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Laís Gomes em dissonância: entrevista exclusiva

laís gomes entrevista exclusiva

Laís Gomes é psicóloga, professora de canto, letrista, cantautora e produtora dos próprios shows, é o tipo de artista que acumula formações com a mesma naturalidade com que acumula composições. Nascida em Teresina (PI), ela cresceu entre versos do pai e acordes de casa, começou a compor aos treze anos e, desde então, não parou mais, mesmo quando o consultório do SUS ocupava boa parte do dia. Em 2023, trocou a estabilidade da psicologia clínica pela incerteza calculada da música em tempo integral. Conversamos com ela sobre geografias afetivas, parceria criativa e a diferença entre escrever como psicóloga e escrever como poeta.


Dissonância: Você nasceu em Teresina (PI) e mudou-se para São Paulo ainda criança, mas sua música frequentemente evoca imagens geográficas e afetivas do Nordeste. Na canção "Cabe a Mim", você cita os rios São Francisco e Parnaíba. O que você traz daquela época que influencia sua vida até hoje?


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InfluênciasLaís Gomes

Laís Gomes: Depois que a gente se mudou para São Paulo, meus pais, com meus irmãos e eu, a gente viajou algumas vezes para o Piauí, em períodos de férias, principalmente durante a minha adolescência, até os meus 20 anos. E foi nessas viagens para lá, eu já um pouco maior, que eu me lembro de ter tido vontade de carregar comigo um pouco mais desse repertório simbólico e imagético desse estado onde eu nasci, embora já morando tão longe de lá há tantos anos. A cada viagem que a gente fazia para lá, eu reparava em alguma coisa nova, que me encantava e anotava nos meus caderninhos. Então, por exemplo, a minha mãe nasceu numa cidade chamada Amarante, que fica à margem do rio Parnaíba. E eu me lembro de ter estado ali na margem desse rio, pelo menos uma vez, me lembro da cena. Também me lembro de um poema do poeta Da Costa e Silva, que se chama Saudade, muito bonito, onde ele cita o nome desse rio, Parnaíba. Inclusive, meu pai chegou a musicar esse poema. E aí, quando eu fui escrever A Cabe a Mim e fui usar, fui usar essa metáfora da lágrima descendo até o ouvido, como se fosse um rio, eu pensei, se eu for falar de algum rio, vai ser desse, né? E também falei do Rio São Francisco. Numa outra canção minha, inédita, eu falo de Carnaúba. E eu me lembro da cena, indo de carro para Piripiri, que é a cidade natal do meu pai, a gente olhando para a estrada e ao nosso lado, um carnaubal a perder de vista. Também foi uma cena que me marcou e entrou num verso. Então, eu acho que essas imagens são formas de eu tentar me conectar e tudo isso se dilui na maneira como eu escrevo, na minha imaginação, na minha inspiração.

 

Dissonância: Vindo de um lar repleto de música e sendo filha de um artista multifacetado, você começou a escrever cedo seus próprios versos. Em que momento você decidiu escrever além das ‘poesias despretensiosas’ e se tornar uma "cantautora” profissional?


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A DecisãoLaís Gomes

Laís Gomes: Eu acho que essa decisão foi sendo tomada e atualizada em diferentes momentos. Eu lembro de mim na faculdade de psicologia pensando: "Como é que eu vou fazer para que meu trabalho seja a minha música?" E um tempo depois, trabalhando como psicóloga, eu fui me dando conta do quanto a minha visão do mercado da música estava antiquada, fantasiosa, muito desatualizada. E eu me dei conta de que eu teria que fazer muito mais e que eu teria que fazer alguns movimentos mais radicais. Então, eu me programei para deixar o meu emprego e poder me dedicar muito mais à música, à venda de shows, a trabalhar lançamentos e aprender sobre o mercado da música hoje, que é algo que muda muito e no meio do artista independente tem muitos desafios. Então, eu acho que essa decisão foi se tornando mais concreta, mais instrumentalizada. A minha saída do emprego de psicóloga foi em 2023. Querendo ou não, é um marco para mim de uma decisão de assumir as consequências dessa escolha.

 

Dissonância: Além de artista, você é psicóloga e já atuou no SUS. O EP "Costurando a Sombra" é descrito como um trabalho confessional que trata da "subjetividade e sofrimento como um sussurro". Na faixa-título, você fala sobre a dificuldade na "arte de ser mulher" e a sensação de não pertencer. Esse “trabalho confessional” pode ser visto como uma forma de análise clínica de suas próprias inquietações?


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A Arte de Ser MulherLaís Gomes

Laís Gomes: Eu diria que é uma análise poética, se puder colocar dessa forma. Às vezes as pessoas perguntam sobre isso. É lógico que uma coisa influi na outra porque eu sou uma só. Mas quando eu escrevo, eu não escrevo como psicóloga, não tem teoria, tem uma poeta muito desprevenida, às vezes inquieta, às vezes muito contemplativa. Eu fiz 10 anos de análise e sei que ainda vou voltar em algum momento. Também amo fazer atendimentos clínicos, amava discutir casos. E lógico que muita coisa aí no meio disso me inspira sobre os meus processos e sobre as pessoas que eu escuto. Mas, ainda assim, cada coisa tem o seu lugar.

 

Dissonância: Sua parceria com o violonista João Vasconcelos vem desde 2018, resultando no álbum "Tripas Coração" e, agora, em uma parceria de vida. De que forma essa simbiose pessoal e profissional afeta a sonoridade e a escolha dos temas explorados?


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O ParceiroLaís Gomes

Laís Gomes: A gente aprende muito um com o outro e com o passar dos anos, a gente foi ficando cada vez mais afinados, se entendendo cada vez mais no processo de compor as nossas parcerias. De um lado, ele me ensinou muito sobre escolhas de acordes, harmonia, a relação da harmonia com a melodia. E eu ia falando pra ele sobre as letras, a importância das escolhas dessa ou daquela palavra, os temas, os sentidos, de tal modo que agora estamos compondo uma música nova em que ele tá fazendo a maior parte da letra pela primeira vez. Eu fiz a melodia, ele fez a harmonia, é uma mistura só nossa. E a gente se incentiva muito um ao outro nesses movimentos. Cada um também tem suas criações individuais, mas a nossa busca juntos é sempre para os dois crescerem como compositores.

 

 

Dissonância: Na música "O Outro do Outro", você propõe uma reflexão filosófica sobre a identidade: "Sou outra pessoa pra qualquer um e eu somente para mim". Qual é a origem dessa inquietação sobre como somos percebidos pelo mundo?


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O Outro do OutroLaís Gomes

Laís Gomes: Eu sempre tive uma certa curiosidade e uma abertura com a possibilidade de enxergar um ponto de vista que seja diferente do meu. Como se eu pensasse assim, tá, essa é a minha opinião sobre esse assunto. Agora eu vou deixar ela de escanteio e vou imaginar, se eu estivesse no lugar daquela outra pessoa que pensa daquele jeito, qual seria a minha história de vida para que eu pensasse assim? Ou então, se eu tivesse que discordar de mim mesma, quais seriam os argumentos? Isso vai me ajudando a me deslocar de quem eu sou momentaneamente. Como se por um momento eu, essa pluralidade de visões de mundo por si só formassem uma obra, um quadro, vamos supor. Eu tô diante desse quadro, observando as suas texturas, as suas cores, as suas contradições. E na “O Outro do Outro”, eu acho que eu dou um passinho a mais nessa minha viagem, porque é como se a própria palavra eu por si só pudesse ser paradoxal nessa brincadeira que eu faço na letra, mas que é uma brincadeira séria também, porque afinal não costuma ser muito confortável pra gente constatar a nossa insignificância numérica como indivíduo. E a música tá dizendo, olha, é um mar de gente. Eu sou apenas um outro para alguém.

 

Dissonância: Você passou a se dedicar exclusivamente à música em 2023, produzindo seus próprios shows e circulando por unidades do Sesc e festivais. Quais são os maiores desafios e as maiores liberdades de ser uma artista independente no Brasil atual?


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Os DesafiosLaís Gomes

Laís Gomes: Os maiores desafios para mim são tornar a carreira sustentável, financeiramente, estruturalmente, e, também, um acúmulo de muitas funções que a gente precisa assumir como artista independente, pensando na nossa produção, na nossa divulgação, em várias frentes. E tenho a liberdade, por outro lado, de fazer escolhas artísticas que me respeitem, também a liberdade de ser dona dos meus fonogramas, poder fazer com eles, com minha obra, aquilo que eu decidir. E quanto mais liberdade, mais responsabilidade também. Então, vou seguindo nessa balança. Mas acho importante comentar que eu me dedico majoritariamente à música. A psicologia, assim como algumas aulas de canto que eu dou, ainda ocupam um pequeno espaço no meu dia a dia. É como uma transição lenta, que já teve passos grandes, importantes, mas que ainda existe. Nessa transição, a psicologia e as aulas de canto já ocuparam um lugar muito maior. E cada vez ocupam um lugar mais secundário, e os meus shows, as minhas produções, meu trabalho autoral, artístico, ganha mais destaque e ocupa mais o meu dia a dia.

 

Dissonância: O que podemos esperar para 2026?


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O FuturoLaís Gomes

Laís Gomes: Eu procuro estar sempre fazendo shows, a cada ano um pouco mais, ter esse contato direto e presencial com o público, ganhar tempo de estrada, experiência e fazer disso a estrutura do meu trabalho. Então, quem me acompanhar, vai me ver falando de show, divulgando show e vai ter oportunidade de me assistir ao vivo, dependendo de onde estiver, para mim, vai ser uma alegria. E além dos meus shows autorais, esse ano, mais do que de costume, eu tenho me dedicado a algumas referências musicais minhas, que eu carrego comigo desde muito tempo. Então, criei um show em homenagem ao álbum Cantoria, do Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai, que na verdade, são dois volumes, Cantoria 1 e Cantoria 2. Estreamos esse show em São Paulo, vamos passar por Vitória da Conquista agora em junho, temos data no segundo semestre pra Campinas e seguimos tentando marcar mais. Também tenho feito em unidades do Sesc, um show onde eu homenageio diversos autores e autoras nordestinas, mas mesmo nesses shows você vê ali a Laís cantora, tem sempre algumas outras canções minhas no meio. E para além disso, tenho muita música nova, eu tô sempre compondo. Acredito que para além de 2026, venha um novo trabalho, um novo álbum, é algo que eu já tô sonhando aqui e que o João tá sonhando junto comigo. Claro que tem todo um planejamento, todo um processo para se chegar num novo trabalho, assim, mas eu diria que a fase preliminar desse processo já tá acontecendo aqui nos bastidores. E conforme as coisas vão acontecendo, eu gosto muito de ir conversando com as pessoas que me acompanham, compartilhando nas minhas redes. Então, quem me acompanhar, vai saber, tintim por tintim.


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