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Sérgio Lourenço em dissonância: entrevista exclusiva

Por Marcos Paulo, 04/04/2026

sérgio lourenço entrevista exclusiva

Quando Sérgio Lourenço decidiu, em 2016, reacender a brasa que ardia em silêncio desde sua formação em Artes, em 1993, não foi apenas um retorno à pintura: foi o reencontro com uma visão de mundo que ele havia adormecido sob o peso das responsabilidades da vida cotidiana. O que antes era hesitação transformou-se em gesto livre, e o artista redescobriu que a criação não é mero ofício, mas um campo aberto de possibilidades onde o emocional dita a forma. Nesta entrevista exclusiva à Revista Dissonância, Lourenço fala pela primeira vez sobre sua arte interativa, o processo em que o cliente entrega memórias, músicas e cores afetivas e ele as transmuta, por intuição e empatia, em atmosferas abstratas que pertencem a ambos. E vai além: revela como é ser um artista independente nas artes plásticas hoje, alguém que parte do isolamento, do desconhecido e da incerteza para transformar tudo isso em explosão de sentimentos.


Dissonância: Sérgio, sua relação com a arte começou no porão da casa de seu avô, observando seu tio-avô Raimundo Jaskulski pintar. Como o cheiro da tinta e aquele "território de encantamento" da infância ainda reverberam no seu processo criativo hoje?


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O ComeçoSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Eu tinha seis anos, uma fase que tudo é possível, a imaginar não tem limites. Ver meu tio-avô pintar, assistir a transformação da matéria em mundo, ah, isso era incrível. O cheiro da tinta, o silêncio, aquele ambiente criava um território de encantamento que permanece na minha mente até hoje. Foi ali que nasceu a percepção de que eu também podia criar. Ainda carrego esse impulso intuitivo, uma memória viva que segue guiando o meu processo artístico.

 

 

Dissonância: Você se formou em Artes em 1993, mas manteve a arte em "estado de latência" por muitos anos devido às responsabilidades da vida. Como foi conviver com essa "brasa sob a cinza" e o que mudou internamente quando a chama finalmente se reacendeu em 2016? O que te motivou?


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O RecomeçoSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Durante muitos anos, a vida me levou por caminhos de stand-arte, atuando na área comercial, com muitas responsabilidades. A arte acabou ficando adormecida, ficou em silêncio. E em 2016, tudo isso mudou, né? O retornar, o contato com o fazer artístico, algo se reacendeu de uma forma muito clara para mim. Passei a enxergar a arte como um campo de possibilidades, onde tudo que estava guardado podia ganhar forma. Foi esse o despertar, simples e direto, que me motivou a voltar, atravessar de vez o limite entre a intenção e a criação.

 

 

Dissonância: O encontro com o artista Geraldo Leão é citado como um marco para você atravessar o limite entre a "intenção e o gesto". Poderia nos explicar o que significa, na prática da sua pintura, esse momento em que a hesitação dá lugar à ação na tela?


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A Intenção e o GestoSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Isso tudo para mim soa como uma abertura interna. Foi uma explosão de ideias. Ao ouvir o Geraldo Leão falar sobre o processo, algo que ele organizou, veio uma clareza e eu sabia que era capaz. Na prática, o momento em que a hesitação desaparece e o gesto que assume. O pensamento deixa de, de, de travar e passa a impulsionar, o sentimento ganha força e pede forma. Tudo que está dentro se transforma em cor, movimento, matéria. E aí a pintura simplesmente acontece.

 

 

Dissonância: Como você decide que uma obra está finalizada, visto que ela nasce de estados emocionais e não de um plano rígido?


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Como Nasce a ObraSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: A obra nasce de um estado emocional que me conduz a um imaginário inicial, não como algo fechado, mas como uma direção. Durante o processo, ela pode mudar cores, ritmos, formas, tudo vai se ajustando até que movimento e harmonia se estabeleçam. O ponto de finalização chega quando sinto um esgotamento criativo, ao mesmo tempo, a percepção de que atingi a essência do que eu buscava, algo entre 80%, 90% da ideia. É um reconhecimento meu, interno, quando olho e sinto que há mais que acrescentar, a obra está pronta.

 

 

Dissonância: Um diferencial marcante no seu trabalho é a "arte interativa", onde o cliente participa da concepção da obra. Como é o desafio de traduzir elementos tão subjetivos do outro — como músicas, memórias e cores afetivas — na sua própria linguagem abstrata?


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A Arte InterativaSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: A arte interativa começa no escutar, acesso um campo íntimo do cliente, memórias, afetos, sensações, e o desafio sempre é transformar tudo isso em linguagem abstrata. Pra isso, eu recorro à intuição, empatia, busco o sentido que está por trás das palavras, né? Mas não é uma tradução literal. O universo do cliente se funde com o meu e é desse encontro que nasce a obra. Uma identidade, eu diria, compartilhada.

 

 

Dissonância: Você já teve obras para diversos contextos e pessoas, inclusive uma das suas obras virou capa de um disco do Tião Folk, o quadro “Cecília Amarela”. Existe algum ritual especial ou uma receita específica para você encontrar a essência de uma obra e construí-la em contextos tão diferentes.


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O RitualSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Bom, eu não sigo um ritual fixo, mas existe um estado de imersão. A partir das informações que eu recebo, entro no universo da obra de forma sensível. Sou guiado pela empatia e pelo meu lado emocional. É como criar um campo ao redor daquilo que eu quero construir. Muitas vezes eu, enquanto a pessoa fala, a obra já começa a se transformar internamente. Quando inicio o processo, essa percepção ganha corpo e uma forma intuitiva. Imagens, referências ajudam, mas é essa imersão que me permite encontrar a essência de cada trabalho, mesmo em contextos tão diferentes.

 

 

Dissonância: Você afirma que não entrega respostas ao espectador, mas sim "atmosferas". O que você espera que o público sinta ao ser confrontado com o "silêncio das formas abstratas" de suas telas?


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O PúblicoSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Eu sempre espero que o espectador se permita acessar o próprio estado de espírito diante da obra. Ao entrar em contato com a pintura, ele naturalmente abre um campo sensível. E é a partir disso que as imagens surgem. Não como algo imposto por mim, mas construído por quem observa. Não cabe a mim definir o que deve ser sentido. Eu pinto a partir do meu estado emocional e espiritual. E ofereço apenas a atmosfera. O que me interessa é que cada pessoa encontre ali algo seu, único. De acordo com o que carrega naquele momento.

 

 

Dissonância: Se você fosse pintar um quadro que representasse o artista independente, o que ele teria?


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Arte IndependenteSérgio Lourenço

Sergio Lourenço: Falar sobre uma obra a partir de um texto é algo incrível. Mas seria mais ou menos assim, um ponto isolado em meio a uma escuridão, quase silencioso, de onde começa a emergir uma luz. Essa luz ganharia nuances, se expandiria, até se transformar em uma explosão de cores. Talvez a presença de um pequeno ser caminhando, atravessando esse espaço, enquanto sua mente se abre para um universo vibrante. Para mim, o artista independente é isso, alguém que parte do isolamento, do desconhecido e transforma esse percurso em expressão, porque a arte, no fim, é só uma explosão de sentimentos.


Leia a matéria completa que preparamos sobre o pintor Sérgio Lourenço. Clique aqui.

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