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Laís Gomes: A Costureira das Próprias Sombras

Por Clara Mello

laís gomes com violão
Foto: Julia Ferraz

Tem uma cena que Laís Gomes carrega desde a adolescência. O carro cortando a estrada para Piripiri, no Piauí, e ao lado da janela um carnaubal se abrindo a perder de vista. Ela anotou nos cadernos. Virou verso. Virou canção. É assim que essa mulher funciona: coleta imagens do mundo, guarda no corpo e devolve em música. E para quem acha que esse processo é simples, o EP "Costurando a Sombra" foi entregue ao mundo com o objetivo de mostrar que não.


Ao estudar a história de vida da Laís, deparei-me com a palavra "cantautora", nunca tinha visto ou ouvido falar dessa palavra, um neologismo muito doce, fofinho até, mas muito verdadeiro e autoexplicativo. Ela canta (e canta muito diga-se de passagem) e é uma autora/compositora cheia de dotes linguísticos que me fez voltar no tempo e gostar de ouvir música boa de novo.


Laís gomes criança

Laís Barbosa de Sousa Gomes nasceu em Teresina e chegou a São Paulo aos cinco anos. Terceira de cinco filhos, cresceu num lar onde música e palavras eram normais. O pai, músico, escritor e ator, recebia seus primeiros versos, já que ela começou a compor aos 13.


Aos poucos, a canção se tornou o principal meio de organizar inquietações, afetos e contemplações. Ainda assim, a música não parecia um caminho simples de sustentar. Laís decidiu estudar Psicologia, área que também despertava interesse pelo autoconhecimento e pela escuta humana.


Durante anos, as duas identidades coexistiram.


laís gomes no SUS
Laís Gomes psicóloga no SUS

De dia, a psicóloga atuando no SUS. À noite, a compositora produzindo shows independentes, estudando canto, escrevendo letras e tentando compreender o funcionamento rude do mercado musical contemporâneo.


“Um tempo depois, trabalhando como psicóloga, eu fui me dando conta do quanto a minha visão do mercado da música estava antiquada, fantasiosa, muito desatualizada. E eu me dei conta de que eu teria que fazer muito mais e que eu teria que fazer alguns movimentos mais radicais”
laís gomes tripas coração
Tripas Coração (2019)

A escolha pela psicologia na universidade poderia ter sido uma despedida silenciosa da música. Pois é, não foi. Ela cursou, se formou em 2019, atuou no SUS e, durante tudo isso, compôs o álbum "Tripas Coração", lançado naquele mesmo ano em parceria com o violonista João Vasconcelos, seu parceiro musical desde 2018, hoje também parceiro de vida (isso é tão lindo, achar o parceiro para essa longa estrada da arte).


lais gomes esfinge coração
Esfinge do Sertão (2017)

Antes de Tripas Coração, Laís lançou o EP intitulado "Esfinge do Sertão". É um disco lado B que não se encontra mais nas lojas de streaming. É tipo aqueles discos que se tornam raros e, a cada vez que a gente ouve, descobre alguma coisa diferente. Eu tive que recorrer ao Soundcloud para conseguir ouvir.


A coragem desses movimentos aparece diretamente em sua obra. Se Tripas Coração (2019), já mergulhava em temas como morte, descoberta de si e relações humanas, "Costurando a Sombra" parece ir ainda mais fundo.

lais gomes costurando sombra
Costurando a Sombra (2024)

O disco é quase um quarto escuro iluminado apenas por pequenos lampejos de consciência. As canções falam de silêncio, solidão, deslocamento e identidade. Na letra de “Movediça”, os estados emocionais oscilam entre o sossego e o desejo.


Se o sossego me movediça

E me afasta de lá de fora

A vontade não se demora

E me iça


Se a vontade só me balança

Numa dança turva e calma

Já vem o desejo da alma

E me lança


Se o desejo também tortura

Por que nada é suficiente

O sossego é paciente E me cura



laís gomes violão

Em 2020, venceu um concurso promovido por Francis Hime nas redes sociais: entre mais de 500 letristas inscritos, sua letra "Terra e Céu" foi a escolhida pelo compositor para ganhar melodia.


Parecia um caminho traçado: consultório no SUS de dia, criação à noite.


E é aí que as coisas começam a ficar mais interessantes.


Porque não era suficiente. Em 2023, Laís tomou a decisão da vida: deixou o emprego fixo.


laís gomes despedida do sus
Despedida do SUS
“Minha saída do emprego de psicóloga foi em 2023. Querendo ou não, é um marco para mim de uma decisão de assumir as consequências dessa escolha.”

A frase pode até parecer romântica para alguns, mas carrega um peso que só os artistas mais corajosos conhecem, largar o emprego para seguir seu sonho. Um amigo (não vou citar o nome dele aqui pra ele não ficar se achando) sempre diz que "música não é seguir sonhos, é atender um chamado", e advinha: ela atendeu a esse chamado.


laís gomes
Foto: João Valério

Aqui não quero falar de “força da mulher” como se fosse um slogan de empoderamento fácil, por que não é. A parada é dura, o buraco é mais embaixo, uma artista com contas para pagar e agenda para tocar sozinha.


É justamente nesse ponto que Laís se torna símbolo de uma geração de mulheres artistas que aprenderam a construir suas carreiras sem proteção institucional, sem atalhos e sem promessas fáceis de mercado. Sua música nasce de um território interno profundamente feminino, onde fragilidade e resistência não se anulam, coexistem.


laís gomes na sombra

Costurando a Sombra nasce exatamente desse lugar. Nas faixas, Laís usa rios do Nordeste (“Cabe a Mim”) como metáforas de reconciliação noturna com o dia vivido.


“Eu me lembro de ter tido vontade de carregar comigo um pouco mais desse repertório simbólico e imagético desse estado onde eu nasci”

Em “Costurando a Sombra”, as letras vão direto ao ponto: a arte de ser mulher, o nó na linha fina que quase arrebenta a espinha, o sentimento de não pertencer nem a si mesma. O álbum inteiro é pura poesia, daquelas que espantam assombros e os costurando na sola dos pés. Não gosto de gastar adjetivos à toa, mas esse álbum merece um "divino", sem dúvida.


“Quando eu escrevo, eu não escrevo como psicóloga, não tem teoria, tem uma poeta muito desprevenida, às vezes inquieta, às vezes muito contemplativa”

Ela faz questão de separar as coisas. E é justamente aí que enxergo a singularidade da compositora: seria fácil, e até natural, usar a psicologia para enfeitar as canções, mas ela não descansa nesse travesseiro quentinho. Usa a escuta, de si e dos outros, para afiar o olhar sobre o que dói quieto.


laís gomes cantando

Viver de música independente no Brasil cobra caro e traz responsabilidades desafiadoras. A contrapartida dessa responsabilidade toda é a propriedade: ela é dona dos próprios fonogramas. Pode fazer com o trabalho o que decidir. Em 2025, estreou no auditório do Sesc Pinheiros com banda. Dividiu palco com Socorro Lira. Participou do Chiquinha Gonzaga Fest, festival de Santos dedicado ao protagonismo de mulheres na música.


lais gomes xangai

Em 2026, inaugurou um show inteiro em homenagem ao álbum "Cantoria" (Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai), mostrando que artista independente pode também ser guardiã de repertório alheio sem abrir mão do próprio. A autonomia é visível e real, dona das próprias escolhas. Entretanto, essa independência vem com a conta.

“Os maiores desafios para mim são tornar a carreira sustentável, financeiramente, estruturalmente, e, também, um acúmulo de muitas funções que a gente precisa assumir”
laís gomes com camisa O Outro do Outro

Nas suas letras enxerguei a reflexão acerca desses desafios. A canção "O Outro do Outro", por exemplo, sintetiza algo que atravessa toda a obra de Laís: a convicção de que o "eu" é uma ficção útil. "É um mar de gente. Eu sou apenas um outro para alguém", ela explica. Isso que parece desconforto existencial é, na prática, uma postura artística: a de quem se desloca deliberadamente da própria perspectiva para enxergar o que está do outro lado. Uma compositora que escreve sobre si mas alcança todo mundo.


“Tenho a liberdade, por outro lado, de fazer escolhas artísticas que me respeitem.”

É justamente isso que transforma Laís Gomes numa personagem tão importante para esta décima edição da Revista Dissonância. Além da qualidade de suas canções, sua trajetória representa uma mulher que busca viver artisticamente na sua inteireza.


Uma mulher que, ao deixar o divã, escolheu tratar além das dores, escolheu cantá-las, transformando a superação em arte e a arte em liberdade.


laís gomes entrevista exclusiva


laís gomes página bio-discográfica


Assista ao clipe de Camadas (Ao Vivo) de Laís Gomes:


Música: João Vasconcelos

Letra: Laís Gomes

Gravado na Casa de Artes, em São Paulo - SP.


Ficha Técnica:

Voz: Laís Gomes

Guitarra: João Vasconcelos

Baixo: Victor Mocellin

Bateria: Fê Matheus

Piano: Vini Gomes

Luz: Ju Cardoso

Som: Vítor Gomes

Vídeo: Rawziski


Letra:

Camada por camada, quis arrancar o mundo de mim

Como quem quer encontrar um caroço dentro da cebola

A essência originária, incontaminada de mim

Como quem quer encontrar a ponta, o vértice da bola


Dois é bom, demais é três

E mesmo quando somos cem

Sei que eu sou todos vocês

E que não me pareço com ninguém


Semelhança que trás

Diferença também


Caminhos, caminhadas, cruzamentos, berços de nós

Águas passadas guardadas na memória de um moinho

Camada por camada, tudo são fronteiras em nós

Desavisados de cada atravessamento clandestino


Dois é bom, demais e três

E mesmo quando dou o zoom

Vejo tudo de uma vez

E haja qual pra tanto cada um


Cada ser que se faz

Desigual, incomum


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