pouca gente tendo tanto e tantas pessoas tendo tão pouco. Essa imensa desigualdade, essa imensa mazela social e essa destruição desenfreada da natureza, esse modo de viver consumista. Eu não acredito que isso deva continuar. Eu acredito que isso tem que parar. Nós precisamos reverter esse quadro. E a artista Ju Abe vai entregar sempre obras que estejam sintonizadas com esse propósito, o propósito de mudança, de transformação, de revolução. Com certeza eu não atrairei obras ou não atrairei para mim, ao meu redor, nada que esteja querendo manter o status quo. Eu quero entregar cada vez mais esse compromisso com a mudança e quero ter a oportunidade de apresentar cada vez obras mais sintonizadas nesse propósito e que consigam dialogar com esse debate todo, que consigam dialogar de forma profunda com todo esse debate planetário, todas essas questões que precisam vir à tona. Então é isso que eu quero, entregar obras cada vez mais sintonizadas com esse propósito.

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