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Tonfil: a voz que emoldurou a poesia do Pajeú

Por Clara Mello, 06/03/2026


tonfil cantando

No coração de São José do Egito, a "capital nordestina da poesia", o destino de Antônio José de Lima Filho parecia traçado pelas rimas de seus antepassados. Neto do lendário repentista Louro do Pajeú e herdeiro da tradição da família Marinho, o artista que o Brasil conhece como Tonfil carrega em seu DNA uma "genética vocal e sonora" que salvaguarda o patrimônio imaterial do Sertão.


Seu nome artístico, forjado ainda na infância nos corredores de uma casa onde as bibliotecas transbordavam clássicos da literatura mundial e os gibis do Pasquim dividiam espaço com as obras de Ziraldo e Henfil, é uma reverência tanto à sua linhagem direta quanto à irreverência de figuras que marcaram a contracultura brasileira. A fusão do "Ton" de Antônio com o "fil" de filho cria uma identidade única, sonora e memorável, traz ao mesmo tempo a simplicidade do interior e a sofisticação de referências estéticas das mais diversas procedências.


Do Crítico ao Cantor: Um Caminho Sinuoso



A trajetória de Tonfil para os palcos não foi linear, nem previsível. Embora a arte sempre tenha permeado o cotidiano de sua família através de bibliotecas repletas de clássicos literários, quadrinhos e discos de vinil que iam de Saltimbancos à Arca de Noé, passando pela Turma do Balão Mágico, o jovem Antônio José de Lima Filho inicialmente não planejava ser cantor profissional. Seu sonho era outro: tornar-se um crítico de arte ou de música, alguém que analisasse esteticamente as criações alheias em vez de produzir as próprias.


Essa aspiração o levou a cursar jornalismo na UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco -, buscando um ofício que envolvesse a análise estética e a reflexão crítica sobre as manifestações culturais. Em entrevista exclusiva à Revista Dissonância, ele revelou.

"Eu queria trabalhar como jornalista, como crítico de arte, como crítico de música."

A música, nesse contexto, ocupava um lugar secundário, quase de hobby, uma prática prazerosa que ele cultivava desde a infância mas que não vislumbrava como profissão principal. Cantar era algo que ele fazia desde muito jovem, mas a ideia de que sua voz pudesse se tornar seu instrumento de trabalho definitivo parecia remota. No entanto, a vida artística reserva surpresas para aqueles que, mesmo sem buscar o centro do palco, carregam um dom que insiste em se manifestar.


O divisor de águas na trajetória de Tonfil ocorreu de forma inesperada e decisiva: um convite para gravar uma música inédita em um projeto de Dominguinhos e Xico Bizerra. Quando recebeu a proposta de participar do disco de duas das maiores figuras da música brasileira, Tonfil não podia recusar. Como ele próprio relatou em entrevista exclusiva à Revista Dissonância:

"Eu não poderia deixar de aceitar um convite de Xico Bizerra, um compositor maravilhoso de tantas coisas lindas, e Dominguinhos".

Esse convite foi um verdadeiro batismo, fazendo-o perceber que sua voz, descrita por Bia Marinho como uma "voz de anjo", era seu instrumento definitivo. A partir desse momento, as redações foram trocadas pelas interpretações teatrais e aveludadas que hoje encantam o público, consolidando sua carreira como cantor de sucesso.


A Herança do Pajeú: Genética Vocal e Sonora


tonfil louro do pajeú
Louro do Pajeú

A linhagem artística de Tonfil é impressionante em sua profundidade e extensão. Como neto de Louro do Pajeú, um dos repentistas mais renomados do Brasil, e membro da família Marinho, clan de poetas, cantores e compositores que se estende por gerações no Sertão pernambucano, ele herdou não apenas um sobrenome carregado de significado cultural, mas uma verdadeira "memória vocal" que atravessa séculos de tradição oral.


tonfil e suas avós
Helena Marinho e Vitória Alves
"Minha avó Helena Marinho, filha do Águia do Pajeú, chamado, ou chamado Águia do Sertão, Antônio Marinho do Nascimento, ela dizia que essa coisa da gente cantar, a gente tinha puxado a ele, Antônio Marinho, que tinha uma voz boa, uma voz que cantava. Ele também falava muito bem, era uma pessoa muito leitora."

Uma Discografia de Impacto e Conceito


A obra musical de Tonfil, embora curta em extensão cronológica, é densa em qualidade e reconhecimento crítico.


Seu primeiro álbum, Acontecer (2011), já apresentava um repertório autoral fincado na poética popular. Gravado em parceria com Vinícius Sarmento e Greg Marinho, o trabalho apresentou um intérprete atento às palavras e à tradição, mas disposto a dialogar com sonoridades contemporâneas.


A consolidação veio com Moldura (2022), disco produzido por Juliano Holanda. Concebido ao longo de anos atravessados por editais culturais e pelo hiato imposto pela pandemia, o álbum amadureceu junto com seu autor.


tonfil moldura

Inicialmente pensado como um trabalho homônimo, ganhou o título a partir da canção de Zeto, tornando-se um conceito estruturante. A moldura, metáfora central, organiza o repertório e dá forma a um conjunto que transita entre ritmos e atmosferas sem perder unidade.


O disco reúne composições de nomes como PC Silva, Isabela Moraes e Martins, além de dialogar com o universo das artes plásticas, campo no qual Tonfil também atua. A própria capa, fotografada por Mariana Pinheiro, foi reconhecida como uma das mais expressivas do cenário pernambucano em 2022, reforçando a integração entre imagem e som.


tonfil e flaira ferro
Tonfil e Flaira Ferro

Dentre as faixas, destaca-se especialmente "Silêncio", canção de Antônio Marinho que conta com a participação especial de Flaira Ferro. A gravação dessa música guarda uma história curiosa que ilustra a busca de Tonfil por sonoridades inovadoras:

"A gente estava achando que o aquário pudesse estar tolhendo alguns movimentos que seriam necessários para a boa execução, para a boa gravação da canção. Então, a gente estava querendo que essa música tivesse toda essa, essas contrações e relaxamentos, que era a música, que a atmosfera da música pedia. Aí pronto, tem hora que Juliano pede ao nosso técnico de som lá, que coloque dois microfones, um do lado do outro, ali dentro do aquário, dentro do estúdio, para que ela se mova parecido com o que ela se move no palco ao vivo, para que se mescle mais a dança da respiração com a dança da canção cantada."

O resultado foi uma gravação onde a respiração, as contrações e relaxamentos do corpo se mesclam ao canto, criando uma atmosfera sensorial única.


tonfil flaria ferro
Flaira Ferro

Como a própria Flaira Ferro já afirmou, quando descobriu essa migração da canção dançada para a canção cantada, percebeu que "cantar era dançar com outra parte do corpo". É nessa fronteira entre linguagens artísticas que Tonfil situa sua melhor produção.


O Que Mereço: Do Repertório Descartado ao Single Celebrado


tonfil o que mereço

Outro marco importante na discografia de Tonfil é o single "O Que Mereço", canção de Juliano Holanda que, curiosamente, havia sido planejada para integrar o álbum Moldura. Nas sucessivas reconfigurações do repertório, a faixa acabou sendo retirada do disco, mas ganhou vida própria como lançamento independente. O mais interessante é que a composição foi gravada também por Zélia Duncan, uma das vozes mais reconhecidas da MPB, cuja versão chegou às plataformas antes mesmo da de Tonfil.


A letra da canção carrega uma filosofia de vida que ressoa profundamente com a postura artística de Tonfil. Como ele explicou em entrevista, a mensagem da música é "certeira, cirúrgica e explícita": tratar da busca pelo que é necessário, do reconhecimento de que o extraordinário pode ser demais, da sabedoria de querer apenas o que se merece.


Tonfil e o Coletivo Reverbo e a Arte Colaborativa


Além da carreira solo, Tonfil integra o coletivo Reverbo, grupo formado por vinte e oito artistas que se reúnem para criar e se apresentar em performances singulares: um único violão passa de mão em mão entre os participantes, que alternam entre tocar e cantar suas composições.


tonfil reverbo

Essa dinâmica colaborativa foi registrada no documentário "Mostra Reverbo" (2023) e representa uma filosofia artística que Tonfil carrega para seu trabalho individual: a crença de que a arte se fortalece no diálogo, na troca, no reconhecimento de que nenhum artista é uma ilha.


"eu acho que independente do estilo que você cante, que você traga, eu acho que sua arte, ela deve estar comprometida com a verdade. A verdade e o melhoramento das coisas. Eu acho que a gente tá comprometido com o melhoramento das coisas, o mundo já é tão complicado, já é tão complexo. E a arte, a arte, ela não, obviamente que a gente sabe que a arte não está só para ser bela ou trazer só o agradável. A arte, ela também está para incomodar. Mas quando ela traz isso também, quando ela traz o incômodo, quando ela traz o afago, a arte, ela tem que ser verdadeira."

Horizontes Artísticos: O Futuro em Construção


Quando questionado sobre como gostaria de ser lembrado, Tonfil demonstra uma postura humilde e ao mesmo tempo ambiciosa em termos artísticos: "não sou muito determinista para dizer isso, qual a espinha dorsal do meu trabalho. Momentaneamente, vibrar, trazer e louvar a arte como um todo, em todos os seus aspectos, em todas as suas plataformas, em todos os seus nuances". A mensagem que espera deixar é uma de "não se fechar às experiências de vida, em experiências artísticas", acreditando que quando nos permitimos a essa abertura, "grandes coisas podem surgir daí".


tonfil sertão

A trajetória de Tonfil ilustra de forma emblemática o que significa salvaguardar o patrimônio imaterial no Brasil contemporâneo. Não se trata de museificar tradições, de cristalizar práticas culturais em um passado idealizado, mas de permitir que elas respirem, se transformem, dialoguem com o presente sem perder sua essência. Ao unir a herança poética do Sertão do Pajeú às linguagens contemporâneas da canção, ao mesclar o repente ancestral com arranjos sofisticados, ao trazer a "memória vocal" de gerações para os palcos mais bem equipados do país, Tonfil demonstra que a tradição só sobrevive quando encontra intérpretes capazes de reinventá-la.


tonfil entrevista exclusiva


tonfil página bio-discográfica


Veja o clipe oficial de Duas Vidas:

Duas Vidas

Música: Ezter Liu e Juliano Holanda

Direção: Danilo Tácitto

Assistência de Direção e Fotografia: Priscyla Leal e Zé Alberto Júnior


Patrocínio

Prefeitura de São José do Egito

Governo Federal

Politica Nacional PNAB Aldir Blanc


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