Magistry em dissonância: entrevista exclusiva
- Max Clark

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Por Max Clark, 04/04/2026

Entre harpas, guitarras pesadas e arranjos minuciosamente construídos, a Magistry vem se firmando como um dos nomes mais interessantes do metal autoral brasileiro. Em entrevista à Revista Dissonância, o guitarrista e porta-voz João Borth fala sobre a trajetória da banda, a construção de sua discografia, a busca quase obsessiva pela perfeição sonora e os desafios de defender um trabalho autoral em meio a uma cena ainda dominada por covers. Ao longo da conversa, João também revela detalhes sobre os bastidores de The New Aeon, o EP Venus Mellifera e os próximos passos da banda.
Dissonância: A sonoridade da Magistry é um amálgama de Death, Gothic e Doom Metal com instrumentos eruditos como harpas celtas, alaúdes, cítaras e oboés. Como é o processo técnico de equilibrar o peso das guitarras e guturais com a delicadeza dessas texturas barrocas e românticas?

João Borth: Antes de tudo, é um prazer enorme conceder essa entrevista pra Dissonância. Nós nos sentimos muito honrados com o convite. Eu acredito que esse equilíbrio se dá muito através do arranjo. Então, em partes mais densas, você escolher naipes de metais ou de cordas para dar esse peso maior e, em partes mais brandas, a utilização uma das madeiras, por exemplo, acaba fazendo com que essa equalização fique um pouco mais acentuada. As orquestras na Magistry não são uma cama sonora, elas são partes inerentes do nosso discurso musical, da mensagem que a gente quer passar. E, quando o Thiago, que é o responsável por essas partes orquestrais, é o nosso maestro, quando ele tá confeccionando esses arranjos, essas escolhas estéticas, elas, elas são muito importantes. No final das contas, vem um trabalho de mixagem para que o que deva aparecer, apareça. E esse equilíbrio se dá muito na assertividade da escolha da instrumentação. Acredito que seja por aí.
Dissonância: No EP acústico “The Delightful Companion”, vocês exploraram instrumentos antigos e até técnicas de throat singing (canto difônico mongol). Existe o plano de levar esses experimentos mais exóticos para as composições elétricas futuras?

João Borth: Nós estamos no período de pré-produção do nosso segundo álbum. Então, tivemos o The New Aeon no ano passado, com algumas sobras desse álbum e mais músicas que existiam no nosso repertório nós gravamos o Venus Mellifera. E agora estamos na pré-produção de um do segundo álbum. Eu acredito que eu ainda não possa revelar o título, mas, basicamente, nós temos bastante experimentação com música brasileira. Tanto em termos de instrumentação, bastante percussão, como em questões rítmicas. Então, baião, samba, diversos, diversos ritmos do folclore brasileiro vão entrar nessa mescla com metal. Uma coisa que não é exatamente original, nós sabemos disso, né? Temos exemplos do Sepultura fazendo isso, do Angra fazendo isso, outras bandas também que misturaram forró ao hardcore. Temos isso no cenário nacional. No entanto, acredito que não com essa essência que nós temos na Magistry. Acaba sendo uma coisa muito única, pelo menos eu vejo dessa forma. Essas experimentações diferentes vão aparecer bastante nesse nosso, de certa forma, segundo trabalho em termos de álbum. E é engraçado porque nós terminamos, nós lançamos o Venus no em setembro passado, e fizemos alguns shows em Curitiba, em São Paulo. Aí de repente, num piscar de olhos, existem mais 14 músicas prontas para serem gravadas. E agora estamos na fase desse alinhamento entre, quer dizer, o repertório já foi escolhido porque escolhemos 14 e ainda tem sobras – isso é um papo para outro momento. É uma banda extremamente produtiva, isso nos deixa muito orgulhosos. Então, nesse segundo trabalho teremos essas experimentações com atabaque, rabeca, viola caipira, esses instrumentos diferentes, de uma forma que essa amálgama sonora, ele funcione sem parecer forçado ou sem cair em certos clichês que certas escolhas estéticas podem acabar gerando.
Dissonância: O álbum de estreia focava no dualismo entre o bem e o mal. Já o EP Venus Mellifera mergulha nos epítetos de Afrodite, explorando o amor e o prazer com nuances de pop e shoegaze. Essa mudança para uma sonoridade mais "palatável" e atmosférica foi uma decisão consciente de mercado ou uma evolução natural da escrita de vocês?

João Borth: Na verdade, o que aconteceu foi que numa das reuniões para os ensaios do show acústico em 2024 – veja, nós estávamos gravando o “New Aeon” em 2024 para lançá-lo em 2025 –; e, nesse meio tempo, nós lançamos o “Delightful”, foi um trabalho acústico com algumas dessas músicas, com uma roupagem mais cancioneira. Ao mesmo tempo que existiam sobras do New Aeon, e músicas que estavam engavetadas por um ou outro motivo e que mostrando, principalmente o Thiago, o Johan e eu, que, até o momento, somos os principais compositores da banda, percebemos que elas tinham, existia um fio condutor ali. Então, foi natural juntá-las em um trabalho único. Quer dizer, não eram canções o suficiente para termos um álbum, mas também não eram canções que poderíamos desprezar e não usá-las. Então, muitas vezes, existia um riff ou um trecho de letra. Aí, esse fio condutor dessa mitologia grega acabou sendo utilizado para que concentrássemos essas canções. E assim nasceu o, o “Venus Mellifera”. Trabalho conceitual que normalmente parte do Thiago e nós vamos adequando as peças à determinada estética. No final das contas, o New Aeon é um álbum pé na porta, para dizer, nós existimos, estamos chegando dessa forma. Não que a gente tenha pisado no freio com o Venus, mas são canções um pouco mais reflexivas, introspectivas de certa forma, e para esse segundo trabalho, a gente vai mesclar essa ideia do metal mais próxima do primeiro álbum, a música brasileira e certas questões estéticas que nos são caras dentro desse cenário todo, dessa ambientação. Então, se, por um lado, em um primeiro momento era um metal mais tradicional, e no segundo momento, nós partimos para uma estética um pouco mais doom, esse segundo álbum vai ser uma mescla disso, mas com uma cara nova. E eu não vou falar muito, porque senão eu vou acabar entregando, e logo a gente vai entrar em processo de gravação também. Então, aguardem, acredito que ainda esse ano saia algum single. Então, afinal são 14 músicas.
Dissonância: João Borth, você compôs faixas como "Divine" e "Frozen Heart Fades", que buscam uma persona dionisíaca. Como sua formação em regência e mestrado em música influencia a forma como você estrutura essas narrativas épicas e cadenciadas?

João Borth: Antes de tudo, Divine, com toda certeza, é uma canção que aborda esse lado dionisíaco, mas Frozen nem tanto. Frozen tem uma camada um pouco mais introspectiva. Agora, quanto à formação em regência, eu nunca parei pra refletir até que ponto que isso me ajuda ou altera o processo de compoposição. Eu penso sempre em forma, na forma da música. Então, se a gente colocar uma esponja em qualquer uma dessas duas canções, na verdade, acredito que em boa parte das coisas que eu componho, você colocar uma esponja, vai sobrar uma introdução, um riff introdutório. Eu, eu gosto muito dessa ideia do riff, né? Tony Iommi do Black Sabbath, sempre uma grande influência nessa parte. Então, acredito que uma canção com um bom riff, ela tem um caráter mais marcante. Depois disso, um verso, gosto muito de compor melodias. Então, por mais que seja uma harmonia simples, às vezes, dois ou três acordes, que a gente vá rebuscando através do arranjo. Afinal, somos em seis. Então, você pode brincar com partes harmônicas com um pouco mais de carinho. Então, essa estrutura de verso com uma melodia bonita, em refrão e, quem sabe um solo, mas não necessariamente. Então, normalmente, eu gosto de pensar em AB. A sendo “verso”, “refrão” e um B pra variar, pra ter essa variação na estrutura. Então, A – refrão – B – refrão – A – refrão. Eu gosto dessa, não vou dizer fórmula, vou chamar de forma. Porque essa ideia de forma, ela te traz a ideia de que, por mais que você tenha diferentes ingredientes, você pode ter bolos de diversos sabores. A tua forma é a mesma, mas como você recheia isso vai depender do teu humor, estado de espírito. Eu, particularmente, não acredito tanto em inspiração, compor. Pelo menos pra gente, na banda, compor não é exatamente uma questão de: ‘nesse sábado chuvoso, me senti inspirado a escrever essa canção’; é muito mais uma proposta diária de sentar com o instrumento e: ‘OK, essa ideia é interessante e essa também. Ah, elas conversam!’, agora a gente vai montar, pra que seja uma canção. E daí, vai muito do trabalho de mostrar isso uns pros outros pra ver corta aqui, melhora, aumenta essa parte, diminui aquela. É um processo que, em um primeiro momento, ele é individual, mas que cada vez mais tem se tornado coletivo quando as coisas já estão mais encaminhadas. Eu acredito que eu tenha fugido um pouco da pergunta inicial, mas, eu acredito que a minha aula sobre forma do primeiro ano do curso de composição em regência, tenha influenciado, mas eu realmente nunca parei pra pensar muito a respeito. Às vezes, é difícil conversar sobre o teu próprio processo criativo, né? Mas, eu sou uma pessoa um tanto quanto afixionada pelo método, e acredito que ele não mude tanto. O método é, praticamente, o mesmo todas as vezes.
Dissonância: A banda conquistou o primeiro lugar no Festival de Bandas Autorais de Curitiba em 2024 e tem reforçado a importância da música autoral em seus shows. Como vocês enxergam a atual cena independente brasileira para bandas que apostam em produções tão densas e instrumentação orquestral? Há espaço para mais bandas nesse estilo?

João Borth: Eu acredito que haja espaço, sim. Existe espaço para todo mundo. O que vale é fazer um trabalho coerente, um trabalho caprichoso, porque nós sabemos que, nas atuais conjunturas culturais do país, talvez do mundo, eu não, não sou uma pessoa tão aprofundada em geopolítica para discorrer a respeito, mas, num cenário brasileiro, talvez, eu consiga dar os meus 20 centavos. Acredito que o heavy metal não tenha sido o maior foco da mídia. Por um lado, é ruim, afinal, nós temos menos investimento e menos holofotes sobre. Por outro, é bom, porque a cena acaba se reciclando. E você tem pessoas que realmente querem fazer as coisas acontecerem e existe mais esforço, logo, o que sobra é o que realmente tem qualidade. Pensando em longo prazo, claro. Mas espaço existe. Espaço existe. Acredito que a grande questão é que as bandas precisam fomentar eventos, porque muitas vezes esperar por casas de show ou esperar que você vá receber uma oportunidade de tocar, é cada vez mais raro, visto que bandas cover acabam tendo muito espaço. Acho que a essa altura do campeonato, não é demérito nenhum dizer que, claro, os músicos precisam ganhar seu dinheiro, mas eu, falando como músico profissional, não vejo valor em bandas cover. Eu acredito que, OK, tudo bem você tocar as músicas que você gosta com os seus amigos, mas acho, de certa forma, “feio” que o nosso cenário, pensando assim, em Curitiba, seja recheado de bandas cover nas casas mais legais. Então, o que eu acredito que seja o remédio para isso, é que as bandas se conversem para que façam os próprios eventos, para fomentar essa cena autoral. Cena autoral na cidade é incrível. Mas, muitas vezes, não é nas casas maiores que você vai ver essa cena acontecendo, o que é muito triste. Estou falando como João agora, não estou pondo palavras na boca de ninguém da banda, esse é um pensamento meu. Não sou favorável a bandas cover. E acredito que existe espaço para autoral, sim, mas a cena autoral precisa se manifestar e se conversar para que esses eventos, mini festivais, coisas do gênero, aconteçam.
Dissonância: Após a recepção calorosa em Curitiba e São Paulo e o lançamento de dois trabalhos significativos em menos de um ano (The New Aeon e Venus Mellifera), qual é o próximo passo da Magistry para consolidar esse "Corpus Magisterium" no cenário internacional?

João Borth: Bom, apesar dessa recepção calorosa, nós realmente ficamos muito contentes com tudo isso, ainda existe chão pra percorrer aqui no país. Existem propostas de shows fora, mas pensando como um grupo que ainda gostaria de conquistar algumas coisas no território onde pertence, talvez não seja a hora. Acredito que no futuro próximo, isso seja muito possível, mas nesse exato momento, ainda temos algumas coisas para, lugares para ir, né, estradas a percorrer aqui dentro do nosso território. E digo isso em termos de Brasil. Digo isso também em termos de América Latina. Mas existem perspectivas muito palpáveis no horizonte para que nós saiamos do Brasil, indo para territórios europeus. No futuro muito próximo, mas também não posso dar muitos detalhes a respeito disso, porque tem algumas coisas que precisam se concretizar antes disso. Mas no momento, a ideia é que a gente permaneça por aqui, e faça, tenha uma agenda mais contundente em cidades como Porto Alegre, São Paulo, algumas outras capitais, interior de São Paulo também tem algumas coisas que tão começando a aparecer. Mas, no futuro próximo, as nossas ambições internacionais provavelmente vão se concretizar.

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