O Bardo e o Banjo, a coragem de começar na Paulista e continuar
- Tião Folk
- 6 de mar.
- 9 min de leitura
Por Tião Folk, 04/03/2026

Dizem que o brasileiro médio só reconhece um banjo se ele estiver acompanhado de um pandeiro e uma grade de cerveja morna. Mas em 2012, na Avenida Paulista, Wagner Creoruska resolveu testar a paciência paulistana com uma proposta diferente: o bluegrass. Para quem faltou na aula de geografia musical, o bluegrass é aquele primo grosso do country que nasceu nos Apalaches, fruto de uma suruba sonora entre imigrantes irlandeses, escoceses e a rebarba do blues. É música de quem tem calo na mão e história no gogó.
Um sujeito desceu no túnel do metrô Paraíso com uma mala, um banjo e uma dúvida enorme. “Eu cheguei no lugar onde eu pensei que ia montar minhas coisas e não conseguia tirar o banjo do case”, lembra Wagner Creoruska. O que travava não era o instrumento, era a pergunta que todo artista já fez em silêncio: o que é que as pessoas vão pensar?

O destrave veio com o sorriso de uma senhora anônima, a primeira fã oficial da "caipirice transatlântica", que validou o que viria a ser O Bardo e o Banjo. Ela não pediu o setlist, não perguntou se ele era americano, perguntou como poderia encontrá-lo de novo. E sorriu. Foi o suficiente. Wagner entendeu que ali, na aceitação espontânea da rua, havia algo que nenhum contrato de gravadora poderia garantir.

Entre 2013 e 2015, Wagner Creoruska tocou nas ruas com o amigo Antônio Zadua no violino.
"A rua é um grande laboratório para ideias de show, de apresentação, para o crescimento do artista. Porque ali você tá lidando com reações muito espontâneas, muito verdadeiras"

Dali em diante, o intento ganhou corpo com a chegada de Marcus Zambello no mandolim, e o que era um experimento virou uma banda que misturava bluegrass americano com toques brasileiros, sem forçar a barra. E assim nascia o Bardo e o Banjo, o projeto, que hoje estampa a capa desta sétima edição da Dissonância, que por si só já é uma a prova de que a teimosia é a mãe da arte.
A banda, que já foi um quarteto nômade e hoje se concentra no núcleo duro formado por Wagner e o fiel escudeiro Marcus Zambello, construiu uma carreira fugindo do óbvio.

Enquanto o mercado fonográfico tenta adivinhar o que o algoritmo quer comer no café da manhã, eles foram para a esquina da Paulista com a Augusta passar o chapéu. E deu certo. Tão certo que o primeiro EP, Synergy (2013), foi financiado integralmente por moedas de transeuntes. É o crowdfunding raiz, antes de virar termo de startup da Faria Lima.
O que é esse som?
Bluegrass. A palavra soa estrangeira, e de fato é. É um gênero que nasceu nas montanhas do sul dos Estados Unidos nos anos 1930, fruto do encontro entre imigrantes irlandeses e escoceses com a musicalidade negra do sul americano. Banjo, bandolim, violino, baixo acústico, todas essas caixas de madeira que não precisam de tomada para cantar. Mas antes que alguém comece a falar em "colonialismo cultural", vale uma reflexão: o Brasil também tem seu bluegrass, só que a gente chama de moda de viola.

Wagner explica essa convergência sem pretensão de academia:
"Esse tipo de som é muito comum no sul dos Estados Unidos, pois foi quando as famílias irlandesas migraram para lá e trouxeram histórias de uma terra distante no formato musical".
Mas não se engane: apesar dos coletes e dos instrumentos que parecem saídos de um episódio do Pica-Pau, a alma do Bardo é brasileira até a medula. O folk e o bluegrass deles não é uma cópia carbono do Kentucky.

Ao transitar para o português no álbum O Tempo e a Memória (2018), a banda fincou o pé na terra roxa. Existe uma linha muito clara que liga as baladas de beira de estrada americanas às nossas modas de viola. É o foco na narrativa, no "causo", na vida. A mesma lógica que faz um violeiro de Minas contar histórias de estrada faz um tocador de banjo do Kentucky narrar suas travessias. Ambos usam a narrativa como foco de arte, ambos falam de estradas, de saudade, de voltar para casa.

Marcus Zambello, parceiro de Wagner desde os tempos de rua e único membro fixo ao lado do fundador na formação atual, completa o raciocínio com a prática de quem já viu bastante: "O diferencial é que, além de fazer essa junção, nós lançamos nosso segundo álbum, O Tempo e a Memória, com músicas autorais, cantadas em português. É novidade no País". Na prática, a banda operou uma espécie de transplante cultural: pegou a estrutura do bluegrass e colocou para falar português com sotaque de quem cresceu ouvindo rock nacional.
Quando o banjo aprendeu a falar português
No início, as músicas eram em inglês. Fazia sentido: o repertório de bluegrass tradicional está todo lá fora, e Wagner aprendeu a tocar ouvindo os mestres americanos. Mas em algum momento da trajetória, a banda percebeu que precisava ser mais honesta consigo mesma. "Grande parte das músicas eram em inglês, aí a gente passou para ser quase tudo em português", conta Wagner.
"Teve essa transição de se achar também no português, mas a gente tava curtindo fazer as músicas em português, porque esse tempo todo a banda não parou para compor, a gente tava nos shows."
A transição não foi nada óbvia. Imagine explicar para uma plateia que sempre associou banjo com filmes de faroeste que aquela música sobre "semente caindo de uma árvore" é na verdade uma metáfora sobre crescimento pessoal escrita em português. Mas funcionou. Wagner conta que as composições nasciam das experiências vividas:
"Cair e Crescer foi feita durante uma viagem que a gente tava em Paraty, saía pra tocar na rua todo dia à noite, aí a gente passava, ficava num camping de manhã no meio da natureza, no meio do mato lá, saía pra tomar um café da manhã e via aquele mato, as coisas, iam surgindo as ideias, e aí catava o banjo, compunha alguma coisa ali."
A letra de "Alvorecer" veio de uma madrugada sem sono. "Essa música nasceu numa madrugada, assim, não tava conseguindo dormir, levantei e falei, 'Puts, o que eu vou fazer? Vou tocar banjo'. Vou lá e comecei a compor e fui começando a pensar, os pensamentos foram lá longe e voltaram com essa letra." É difícil não ver aí uma espiritada com a tradição dos violeiros que compunham nas madrugadas, iluminados apenas pela luz de vela e pela necessidade de colocar a alma para fora.
A narrativa é o foco, assim como na moda de viola do interior brasileiro. O bardo conta histórias, seja sobre a Kombi Angelina que carregava a banda pelas estradas, seja sobre o sentimento de voltar para casa após meses na estrada em "Hometown". É música de tradição oral, só que com um pé no Lollapalooza e outro na calçada da Paulista.
A liberdade como conceito (e como mala)
Quem vê a banda hoje, tocando em festivais como o Lollapalooza e aparecendo em programas de TV, pode não imaginar que tudo começou com uma decisão logística. Wagner vinha do universo da guitarra elétrica, com pedais, amplificadores e uma dependência tecnológica que qualquer roqueiro conhece bem. Mas a guitarra desplugada não tem o mesmo som, e isso o incomodava.
"Você pegar para tocar uma guitarra desplugada, você não tem a mesma sonoridade. Você tem que estar ali com algum pedalzinho ou alguma coisa para fazer a guitarra soar do jeito que você gostaria que ela soasse. O banjo, o violão, o violino são todos instrumentos acústicos, então você não depende dessas coisas, desses outros dispositivos ao redor. Você consegue simplesmente pegar o instrumento e fazer o som."
Daí nasceu a ideia da mala bumbo, aquela coisa que parece um equipamento de lavanderia mas que na verdade é um kit de percussão portátil. Wagner resume a filosofia: "Você poder colocar a maior parte das suas coisas que você for levar dentro dessa mala, você leva o banjo e a mala, você consegue viajar o mundo fazendo música."
O perrengue de Chicago (ou: quando a burocracia vira música)
Nem tudo foram estradas abertas e sorrisos de senhoras no metrô. Em 2014, a banda viveu um episódio que parecia roteiro de filme ruim: foram detidos no aeroporto de Chicago e deportados dos Estados Unidos, para onde iam fazer uma turnê. Tinham visto de negócios e turismo, mas os agentes de imigração exigiam visto de trabalho. "Nós tiramos o visto de negócios e turismo, mas eles exigiram o de trabalho. Tínhamos guardado dinheiro para a viagem com as apresentações nas ruas. Foi um baque. Havia tantos planos. Não sabíamos o que fazer. Acabamos presos no aeroporto de Chicago e retornamos um dia depois. Fomos levados para uma cela com quatro camas e um banheiro sem porta", lembra Maurício Pilcsuk, que era baixista da banda na época.
A frustração poderia ter terminado em resmungos de bar e nada mais. Mas a banda fez o que qualquer artista de nicho faz quando a vida dá um tombo: transformou em arte. A nona faixa do álbum Homepath fala justamente sobre a dificuldade de viver de música e de como tudo é burocrático. É o bluegrass fazendo o que sempre fez: contar histórias de gente comum enfrentando obstáculos que parecem maiores que a vida.
O gato barbudo (e por que ele importa)

Todo projeto que se preza tem um símbolo, e O Bardo e o Banjo tem um dos mais curiosos do cenário musical brasileiro: um gato barbudo, de chapéu característico, cabelão e barba que qualquer hippie dos anos 70 invejaria. Não foi acidente. "Foi baseado sim na ideia de ser o gato, ser o bardo. O Wagner, no caso, eu, porque o logotipo veio depois, então eu já tinha começado a tocar", revela Wagner. O artista, amigo português que mora em Portugal, foi perguntando o que Wagner gostaria, e da conversa nasceu aquele gato que parece ter saído de uma versão alternativa de "Alice no País das Maravilhas" dirigida por um fã de folk rock.

O curioso é que a imagem grudou. "A camiseta que a galera mais gosta é a camiseta do gato. Tem gente que tatuou o gato também, então, é uma coisa que não tem como desatrelar da história do Bardo e o Banjo essa imagem, essa ilustração." Ter um símbolo que as pessoas decidiram tatuar na pele fala mais sobre conexão do que qualquer estratégia de marketing.
O nicho que veste (e que é maior do que parece)
Viver de bluegrass no Brasil não é para quem precisa de certeza na vida. É um nicho, Wagner sabe disso. "Música que é feita para ser vendida, para ser ouvida pelas grandes massas, entendeu? E o lance do autoral, acho que é muito importante." Mas nicho não significa irrelevante, e a prova está na longevidade da banda, nos shows pelo Brasil todo, no Bandjo Camp Brasil que Wagner organiza para reunir tocadores de banjo que conheceram o instrumento através da banda.
Há também uma crítica velada, mas afiada, ao cenário musical atual.
"Depois a gente vê um monte de banda aí que faz o cover, as coisas do jeito que a gente faz. Não que a gente tenha sido pioneiro, né? A gente já é reflexo de outras bandas que já faziam isso, mas, principalmente porque a gente construiu esse lance da música autoral, de escrever, de compor e de escrever e de trazer ali o sentimento pra dentro das músicas, não só apenas ser uma vitrola reproduzindo as músicas das outras pessoas."
E o que vem por aí?
Para 2026, a promessa é manter a essência. "Eu acho que as pessoas, elas podem esperar que a gente, de repente, vá aparecer na esquina da rua delas, fazendo música, sem muito compromisso. A gente tem muito essa vontade de fazer isso", adianta Wagner. Há músicas novas engavetadas, projetos em desenvolvimento, e a mesma vontade de levar o som para quanto mais lugares melhor. A ideia continua a mesma de 2012: viajar leve e tocar onde der.
O Bardo e o Banjo e a Escolha da Capa

Selecionar O Bardo e o Banjo para a capa da 7ª Edição da Revista Dissonância é reconhecer que a música brasileira não precisa de fórmulas para ser relevante. Lembre-se que o mercado atual está obcecado por viralização e algoritmos. Indo na contramão de tudo isso, eles escolheram o caminho inverso: instrumentos acústicos, letras que contam histórias, e a paciência de quem sabe que arte se constrói na rua, no olho no olho, no sorriso de uma senhora que parou para ouvir.

Como Wagner resume: "A mensagem principal é essa da liberdade, você poder sair e fazer um som onde você quiser". Seja na Paulista, no Ibirapuera, ou na esquina da sua rua em 2026, o Bardo e o Banjo continua nos mostrando que, às vezes, tudo que você precisa é de um banjo, uma mala bumbo, e a coragem de não passar reto.
Veja o clipe oficial de O Diabo foi pra Georgia:
The Devil Went Down to Geórgia (O Diabo foi para Geórgia) é um clássico da música Country e Folk, um hit com o tema de violino mais famoso do Country Rock.
Nessa versão em português da música, interpretada pelo O Bardo e o Banjo, a banda traz pela primeira vez um duelo entre banjo e violino, em um vídeo clipe divertido e emocionante !
FICHA TÉCNICA
CLIPE
Direção - TCHÉ FRANCO
Produção - TCHÉ FRANCO e WAGNER CREORUSKA JR
Montagem - TCHÉ FRANCO
Câmera - TCHÉ FRANCO
Assistentes #1 - RAFAEL VICENTINI
Assistentes #2 - GABRIEL ROGICH
Assistentes #3 - CARLOS KZUZA
ATORES
Bardo ( Jovem ) - MURILO GOUVEIA
Bardo ( Adulto ) - WAGNER CREORUSKA JR
Diabo - MARCUS ZAMBELLO
Músico Celeiro #1 - IVAN VALLE
Músico Celeiro #2 - MARCUS ZAMBELLO
Músico Celeiro #3 - WAGNER CREORUSKA JR
Músico Celeiro #4 - RODRIGO ROSSIGNOL
Músico Demonio #1 - IVAN VALLE
Músico Demonio #2 - WAGNER CREORUSKA JR
Músico Demonio #3 - RODRIGO ROSSIGNOL
MÚSICA
Captação - WAGNER CREORUSKA JR
Mixagem- CESAR BENZONI
Voz Narrador (Bardo Adulto) - WAGNER CREORUSKA JR
Voz (Bardo Jovem) - MURILO GOUVEIA
Voz Diabo - MARCUS ZAMBELLO
Banjo - WAGNER CREORUSKA JR
Violão - WAGNER CREORUSKA JR
Violino - MARCUS ZAMBELLO
Baixo Acústico - IVAN VALLE
Washboard - RODRIGO ROSSIGNOL
Bandolim - RODRIGO ROSSIGNOL
🐺 Site Oficial: http://www.obardoeobanjo.com
♫ Spotify: https://goo.gl/69tvxo
🍎 iTunes: https://goo.gl/5GIOIS
✆ Loja Online: https://goo.gl/Gds2Cw

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