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Alexandre Escher em dissonância: entrevista exclusiva

Por Tião Folk, 04/04/2026


alexandre escher entrevista exclusiva

Alexandre Escher é o raro caso de um bioquímico e mestre em Genética que transformou o laboratório de sensações em canções. Nascido no Rio Grande do Sul e radicado em Santarém, no Pará, desde os sete anos, o artista acumula 26 anos de estrada entre bandas, projetos internacionais e uma carreira solo que busca na imperfeição humana os pontos altos de sua criação artística. Em entrevista exclusiva concedida ao colunista e compositor folk Tião Folk para a Revista Dissonância, Escher abre o arquivo sem filtros: revela os detalhes mais crus da construção de sua obra, a constante busca por um lugar que nunca encontrou no mapa. Sem pose, sem autopromoção, ele fala como quem ainda está tentando entender o próprio sentimento e transforma essa dúvida em versos.


Dissonância: Qual a mensagem principal de sua obra como um todo?


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A MensagemAlexandre Escher

Alexandre Escher: Eu acho que dentro de todos os projetos em que eu consegui participar e, e ajudar nos processos de composição, pelo menos a minha grande pergunta era onde é que é o meu lugar. A minha vida, eu nasci no Rio Grande do Sul, mas eu, eu vim pro Pará com 7 anos. Então, passei um bom tempo morando na minha cidade, Santarém do Pará. Depois eu acabei saindo, eu fui morar na capital do Pará, que é Belém. Depois eu voltei para Santarém. E eu sempre me sentia bem e ao mesmo tempo não fazendo parte de onde quer que eu estivesse. Então, eu acho que boa parte das coisas que eu escrevo é tentando até entender esse sentimento. Tem vezes que eu acho que eu tô com todas as respostas e tem vezes que eu acho que que não tenho nenhuma.

 

Dissonância: Transição para o Solo: Após integrar diversas bandas, o que o motivou a lançar seu primeiro trabalho solo, o disco "Phyxsius"?


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O Trabalho SoloAlexandre Escher

Alexandre Escher: O Phyxsius, ele surgiu primeiramente como um CD físico, no ano de 2014, e ele tem bem mais músicas no CD físico do que o que eu lancei nas plataformas de streaming. Eu acabei transformando o Phyxsius num EP. Sei lá, porque talvez, eu, às vezes eu tenho isso um pouco com a minha obra, né? Tem coisas que eu escrevi, que eu não sei se representa o que eu sou hoje. Ou como eu me sinto hoje em relação àquela época, mas todas têm uma importância muito grande. E o Phyxsius, ele foi um conjunto, na verdade, de músicas que eu já vinha escrevendo a partir das bandas onde eu me encontrava, e que não cabiam com a proposta das bandas onde eu estava. Mas ao mesmo tempo eram sentimentos, eram coisas que eu precisava expor, colocar. E foi uma ótima oportunidade, porque ao fazer um CD solo, eu consegui colocar pessoas que tinham tocado comigo em momentos distintos da vida. E basicamente eu consegui fazer todos os meus amigos músicos, as pessoas mais próximas participarem dessa obra. Então, essa transição, ela começa a partir do momento em que a gente escreve essas canções. E, se você tá escrevendo canção diferente do projeto onde você tá naquele momento, é porque você se sente diferente. Acho que foi isso. Essa ideia de compor, não em conjunto com várias pessoas, mas fazer músicas com violão e voz e, de repente, depois transformar essas músicas em outra coisa, em outra versão. Mas músicas que podem ser colocadas, por exemplo, numa versão acústica.

 

Dissonância: Ao longo de 26 anos de carreira, é natural vivenciar uma evolução na sonoridade. O que diferencia o Alexandre Escher de hoje daquele da época das bandas Gear e Orquestra Estelar? E o que você mantém até hoje na sua identidade musical?


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A EvoluçãoAlexandre Escher

Alexandre Escher: Na Gear, ela continua até hoje. E, e a Orquestra Estelar, ela é um projeto. Nós somos muito amigos também. E a Orquestra Estelar é um projeto que a gente se reúne e faz as coisas quando dá pra todo mundo. Mas a Gear continua bem ativa. Eu acho que, eu acho que a diferença da sonoridade, ela passa agora nesse trabalho atual, porque eu tava vivendo um, passei por um tempo vivendo meio que um bloqueio criativo. Ou, ou era isso, ou as coisas que eu escrevia, de repente, eu terminava e já não achava muito interessante. Então não levava pra frente. E aí, um dia eu comecei a estudar, de repente, novas afinações de violão, comecei a estudar violões afinados, a gente conhece como DADGAD; ou DADDAD; ou DROP IN C. E, eu acho que isso aí acabou me dando uma nova vida, porque grande parte dessas minhas músicas, acho que de 2024 pra cá, elas têm sido gravadas em outras afinações e isso me permitiu também expressar sonoramente as letras que eu tinha de uma outra maneira. Considero esse um dos fatores mais importantes. E não perder aquela essência que eu sempre gostei, que é do cancioneiro dos grandes poetas. Sempre escutei Bob Dylan, Jim Croce, no Brasil, sou fanzasso do Geraldo Azevedo, Zé Ramalho. Outros cancioneiros, bandas também, Beatles, que no início levava muito o violão. Então, enfim, eu acho que esses fatores, eles acabam contribuindo muito, muito, muito, pra que essa sonoridade, ela, eu não sei se ela evolui, se ela fica melhor, mas ela, eu acho que te representa melhor naquele corte daquele retrato de tempo.

 

Dissonância: Além de artista, você é Bioquímico, Mestre em Genética e professor na UFOPA. De que forma o rigor da ciência e a liberdade da arte se complementam (ou se chocam) na sua vida?


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A Ciência e ArteAlexandre Escher

Alexandre Escher: Eu acho que a ciência, ela não se choca com a arte, não, pelo contrário, né? Para mim é um grande privilégio poder trabalhar na Universidade Federal do Oeste do Pará como, como professor do curso de Farmácia. É uma, é uma, é uma outra profissão, outro lado que eu tenho também. E tem muita arte na ciência, né? Além da gente entender que a, a própria música em si, além de arte, ela é uma ciência, né? Mas a, a própria ciência, ela tem, por exemplo, fotografias incríveis, desenhos incríveis de moléculas. Elas têm fórmulas incríveis, né? Eh, que são verdadeiras obras de arte. E, ao contrário do que muitos pensam, de repente, né, a ciência, ela não serve como um simples contraponto a uma opinião, né? Então, falo alguma coisa, simplesmente enumerando ou jogando, né, dogmas científicos como se aquilo tivesse de ser uma verdade absoluta, porque pensa, né? Os próprios modelos atômicos, eles foram evoluindo ao longo do tempo, né? Então, imaginava-se o átomo de um jeito, hoje já, já se imagina do outro. Eu acho que a ciência e a arte, elas manifestam em vários estágios da sua história, eh, graus de evolução incríveis, com histórias incríveis e personagens incríveis.

 

 

Dissonância: Músicas como "Breathe in", "Coda of life" e "Dreams" mostram um lado internacional. O que te leva a escolher o inglês para expressar certos sentimentos em vez do português?


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O IdiomaAlexandre Escher

Alexandre Escher: Essa é uma coisa que muita gente me questiona: ‘pô, porque você não escreve música em português?’. Na verdade, eu acho que a maior parte do meu cancioneiro, ele é em português. Se juntar uns outros trabalhos que eu pude fazer, eu acho que, nos últimos dois anos talvez eu tenha colocado um pouco mais o inglês. Eu comecei a estudar muito cedo, fiz algumas viagens, uma delas em especial, onde eu fui me apresentar, na verdade eu fui fazer parte de um projeto musical na França, onde nós éramos ali sete músicos de sete nacionalidades diferentes. Então imagina como é que um brasileiro, uma etíope, um italiano, uma alemã, uma estoniana, um austríaco e um sueco, como é que eles vão conseguir conversar, né? Então, o inglês era nossa língua em comum. Eu acho que essa tonalidade, ela é uma coisa que ela é legal, a língua portuguesa ela tem muito mais verbetes, muito mais maneiras de se dizer as coisas, mas eu tenho também uma, sei lá, um objetivo, eu gostaria muito que as minhas músicas elas chegassem em públicos assim. Claro, todo mundo gosta de música brasileira, que fique bem claro isso; e eu canto melhor em português do que em inglês, é óbvio, né? Porque é a minha língua nativa. Mas eu acredito que estou buscando, de repente, chegar com as letras em inglês em lugares onde talvez eu não consigo, não consiga chegar executando somente a minha língua materna. Mas eu tenho várias músicas em português, e, enfim, adoro todas elas.

 

Dissonância: Qual a mensagem do novo single The Bird?


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The BirdAlexandre Escher

Alexandre Escher: The Bird e o Dengo, né? Acho que a música, mais ieieie que eu tenho. Ela não é uma música minha, ela é uma música feita a seis mãos. Ela é uma, na verdade, uma parceria. A gente está lançando como três artistas mesmo. Eu, PC de Moraes e Éder Joffre Machado, que são dois músicos incríveis em Belém. E apesar de ser uma música inédita, essa música ela foi concebida em 2018. Ela faz parte de um projeto que a gente está fazendo a seis mãos, como eu falei anteriormente, e é onde a gente vai estar lançando, sei lá, pelo menos uns, uns oito singles aí esse ano pra configurar um álbum no final do ano. Acho que entre oito a dez singles até dezembro. E The Bird foi uma alegria. A arte da capa, ela é da minha filha, que é fotógrafa. Ela foi mixada e masterizada por um grande amigo, um produtor musical, que é o Fagner Pimentel, produtor mineiro lá de Conselheiro Lafaiete. The Bird é o pássaro na manhã de domingo, como a própria letra diz. Eu acho que trazendo uma mensagem muito bonita de esperança, uma mensagem de desapego, de entendimento sobre as coisas que são necessárias, pra que a gente possa voar, pra que a gente possa voar de maneira plena. Então, eu tô muito feliz com The Bird. Estou muito feliz. Eu espero que todo mundo curta The Bird também.

 

Dissonância: Como a imersão na França com músicos de sete países diferentes (como Etiópia e Estônia) impactou sua visão sobre a produção musical global?


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Projeto HumanitariumAlexandre Escher

Alexandre Escher: A imersão na França, ela mudou, eu sempre gostei de folk. Mas a imersão na França, ela mudou o meu entendimento sobre o que é que eu estava fazendo em termos musicais, porque esse projeto, eu poderia só dizer que ele é música folk, mas ele, na verdade, é música mundial, porque ali eu tive contato com instrumentos que eu não tinha, eu nunca nem tinha visto alguém tocar. Por exemplo, tinha ali um bouzouki. Eu levei do Brasil para a França, uma viola caipira, que é um instrumento nosso, e eles adoraram ali também. E ali então tinha violino, tinha cello, tinha flautas de diferentes construções, além do violão, várias vozes. E, então, eu acho que essa sonoridade, ela, que a gente compôs ali sete músicas que tocam até hoje em rádios do Sul da França, na região de Toulouse, enfim, ali nos Pirineus. A gente chegou a fazer entrevistas em rádio. Então, tem o airplay, que a gente vai na rádio e toca as músicas também. E ali, eu acho que quando eu voltei da França, eu passei duas semanas ali, quando eu voltei, eu conversei com um baterista que toca comigo até hoje, eu falei: "Cara, eu acho que a gente está fazendo alguma coisa aqui que está faltando, para a gente ficar feliz com o próprio som." Então, eu acho que essa imersão, não é que o que você estivesse fazendo antes, ele não está certo, sabe? Mas você consegue, você percebe ali uma gama de coisas que podem ser feitas que pode aumentar o som, aumentar no sentido de torná-lo mais amplo, torná-lo não só uma parte de ti, mas, mas te tornar inteiro, que eu acho que esse que é o sentido da música. E ter tido esse contato, ele me permitiu isso, ele me permitiu enxergar isso aí. E que se eu não conseguisse isso aí, pelo menos que eu fosse buscar por isso, né? Então, essa imersão, esse aprendizado que eu tive, eu carrego para a vida, para as letras, para as músicas, para o mundo.

 

Dissonância: Com a previsão de lançar novos singles e um álbum inédito, como você enxerga o seu papel na cena musical da Região Norte atualmente?


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O PapelAlexandre Escher

Alexandre Escher: É difícil falar como é que eu me enxergo. Eu me enxergo bem pequeno. A gente tem alguns expoentes aqui da região Norte que são simplesmente incríveis, que têm uma sonoridade muito característica. Eu acho que quem conhece o Norte, quem já veio para cá, teve pelo menos em algum momento em alguma de suas passagens ali, é, o vislumbre das belezas que a gente tem, não só de recursos, eu acho que a beleza da nossa gente mesmo, no trato, na recepção, enfim, o sentimento do povo do Norte ele é um povo muito quente. E isso não tem a ver com questões geográficas, ele tem a ver com a sensação de afeto que ela é espalhada sempre. Enfim, eu não sei que energia mágica é essa que rola aqui, mas isso aí é uma, enfim, e é uma máxima, né? ‘Se tu vens pro Norte aqui tu vais ser bem recebido’. E aí, além disso, das belezas naturais, da beleza do povo, a gente tem os tesouros musicais, os ritmos, né? Carimbó, Siriá, a gente tem, enfim, a fauna e a flora, as comidas. E eu acho que tem muita gente falando sobre isso, tem muita gente boa falando sobre isso, no passado e hoje no presente. E, às vezes, eu gosto de falar um pouco mais sobre Santarém, sobre Belém no tempo que eu morei, dentro de um aspecto mais urbano, que são cidades grandes, Santarém tem mais de 300.000 habitantes, Belém tem mais de um milhão, assim como outras cidades aqui do Pará, que têm praças, parques, bancos onde namoros já começaram, já terminaram, portões de escola onde já aconteceram tantas coisas na vida das pessoas, passeios, enfim, é um lado, eu acho que bem sentimental. Eu vejo a minha ideia musical para a região Norte como uma ideia musical cosmopolita. É uma ideia musical onde eu vou cantar sobre Santarém aqui, então eu falo sobre a minha terra, eu sempre coloco que a gente tem um rio belíssimo, a gente tem várias coisas que são belas, a gente tem também as pessoas. Então, acho que se eu fosse resumir, de repente, eu acho que o meu papel na música do Norte seria falar sobre as pessoas do Norte, sobre o convívio, sobre a percepção que eu tenho delas, a percepção que eu acho que elas têm, ou a percepção que eu acho que eu tenho, mas eu acho que Santarém de uma cidade grande como é, e com tantas pessoas diferentes e com tantas histórias bonitas, essas histórias também merecem ser contadas. Acredito que esse é o meu papel. E, acima disso a gente fala nesses singles que já saíram, nos próximos singles que a gente vai estar lançando, sobre temas que, que afligem o mundo todo. Então, a gente já conversou sobre ansiedade, a gente já falou sobre desapego, a gente fala sobre esperança, a gente fala muito sobre amor, a gente fala sobre o mundo meio cinzento, mas às vezes bate um sol ali e esse sol, ele é uma pérola no meio daquele cordão. A gente sempre diz que a nossa vida ela é feita de pérolas e de um cordão de pérolas. E cada pérola, ela é um momento legal, bonito na nossa vida. Então, às vezes a gente tem que passar por muito cordão até chegar numa pérola. E acredito que cada vez que a gente consegue contar uma história, ela é uma pérola.



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