Claudio Wallace: O Missionário do Rock para além do Norte
- Max Clark

- há 1 dia
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Por Max Clark

Se você fechar os olhos e pensar em Belém do Pará, provavelmente ouvirá o som de um sintetizador de churrascaria fritando um tecnobrega ou a voz da Joelma prometendo que "isso é Calypso". É um ecossistema fascinante, no qual o ritmo é frenético e a coreografia é obrigatória.
No meio desse banquete de batidas eletrônicas e guitarras processadas, surge Claudio Wallace, um sujeito que decidiu que ser roqueiro na Amazônia não era castigo suficiente e resolveu transformar isso em uma missão diplomática inter-regional.

O lançamento mais recente do rapaz, o single "Onze Janelas", chegou em dezembro de 2025 de forma sutil, só observando a Baía do Guajará na mutuca, enquanto o resto da cidade estava ocupado demais tentando não derreter no mormaço.
A música nascida de uma parceria inesperada com o grupo carimbó quilombola Toró do quilombo do Abacatal, é um ponto de repouso na discografia de um homem que já atravessou quatro décadas de estrada, aparentemente, ainda não perdeu o juízo (ou perdendo apenas o necessário para continuar sendo artista independente).

Sobre a letra, ela foi escrita por Denis Rodrigues, do grupo de carimbó Toró, que ouviu Wallace tocar e foi pro quilombo compor pensando nele. Quando o resultado chegou ao celular de Wallace, a resposta foi imediata: "Nós temos um hit nas mãos." Ele tinha razão.

Sobre a voz, vamos ser francos, como diria minha avó "ele não é nenhum Cassiano". Aqui na Dissonância nós não ignoramos o elefante na sala e gostamos de ser sinceros: Claudio Wallace realmente não é Freddie Mercury. Em algumas passagens, a afinação escorrega, e quem vier esperando um virtuose vai sair confuso (sim, ele desafina aqui e ali, mas quem nunca). Mas há algo curiosamente certo nessa imperfeição. A voz gruda na letra, carrega o peso da canção e não tenta disfarçar nada, senti uma total ausência de Autotune, por isso aceitei a missão de escrever sobre ele, o cara vai na contramão de propósito e o melhor, ele sabe o que tá fazendo, isso é raro. Lembrando que, hoje em dia, qualquer aplicativo do celular corrige até o suspiro entre uma frase e outra.
“Para mim, tocar rock é uma sensação de liberdade e uma forma de expressar meus pensamentos, minhas ideias”

O grande trunfo de Wallace, no entanto, não está apenas nas cordas vocais, mas na sua veia empreendedora. Ele percebeu que, se ficasse esperando o "eixo" olhar para o Norte, acabaria virando peça de museu no Ver-o-Peso. Foi assim que nasceu o projeto "Rock do Norte ao Sul", detalhado em uma conversa exclusiva que tivemos.

A ideia é simples e ambiciosa: criar uma conexão real entre os artistas da Amazônia e o resto do país, começando por uma parceria com o roqueiro paulista Bellini no single "Do Alto da Minha Torre".
Wallace já está há um tempo na estrada, quarenta anos de carreira é um marco considerável. Nos anos 80 montou a banda Aliança Rebelde e saiu rodando a capital paraense com shows em bares, praças e onde pudessem ser ouvidos. O projeto era tão interessante que chegou a ter reportagens em jornais impressos da época. Nos anos 2000, montou a banda Mythus com a mesma pegada e mesma força de vontade.
Mas se antes a luta era ser ouvido dentro do próprio estado, agora o plano é outro: criar pontes. Literalmente.
O Pará fica a 2.500 quilômetros de São Paulo. Passagem aérea é cara. Equipamento é pesado. Hospedagem, cara também. E a indústria cultural brasileira tem um vício crônico de achar que tudo que é bom sai do eixo Rio-São Paulo, como se o resto do país fosse apenas um cenário de filme exótico destinado a fornecer folclore e matéria-prima para documentário da Globo.

O projeto "Rock do Norte ao Sul" nasce de um desejo antigo, segundo o próprio Wallace, de “conectar, de verdade, a cena da Amazônia com o resto do Brasil”. Não é papo de empolgado da nave, é uma proposta prática: parcerias musicais, composições conjuntas, shows, circulação, troca real entre artistas. Por essa nem o Pop Som esperava (entendedores entenderão).
O que o "Rock do Norte ao Sul" representa, no fundo, é uma aposta na ideia de que o rock independente brasileiro fica maior quando o Norte entra na conversa de verdade, e não como exotismo folclórico, mas como proposta sonora contemporânea.
Aos 40 anos de carreira, celebrados em 2026 com shows comemorativos e o merecido “Prêmio TN Brasil TV: Destaques do Pará 2025”, Claudio Wallace é mais que um sobrevivente do rock independente, ele é um arquiteto de conexões. O Pará agora tem um embaixador que não usa terno nem pede desculpas por ser de onde é. “O rock na Amazônia existe sim, ele é muito forte, é rock and roll raiz”, ele diz isso com bastante convicção, e já provou que está certo, independente do tom da nota, porque rock and roll nunca foi sobre perfeição, foi sobre verdade. E essa, Claudio Wallace tem de sobra.
Videoclipe Oficial Gravado Em São José Dos Campos (SP) no dia 18 de abril de 2026.
Produção Geral: @deboraborba2293
Distribuição: @ONErpmBR • 08/05/2026
Lançamento: @WallaceRecordsBr
Apoio: @RockMadeInAmazon
Captação De Vídeos: @aldiane_vamp
Roteiro / Direção / Edição: Claudio Wallace.
Músicos De Estúdio:
Bateria - LUCIANO LERES
Baixo - RENAN CALVO
Guitarras / Arranjos / Produção Musical - TARCISO EUFRASIO DE CARVALHO
Do Alto Da Minha Torre (@CLAUDIOWALLACE / @BelliniRock )
Do alto da minha torre
Vejo um mundo sombrio
A te devorar
Um eterno desafio
Moldado por bastardos medíocres
Malditos hipócritas
Com sangue nos olhos
A te dilacerar
Senhor
Até quando suportar?
Um mar de ganância
A nos rodear?
Roubando seus sonhos
Ceifando suas vidas
Propagando o amor
E entregando o ódio
Forjado em décadas de mentiras
Que consumiram um povo
Mas existe um caminho
Uma escolha divina
Senhor
Até quando suportar?
Um mar de ignorância
A nos rodear?
Como num poço de sangue
Mergulhado de horror
É o que vira noticia
Com base em fatos de dor
Não se trata de briga
Protesto, ódio ou rancor
É o retrato da vida
Não como conta o bom pastor
Senhor
Até quando suportar?
Um mar de ganância
A nos rodear?
A nos sangrar?
A nos torturar?

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