Alba Mariah em dissonância: entrevista exclusiva
- Clara Mello

- há 19 horas
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Por Clara Mello, 04/0/2026

Égua, mano! Bora conhecer a Alba Mariah!
Essa pequena deu uma entrevista exclusiva à Revista Dissonância, disque! E ela não veio fazer cena nem pedir palminha. Aos 60 anos de vida e 44 de carreira, a cantora do Jurunas que nunca aceitou virar loira de saia curta pra caber no mercado resolveu falar sem filtro. Nesta conversa ela abre o jogo sobre a recusa feroz aos “fricotes” dos anos 80, a consciência crua de ser uma “cantora maldita” que nunca desistiu, a influência pai d'égua da Elis Regina na sua interpretação dramática, a decisão de abandonar o canto lírico na Itália porque sua voz já era “matas e cachoeiras” e o peso emocional de lançar Rastro de Saudade aos 60 anos como tributo ao irmão Chico Sena. Sem frescura, só a verdade nua e crua de quem escolheu ser Alba, custe o que custar. Ajeita teu o ouvido aí, porque aqui não tem granola no açaí. Bora!
Dissonância: Dentre suas grandes referências, você cita nomes como Ângela Maria e Dalva de Oliveira, mas destaca Elis Regina como sua "mestra maior". De que maneira o legado de Elis reflete na sua busca pela interpretação visceral?

Alba Mariah: Mestra maior, sim, Elis, minha mestra maior, de uma forma carinhosa, que quando eu a via, eu sentia, que se eu fosse cantora, eu precisava cantar com aquela intensidade, daquela forma, com aquela maneira de dizer, o mais profundo possível, mais visceral possível. Ela me passava tudo isso, ela me passava tanta verdade e tanta entrega que eu imaginava e queria ser uma cantora como ela. Então, isso reflete na busca da minha interpretação, porque eu já queria, já sem saber quem era Elis, eu queria ser alguém que dissesse com música o que sentia, nas letras, nas interpretações. Então, eu acho que a Elis, ela contribuiu um pouco mais do que as outras, todas contribuem, todas contribuíram, um pouco mais do que as outras para a identificação pela proximidade, pela identificação no estilo, pela maneira como ela falava de política, pela maneira como ela falava de amor, de perda, de paixão, de grande amor. Então, tudo isso reflete dentro, sim, da minha interpretação. Eu procuro de todas as formas, e sou a Maria, mas as minhas influências são muitas, eu não posso negar, e essa é a maior delas. Eu tenho um carinho muito grande, uma admiração muito grande, um respeito muito grande por Elis e uma gratidão maior ainda por ela ser a minha maior mestra. Outra coisa muito importante que a Elis me deu, que eu pratico até hoje, mesmo tendo tido outros tipos de referências também técnicas, foi a técnica. A técnica onde a emoção transcende a técnica, a técnica onde você é muito técnico, mas muito emocional, muito envolvido, muito envolvente. Então, essa técnica, ela tem uma coisa muito pessoal da Elis. E eu tenho uma técnica, eu não pude estudar música, não tinha condições na minha época de estudar música, e depois também aconteceram outras coisas que me desviaram, ainda bem, de um estudo acadêmico demais, engessado demais da música. E Elis, observando-a, escutando-a, eu também disse: é dessa forma que eu preciso respirar, é dessa forma que eu preciso impostar, deixar a voz fluir, quando for para dizer algo assim. Então, essas referências, elas são importantíssimas também de serem lembradas.
Dissonância: O que você ouvia nas rádios, inclusive emissoras internacionais, que te influenciou na abertura para diferentes linguagens musicais?

Alba Mariah: Eu ouvia nas rádios, emissoras internacionais e nacionais, a gente ouvia de tudo, era muito mais eclético o repertório. Não havia uma ditadura de gênero musical. Havia influências: quem fazia sucesso com o bolero, quem fazia sucesso com o samba. Então eu ouvia Clara Nunes, Elis Regina, Elisete Cardoso, Dalva de Oliveira, Fafá de Belém, mas ouvia outras cantoras e outros cantores, principalmente do Caribe. Ouvia muito bolero, bolero cubano, lambadas, e as vezes a gente captava também algumas rádios da Guiana, com uma música francesa. Então é muito difícil dizer exatamente: "Ah, eu só ouvia isso". A gente ouvia de tudo. Hoje em dia você liga um rádio, você ouve só batidão, ouve só o arrocha. Antigamente não, a gente ouvia tudo. A gente ouvia Maria Bethânia, Raul Seixas, Belchior, Sérgio Britto, ouvia Piaf, ouvia Chico Buarque, enfim, eu não vou nomear aqui, são centenas de artistas. E havia programas específicos de chorinho no sábado, um “Bom Dia da Saudade”, que era um programa famoso na rádio aqui em Belém, que tocava músicas de chorinhos, sambas antigas. Referências como Noel Rosa, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira e Linda Batista, Márcia, Célia, cantoras incríveis, Cláudia. Então eu venho de uma geração onde não havia imposição: "Você só pode ouvir samba, você só pode ouvir bolero, você só pode ouvir o romântico do Márcio Greyck. Então eu ouvia tudo isso. Além de a gente ter muita referência em casa, nossa própria casa era cheia de referência, porque tinha uma irmã que adorava o Márcio Greyck, adorava o Roberto Carlos. Tenho uma irmã, aliás, né? É, a mais velha. E aí já vinha o meu irmão mais velho com Raul Seixas, Beatles, Belchior, Zé Ramalho, e o Edinardo, esses mais ligados a política, a existência humana, ao ser latino, porque as pessoas pensam que a latinidade está aflorando agora, mas não, Belchior já fazia a gente aflorar a latinidade, Milton Nascimento, aflorar essa latinidade já nos anos 60, 70. Então são muitas referências realmente, muito importantes na minha vida. E essas rádios, esses discos, essas músicas, elas fazem parte de mim até hoje, em cada coisa que eu canto. Às vezes, num respirar, numa vírgula respiratória.
Dissonância: Sua trajetória profissional começou aos 16 anos na Assembleia Paraense, cantando com o grupo do Vidinho e nomes como Guilherme Coutinho. Quais são as memórias mais marcantes desse período de "aprendizado na prática"?

Alba Mariah: Na verdade, eu cantei só uma vez com o maestro Guilherme Coutinho. Ele era inacessível para mim. Talvez pela minha aparência, era uma pessoa de que vinha de um bairro muito pobre, Jurunas. Então, ele era inacessível para mim. Quem realmente me deu a mão na música, além de me chamar para cantar profissionalmente, que foi o maestro Vidinho, na primeira banda que eu cantei, foi o Walter Bandeira, uma grande voz do Estado do Pará, um artista de referência. Também passava no nosso grupo de teatro para ensinar a impostação de voz, a utilização dos graves também. Ele me ajudou muito nisso, me dizia: “você tem um grave bonito, tem que utilizar esse grave”. Muitas das cantoras cantam ali no limite do agudo, como uma demonstração de poder do agudo, “você tem um, um grave bonito, você tem que explorar esse grave”. E outras pessoas me falaram a mesma coisa sobre o grave, meu pai, que também era músico, falava sobre o meu grave. E depois, ouvindo com recuo, ouvindo esses conselhos, eu comecei a dizer, realmente, eu tenho um grave interessante. E, quando eu ouvi a Clara, eu ouvi esse grave parecido com a minha voz, a Clara Nunes. Então, eu comecei ali; e meu aprendizado, essas memórias, elas são assim, você tem que aprender essa música e cantar essa música aqui. Era bem uma disciplina. Era um momento de sonho. Eu era muito jovem, eu queria cantar algumas coisas. As coisas que eles me pediam para cantar, eu gostava, porque era uma época também que a gente ouvia, numa banda de música, músicas muito bonitas. Então eu cantava as músicas em língua estrangeira. Eu cantava em espanhol já com 16 anos, cantava em italiano, com 16 anos, não cantava em francês porque eu realmente não conseguia reproduzir corretamente as pronúncias, mas em espanhol e italiano eu cantava já e me destacava muito. Então as minhas memórias são daquela cantora que era jovem, mas com referências antigas, referências muito bonitas, e eu conseguia dar aquilo que eu tinha aprendido e estava aprendendo. Mas aprendi muita coisa de bossa, muita coisa de jazz, ouvir com cuidado, ouvir com atenção. Tinha muita, eu tenho até hoje um gosto muito de observar, de ouvir, ouvir detalhes. Quando alguém me pede para ouvir uma música, quando eu peço uma música para o repertório, eu ouço todas as versões que eu posso dessa música para saber cada referência de cada um, como cada um tem o sentimento por essa música. Então, eu aprendi com o Walter a, além da Elis, né? Então, aprendi com o Walter Bandeira essa colocação, essa interpretação, deboche também. São essas referências que eu tenho.
Dissonância: Em 1985, você fazia parte da banda Megassom (no antigo Hilton Hotel) e chegou a se "rebelar" contra as coreografias e os "fricotes" que ganhavam espaço na época. Como você conseguiu afirmar da sua identidade artística contra as tendências de mercado dos anos 80? Isso traz boas ou más lembranças?

Alba Mariah: Esse rebelar, ele foi importantíssimo para minha construção como intérprete, porque eu já interpretava, mas eu tinha que cantar dentro dos tons das cantoras. Se era uma canção da Gal, tinha que cantar no tom da Gal, se era uma canção da Clara, tinha que cantar no tom da Clara, e assim sucessivamente. Então, eu não tinha ainda, como é que se diz? Eu não escolhia meus tons, eu não escolhia as músicas que eu queria cantar. Foi também um aprendizado incrível, porque nós inauguramos um Hilton em Belém, e eu fui convidada por uma grande banda para cantar, para ser a cantora. Dentro dessa banda, eu já fazia coisas diferentes com o maestro Manuel Cordeiro, que fazia o cantar "Graças a la Vida", "Espinhas de Bacalhau", umas canções italianas, umas canções incríveis, uns boleros incríveis. Então isso me ajudou muito a ter forças para me rebelar, porque eu descobri o meu lado de intérprete, graças ao Walter. Já o Manuel Cordeiro, é um outro momento da vida. O Walter vai fazer parte para sempre. O Manuel me deu esse empurrão para que eu pensasse no que eu queria cantar, de fato. E como conseguir também viver, sobreviver e viver dessa música que não está na moda, que até hoje a música que eu canto não está na moda, ela é atemporal. Eu consigo fazer com que coisas antigas, ou coisas de agora, de compositores que resistem, sejam atemporais. Mas eu tô sempre fora da tendência do mercado. Eu tenho total consciência que sou uma cantora maldita. Eu tenho uma total consciência sobre a minha condição de intérprete, de cantora, de artista no Brasil, o que o Brasil consome, o que a mídia quer. Eu tenho uma total consciência, mas nunca desisti. Eu tenho um público incrível, um público maravilhoso que me segue, e é isso também que me faz eu me afirmar, ser uma cantora longeva, porque poucas pessoas da minha época seguiram a carreira de cantora, conseguiram sobreviver como artistas, porque foram na tendência, foram desgastados pela tendência e não souberam se reinventar, se impor como personalidade, como intérprete, e eu fiz isso desde cedo, e eu tenho muito orgulho de ter feito isso. Eu tenho uma característica de que, se eu tiver consciência e certeza daquilo, eu vou lutar por aquilo. Então é uma luta que não parou até hoje. Eu gostaria muito que o Brasil conhecesse meu trabalho melhor, de forma mais ampla. Viajei por muitos países, fiz muitas experiências, sempre dentro desse nicho do cantor que não é um cantor conhecido no país inteiro. Mas são coisas que não me incomodam, adoraria, é um sonho, mas, ao mesmo tempo, sei que é uma missão continuar ali dentro daquilo que você acredita, interpretando de forma visceral e convincente o que você acredita. Então eu sigo, eu sigo esse rumo. Muito legal quando eu vejo também, depois de muitos anos, o que eu fiz, e o que eu disse que eu não ia fazer, são muitas histórias incríveis, né? Uma vez, eu lancei uma música muito famosa no Pará, e queriam que eu a gravasse. Depois, foi gravada por outro artista em 86. Eu fui a primeira a cantar lá no projeto Pixinguinha aqui em Belém, numa programação que se chamava "Janela para os Novos". A gente abria os shows do projeto Pixinguinha para os cantores de fora. Nesse dia era Zizi Possi, Vitor Ramil, Banda Sorte. E eu cantei pela primeira vez uma música chamada "Chamegoso". Depois quando eu fui chamada para cantar, para gravar essa música, eles queriam que eu fosse outra pessoa. Foi aí também que eu me rebelei. A música era linda, tinha tudo para fazer um sucesso nacional, e foi na voz de outro cantor, e até hoje é um sucesso aqui na nossa terra. Mas assim, eu tinha que usar uma outra roupa, eu parecia mais com a Amelinha, e eu tinha que parecer com uma cantora loira, de cabelo cacheado, saia muito curta, e aí eu disse não. Na hora, eu poderia ter dito sim e feito alguma coisa e saído e depois me transformado, me reinventado, mas na hora disse não. E saí muito aborrecida dessa reunião, por dizer que era impossível aquilo, como é que era possível que alguém me disse para eu cantar uma música e eu tinha que ser outra pessoa pra cantar essa música. Não tinha como ser outra Alba, a não ser aquela Alba ali, me arrumar tudo bem, fazer alguma coisa no cabelo, tudo bem, mas assim, me transformar num outro personagem para vestir uma música, não. Eu queria me vestir de Alba, ser Alba, cantar as músicas que eu quisesse, e eu fiz isso e faço até hoje.
Dissonância: Na Itália, o maestro Franco Vallisneri a aconselhou a não estudar canto erudito porque considerava sua voz "pronta" e conectada às matas e cachoeiras do Brasil. Olhando a partir de hoje, a avaliação dele estava correta? Você acrescenta elementos de música erudita na sua obra?

Alba Mariah: Vallisneri, ele era um cara incrível. Digo era porque infelizmente já se foi. E, ele sentia umas modificações na minha maneira de cantar, quando eu passei alguns meses fazendo aulas de canto. E na Itália não tem canto popular, onde eu fui, na escola que eu fui fazer não tinha canto popular só tinha canto lírico. E ele perguntou para mim: "Tá acontecendo alguma coisa com você? Você tá cantando um pouquinho diferente, não muito, mas tem alguma coisa diferente na tua voz. Você parece muito preocupada com algumas coisas". Aí eu disse toda feliz para ele que eu estava fazendo um curso de canto com o maestro Carlo Peruri. E ele disse: "Não acredito". Então ele falou: "Mas por que você está fazendo canto erudito, se você é uma cantora popular, que tem uma voz pronta, uma voz com experiências próprias, uma voz conectada com a natureza, com o seu Brasil, com os compositores maravilhosos. Você canta, a gente tá cantando aqui na Itália, e você consegue passar essa brasilidade pra gente de uma forma tão profunda". "Eu, se eu fosse você, e tivesse todas essas referências brasileiras, e essa bagagem que você tem, que você trouxe com você da sua família, da sua cultura, eu não perderia meu tempo fazendo canto lírico. Você é uma cantora popular"; assim como lá na frente o Walter me falou, você é uma cantora dramática. E eu ouvi com muita atenção, Walter. E nesse dia ouvi com muita atenção o Franco, e aí, essa avaliação é correta sim, porque eu nunca estudei, acabo cantando bem pra mim, que eu acho que canto bem, tecnicamente bem. Desenvolvi uma técnica pessoal, também baseada nas coisas que eu via de outras cantoras, fui pegando um, um pouco de cada uma, principalmente da Elis. E tenho admiração pela erudita, porque acho lindo vozes, mezzo soprano. Acho lindo que é a minha voz, né, mezzo. E ele me disse logo na hora que eu comecei a estudar, ele disse: "Você é uma mezzo, eu tenho que explorar esses graves". A mesma coisa, é muito raro vozes assim. E me disse um monte de coisa bonita, e eu acreditei, e eu queria de alguma forma ter esse desafio. Mas eu não desisti só pelo Franco Vallisneri. O que ele me falou me ajudou a ter forças para não continuar. Porque na verdade, eu me sentia engessada, me sentia completamente fora, com falta de ar, com, muito presa à técnica, muito presa ao solfejo; e eu realmente tinha aprendido a cantar com a minha mãe cantando as músicas do Gonzagão, ouvindo rádio, e ouvindo Elis, e ouvindo mulheres incríveis e soltas e protestando, falando de política. Então eu não podia, eu me sentia um pouco em italiana disádio ali dentro, né? E foi isso. E o Franco Vallisneri é uma grande referência, porque ele tocava rindo. A gente tocava, ele tocava as músicas brasileiras com um sorriso o tempo todo no rosto. E quando ele me disse aquilo, eu acreditei, porque ele era um expert e um apaixonado pelo Brasil, e tinha uma admiração muito grande pelos nossos compositores, pelo Ivan Lins, pelo Ari Barroso, pelo Vinícius, pelo Chico Buarque, enfim, por todos os grandes compositores brasileiros. E isso me deu forças para dizer: “realmente o maestro tem razão”. E eu falei pra ele, quando eu desisti, eu falei assim, maestro, depois daquela nossa conversa, foi a minha última aula de canto. Eu fui, e despedi, pedi desculpas ao meu professor, que eu não tinha condição de continuar porque nós tínhamos conversado. E ele me falou, eu achei que você ia ser uma cantora que ia demorar muito tempo pra ser uma cantora lírica. Ele não tinha dito nada a você porque eu esperava ver um pouquinho mais de evolução pra você, pra ver se vingava, mas realmente você canta popular de uma maneira bonita, e entrega total. Siga, muito boa sorte, sucesso.
Dissonância: O álbum "Rastro de Saudade" é uma homenagem à obra de seu irmão, o compositor Chico Sena. Qual a importância emocional de revisitar esse repertório agora, aos 60 anos? Muitas lágrimas estarão no palco?

Alba Mariah: O álbum Rastro de Saudade, ele começou durante a pandemia. Ainda não tinha 60 anos, mas eu fiquei me questionando sobre o fato. Chico já se foi, eu tenho só um álbum, “Simplesmente Vital” com a obra do Vital, 15 músicas gravadas ao vivo, DVD. E eu me perguntei naquele momento. Também recebi uma emenda parlamentar do então deputado Federal Edimilson Rodrigues, para fazer algo, porque a gente tava em plena pandemia, e aí eu pensei, o que é que eu posso gravar? O que é que eu vou fazer? E eu pensei no Rastro de Saudade, que é o nome de uma música dele, do Chico, até porque eu achava que podia, a qualquer momento, morrer de Covid, apesar de não ter contraído, de ter feito todos os exames, todas as coisas, eu fui, eu acho que uma das poucas pessoas na minha casa, na minha família que não contraiu a Covid. E eu comecei a me questionar sobre essa doença, essas pessoas morrendo, muitas pessoas morrendo, e eu, o Chico também já estava morto há muitos anos. Eu pensei, vou fazer uma coisa, revisitar o repertório do Chico. Me emociono muito de pensar nisso, é uma visita emocional, sim. Não digo que é uma revisita, mas é uma visita constante porque ele é onipresente em todas as coisas que eu faço. Quase todos os meus repertórios, 98% tem Chico Sena. E lágrimas de felicidade, emoção, por poder cantar ainda aos 60 anos, de ter realizado esse trabalho depois de muitos anos parada, porque a pandemia, aconteceram coisas muito graves. Infelizmente, alguns profissionais não mantiveram a sua palavra, apesar de pagos. E eu tive que fazer um milagre para gravar, e com uma equipe maravilhosa que trabalha comigo, um apoio maravilhoso de outros profissionais. Então, por isso que tá saindo agora aos 60 anos. E quando eu pensei em lançar, ano passado, o Rastro de Saudade, de tomar de novo à frente, vamos lá, vamos fazer, vamos mixar. Na verdade, o início era um audiovisual. E justamente, a parte do visual é que falhou comigo e não me entregou o material que nós fizemos. Então, eu peguei os áudios, chamei a minha equipe, chamei meu arranjador, que é o Thiago Amaral, a minha produtora executiva na época, Carla Cabral, vamos fazer, vamos falar como é que a gente vai fazer esse lançamento. Aí eu pensei, como 2026 é um ano muito importante, astrologicamente, pra mim, ano do Cavalo de Fogo, eu nasci em 66, então ano dos meus 60 anos, a volta do cavalo de fogo, depois de 60 anos. São 40 anos da morte do Chico; e Belém também, é seis, Chico morreu em 86, Belém 1616, e eu nasci em 66. Estamos em 2026. Então eu peguei todas essas referências numerológicas, essa saudade, essa vontade, essa garra de fazer, de trabalhar, e juntei. Aí, primeiro lançamento, a primeira parte é dividida em três partes, eu fiz em 12 de janeiro de 2026, foi o aniversário de Belém. O segundo, no dia 18 de fevereiro, dia do meu aniversário, em 60 anos. E o terceiro vai ser no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém, no dia 7 de abril, que seria o aniversário de vida do Chico, onde ele completaria 64 anos. Então foi tudo pensado dessa forma para trazer de novo vigor a esse trabalho e para que ele não ficasse ali numa estante esperando que esse profissional que falhou com a gente, fosse responsável e nos trouxesse esse material, essas imagens, enfim. É isso. E o Rastro de Saudade, ele revigora o Chico, ele reafirma que o Chico Sena, apesar de 40 anos da morte dele, ele continua vivo na memória das pessoas, na minha, no meu sangue, e tá aqui pra mostrar isso com uma obra totalmente atemporal, totalmente linda e cheia de significados, não só pra mim emocionalmente, mas pra muita gente, que até hoje lembra dele.
Dissonância: O título do seu espetáculo mais recente é "Temporal", que você associa à força de Iansã e aos movimentos de renovação. O que esse "temporal" representa para este momento específico da sua vida e carreira?

Alba Mariah: Bom, o título Alba Mariah Temporal, sim, é também associado à força do meu orixá, que em Iansã, minha cabeça pertence, meu ori pertence à Iansã, a deusa do movimento, das tempestades, dos raios, dos trovões, mas também da bonança, aquela que traz a luz depois da tempestade. Ela é importantíssima, é a deusa do empoderamento feminino, é a deusa de atitude e a guerreira. Então, tudo isso eu tenho dentro da minha vida, de maneira muito consciente. Sou assentada no santo, no tambor de mina. E esse Temporal, ele me trouxe até aqui, aos 60 anos. Ele me trouxe muita bonança, muitas descobertas, claro. Houve momentos que os raios me deram luz para que eu visse coisas que estavam boas ou ruins. Mas eu sou uma pessoa muito grata pela vida, muito grata por essa força ancestral que me habita, que me leva pra frente. E esse temporal representa tudo, e não representa um momento específico, porque todas as minhas decisões, elas foram tempestivas, como Iansã é. Eu decidi, é oito ou oitenta, eu não me arrependo dessas decisões, e assim foi pra quando eu disse não. As pessoas queriam que eu contasse, quando eu disse, eu quero sair daqui, quero fazer alguma coisa, e fui de férias, e acabei ficando. Depois quando eu voltei pro Brasil, são momentos, são tempos que pareciam temporais, mas na verdade, eram momentos de final de ciclo, que precisava cair aquela chuva, aquela tempestade pra que eu visse de novo a claridade e me reposicionasse com mais força na vida e na carreira.
Dissonância: Você afirma que “a excelência vem da repetição”. Após décadas de ofício, como você mantém o frescor e o entusiasmo para continuar produzindo de forma independente?

Alba Mariah: Essa frase eu ouvi do Walter Bandeira, que a excelência vem da repetição. Ele me dizia assim: “toda vez que você quer cantar uma música, ela vai ficar mais bela”. Talvez você não goste daquele momento que você cantou, aquela respiração ali ou aqui, mas ela vai ficar só bela quando você repetir muito, quando você se ouvir dentro muito, quando você se criticar, quando você se auto-criticar. E após essas quatro décadas e alguns anos, 44 anos precisamente, eu preciso manter o frescor. Aí também volta em Iansã, que tem essa força louca, essa força muito incrível, entusiasmante pra resistir, pra começar tudo de novo. Eu acho que a vida é isso, é se reinventar. Como artista independente, há muitas dificuldades que permanecem, outras já transpôs, mas, eu sou uma artista independente, consciente dessa independência, consciente que devo produzir sim meus trabalhos, devo investir no meu trabalho. Hoje em dia aquilo que eu ganho, eu invisto em alguma coisa, invisto em espetáculos. Então, essa consciência de ser uma artista independente, ela faz parte de mim, ela é normal, ela é natural, ela é, enfim, onipresente. Eu tenho uma frase da compositora Carla Cabral, que é: “hoje sou mestre em me reinventar”, uma música chamada “Açude Solidão”, que eu gravei. Essa música é incrível. Ela fala muito disso, do desespero e também da volta, da volta por cima, do que a gente é capaz de fazer, do que a gente é capaz de criar pra sobreviver, pra deixar sua marca. Eu acho que, talvez eu, se eu tiver saúde e tiver forças, eu quero cantar sempre. Quero estar sempre ligada também às novas composições. Eu reverencio muito grandes compositores, mas também canto música de compositores que não são tão conhecidos. Tenho um respeito muito grande pelos artistas independentes da minha cidade, do meu Brasil e de outros lugares que eu tenho contato. E, e é isso, a arte independente, a gente goza mais ainda dela porque a gente consegue fazer exatamente aquilo que a gente quer. Às vezes não ganha aquilo que a gente deseja ou precisa, mas a gente faz o que a gente quer. E essa independência, essa rebeldia, essa subversão, ela faz a gente revigorar, se reinventar, sobreviver de forma muito digna.
Dissonância: Olhando para trás, desde o Jurunas até os palcos internacionais, qual mensagem você pode deixar para outros artistas que ainda estão iniciando sua jornada?

Alba Mariah: Bom, quando eu olho para trás, eu sempre pego alguma coisa lá de trás também assim, para trazer de volta. Coisas boas que eu aprendi, essa conexão com o passado de uma forma consciente. Nasci num bairro muito pobre, mas não tive pobreza de espírito, nem tive negligência dos meus pais, da minha família, então, nós éramos ricos em cultura, nós éramos, somos ricos em cultura, em, em bom gosto, em experiências. Os palcos internacionais me deram mais bagagem sim. As minhas experiências internacionais me trouxeram um Brasil ainda mais consciente. Quando você está fora, você vê o Brasil mais profundamente ainda. Quando a gente está aqui, a gente vê, às vezes, não vê algumas coisas. De fora, a gente vê bem melhor. E eu tenho muita sorte de ter sobrevivido até hoje, 44 anos depois do dia que eu comecei, fazendo o que eu quero, fazendo o que eu amo. Os tempos eram muito mais difíceis, hoje em dia, você tendo uma boa internet, um bom músico para te acompanhar, você compõe, você, você passeia por muitos universos, por muitas camadas. Isso é muito legal. A gente não tinha isso nos anos 80. Em fitinhas de gravador manuais, enfim. Eu acho, o que é que eu posso dizer para as artistas contemporâneos e que vão iniciar agora, é que procurem ser o máximo possível vocês mesmos. Saberem exatamente o que vocês querem fazer. Ouvir muitos outros e ouvir a si, para entender, cantar, experimentar, não ter preconceitos, ouvir, ouvir de tudo, ouvir e ouvir-se muito. Ouvir sua alma, ouvir seu corpo, ouvir sua voz, ouvir, ouvir, tentar, não desistir. Como eu disse, as coisas estão bem mais fáceis do que no meu tempo, não estão tão fáceis para quem começou antes, mas está muito mais fácil para quem está começando agora, é muito mais rápido. E eu espero deixar para a minha voz, para a minha obra, com as minhas interpretações, algo de bom para essas pessoas que estão começando, ou que me têm como referência. Eu conheço algumas pessoas que dizem que eu sou referência, eu fico muito feliz. Muito feliz mesmo, quando alguém me fala isso, tenho como referência a música tal. Você me inspirou com a sua música tal em tal coisa. Então, eu espero inspirar, espero, espero também receber inspiração delas. Os jovens dão muita inspiração. E prosseguir, me reinventando, cantando, sendo a Alba Mariah. Essa Alba Mariah que não tem medo da vida, que não desiste das coisas, que vai a fundo, que mergulha a fundo, que voa muito alto, que sonha muito alto. É esse o legado que eu quero deixar, uma pessoa extremamente corajosa, extremamente capaz, e que vai para cima e resolve, e bora, é isso.

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